PADRE DOUTOR ITAMAR LUIZ DA COSTA

Pe. Itamar Luiz da Costa na década de 1960

Filho único do casal Luiz Eduardo Costa e Dolvina Lucinda Costa, Padre Itamar Luiz da Costa nasceu em Laranjeiras, Laguna, SC, em 23 de julho de 1921. Sentindo-se chamado a ser padre, ingressou o Seminário de Azambuja, Brusque e depois, para os cursos de filosofia e teologia, estudou em São Leopoldo, RS, com os padres jesuítas.

Por onde passou, manifestava forte liderança e capacidade de estudo. Em São Leopoldo foi Diretor da revista “O Seminário”, dos seminaristas diocesanos, revista essa que deu muito o que falar na década de 60, no período pré e pós-Concílio Vaticano II.

Atentos a seus dotes intelectuais, em setembro de 1945 recebeu o comunicado que iria estudar em Roma onde completaria o curso de Teologia. Da parte do arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira o interesse era grande, pois seria um “brasileiro” a estudar fora, interrompendo a tradição dos teuto-italianos. Em outubro de 1945 embarcou no Rio de Janeiro, chegando em Roma em 15 de novembro. Na Itália se impressionou com as destruições e ruínas da Grande Guerra, recém terminada.

Os anos vividos em Roma

A conselho da direção do Pontifício Colégio Pio Brasileiro, matriculou-se no 3º ano de teologia podendo, assim, obter a licenciatura no 4º ano e logo prosseguir com o doutorado.

Foi forte seu fascínio pelo esplendor da Roma pacelliana e suas cerimônias e audiências. Em 2 de fevereiro de 1946, na Entrega das Velas – cerimônia de presentear o Papa com velas a serem distribuídas às igrejas pobres – foi indicado pelo Colégio para a audiência com o Papa, podendo dirigir-lhe algumas palavras.  Diligentemente preparou duas frases em italiano, mas, na hora de falar esqueceu tudo e disse algumas palavras em português. Para sua surpresa, Pio XII retribuiu em português!

No tempo romano, apreciava escrever ao arcebispo Dom Joaquim cartas longas, descritivas, sempre recheada de elogios. Veja-se a frase em carta de 30 de maio de 1948: “Excia., como padre e como catarinense eu posso dizer com sinceridade, como já disse muitas vezes e até diante de cardeais aqui em Roma, que V. Excia. é o verdadeiro apóstolo de Sta. Catarina. Figura evangélica dos grandes bispos da Igreja, V. Excia. reúne em si a firmeza dos Atanásios, a eloqüência dos Crisóstomos e a bondade dos Francisco de Salles”. Tocado pelas palavras, Dom Joaquim responde em 9 de junho de 1948: “Mas você, com aquele “bruto elogio”, como se diz, você, caro filho, me arrazou…”.

A referência à amizade com cardeais, autoridades vaticanas era constante. Secretariou o Cardeal Dom Bento Aloísio Masella (1879-1970) em diversas recepções e celebrações no Vaticano. Por um tempo, o Cardeal residiu no Pio e, depois, continuou a visitá-lo quando se mudou para a rua São Luís dos Franceses, no palácio do falecido cardeal Gasparri. Era sobrinho do Cardeal Caetano A. Masella e foi Núncio no Brasil de 1927 a 1945, quando foi criado cardeal. Foi Camerlengo no conclave que elegeu João XXIII em 1958. No Concílio Vaticano II aliou-se à ala conservadora, participando do Coetus Internationalis Patrum que congregou, entre outros, Siri, Spellman, Ottaviani, Lefébvre, Castro Meier, Sigaud, com o patrocínio de Plínio Correa de Oliveira, da TFP. Foi Prefeito da Congregação para a Disciplina dos Sacramentos, tendo renunciado em 1968. O cultivo e anúncio de amizade tão augusta explica a mente elitista que marcou Pe. Itamar.

Gostava de enviar livros de presente a Dom Joaquim e de sugerir compras, geralmente aceitas. Em 9 de julho de 1945, Dom Joaquim o consultou para adquirir toda a coleção da Civiltà Católica, idéia concretizada nos anos seguintes com a ajuda dos seminaristas arquidiocesanos em Roma, ao custo de 100 mil liras. A revista dos jesuítas, quinzenal, teve início em 1850, e, antes da publicação, era lida pelo Papa ou pela Secretaria de Estado, isso até o pontificado de João XXIII, razão porque era tida como oficiosa da Santa Sé. A coleção dos 161 anos da Civiltà engrandece a Biblioteca do Arcebispado de Florianópolis. Estudioso, Dom Joaquim assinava o Osservatore Romano, a Civiltà Católica, a Acta Apostolicae Sedis, e a Ecclesia.

