PADRE BELARMINO CORREIA GOMES

Pe. Belarmino Correia Gomes em Portalegre, foto de 25 de fevereiro 1907

Pe. Belarmino Correia Gomes em Portalegre, foto de 25 de fevereiro 1907

Belarmino Correia Gomes nasceu em Outeiro, Freguesia de S. Pedro France (paróquia que deita raízes no primeiro milênio) – Concelho de Viseu, Portugal em março de 1881[1]. Seus pais foram o professor Adelino Correia Gomes e Maria Augusta Correia de Carvalho.

Era súdito da Diocese de Vizeu, mas foi incardinado na diocese de Portalegre, no Alentejo, pela amizade que lhe nutria o bispo local e conterrâneo, que o tinha auxiliado nos estudos seminarísticos. Como diácono, foi ajudante do secretário da Câmara Eclesiástica, nomeado em 23 de junho de 1903.

Belarmino Correia Gomes e seus colegas no Seminário de Portalegre, aprox. 1893.

Chegando o tempo da ordenação sacerdotal, teve dispensa de idade – estava com 22 anos – com Provisão do Bispo de Portalegre Dom Gaudêncio José Pereira “por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Arcebispo-Bispo de Portalegre, do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, Par do Reino, etc”. Assim, foi ordenado padre em 19 de dezembro de 1903.

Praticou oratória sacra na Sé catedral de Portalegre e, como de costume, em 20 de dezembro do mesmo ano pediu licença para celebrar a Primeira Missa, recebendo ordem para primeiro ser examinado nas cerimônias tanto de Missa cantada como rezada, aprendendo o modo prático de superar os defeitos. Isso feito de modo breve, em 23 de dezembro de 1903 saiu a Provisão que o autorizava a celebrar a Primeira Missa e as mais de devoção por tempo de três meses, findo os quais se apresentará a exame de confessar. As três primeiras Missas “lhe deve assistir um sacerdote, perito nas cerimônias da Missa e rubricas do Missal”.

Em 24 de dezembro de 1903, recebeu autorização para celebrar Missa em sua cidade natal “para satisfazer a piedade de seus pais”. Em 19 de março de 1904, provisão adiando-lhe a data de se apresentar a exame de Missa.

O primeiro encargo pastoral foi dado em 31 de maio de 1904, como Secretário do Seminário Episcopal “e haverá os precalços e emolumentos que por lei e costume lhe pertencerem”. Também de costume, em 9 de julho foi admitido por unanimidade de votos como Irmão da Santa Casa de Misericórdia de Portalegre, fundada em 1501. A centenária instituição assim foi descrita pelo poeta José Régio: “Cheia de maus e bons cheiros, das casas que têm história, cheia de ténue, mas viva, obsidiante memória. De antigas gentes e traças, cheia de sol nas vidraças e de escuro nos recantos, cheia de medo e sossego, de silêncios e de espantos…”[2].

As exigências católicas eram bastante minuciosas, mais ainda no mundo português onde a união Igreja e Estado traziam-nas maiores na vida do padre, quase um funcionário público. Deste modo, por alguns anos o padre devia encaminhar ofícios ao senhor Bispo, especialmente para pregar e confessar, o que acarretava taxas e despesas. Assim, em 31 de agosto de 1904, tendo findada a licença de pregar, Pe. Belarmino pediu licença “por tempo que houver por bem” e recebe autorização por seis meses, “e no entretanto se habilitará com aprovação em exame”. Em 1º de setembro de 1904 recebeu Provisão para pregar dois Sermões na Freguesia de Assumar, bispado de Évora.

Em 19 de setembro, “não podendo apresentar-se a exame como lhe foi ordenado na sua primeira provisão”, solicita nova provisão e recebe por seis meses. Essas licenças, por prazo de seis meses e um novo prazo para se habilitar aos exames, são pedidas e renovadas semestralmente até 1908, deixando o padre na insegurança de ministério e de ganha-pão, ao mesmo tempo em que era obrigado ao esforço para continuar. Apesar disso, o retrato que se capta do clero português no período não é o mais edificante, pois os controles lhe tiravam o essencial que é a liberdade.

