SÃO SEBASTIÃO, SOLDADO DO IMPÉRIO

São Sebastião – Gerrit Van Honthorst

O lugar de nascimento de Sebastião foi Narbonne ou, como seus pais, a cidade de Milão, onde já era venerado no tempo de Santo Ambrósio, no século IV. Esta veneração, menos de um século após seu martírio, é a grande prova de sua existência, martírio e importância nas comunidades cristãs. Ambrósio, antes de ser bispo de Milão, tinha sido prefeito: venera em Sebastião um representante do Império ao qual tinha servido como soldado: Sebastião no tempo da perseguição, Ambrósio, no tempo da liberdade.

No Império romano, uma das carreiras mais importantes era a militar e isso tanto do ponto de vista econômico como de prestígio. Ganhava-se o sustento e a fama da coragem. Sebastião iniciou o serviço militar na Gália, importante província do Império. Ali havia uma pequena, mas corajosa comunidade cristã e nela o jovem soldado foi instruído e batizado.

Roma era o sonho de todo o cidadão do Império, era a Capital, quase divina, onde residiam os deuses, a cultura, o Senado e o Imperador. A cidade imperial foi o destino do soldado Sebastião, por volta do ano 283.

Aproveita a residência em Roma para confortar os cristãos duramente perseguidos e animar a perseverarem na fé aqueles que, sendo interrogados e ameaçados, estavam por fraquejar.

Marcos e Marceliano

Sebastião assistiu ao interrogatório e à condenação dos irmãos Marcelino e Marcos. Os dois jovens, diante dos apelos dos amigos e parentes, estavam por ceder ao culto aos ídolos. Sua fraqueza aumentou quando ouve os gritos de sua mãe e de seu pai. A pobre mãe, não entendendo a atitude dos filhos que aceitam a morte, rasgando as vestes e desnudando os seios, gemia:

Ó queridos e doces filhos, sou presa de uma miséria inaudita e de uma dor intolerável. Ah, que desgraçada sou! Perco meus filhos, que correm por vontade própria para a morte! Se os inimigos os tomassem de mim, eu perseguiria esses raptores no meio de seus batalhões; se uma sentença os condenasse à masmorra, eu iria quebrar a prisão, ainda que morresse por isso. Mas hoje aparece uma nova maneira de perecer: eles mesmos rogam ao verdugo que vibre seu golpe, desejam a vida apenas para perdê-la, convidam a morte a vir. Novo luto, nova miséria! Filhos ainda jovens entregam-se à morte, e pais infortunados, já velhos, são forçados a tudo presenciar.

Falava ainda a mãe desesperada quando chega o velho pai, carregado pelos empregados e, gemendo, gritava:

Meus filhos entregam-se à morte; vim lhes dar adeus, e tudo que havia preparado para me sepultar, ó desgraçado que sou!, empregarei para a sepultura de meus filhos. Ó meus filhos! Bengala de minha velhice, dupla chama do meu coração, por que amar a morte assim? Jovens que vêem tudo isso, venham aqui chorar meus filhos. Pais que assistem a esta cena, aproximem-se, impeçam-nos, não aceitem semelhante perversidade! Olhos meus, chorem até se apagar, para que eu não veja meus filhos decepados pela espada[1].

Marcelino e Marcos estavam com o coração dividido: de um lado, o amor a Jesus Cristo a quem tinham entregado a vida e, de outro, a dor de seus pais e amigos. Não há cena mais dolorosa do que ver os pais entre lágrimas e gemidos suplicando um favor!

Neste momento interveio Sebastião. Sabia ele muito bem o quão forte era a tentação dos jovens. Mas sabia melhor ainda que não valia a pena uma vida traindo-se o Salvador e Deus. Aproxima-se deles, lembra-lhes o que aprenderam, a graça do batismo, o único sentido da vida que é caminhar para a Vida eterna.

Saindo do meio da multidão, falou aos pais:

Nada temam, vocês não serão separados; eles vão para o céu preparar para vocês moradas de deslumbrante beleza. Desde a origem do mundo esta vida não para de enganar os que esperam algo dela. Ela engana os que a buscam, ela ilude os que contam com ela, ela mente a todos. Esta vida ensina ao ladrão suas rapinas, ao colérico suas violências, ao mentiroso suas espertezas. É ela que comanda os crimes, que ordena as perversidades, que aconselha as injustiças. Mas os contratempos são efêmeros, e essa perseguição que agora sofremos, se é violenta hoje, amanhã terá desaparecido: uma hora a trouxe, uma hora vai levá-la. Mas as penas eternas renovam-se sem cessar, a vivacidade de suas chamas nunca diminui, para sempre punir. Estimulemos nosso amor ao martírio. Quando ele ocorre, o diabo acredita obter uma vitória, mas não: quando captura, ele próprio é capturado; quando prende, ele é atado; quando vence, é vencido; quando tortura, é torturado; quando degola, é morto; quando insulta, é maldito”.