O primeiro ano de estudos na Gregoriana, Itamar concluiu “cum laude”, nota 8,0. Dom Joaquim achou que deveria receber “magna cum laude” e o “summa cum laude”. Escaldado, na comunicação dos exames de 1947 Itamar não indica mais esse dado.

Freqüentou um ano no Studium da Sagrada Congregação do Concílio, com as disciplinas de Pastoral, Administração e Disciplina, sendo o primeiro brasileiro a fazer isso (Dom Joaquim escreve que também a freqüentou). Era nas quintas-feiras do ano letivo de 1947-1948 e se orientava a preparar uma elite de vigários.

A ordenação presbiteral de Itamar foi celebrada em 21 de dezembro de 1946, na basílica de São João de Latrão, sendo oficiante Dom Luigi Traglia, vice-regente do Papa para a cidade de Roma: uma cerimônia imensa, das 8 às 13 horas e incluiu as ordenações de 9 padres, 29 diáconos, 33 subdiáconos e 13 tonsurados. Pe. Itamar era um jovem de 25 anos, pleno de entusiasmo e zelo apostólico.

Devido a seus dotes oratórios, em 11 de maio de 48 foi o pregador oficial da Missa solene de N. Sra. Aparecida (à época festejada nessa data), com a presença do Cardeal Motta, e dos embaixadores junto ao Quirinal e à Santa Sé: “saí-me a contento de todos”, escreveu.

Em 1º de março de 1948, Pe. Itamar descreve a preocupação com as eleições italianas de 18 de abril, onde os comunistas tinham reais chances de vencer. Percebendo os riscos embutidos nessa eleição, Pio XII liberou todos os contemplativos de clausura para votarem nos candidatos da Democracia Cristã. Foi muito simpática a visão dos monges e monjas acorrendo ao voto que consagrou a vitória democrática.

Pensando em seu futuro apostolado, Pe. Itamar visitou as obras de assistência social mantidas pela Comissão Pontifícia, principalmente as “Cozinhas econômicas” do Círculo São Pedro, que serviam refeições quase de graça aos operários pobres (e o fazem até hoje, gratuitamente, aos pobres, com o nome de Caridade Papal).

Doutorado e retorno ao Brasil

Pe. Itamar Luiz da Costa como estudante em Roma

Em 24 de junho de 1948, Pe Itamar defende sua Tese de Doutorado com o tema “A idéia mariológica nas obras de Vieira”. Foram 300 páginas datilografadas, no breve espaço de um ano. Obteve nota 10, “maxima cum laude”, no seu entusiasmo esquecendo que não havia esse tal de “máxima”, mas “summa cum laude”. Escreve que leu todas as obras de Vieira, inclusive a inédita “Clavis prophetarum” (Obs.: a obra em si, que Vieira considerava ser sua maior obra, perdeu-se para sempre. O que existe, e foi publicado em 1714, é um resumo em latim feito pelo Pe. Carlos Antônio Casnedi. Talvez Pe. Itamar a tenha confundido com o texto “História do Futuro”). E ainda se aperfeiçoou na oratória, seguindo o conselho de Dom Joaquim: “A um pregador é necessário que leia muito Vieira”. Mas. além de Vieira, Dom Joaquim lia e anotava os franceses Bossuet, Bourdaloue e Massillon, deles possuindo os Sermões. Na mesma carta em que comunica a vitória acadêmica, pergunta sobre um ciclone que teria deixado muitas vítimas perto de Florianópolis, segundo um jornal italiano. Dom Joaquim responde “não consta aqui, que eu saiba, o tal ciclone a que se refere”.

O título de Doutor foi muito apreciado pelo Pe. Itamar, tomando como ofensa a seu patrimônio intelectual ser chamado de “Padre Itamar”: “Padre Doutor Itamar”, corrigia.

Pe. Dr. Itamar percebeu que chegara a hora de retornar ao Brasil. Após três anos de estudos sentia-se bastante cansado e um pouco esgotado. Queria retornar em fins de agosto de 1948. Embarcou em Gênova em 18 de setembro de 1948, tendo antes uma audiência especial com o Papa, na qual comentou os grandes serviços de Dom Joaquim em prol da Igreja (Carta de 18/9).