Em 28 de novembro de 1904, Pe. Belarmino recebe provisão que o nomeou Capelão da Sé catedral “e vencerá o competente estipêndio, proes e precalços, que diretamente lhe pertencerem. E Mandamos que por Capelão da Catedral seja tido e havido durante o tempo desta Provisão”. No ano seguinte, em 18 de outubro foi nomeado Sub-Chantre da Sé de Portalegre, “e vencerá o estipêndio e precalços que diretamente lhe pertencerem”. O Chantre era o membro da Igreja que exercia as funções de cantor e que, postado diante da estante do coro, entoava os salmos e os responsórios.

Com o falecimento de Dom Gaudêncio José Pereira[3], Pe. Belarmino perdeu, além de amigo e conselheiro, a presença positiva do bispo que lhe fazia as vezes de pai e tinha autoridade para orienta-lo.

Em 1º de setembro de 1908, pediu e recebeu licença para exercer o munus de pregador, concedida pelo Governador interino do Bispado, o Deão Adolpho Ernesto  Motta, que se apresenta como “Bacharel formado em Teologia pela Universidade de Coimbra, Deão da Santa Sé Catedral e Vigário Capitular da Diocese de Portalegre, “Sede vacante” etc”.

Em 7 de julho de 1909, solicitou licença para celebrar, confessar e pregar no Bispado por tempo de um ano, o que lhe foi concedido com a restrição “Não confessará, porém, mulheres sem ter quarenta anos d’edade, nem freiras sem especial licença”. Enfim, já padre há 5 anos, no mesmo dia foi examinado em Mesa e aprovado para confessor e pregador, sem prazo. Estava na Freguesia de São Lourenço de Portalegre. A comunicação e pregação de Pe. Belarmino foram sempre muito elogiadas, inclusive no dia de seus funerais, dessa vez pelo Vigário geral de Florianópolis.

Em outros caminhos, rumo ao Brasil

Em minhas pesquisas, não consegui captar a nova motivação de vida sacerdotal do Pe. Belarmino e que vai traze-lo ao Brasil. Parece-me claro que com a morte de Dom Gaudêncio, perdeu a alegria de trabalhar em Portalegre.

Em 5 de julho de 1909, solicitou o Atestado de Estudos de Teologia e que revelam, de um lado, a seriedade da formação sacerdotal em Portalegre e, de outro, o ótimo aproveitamento nos estudos obtido pelo padre: Teologia dogmática geral, História sagrada e eclesiástica (1898), Teologia dogmática especial e Direito Canônico (1899), Teologia Moral, Sacramental e Pastoral (1900), Canto Eclesiástico (1900), Liturgia, Iconografia e Arqueologia cristãs (1900), atestado passado pelo Seminário episcopal de Portalegre.

Na mesma data, recebeu Atestado de estudos dos Cursos preparativos de Língua francesa (1893), portuguesa (1893), Geografia e história (1894), Literatura portuguesa (1895), Latim I e II (1896-1897), Filosofia (1897) e Matemática (1896).

E, em 15 de julho de 1909, pediu e recebeu licença para trabalhar por três anos no Bispado de Viseu. Acontece que já havia escrito ao arcebispo do Rio de Janeiro pois, em 12 de agosto do mesmo ano chegou uma Carta da Arquidiocese fluminense ao Deão de Portalegre a respeito da “pretensão do presbítero Belarmino Correia Gomes de trabalhar nessa arquidiocese: agradece a boa informação recebida, mas “atualmente, não há lugar para dar-lhe uma colocação, e por isso S. Emcia. Revma. não o receberá no Arcebispado”[4].

Pe. Berlarmino não tinha mais como voltar atrás, pois não fora elegante sua carta às ocultas. Mantém o projeto de vir para o Brasil e, em 30 de setembro de 1909, a cúria de Portalegre lhe entrega Litterae dimissoriae para dirigir-se a dioceses ou arquidioceses do Brasil. O Deão escreve num bom latim, como convinha a quem assim inicia as Provisões: “Adolphus Ernestus Motta, Sacrae Theologiae Doctor in Academia Coninbricensi, Sancta Sedis Decanus ac praefacta Sede Episcopali vacante Vicarius Capitularis in Portalegrensi Diocese, etc[5].