Neste momento a graça começa a agir através das palavras de Sebastião: Zoé, esposa do arquivista-mor Nicóstrato, muda há seis anos, arrependida caiu aos pés de Sebastião e logo recuperou a fala (também os mudos que Jesus curava recebiam, com a fé, a capacidade de falar). A força da palavra de um cristão desencadeia uma corrente de graças: o carcereiro Cláudio e 16 outros prisioneiros, entre os quais os pais de Marcelino e Marcos, manifestaram o interesse de conhecer o motivo da fé e da coragem de Sebastião.

Os dois irmãos não queriam a liberdade, pois desejavam antes a libertação total do martírio, irem logo contemplar a Deus face a face. Mas foram libertados e todos foram acolhidos na casa de Nicóstrato e ali foram instruídos e batizados pelo sacerdote Policarpo.

O triunfo da graça de Deus

Afligido por grandes enfermidades, Cromácio, governador de Roma quis pessoalmente conhecer o soldado Sebastião. Sebastião pediu-lhe para quebrar os ídolos, ao que Cromácio respondeu: Não faça isso. Deixe esse trabalho para meus escravos!. Sebastião discordou, pois via nisso uma possível tentação e disse: As pessoas tímidas temem quebrar seus deuses, e se o fizerem e forem feridas pelo diabo, dirão que é castigo porque quebravam seus deuses. Deste modo, ele mesmo quebrou as dezenas de ídolos.

Mas Sebastião percebeu que a conversão não era ainda sincera e que alguns ídolos estavam escondidos, o que foi confirmado por Cromácio. Tocado por suas palavras, converteu-se à fé cristã e, com a cura espiritual, recebeu também a graça da cura física. Para viver sua fé, renunciou ao importante posto de prefeito de Roma.

Fabiano, o novo prefeito da capital imperial, enfureceu-se pelo modo como respeitáveis cidadãos estavam abandonando os deuses do Império e decretou uma nova perseguição. O filho de Cromácio, Tibúrcio, também tinha recebido o batismo e pouco tempo depois foi decapitado, dando sua vida para obter a Vida eterna.

A ira caiu sobre os irmãos Marcelino e Marcos, novamente levados ao tribunal. Fabiano mandou que fossem amarrados a uma estaca, mas os irmãos, em vez de perderem a coragem cantaram: “Vejam como é bom e agradável irmãos ficarem juntos!”. Sentiam-se mais irmãos do que nunca. O prefeito pediu-lhes que renunciassem às suas loucuras cristãs, ao que responderam: Nunca fomos mais bem tratados!. Então Fabiano ordenou que enfiassem lanças em seus flancos e assim consumaram seu martírio após um dia de grande sofrimento.

Sebastião, soldado de confiança

Sebastião – mosaico do século VII, São Pedro in vincolis

O que fazia Sebastião em Roma? Era catequista, encorajador dos cristãos em momentos de dificuldade, mas era também homem do glorioso e invencível exército romano.

No exército romano, a legião de infantaria era composta de 6 mil homens e estava dividida em 10 coortes. Sebastião recebera o comando da primeira coorte, que era a que ficava mais à direita na primeira linha. O posto significava um sinal de confiança da parte das autoridades romanas e, além disso, indicava que havia cristãos em todas as esferas da vida romana, não sendo mais verdade a afirmação de que o cristianismo era a religião de gente “sem eira nem beira”, na afirmação de um escritor inimigo da fé cristã.

Era imperador Diocleciano (284-305), homem de grande autoridade e capacidade administrativa. Foi no seu tempo que o Império romano mais estendeu as fronteiras e, ao mesmo tempo, anunciava um período de problemas internos e externos. Tentando segurar a inevitável crise do Império, Diocleciano encetara diversas reformas administrativas e econômicas. Queria também reformar as consciências restaurando o culto imperial e dos deuses romanos. Decidido a pôr fim ao crescimento do cristianismo, em 24 de fevereiro de 303 publicou o primeiro Edito de perseguição, ao qual seguiram-se outros. Foi o mais feroz ataque do Império ao cristianismo, e também o último. Em 313 o cristianismo ganharia a liberdade, sob o imperador Constantino.

