DOM FELÍCIO CÉSAR DA CUNHA VASCONCELLOS OFM – MISSIONÁRIO DA CRUZ

DOM FELÍCIO CÉSAR DA CUNHA VASCONCELLOS OFM

César da Cunha Vasconcellos nasceu em 25 de maio de 1904 em Dores de Camacuã, RS e foi ordenado presbítero em Porto Alegre em 1º de janeiro de 1933. Como padre diocesano foi pároco da paróquia São Sebastião de Porto Alegre de 25 dezembro de 1934 a 31 de dezembro de 1940.

Em Pe. César ardia um coração franciscano e missionário. Realizou sua verdadeira vocação em 1941, quando foi recebido na Ordem Franciscana com o nome de Frei Felício. Será, de então, Frei Felício César da Cunha Vasconcellos, OFM.

Após os anos de formação e noviciado, integrou a equipe missionária franciscana, sendo zeloso missionário nos Estados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul se 1945 a 1949. Tinha o dom da palavra, palavra ungida por sua espiritualidade e também pela voz harmoniosa, forte e profunda. Uma leve rouquidão a tornava envolvente, emocionando os ouvintes.

Um Frade bispo – Penedo

Os planos de Deus eram outros e, em 4 de abril de 1949 Frei Felício foi eleito 3º bispo diocesano de Penedo, Alagoas, diocese às margens e na foz do rio São Francisco. Em 29 de junho de 1949 aconteceu a ordenação episcopal na Catedral de Florianópolis, sendo ordenante Dom Joaquim Domingues de Oliveira, e concelebrantes Dom Daniel Hostin e Dom Henrique Golland Trindade, dois bispos franciscanos.

A posse em Penedo deu-se na Festa da Assunção de Maria, em 15 de agosto de 1949.

No dia 28 de agosto consagrou a Diocese ao Imaculado Coração de Maria. Sua grande preocupação foram a formação do clero e as vocações sacerdotais. Em fevereiro de 1950 pregou o primeiro retiro do Clero, deixando a mais profunda admiração pela sua palavra. Dom Felício convencia por sua pessoa e palavra, por seu sorriso impregnado de simplicidade e de fé. Também em 1950 criou o Seminário Nossa Senhora de Fátima, do qual foi o primeiro reitor. No meio das privações, falta de recursos, sua inabalável confiança em Nossa Senhora de Fátima nunca teve desilusão: quando tudo parecia impossível, Nossa Senhora providenciava.

Um Frade missionário – arcebispo coadjutor de Florianópolis

Em 14 de junho de 1957 Dom Felício foi nomeado arcebispo coadjutor de Florianópolis: arcebispo desde 1914, Dom Joaquim Domingues de Oliveira necessitava, mesmo não querendo, de um auxiliar. Ter um franciscano como coadjutor não foi o mais esperado por ele. Dom Felício fixou residência no Convento Santo Antônio, no centro da capital. Recebendo poucos encargos, fez o que mais lhe trazia felicidade: ser convidado pelos padres a pregar missões. Tenho em minha memória a Semana Santa de 1959. O Arcebispo presidia a liturgia da Sexta-feira santa na pequena e humilde Antônio Carlos. A matriz estava no início da construção e Dom Felício presidiu as cerimônias na colina da igreja. Recordo ainda com emoção sua voz rouca, bela e forte, clamando: “Povo meu que te fiz eu, ou em que te contristei? Responde-me!”. Três vezes repetiu a pergunta, e cada vez com mais força, deixando-nos a todos com remorso pela ingratidão diante de Deus.

Os padres gostavam de Dom Felício, pois descomplicava a solução de problemas e era de fácil acesso e seus ouvidos estavam abertos para confidências sacerdotais. Havia críticas pela marginalização a que o relegava o arcebispo metropolitano. Sua saúde precária era motivo de crítica para Dom Joaquim: “Me acharam velho para trabalhar e me enviaram um doente!”. Coisas de grandes homens.

Um frade arcebispo e a defesa dos direitos humanos – Ribeirão Preto

Para suceder a Dom Agnelo Rossi, em 25 de março de 1965 Dom Felício foi eleito arcebispo de Ribeirão Preto, SP, assumindo a importante arquidiocese em 19 de junho. Já enfermo, Dom Felício dedicou todo seu zelo pastoral muito mais na oração em longas vigílias diante do Santíssimo Sacramento, na Capela da Residência episcopal; mas, fez também muitas Visitas pastorais, Crismas e Pregações nas Paróquias da Arquidiocese.

Por motivo de sua saúde abalada, solicitou ao Papa Paulo VI a nomeação de um Coadjutor e foi atendido benignamente. Ali chegou no dia 3 de abril de 1967 o seu Coadjutor, Dom Bernardo José Bueno Miele. Ambos trabalharam com muito zelo apostólico, numa convivência fraternal edificante, com humildade, harmonia de pensamentos, deixando verdadeiro testemunho de unidade. Sempre se mostrou Dom Felício muito amigo dos padres; o mesmo aconteceu com seu Coadjutor e depois Arcebispo Metropolitano, Dom Miele.