Pouco depois, em 2 de outubro, o Vigário Capitular passa as Testimoniales litterae, recomendando-o aos bispos brasileiros.

A essa altura tinha entrado em contato com o primeiro bispo de Florianópolis, Dom João Becker, que carecia muito de padres que falassem português. Pedia informações e em 10 de março o Deão de Portalegre passou um telegrama, atestando: “Vida costumes bons cursos distinção”. E, no dia seguinte seguiu carta: “O presbítero Belarmino Corrêa Gomes foi, desde o começo de seus estudos no Seminário desta cidade, fâmulo do Exmo. Revmo. Sr. Arcebispo-Bispo desta Diocese, D. Gaudêncio José Pereira, de saudosa memória, junto do qual exerceu também o cargo de seu secretário particular. … Concluiu com distinção os cursos de preparatórios e o teológico, e no exercício de seus cargos houve-se sempre com zelo e distinção. Também foi sempre de bons costumes. Falecido Dom Gaudêncio, manifestou logo o desejo de servir a Deus e à sua Igreja em paragens que lhe oferecessem mais vasto campo ao exercício de sua atividade intelectual e ao seu zelo pela salvação das almas. Foi-lhe ponderado que deveria primeiro ter o aceite de algum bispo latino-americano, mas não aceitou. Mas, aparecendo companhia respeitável, não quis perder a ocasião e pediu a Dimissoria in perpetuum. A diocese perdeu um eclesiástico de manifestos merecimentos apostólicos”.

Essas informações confirmam as qualidades humanas e sacerdotais de Pe. Belarmino que, a essas alturas, está em Florianópolis.

A informação “aparecendo companhia respeitável” referia-se ao Pe. Francisco de Andrade Sequeira, ilustre sacerdote português e autor de livros de espiritualidade. Desejava Pe. Francisco deixar Portugal e vir para as missões. Mas, o ano de 1910 marcou a história portuguesa com a Revolução de 5 de outubro, com a queda da Monarquia e a Constituição liberal e anticatólica de 1911. Foi o ponto final da crise que opunha liberais e conservadores, monarquistas e republicanos desde meados do século XIX. A Igreja perdeu o apoio do Estado e, mais ainda, suportou a perseguição, humilhação, confisco dos bens e até prisão de bispos. De uma posição de privilégio passou a uma posição de pobreza. Infelizmente, pode-se hoje dizer, não degustou a vantagem incomparável da liberdade e, poucos anos depois, aliou-se ao regime ditatorial salazarista que perdurou até 1974 e gerou acerbado anticlericalismo na sociedade portuguesa.

Mas, nos referimos à “companhia respeitável” que, com a Revolução desistiu de vir a Florianópolis, como escreveu a Dom João em 17 de novembro de 1911. Pe. Francisco agradeceu a oportunidade de poder trabalhar em Florianópolis, mas não virá: “No estado presente do meu Portugal, não o deixo. Aqui, temos uma cruz maior, louvado Deus”. E oferece o livro que publicara, “Claridades Divinas”.

Padre Belarmino na diocese de Florianópolis

Quando recebeu a carta do Deão de Portugal, Dom João Becker já tinha diante de si o Pe. Belarmino, que lhe causou a melhor impressão. Em 17 de março de 1910, prestou o exame de Moral perante Frei Nicodemos Grundhoff, OFM e os jesuítas Pe. Dr. Henrique Book e Pe. Dr. José Vargas. Foi aprovado com a recomendação de ser coadjutor ou cargo de menor responsabilidade. Era o início.

Foi logo provisionado Coadjutor da Catedral Nossa Senhora do Desterro e Vigário encomendado da Santíssima Trindade, onde trabalhou de 1º de agosto de 1910 a 1911, acumulando as Capelanias da Irmandade do Espírito Santo e do Asilo dos Órfãos de Florianópolis. De 22 de dezembro de 1911 a1914 permaneceu coadjutor da paróquia Nossa Senhora do Desterro, pedindo exoneração do cargo de Capelão da Irmandade do Espírito Santo.