Em 15 de outubro de 1948 Dom Joaquim, no jornal A GAZETA, dá notícia da chegada do Pe. Dr. Itamar Luiz da Costa, com muita ênfase na sua aprovação “summa cum laude”.

Feliz com seu jovem e competente padre, em 30 de dezembro de 1948 Dom Joaquim nomeou-o vigário ecônomo da Catedral de Florianópolis ou seja, Cura da Catedral. Também nomeou-o Capelão do 14º BC de Florianópolis. E, em 20 de julho de 1949, foi nomeado Vigário Forâneo da Comarca eclesiástica de Florianópolis.

Na paróquia Nossa Senhora do Desterro desenvolveu um exemplar programa voltado à assistência social, em especial, a jovens e crianças que habitavam os morros da capital. Sua simpatia logo atraiu as crianças que, aos domingos, acorriam à “Missa das Crianças”. Quando finalizada, Pe. Dr. Itamar dirigia-se à entrada principal da catedral, com cestos de pães e balas que ele próprio distribuía.

Em 9 de outubro de 1949, Florianópolis assistiu a algo nunca visto: a empolgante Concentração das Crianças no Adro da Catedral, com seis mil crianças. A Missa foi presidida por Mons. Frederico Hobold, com agradecimentos do Comando do V Distrito Naval saudando os Escoteiros. No final foram distribuídos 6.300 pães e 350 quilos de bala. Narrou a Dom Joaquim que os espíritas promoveram um encontro, na mesma hora, com apenas 60 crianças e foram distribuir as balas às crianças do Hospital mas, “graças a Deus, eu cheguei antes”.

Criou a “Primeira Colônia de Férias” para estudantes pobres em Coqueiros, iniciativa saudada pelo Governador em exercício José Boabaid, e a “Sopa dos Jor­naleiros”. Ainda na Capital foi convidado pelos Comandos do Exército e do 5° Distrito Na­val para atuar como Capelão Militar no 14° Batalhão de Caçadores (hoje 63-BI) no Estreito, e do Distrito Naval (Centro).

Colaborou no resgate dos mortos no desastre de avião que se chocou contra no morro do Cambirela, auxiliado por soldados e paroquianos, numa manhã coberta por neblina e chuva fria. O avião, um Douglas C-47, deixou o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, às 7h10 do dia 6 de junho de 1949, com destino a Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, aterrizou em São Paulo e em Curitiba e seguiu voou para Florianópolis, onde aterrissou às 13h55. Permaneceu pouco tempo em Florianópolis, logo decolando rumo a Porto Alegre. Minutos depois o aparelho se chocou contra o pico do Cambirela, explodindo e matando 29 pessoas. Num tempo de poucas comunicações, primeiro procuraram os destroços no mar. E de noite, informados por pessoas que ouviram o estouro da batida, descobriram o local, por isso os socorristas chegaram de madrugada. A liderança do Pe. Itamar deveu-se ao fato de ser Capelão da Base Aérea.

Estranha e inesperada transferência

Em 16 de dezembro de 1949, Pe. Itamar escreveu a Dom Joaquim: por cansaço, pouca saúde, colocava nas mãos de Dom Joaquim o cargo de Cura da Catedral.

Apresenta atestado médico assinado pelo Dr. Paulo Fontes, de 16 de dezembro, acusando perturbações vagosimpáticas e que lhe recomenda uma paróquia onde não se exija trabalho intelectual permanente.

Em 19 de dezembro pede a paróquia de Imaruí (o que já tinha sugerido ainda estando em Roma), ocupada pelo Pe. Bernardo Blaesing. Anexa outro atestado médico recomendando paróquia que não exija atividade mental e vida sedentária…

Em 21 de dezembro Mons. Frederico escreve ao Pe. Bernardo, aceitando sua transferência para o Hospital de Caridade, e substituição pelo Pe. Itamar. Em 23 de dezembro Dom Joaquim comunica-lhe a transferência para a querida Imaruí.

E aqui tem início um drama de contra-informações que dura até os dias de hoje: centro é o boato de que Dom Joaquim, enciumado pelo sucesso do Pe. Dr. Itamar, o teria transferido. Infelizmente a verdade foi comprometida e Pe. Itamar nunca desmentiu, pelo contrário, alimentou essa mentira, bem sabendo que fora ele quem quisera deixar a Catedral. Os protestos contra sua saída se multiplicam nas mais altas esferas da pequena Ilha de SC e chegam à Nunciatura do Rio de Janeiro.

