PADRE JOSÉ ALBERTO GONÇALVES ESPÍNDOLA

PADRE JOSÉ ALBERTO GONÇALVES ESPÍNDOLA

José Alberto nasceu em Itajaí, SC em 15 de março de 1920, filho de José Espíndola e de Maria Gonçalves Espíndola. Itajaí, com uma sucessão de grandes vigários, foi escola fecunda de cristãos e de vocações. Assim aconteceu com José Alberto. Sentindo a vocação sacerdotal ingressou no Seminário de Azambuja, em Brusque, onde concluiu os estudos ginasiais e clássicos. A teologia e filosofia foram realizadas no Seminário Central de São Leopoldo, RS, dirigido pelos padres jesuítas.

Ao final dos estudos teológicos, José passou pela experiência da cruz. Em fevereiro de 1942 foi atingido por grave enfermidade pulmonar, sendo proibido pelo médico de estudar por um ano. Internado no Hospital de Ibirama, ficou acamado quatro meses. Era um hospital evangélico, o que seria estranho para um seminarista, pois em Itajaí havia hospital, mas era o que se recomendava à sua saúde.

Julgando que o clima de São Leopoldo não lhe fazia bem, solicitou ao arcebispo de Florianópolis, Dom Joaquim Domingues de Oliveira, permissão para continuar os estudos em Mariana, MG, o que lhe foi negado.

Deixando o hospital, residiu com seus pais, em Itajaí, num ano de repouso. Em fevereiro de 1943, novamente pede para não retornar a São Leopoldo, com nova negação, pois Dom Joaquim, ao que parece, duvidava que ele pudesse retornar aos estudos.

José Espíndola, então, dirigiu-se a Dom Daniel Hostin, OFM, bispo de Lages, que aceitou recebê-lo. Em carta de 27 de abril de 1943, solicitou a Dom Joaquim permissão para incardinar-se na diocese lageana, sendo a excardinação oficializada em 10 de maio de 1943 e a incardinação em Lages em 28 de fevereiro de 1944. Continuou os estudos de teologia no Convento dos Padres Capuchinhos, nas Mercês, em Curitiba.

Foi ordenado padre por Dom Daniel, na catedral de Lages, em 16 de dezembro de 1945. A Primeira Missa Solene celebrou-a na histórica igreja de Nossa Senhora da Conceição, em sua terra natal.

Urubici – seu campo de apostolado

Em 16 de janeiro de 1946 foi nomeado vigário cooperador de Nossa Senhora Mãe dos Homens de Urubici, SC, donde era pároco, desde 1944, o enérgico Pe. João Wenceslau Zelezny. Em 15 de janeiro de 1950 recebeu a provisão de pároco, nesse ministério permanecendo até seu último dia.

A paróquia incluía 31 comunidades (hoje os municípios de Urubici e Rio Rufino), e nelas dirigiu a construção de diversas capelas e salões paroquiais. Pe. Espíndola, como era chamado, tinha o carisma de conselheiro de jovens e, especialmente, de casais. Restaurou muitas famílias. Os casais que o procuravam acatavam seus conselhos, sempre afetuosos. Apaziguava os conflitos.

Era ótimo pregador, emocionando os fiéis com suas homilias, especialmente nas festas de Padroeiros.

Promoveu cursos para a formação de lideranças, assumiu a Ação Católica com grupos de JAC e JEC. Estimulou o Apostolado da Oração e introduziu o Movimento dos Cursilhos de Cristandade. Assumiu a renovação do Concílio Vaticano II.

Foi entusiasta promotor vocacional, fazendo de Urubici terra de religiosas e padres. Em fevereiro de 1966 recebeu como coadjutor o Pe. Valdir Ros, deslanchando mais ainda a pastoral vocacional e a ação católica.

Pe.Valdir, percebendo a seara vocacional, planejou a construção de um Seminário em Urubici, um seminário com carisma missionário. Motivando a todos, buscou um terreno e recebeu um como doação de Celeste Ghizoni, localizado em São Cristóvão, hoje Vale da Neblina. Prevendo as dificuldades de locomoção, pois era no interior, as Irmãs Franciscanas lhe cederam um terreno nos fundos do Hospital. Em 31 de maio de 1968 foi inaugurado o Seminário, com 16 jovens. A experiência durou três meses, pois, havendo dificuldades de orientação entre ele e o Pe. Espíndola, transferiu o Seminário para Londrina, PR. Novamente surgindo problemas, mudou-se definitivamente para Nova Iguaçu, RJ, onde encontrou o apoio de Dom Adriano Hipólito. Tornou-se semente de congregação religiosa nacional, com o nome de Instituto Estrela Missionária, em 1977. Em 1978, Pe. Valdir teve um câncer no cérebro e faleceu pouco depois. Pe. Valdir era um homem entusiasmado, mas, foi dominado pelo conservadorismo e sempre se sentindo vítima perseguida em seu ideal, foi dominado pelas mágoas, para não dizer rancor.