Pe. Belarmino não era feliz: além da solidão longe da Pátria, num trabalho que não levava muito em conta sua competência, em 31 de dezembro de 1913 recebeu exoneração do cargo na Catedral e obteve provisão, a pedido, de celebrar, confessar e pregar. Desde 1912, Florianópolis estava sem bispo com a transferência de Dom João para Porto Alegre. Em 7 de setembro de 1914, assumiu Dom Joaquim Domingues de Oliveira, homem dado aos cânones e zeloso da vida dos padres. Pe. Belarmino, em 26 de dezembro de 1914, pediu a renovação da provisão de celebrar, confessar e pregar. Dom Joaquim concede, mas, impôs-lhe doutrina dominical às crianças, a prática da confissão ao menos quinzenal, e residência com sacerdote de confiança, ou mesmo nas casas religiosas da cidade, à sua escolha ou combinação.

Dom Joaquim não aceitou que o padre residisse em casa particular, dedicado apenas ao magistério. Difundiam-se comentários sobre a particular dele, certamente conhecidos e ignorados pelo bispo. A situação mudou quando, em 29 de janeiro de 1915, Dom Joaquim recebeu correspondência do Núncio Apostólico Dom Giuseppe Anversa, comunicando que um telegrama da Agência Americana aos jornais da Capital federal publicara: “O Padre Belarmino, residente nesta Capital, renegou os votos, constando estar de casamento contratado”.

A situação ficara insustentável. Em 6 de fevereiro Dom Joaquim lhe comunica que o padre foi suspenso a divinis e, em 12 de fevereiro de 1915, saiu o Rescrito de suspensão do uso de ordens. Pe. Belarmino Correia Gomes residia agora à Rua General Bittencourt, no centro da Capital catarinense, dedicando-se ao magistério e por todos julgado excelente e digno professor.

Cartas para a família

Pelo acaso que faz o pesquisador feliz, consegui através de Júlio Correia Gomes, sobrinho de Pe. Belarmino e residente em Lisboa, cópias do original de cinco cartas[6]. Depois, com o sobrinho neto Nuno Miguel Correia Guerreiro, também de Lisboa, dados preciosos e algumas fotografias, inclusive do padre. As cartas revelam a ligação afetuosa dele com sua mãe, os auxílios financeiros que lhe enviava com generosidade. A primeira carta tem a data de 8 de fevereiro de 1911 e a última, de 25 de fevereiro de 1925. Uma lacuna percebi e me causou estranheza: em nenhum momento Pe. Belarmino cita sua esposa e sua filha[7].

Maria Augusta Correia de Carvalho - mãe de Padre Belarmino

Maria Augusta Correia de Carvalho – mãe de Padre Belarmino

Na primeira Carta (8/2/1911) – todas são dirigidas à “Minha Mãe” – se refere à carta que recebeu de seu pai e comunica que tinha escrito ao primo Delfim convidando-o a vir para o Brasil, mas ressalvando que a colocação dependia da habilidade: “Isto por aqui está bom para os de cá; os de fora devem principiar a vida em creança!”. Enviou um retrato seu e, no mesmo dia um vale de 10.000 escudos, pouco mais ou menos, “para o José Maria entregar à minha mãe”. Em 10 de outubro de 1914, fala que passa por situação difícil, sem sobrar algum dinheiro para enviar à sua mãe, e isso já há 3 meses, mas está ajuntando um pouco para depois enviar. E com muito carinho fala de seu irmão Júlio, com 15 anos: “O Júlio tem 15 anos, e sem modo de vida. É uma tristeza. Aquilo que eu queria fazer a favor dele, eu achava bom; mas a minha mãe não quer”; e também de sua mãe: “Não deve trabalhar muito; ponha de parte tudo o que a cansar. Quando vier o frito agasalhe-se bem, para evitar constipações. Espero que a minha mãe obedeça ao que lhe peço, pois se assim fizer dará a todos muita alegria”.