Em 26 de dezembro saem no Boletim n. 291 da Zona Militar do Sul as palavras de despedida do Comandante do 14º Batalhão de Caçadores, Paulo G. W. Vieira da Rosa, lamentando a saída: “Participando da profunda mágoa que tomou toda Florianópolis, pelo afastamento deste sacerdote ímpar. … Onde irão esses pequenos desamparados de espírito a quem lhes falta de súbito o guia bondoso e amado?”. “Aos Marxistas, ele os compreendia, buscando-os com aquela força que sem­pre deu à Igreja Católica a vitória do espírito sobre a matéria”, discursou o mesmo 26 de dezembro na despedida do Capelão Itamar.

Walter F. Piazza (depois renomado historiador catarinense) publicou artigo “O homem que ficou”, perguntando: “O Pe. Itamar, o nosso querido amigo, o homem que venceu, o único sacerdote que bem compreendeu a alma e os anseios de Florianópolis, e que – bem guardem as autoridades eclesiásticas – levou ao seio da sociedade a Palavra de Fé e trouxe para o seio da Igreja um grande rebanho tresmalhado”. Seguem elogios imensos, concluídos com: “Este, sr. Arcebispo, o homem que ficou em nossos corações!” Dom Joaquim escreve a lápis: – É pouco.

Chegam queixas à Nunciatura Apostólica e o Núncio Dom Carlo Chiarlo escreve a Dom Joaquim em 26 de dezembro, lamentando a facilidade com que bispos removem e transferem vigários: “Algumas remoções, porém, às vezes, resultam em menoscaibo de carinho e de reverência de não poucos fiéis para com o seu Bispo, que se enfadam aliás contra ele. E é a este malestar que eu imputo algumas queixas chegadas contra a pessoa de Vossa Excelência, nas quais, porém, eu não acreditei de maneira nenhuma”. Dom Joaquim lhe responde em 3 de janeiro explicando que “não há, não houve, ninguém pensou, nunca se pensou em transferência”. E lamenta: “Justamente aquele que, quando lhe fazia alguma proposta, invariavelmente respondia ‘V. Excia. é que manda; V.Excia. é que manda!’. Pois sim! Ai de mim, que acreditava!”.

Sem tisnar o nome do Pe. Itamar, Dom Joaquim se sente no dever de prestar esclarecimentos, e o faz na maneira costumeira, isto é, pedindo a algum padre que passasse pela Cúria para assinar o texto que ele, Arcebispo, elaborara. Em 3 de janeiro de 1950 sai um em A GAZETA, assinado pelo Pe. Quinto D. Baldessar: “Acerca de ‘O homem que ficou’”. Cita a desistência inteiramente voluntária de Pe. Itamar e, no final pergunta: “O homem (sic) que ficou nos corações”. Isto nos sugere uma pergunta: “Mas será mesmo que queria ficar?”. Ainda no mesmo exemplar, uma carta falando na “tristeza de s. excia. pela partida do benfazejo cura”. E essa era a realidade: S. Excia. estava feliz com o padre “brasileiro” que fazia sucesso.

Por que Pe. Itamar não defendeu Dom Joaquim, dizendo que ele pedira a transferência? Uma resposta seria a sua juventude: iniciou muitas frentes em pouco tempo e … cansou, não querendo o ônus de ter desistido do combate. Talvez houvesse algo mais sério  pois, nos anos seguintes, dizia às pessoas que o Arcebispo o transferiu porque tinha inveja e tinha medo que ele lhe tirasse o lugar, pois tinha feito o mesmo com Dom Jaime. A verdade é que sua passagem pela Catedral não chegou a um ano.

Religiosidade e poder em Imaruí

De 23 de dezembro de 1949 a julho de 1957, Pe. Itamar foi pároco de São João Batista do Imaruí e coadjutor de Senhor Bom Jesus de Pescaria Brava.

Pe. Dr. Itamar assumiu Imaruí com muita alegria. Lagunense que era, conhecia muita gente da terra. Tendo-o em grande conta, em 18 de setembro de 1952 Dom Joaquim consultou Pe. Itamar se aceitaria ser o elo de ligação entre a Arquidiocese e Dom Helder, Secretário Geral do Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro a ser realizado em 1955. Pe. Itamar aceita e é nomeado em 2 de outubro. Em 7 de janeiro de 1953 pede para viajar ao Rio para se apresentar a Dom Hélder e participar de Congresso de Teologia com tema Mariológico. Indeferido o pedido, o que o irritou, pois coincidia com o Retiro do Clero.