Hoje o prédio do seminário é o Centro de Catequese paroquial.

Espírito comunitário

Pe. Luiz Espíndola era personalidade marcante: muito comunicativo, diplomata, administrador, brilhante orador. Atraía as pessoas no primeiro contato. Usou seus dons a serviço da Igreja e da comunidade civil.

Urubici, com estradas precárias, ficava longe de hospitais. A solução encontrada foi o Hospital e Maternidade São José, cuja construção foi iniciada em 1º de dezembro de 1948 e inaugurada em 29 de maio de 1955. O padre teve a grande graça da vinda as Irmãs Franciscanas de Dillingen, em 1955. Congregação fundada na Baviera em 1241, deixou a Alemanha nos tempos difíceis do nazismo e, após alguns percalços, as Irmãs chegaram a Urubici, onde assumiram o Hospital de Caridade e Maternidade São José, que acabava de ser construído. O hospital era propriedade da Diocese de Lages e por muitos anos teve como presidente o Pe. Espíndola.

Em 1988, em combinação com o Bispo diocesano Dom Oneres Marchiori, as Irmãs assumiram também a direção do Hospital, até então exercida pelo pároco local. Em 2003 a diocese de Lages resolveu passar o Hospital de Caridade e Maternidade São José para a Associação Franciscana da Divina Providencia e, a partir de então, chama-se “Hospital São José de Urubici”, com as Irmãs Franciscanas de Dillingen arcando com todas as responsabilidades relativas ao mesmo. As Irmãs, desde as Irmãs pioneiras alemãs, dão o melhor de suas forças e de suas vidas em prol da saúde do povo de Urubici.

A presença das Irmãs trouxe a chegada de muitas jovens que queriam ingressar na vida religiosa. Assim, em 1956, Ir. Christolda Hubler (coordenadora da comunidade do Hospital), iniciou a construção de um prédio, em frente ao Hospital, que serviria de casa de formação para as jovens candidatas à vida religiosa e abrigaria, ao mesmo tempo, um Curso de Educação para o Lar. A então “Escola Doméstica Santa Clara”, hoje Colégio Santa Clara, foi inaugurada por Ir. Christholda, sua primeira diretora, em 17 de outubro de 1961. O Curso de Magistério funcionou no Colégio Santa Clara durante 25 anos, ininterruptamente, formando muitos professores de 1ª à 4ª séries do Ensino Fundamental. Atualmente, o ensino do Colégio abrange Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio.

Pe. Espíndola era político, com opção partidária, envolvendo-se nos interesses do município e região. Declarava apoio ou rejeição a determinados candidatos, o que lhe valeu também oposição e calúnias. As opções partidárias sempre despertam paixões e ódios. Desde sua instalação em Urubici, foi membro do Diretório da ARENA, partido criado pelos militares após o Golpe de 1964. Encontrava abertas as portas do Palácio do Governo e aproveitava o bom trânsito para pedir recursos para obras religiosas e sociais.

Com entusiasmo incentivou a criação do município de Urubici, tornado realidade em 3 de fevereiro de 1957. Liderou a abertura da estrada da Serra do Corvo Branco facilitando as comunicações com o litoral, desembocando em Grão Pará. Saindo de Urubici, são 30km de estrada até o alto da serra, a quase 1.500 metros de altitude, onde foi feito impressionante corte de 90 metros de profundidade, na rocha.

Urubici perde um pai

Pe. Espíndola, forte na liderança e nos relacionamentos sonhou e fez realidade a grandiosa igreja matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens. A construção foi iniciada em 4 de julho de 1965 e inaugurada em 11 de novembro de 1973. Mobilizou a comunidade que doava dinheiro, produtos agrícolas ou dias de trabalho, e também colocou carnês de contribuição mensal. Um plano ousado, para 1.100 pessoas sentadas. Projeto do engenheiro João Backes, de Brusque, sob comando do construtor José Zilli, era uma das maiores e mais modernas igrejas do Estado. Com quatro entradas e cúpula central, forma uma cruz. Belos vitrais vindos de São Paulo. É atração turística para o visitante de Urubici.

Pe. José Espíndola era muito ligado ao espírito familiar. Isso se manifestou ao abrigar um casal jovem na Casa paroquial. Do casal nasceu um casal de filhos. Pouco depois, com a separação do pai, Pe. Espíndola assumiu essa função, apresentando-se, inclusive, como pai. A residência paroquial era uma casa de família, dando-lhe muita alegria e incentivo no trabalho. Para sua tristeza quase mortal, num final de semana a mãe deixou a casa e levou embora os filhos adolescentes, assumindo um relacionamento com empresário em Balneário Camboriú. Pe. José sentiu o baque emocional e ficou visivelmente transtornado. Os meses que lhe restaram de vida foram de saudade e sofrimento.

No dia 1º de maio de 1977, sentiu-se mal na festa do Colégio Santa Clara. Retirou-se à casa paroquial e poucos instantes depois estava morto, infarto do miocárdio. O sino da igreja foi tocado uma hora, sem parar, e Urubici chorou.