Outra carta à “Minha Mãe” é de 10 de março de 1917, e fala dos problemas trazidos pela Guerra e dos poucos vapores entre Brasil e Portugal. Mesmo assim enviou dois vales de 10.000 escudos: “Não se lembre a minha mãe que o dinheiro que lhe mando me faz falta. Não. Graças a Deus ainda fico com mais”. Como Post Scriptum: “Agora o pai pode comprar um burro e dar-lhe a erva do lameiro da ponte”.

Nessa carta há uma indicação a ser seguida em pesquisas: “As senhoras Freitas recomendam-se muito, e cada vez que me escrever mande-lhe lembranças”. Estaria aí a referência à sua esposa?

Em 25 de fevereiro de 1925 escreveu à minha mãe e comunica o envio de letra de 130 escudos. O assunto principal é o inventário da família e seus custos: sua mãe tinha pedido ao Pe. Amândio 3 contos de réis e, para ajuda-la, faz proposta que se vendam as propriedades a que tem direito e o dinheiro lhe seja repassado e a suas irmãs que ainda estão em casa. Refere que seu pai também lhe escreveu que tem algum dinheiro e quer dividi-lo entre os filhos antes que alguém o roube. Pe. Belarmino sugere que abra Cadernetas em nome da mãe e de cada filho, ficando a metade para si, na condição de os filhos não retirarem nada antes de sua morte.

Além de atestar a generosidade de Pe. Belarmino, por que havia também a necessidade de enviar dinheiro à sua mãe? Aqui sirvo-me da tradição familiar portuguesa de narrar a história e recebi informação preciosa sobre sua família através do sobrinho neto Nuno Miguel Correia[8]:

Boa tarde Sr. Padre, estive a falar com a minha mãe e tenho mais algumas informações. O Padre Belarmino teve 9 irmãos: Manuel Correia Gomes, António Correia Gomes, Maria dos Anjos Correia Gomes, Cacilda Correia Gomes, Aurora Correia Gomes, José Correia Gomes, Júlio Correia Gomes, Maria das Dores Correia Gomes. A minha mãe disse que o pai do Belarmino era muito rico, era filho de fidalgos,que a maior parte dos terrenos da freguesia de São Pedro de France era da familia, eles moravam numa aldeia chamada Vil de Ferreiros. Era professor, homem de mão firme, não admitia que os filhos falhassem, dava aulas numa escola que ainda existe na aldeia de Cavernães, onde os filhos também andavam. Conta a minha mãe que quando os filhos se portavam mal nas aulas ou tinham más notas os castigava, as raparigas eram proibidas de estudar, ele dava-se mal com a esposa porque tinha amantes, e há uma história que o meu avô António Correia Gomes teve uma paixão por uma mulher, e estava para casar com ela mas o seu pai disse-lhe que não podia casar pois ela era sua irmã. Ele todo o dinheiro que tinha guardava e não dava nenhum à esposa. Já a mãe de Belarmino,veio de uma aldeia chamada Barreiros perto da Vila de Satão, sua familia também era muito rica, a minha mãe conta que o seu pai António Correia Gomes lhe disse que como prenda de casamento os pais da mãe de Belarmino lhe deram um burro com os alforges cheios de dinheiro, com o qual eles construíram a casa de família. Por isso penso que o Belarmino não se dava muito bem com o pai, vendo as coisas que ele fazia à sua mãe, e sabendo que ele não lhe dava dinheiro, Belarmino lhe enviava.

A última carta que tenho não traz data, mas deve ser depois de 1925, pois fala da morte de seu pai. Num trecho, diz: “Isto por aqui está uma miséria; até já pensei mudar-me para o Rio de Janeiro, ou para outra parte do Brasil maior do que Florianópolis, para assim poder auxiliar os meus irmãos com mais abundância. Deus fará o que melhor entender”.

O Professor Belarmino Correia Gomes

Casado desde 2014, Pe. Belarmino era conceituado professor. Nem sempre foi fácil elaborar o Curriculum desse tempo, pois as informações são desencontradas e as datas conflitantes, além da mudança de nome e finalidade por que passam as instituições educacionais no período. Tive de fazer escolhas, e me fundamentei no Almanaque publicado no período, no Rio de Janeiro[9] e em alguns históricos das mesmas instituições que pecam por data e nome. Desse modo, assim trabalhou Pe. Belarmino:

1914 – Professor de Psicologia e Pedagogia na Escola Normal. Aparece como padre.