Em 1º de janeiro de 1953 oferta a Dom Joaquim uma ave, que o Arcebispo agradece referindo-se ao “grande e vistoso peru”. Pediu para vendê-lo, pois valeria 300 cruzeiros.

Criada em 23 de agosto de 1833, era vasta a paróquia de Imaruí, com suas simpáticas comunidades pesqueiras e rurais, com sua arraigada tradição de catolicismo popular marcado pelas festas, devoções e procissões. Pe. Itamar foi sempre bem acolhido pois, sabe-se bem, nas antigas comunidades não se brigava com prefeito, padre e delegado.

A Festa e Procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos chamava a região litorânea desde meados do século XIX. Com sua oratória que a todos emocionava, Pe. Itamar tornou-se o grande pregador da solenidade. Comentava-se que só não chorava quem não estivesse lá, tal o impacto de suas palavras e gestos.

Há décadas o município era comandado pela família Bittencourt e, no tempo de Pe. Dr. Itamar, por Pedro Bittencourt. O coronelismo se destaca pela assistência pontual, como dar remédio, telha, tijolo, passagem e, fora isso, o domínio econômico e a perseguição a qualquer oposição. Inseguros, os coronéis querem unanimidade. Pe. Itamar colocou-se do lado da política dos Bittencourt, o PSD – Partido Social Democrático – de Nereu Ramos. Isso significou o apoio e vantagens recíprocas. De outro lado, na parte pior, o padre avalizava os candidatos e, literalmente, perseguia a pequena oposição. No meio desse jogo de interesses, surgem os desaforos.

Em 10 de agosto de 1953 saiu um panfleto injurioso “Porque combato o ladrão…..” em que cita o Doutor Itamar que bordeja com o juiz de Laguna em favor dos Bittencourt.

Em 19 de agosto de 1953 sai um abaixo-assinado de Pescaria Brava dirigido a Dom Joaquim em que os signatários “nos ajoelhamos suplicantes a vossos pés, chorando e gemendo em nossas mágoas”. Acusam Pe. Itamar de politiqueiro e praguento e mexeriqueiro e narra que espalhava entre o povo a acusação a Dom Joaquim de tê-lo transferido por inveja. O motivo era o instinto político de Pe. Itamar, sua ligação com os Bittencourt e a UDN. Perseguia mesmo quem se manifestasse contra e, inclusive, conseguia desempregar seus desafetos. Dom Joaquim responde aos dois que assinam com uma grande Carta em que explica todo o processo de saída do Pe. Itamar da Catedral, os elogios que dele recebeu quando estava em Roma, etc., tudo com muito jeito, sem entrar no jogo miúdo.

Em 23 de dezembro de 1953 Pe. Itamar recebe uma carta dirigida ao “Famigerado Mercenário de Cristo – O inferno te seja breve”. O apoio incondicional que dava a Pedro Bittencourt conduzia a esses raios de puro ódio, que não expressavam, é óbvio, a alma popular.

Primeiro pároco de Imbituba

Criada em 28 de dezembro de 1954 e instalada em 15 de agosto de 1955, a diocese de Tubarão teve como primeiro Dom Anselmo Pietrulla,OFM. Em 15 de novembro de 1956, Dom Anselmo elevou Imbituba à paróquia Nossa Senhora da Conceição. Transferiu o vigário encarregado Padre Paulo Hobold para a Paróquia de Araranguá e designou Padre Dr. Itamar Luiz da Costa para pároco da nova paróquia. Chegou a Imbituba em 29 de janeiro de 1956, continuando, entretanto, como Vigário de Imaruí até julho de 1957, quando se transferiu definitivamente para Imbituba.
Foi grande sua dedicação à nova paróquia, preocupado tanto com a vida religiosa como também empenhando-se no desenvolvimento social e cultural. Era o tempo da Ação Católica: em 1957 fundou a Associação Escoteira São Cristóvão e se empenhou na Ação Católica especializada, a Juventude Operária Católica (JOC) e a rural (JAC).