Ignorando a fé cristã de Sebastião, nomeou-o centurião de uma companhia de guardas pretorianos, grande honra, pois significava guardar o palácio imperial e a própria pessoa do imperador. Ali Sebastião não foi considerado tão estranho, pois se sabe que dentro do palácio havia cristãos, inclusive a mulher de Diocleciano Prisca e a filha Valéria. Numa população de 50 milhões de habitantes, pode-se calcular que os cristãos somavam de 7 a 10 milhões, entre eles contando-se as melhores forças morais do Império.

Prevendo tempos tempestuosos, o convertido ex-prefeito de Roma, Cromácio, decidiu transferir-se para a região italiana da Campânia, levando consigo um grupo de cristãos. Sebastião e Policarpo discutiram qual dos dois acompanharia o grupo, a fim de completar-lhe a instrução na fé cristã. O papa Caio (ou Gaio) decidiu que era melhor para a Igreja que Sebastião permanecesse em Roma.

Continua a perseguição aos cristãos

Diocleciano sempre atribuiu aos cristãos a culpa pelos problemas do Império sendo assim hostil a essa fé religiosa à qual atribuía as crises no mundo romano. Vimos que desencadeou nova onda de perseguições, a mais terrível e geral. Tanto o papa Caio como Zoé e Tranqüilino, pai de Marcelino e Marcos, esconderam-se no palácio imperial, nos aposentos do oficial cristão Cástulo. Descobertos, foram condenados à morte. Zoé foi pendurada pelos calcanhares sobre o fogo, morrendo sufocada pela fumaça e Tranqüilino foi apedrejado até a morte. Os outros cristãos, após longa tortura, foram lançados ao mar. Cástulo foi enterrado vivo.

Sebastião – Marco Zoppo – século XV

Sebastião foi acusado diante do imperador, que se queixou amargamente por ter-se sentido traído na confiança depositada. Sempre quis que você ocupasse postos elevados no meu palácio, mas você agiu em segredo contra meus interesses e insulta os deuses, queixou-se o imperador, ao que lhe respondeu Sebastião: Foi para sua salvação que honrei Cristo, e é pela conservação do Império Romano que sempre adorei o Deus que está nos céus.

Foi Sebastião entregue a um grupo de arqueiros da Mauritânia, para que se divertissem atirando flechas mirando em seu corpo. Amarrado a um tronco foi crivado de flechas e depois abandonado como morto para ser devorado pelos abutres, conforme o costume. Uma cristã, Irene, em segredo foi retirar o corpo de Sebastião a fim de dar-lhe sepultura digna e, para surpresa sua, viu que estava vivo! Recolhido, teve as feridas tratadas.

Poderíamos pensar que o ex-centurião da guarda pretoriana fugisse para lugares mais seguros, mas não foi o que aconteceu. Sebastião, livre agora de outros trabalhos, pôs-se a confirmar os cristãos na coragem de viver em tempo difíceis e levar outros a crerem em Jesus. Tendo recebido notícia de que Sebastião estava vivo e continuando a provocar os deuses, Diocleciano ordenou que o aprisionassem e condenou-o a ser espancado até a morte, decapitado e seu corpo lançado numa fossa.

Sabendo do ocorrido através de uma visão, a cristã Lucina descobriu onde estava o corpo, foi buscá-lo e sepultou-o no lugar chamado de “ad catacumbas”, na Via Ápia. Nessas Catacumbas, fora dos muros da cidade de Roma, em 288 tinham sido exumadas as relíquias dos apóstolos Pedro e Paulo. E ali, o apóstolo dos mártires foi também sepultado. Corriam os primeiros anos do século IV, talvez o ano 303-304, quando São Sebastião deu a vida por Nosso Senhor e tornou-se definitivamente soldado de Cristo.

Seu túmulo tornou-se local de culto cristão e, em 367, o Papa Dâmaso fez construir sobre ele uma igreja, até hoje local de muitas peregrinações.

Pe. José Artulino Besen


[1] VARAZZE, JACOPO DE: Legenda Áurea. Tradução de Hilário Franco Júnior. Cia. das Letras, 2003, pp. 178-182.

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