1914 – Tesoureiro do Instituto José Brasil.  Antiga Escola de Aprendizes Artífices foi o núcleo inicial do Liceu de Artes e Ofícios.

(1917), embrião da atual Escola Técnica Federal de Santa Catarina.

1917 – Professor do Instituto Politécnico de Florianópolis.

1922 – Professor no Liceu de Artes e Ofícios.

1926 – Tesoureiro do Curso de Engenharia, Comércio, Odontologia e Farmácia (obs.: pertence ao Instituto Politécnico).

1930-1932 – Tesoureiro na 3ª. Diretoria do Instituto Politécnico de Florianópolis que, em 1931, constituiu a primeira Faculdade de Direito de Santa Catarina.

1931 – Lente Catedrático do Instituto Politécnico de Florianópolis, com o título de Doutor, tornando-se professor vitalício.

Atacado por cardiopatia, obteve aposentadoria em 1936.

Além da propriedade em que residia à Rua General Bittencourt, em 1933 Pe. Belarmino requereu um lote de Marinha na Praia da Saudade, em Coqueiros, então município de São José, requerimento positivamente deferido em 10 de maio de 1934[10].

Integrou a elite educacional do período[11].

O Professor Belarmino retorna ao Padre Belarmino

Pe. Belarmino continuou cristão e católico, manteve íntegra a fé. Aposentado desde 1936, percorreu o lento caminho de retorno à convivência na Igreja. Em 2 de junho de 1939, escreveu ao Cônego Harry Bauer, Vigário geral, congratulando-se pelo estupendo êxito do Congresso Eucarístico: “brilhante triunfo de nossa santa religião e irrefragável testemunho público da arraigada fé católica do povo catarinense e dos sentimentos de submissão e respeito ao nosso venerando pai e chefe espiritual, S. Exa. Rvma. D. Joaquim Domingues de Oliveira, preclaro Arcebispo Metropolitano”. Assina como Pe. Belarmino Correia Gomes.

Participou da vida religiosa católica no que lhe era possível, em nenhum momento dando motivo a escândalos. Aceitava a conseqüência de seus atos. Não gozava mais de boa saúde que foi declinando até leva-lo à morte, em 25 de setembro de 1944.

Nessa hora Dom Joaquim demonstrou o coração de bispo e pai, fazendo questão de defender a memória do Padre oferecendo-lhe solenes Exéquias. Não julgando isso suficiente, em nome da Arquidiocese fez publicar esta notícia em 27 de setembro de 1944, incluindo seu Testamento espiritual:

“Realizou-se ontem, às 16 horas o sepultamento do sr. Padre Belarmino Corrêa Gomes.O seu corpo foi transladado de sua residência à rua General Bittencourt, às 14 horas, para a capela mortuária do Hospital de Caridade onde esteve exposto até àquela hora. De Cruz alçada compareceu a Irmandade do Senhor dos Passos precedida de três sacerdotes que fizeram a encomendação do corpo presente. O corpo docente do Instituto de Educação do Estado e uma comissão de alunos do mesmo Instituto compare­ceram incorporados.

Depois do ofício litúrgico e outras solenidades religiosas, o revmo. Pe. Frederico Hobold, coadjutor do Vigário Geral do Arcebispado, usou da palavra enaltecendo as qualidades morais do saudoso sacerdote.

Sua Reverendíssima, que mereceu no início de seu sacerdó­cio justo renome de bom pregador, faleceu confortado com todos os sacramentos da Igreja, a que sempre se prezou de pertencer.

Apraz-nos publicar nestas colunas o documento por Sua Re­verendíssima lavrado e subscrito, iniludível expressão de sua última vontade:

Prevendo que se aproxima o instante decisivo, e com o pensamento voltado para a eternidade, encomendo a minha alma a Nosso Senhor, pedindo, com a maior sinceridade e interior arrependimento, perdão a Deus e aos homens de todos os meus pecados.