Por exigência da família foi sepultado em Itajaí. Às 8h do dia 2 de maio Dom Honorato Piazera, SCJ presidiu a Missa de Corpo presente, com a participação de quase toda a população, consternada com a morte súbita. Às 10:30h o féretro dirigiu-se a Itajaí, contrariando o desejo da comunidade paroquial, que o considerava seu. Parada na Igreja matriz de Santo Antônio de Campinas, São José, onde novamente celebrou-se a Missa, com a homenagem das mais de 200 famílias de Urubici que ali residiam e com ele tinham convivido. Em Itajaí, a última Celebração na Igreja da Imaculada Conceição, onde fora batizado e celebrara a Primeira Missa, com a participação do arcebispo Dom Afonso Niehues, bispos e diversos padres.

Anos depois, o povo de Urubici veio buscar seus restos mortais, que descansam dentro da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens. A memória de sua vida, ceifada aos 57 anos de idade, está gravada no povo de Urubici a quem serviu por 31 anos. Seu túmulo é lugar de peregrinação, onde os fiéis deixam flores, placas e cartas de pedidos e agradecimentos por graças alcançadas.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por José Salomão Koerich em 20 de abril de 2012 - 22:38

    Pe José Artulino!
    Sou leitor assíduo de seus artigos que relatam a vida dos padres. Foi com muita emoção que encontrei na edição de abril, do Jornal da Arquidiocese, o artigo sobre o Pe José Gonçalves Espíndola. Fui seu paroquiano, dele recebi o batismo, a primeira comunhão e os primeiros ensinamentos para a fé que professo. Por estar trabalhando em Itajaí na época, tive a oportunidade de participar da cerimonia de seu sepultamento. O artigo resgata com fidedignidade a história do pároco mais bem quisto de Urubici. O único equívoco se refere a como era chamado, Pe José e não Pe Espíndola.

  2. #2 por Hildegard d Espindula em 2 de maio de 2013 - 23:49

    Ficamos sabendo que em Urubici foi escrito um livro sobre a vida do Padre Jose Espindola e gostaria de adquiri lo. Se souber e puder me informar como, fico grata. No aguardo Hildegard

  3. #3 por LUIZ FERNANDO ESPINDOLA em 13 de setembro de 2013 - 20:46

    Nós, os sobrinhos, o chamávamos de tio padre. Passei algumas férias em Urubici onde desfrutei do ambiente acolhedor, familiar e alegre da casa Paroquial. Tio Padre tinha quatro irmãos: Luiz (meu pai-falecido) tia Beatriz (falecida) tia Cece e tia Nene e sua família era uma família unida e especial comandada por meu avó José e minha avó Morena (Maria Cândida). Lembro que em uma das minhas férias, na época de carnaval, o povo estava desobedecendo e não havia encerrado o carnaval ás 24:00 de terça-feira. Tio Padre me acordou e fomos até a igreja bater o sino com sinal fúnebre, munidos de lanternas. Nas férias aproveitava o tempo para frequentar o curso para coroinhas que o tio Padre promovia na Paróquia e sempre o acompanhava quando ia rezar missa no interior do município, para onde íamos de JEEP, por estradas precárias e atravessando os rios nos lugares determinados. Tio padre era uma pessoa especial de quem sempre nos lembramos com carinho e respeito.

  4. #4 por Luiz Néry Miranda em 8 de dezembro de 2013 - 23:42

    Pe José, tive a honra de conviver com Padre Valdir, fui seminarista no Instituto Estrela Missionária, nos idos de 1974 onde Padre Valdir Ross desenvolvia e administrava um grande trabalho.
    Gostaria de ter notícias do Instituto.
    Um abraço fraternal na Paz Do Senhor Jesus.

    LUIZ NÉRY MIRANDA
    PROFESSOR E PSICANALISTA CLÍNICO

  5. #5 por Liu em 25 de julho de 2015 - 21:21

    Parabéns pelo belíssimo trabalho de reconstrução da memória desse grande homem.

    • #6 por maria domingues em 22 de junho de 2016 - 22:16

      Olá, procurando algumas informações cheguei até aqui e me surpreendi com toda essa história…Padre Valdir Ross que Deus o tenha…era meu irmão. pois o pai dele seu Elias Ross (in memória) era meu padrasto e deles só tenho boas recordações.

  6. #7 por Lúcia Helena em 17 de novembro de 2016 - 07:50

    Eu estive no último final de semana na querida cidade de Urubici. Chegando na igreja matriz, onde Pe José está, então, sepultado, sem nunca ter ouvido falar nele, me senti emocionada quando parei ao lado de sua sepultura. Fiquei ali observando as muitas placas de agradecimento por graça alcançada. Fiquei impressionada e por isso procurei por seu histórico aqui. Com certeza, grande homem. Pessoa de uma enorme devoção a Deus e de amor ao próximo. Obrigada.

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