Imbituba e redondezas necessitavam de uma casa de saúde. Muitas mães passavam por grandes sacrifícios nas viagens a Tubarão, primeiro pela praia de Imbituba a Laguna, pois não havia estradas. Com a liderança de Pe. Itamar, em 22 de junho de 1963 foi inaugurado o Hospital e Maternidade São Camilo. A área foi doada por Dr. Francisco Catão (diretor da Ferrovia Teresa Cristina) e família Catão, concessionária da Companhia Docas de Imbituba), no bairro Paes Leme. Também empenhou-se para tornar realidade  o Jardim de Infância Doutor João Rimsa (dono da Cerâmica Imbituba SA.

Em seus últimos anos, na própria casa paroquial instalou um riquíssimo Museu São Pio X, com objetos de valor e muito antigos: objetos sacros e imagens de toda a zona da lagoa de Imaruí, oratórios, correntes e medalhas de ouro pertencentes a Nossa Senhora das Dores, e variedade de ricas porcelanas. Ficam duas perguntas a respeito dessa preciosidade: como lhe foi entregue? Onde parou?. Nada mais resta.

Embelezou a praça diante da igreja matriz, dotando-a de bancos, plantando árvores e, no salão paroquial, fundou a Biblioteca de Moças (isentando os moços de lerem…).

Era aguardado seu Sermão da Ressurreição na Missa da Vigília Pascal, à meia-noite, precedido pelo Sermão do Encontro no Domingo da Paixão. Sempre que convidado, dirigia-se a Imaruí para o Sermão dos Passos. Fazia vibrar a alma católica popular.
Colaborou na instalação da Rádio Difusora de Imbituba onde conduzia o programa do meio-dia “Os ponteiros apontam para o Infinito”. De muita audiência as rádio-novelas que dirigia e ensaiava.

Em âmbito diocesano, em 1964 foi nomeado juiz do Tribunal diocesano e em 1966 recebeu do bispo de Tubarão o título de “Cônego”, com isso integrando o Cabido diocesano (Colégio de Consultores).

Por sua qualidade intelectual, Pe. Dr. Itamar ocupou a cadeira de filosofia na FESSC-Fundação Educacional do Sul de Santa Catarina, fundada em 1967 e transformada na Universidade do Sul de Santa Catarina-UNISUL em 1989. Em sua homenagem os alunos denominaram seu grêmio com o nome “Dire­tório Acadêmico Padre Doutor Itamar Luiz da Costa”.

Breve jornada de uma vida

Enquanto a lei determinava, Pe. Itamar vestiu a batina. Para susto dos paroquianos, acostumados com seu talhe clerical, no dia seguinte à liberação da batina, em 1966, apareceu envergando elegante terno e gravata. E assim se vestiu até o final da vida. Mantinha o respeito e a amizade dos paroquianos. Mas, serviu-se da mesma dependência alimentada em Imaruí, agora representada pelas riquíssimas famílias Catão e Rimsa, as detentoras da economia local, pois delas dependiam o Porto, a Ferrovia, o transporte de carvão. Esse poder contribuiu para o atraso econômico da região, a poluição e degradação urbana e portuária de Imbituba. Pe. Itamar, porém, preferiu a amizade dos poderosos e deu-lhes, com sua autoridade religiosa, apoio político e eleitoral. O pastor zeloso e trabalhador não conseguiu desvencilhar-se da atração do poder, infelizmente.

Um fato chocou a população local e amigos de outros municípios: o dia, 3 de abril de 1970. Era primeira sexta-feira do mês. Pe. Itamar celebrara a Missa às 7h e depois iria a Tubarão para a Aula Inaugural na FEESC, que aconteceria às 10h. Entrou na casa paroquial e pouco depois, às 10 horas, foi encontrado morto, vítima de infarto.

Foi sepultado em sua terra natal, Laranjeiras. Atento à memória histórica do primeiro pároco, em 30 de novembro de 2008 o pároco Pe. José Eduardo Bittencourt trasladou seus restos mortais para Imbituba e criou, na igreja Matriz, o “Memorial Pe. Dr. Itamar Luiz da Costa”. Padre Itamar da Costa viveu apenas 49 anos, dos quais 24 como sacerdote.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 11 de março de 2012 - 22:55

    Pe. José Artulino Besen, obrigado pelos artigos que nos tem oferecido. Este, do Pe. Dr. Itamar Luiz da Costa, é uma preciosidade.
    Ademar Arcângelo Cirimbelli

  1. PADRE DOUTOR ITAMAR LUIZ DA COSTA « Pe. José Artulino Besen

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