Este foi um período de renovação à luz do Concílio Vaticano II. A história da arquidiocese de Ribeirão Preto lembra de seu pastoreio a criação do Serviço de Pastoral Litúrgica, o Conselho Presbiteral; foram incentivados o Movimento de Cursilhos como instrumento de formação dos leigos e a Pastoral da Juventude. Dom Felício e Dom Miele se esmeraram na preparação para a criação das Dioceses de Franca e Barretos (1971).

Soube ser profeta diante da violência praticada pelo regime militar a partir de 1968. Sabia distinguir entre o combate ao “comunismo” e a violação dos direitos humanos.

Em 1968, em protesto contra o AI-5, os estudantes da Faculdade de Direito promoveram uma passeata de protesto na Praça central. A Cavalaria veio para prendê-los e eles se refugiaram na Catedral. Dom Felício segurou o comandante com firmeza e proibiu-o de entrarem na Catedral. E não entraram.

Em 5 de março de 2011, aos 84 anos faleceu em Araraquara, SP Madre Maurina Borges da Silveira, torturada e banida do Brasil pela ditadura militar. Sua história marcou a luta da Igreja Católica em defesa dos direitos humanos, nos anos mais difíceis do regime de 1964 e o profetismo de Dom Felício. Começou com sua prisão, em outubro de 1969, quando ela foi levada num camburão para uma delegacia de Ribeirão Preto, onde era a superiora do Lar Santana, um orfanato para meninas, na Vila Tibério.

Acusação: acobertar militantes da Frente Armada de Libertação Nacional (FALN), que se reuniam e imprimiam material subversivo no porão do Lar Santana. Segundo testemunhos posteriores, Madre Maurina cedeu o espaço sem saber o que os jovens que abrigou discutiam em suas reuniões. Ao descobrir, mandou queimar exemplares do jornalzinho O Berro, encontrado no porão.

“Madre Maurina foi uma grande vítima da ditadura militar, porque não tinha nenhuma participação política e jamais participou de organização que pregava a luta armada”, afirmou Dom Angélico Sandro Bernardino, bispo emérito de Blumenau – SC, na época padre em Ribeirão Preto.

Indignado, Dom Felício César da Cunha Vasconcelos excomungou os delegados Renato Ribeiro Soares e Miguel Lamano que a prenderam, gesto que teve repercussão internacional. Foi transferida para o presídio Tiradentes, em São Paulo, e mais tarde para o presídio Feminino de Tremembé, onde foi interrogada pelo tristemente lembrado delegado Sérgio Paranhos Fleury e torturada. Assim Dom Paulo Evaristo descreve a ação do Arcebispo: “Sei que em Ribeirão Preto as atrocidades foram sem propósito. A ponto de o meu irmão e amigo dom Felício Vasconcelos pedir a excomunhão dos dois delegados que permitiram que a seviciassem. D. Felício era um gaúcho bravo, temido pelos militares. O que contam é que ele pegou um cavalo e foi para a praça gritando que o que estavam fazendo com a madre os colocaria, a todos, no inferno. Em seguida, os excomungou”.

Torturada por cinco meses na prisão em São Paulo, foi pendurada no pau-de-arara e submetida a choques elétricos, sevícias sexuais, mas o que mais lhe doeu, conforme relatou, foram as ofensas morais, blasfêmias e palavrões. Nos anos seguintes, não queria falar sobre o assunto e dizia ter perdoado a seus agressores.

Madre Maurina foi banida para o México, contra sua vontade, em troca do cônsul japonês Nokuo Okuchi, seqüestrado por militantes de esquerda. Voltou ao Brasil com a decretação da anistia, em 1979. De acordo com o ex-arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns, foi a prisão da Irmã Maurina que lhe motivou a iniciar sua “luta pela justiça social”.

Madre Maurina retomou então seu trabalho de religiosa na Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição (cf. Estadão.com.br – atualizado em 13 de março de 2011 às 19h).

Sempre mais sofrendo devido a um câncer, Dom Felício governava a arquidiocese a partir do leito de dor, oferecendo-se como vítima expiatória pela sua Igreja diocesana.

Cercado pelo respeito e veneração de todos, com justa fama de santidade e exemplo heróico no sofrimento, Dom Frei Felício César da Cunha Vasconcellos, OFM faleceu no dia 11 de julho de 1972, aos 68 anos. Seus restos mortais jazem na Catedral de Riberião Preto.

Pe. José Artulino Besen

 

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  1. #1 por Gilberto Ferreira Pacheco em 17 de abril de 2015 - 18:53

    Saudações! História fascinante deste homem de Deus… Sou Seminarista da arquidiocese de Porto Alegre, atualmente cursando o 2º ano de teologia. Desde 2010 venho rezalizando pesquisas sobre a vida de Dom Felicio da Cunha Vasconcelos pois tenho como intenção publicar uma obra sobre sua vida. Tenho tal interesse pois sou conterrâneo dele e próximo de alguns familiares dele que continuam residindo em minha cidade (Sentinela do Sul – antiga Dores de Camaquã). Se o senhor ou alguém puder me enviar mais algum material, escritos, fotografias, etc (sonho em conseguir áudios dele para conhecer melhor seu dom da oratória). Desde já muito obrigado! Paz e Bem

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