Por uma graça do céu, folgo em poder declarar que sempre aderi e adiro a toda e cada uma das verdades reveladas, e pro­clamo a santidade da disciplina da Igreja, sempre em tudo sábia, cujos santos sacramentos, adequados à minha situação moral e física, recebi das mãos abençoadas de seus ministros, constituindo, desde já, a minha maior consolação e também a minha maior esperança para a vida futura, que me espera.

            Florianópolis, 6 de setembro de 1944.

            (as) Padre Belarmino Corrêa Gomes”[12]

Pe. Belarmino viveu 63 anos. A solidão, uma espiritualidade não alimentada, longe da família nunca visitada desde 1910, fizeram Pe. Belarmino trilhar outros caminhos, até o reencontro com o primeiro amor de sua juventude, o sacerdócio[13].

Pe. José Artulino Besen

Notas:

[1] Alguns documentos referem a data de 1880. Prefiro 1881, pois estava com 22 anos ao ser ordenado em 1903.

[2] Excerto da Toada de Portalegre. Por curiosidade, encontrei o convite para uma promoção de Natal de 2011, da Santa Casa, onde se parece estar diante de outra língua: “Vamos estar na Praça da República e no 1º Piso do Parque de estacionamento de S. Francisco, junto ao CAEP. Aí confeccionaremos e estaremos a vender fritos e doces de Natal… Desde as filhoses, às azevias, passando pelos fritos de mogango e as fatias douradas… tudo acompanhado com cacau quente ou um cházinho de ervas da região. Vamos ainda expor os trabalhos dos nossos utentes em feltro e outros, que bem podem ser as prendinhas de Natal de última hora, a preços realmente convidativos, engraçados e únicos… com o selo da Santa Casa”.

[3] Dom Gaudêncio José Pereira (1830-1908), natural da diocese de Viseu, nomeado por Leão XIII a 22 de 22 de março de 1888 para a diocese de Portalegre, fez a transição do séc. XIX para o séc. XX e, para além da reforma do seminário diocesano, desenvolveu uma extensa atividade pastoral e de reestruturação do território eclesiástico. Faleceu em 2 de novembro de 1908.

[4] Nessa época não eram poucos os pedidos de padres portugueses para virem ao Brasil.

[5] Sempre admirei o “etc.” nas provisões episcopais, alguns acrescentando etc. etc. etc.: quantas glórias estariam modestamente ocultas nesses “etc.”?

[6] As cartas estão agora no acervo do Arquivo Histórico Eclesiástico de SC, em Florianópolis. A troca de cartas era no mínimo mensal até 1925, acontecendo que nem todas chegavam ao destinatário. Igualmente os emails que troquei com Júlio e Nuno Miguel, foram de auxílio inestimável, a quem faço aqui o mais penhorado agradecimento.

[7] A notícia da existência de uma filha me foi dada pelos parentes que contatei em Lisboa e que também gostaria de ter informações sobre eventual descendência.

[8] Em Dom 09/02/14 17:53, Nuno Miguel Correia Guerreiro nunoguerreiro3@hotmail.com escreveu.

[9] Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro – 1891 a 1940 – PR_SOR_00165_313394.

[10] Proc. 26.100-34, DOU 08/09/1933 Página 13 • Seção 01 – Deferimento: DOU 10/05/1934 pág. 13, seção 01.

[11] Em Jaguaruna, Santa Catarina, há um Colégio que em 1950 foi denominado – Curso Normal Prof. Belarmino Correia Gomes.

[12] O documento teve firma reconhecida no Tabelionato Brito, de Florianópolis.

[13] O Jornal A NOITE, do Rio de Janeiro, com data de 2 de outubro de 1944 tece elogios ao padre, mas, fala em filhos no plural, o que não parece ser verdadeiro: seria pai de uma filha. O mesmo artigo refere-se ao Pe. Belarmino como “tendo-se notabilizado como orador sacro de brilhantes recursos dialéticos e apologéticos”.

  1. #1 por Telmo José Tomio em 21 de outubro de 2014 - 10:03

    Muito bom, como sempre! Padre Besen, creio que há um erro de digitação quando fala do ano do casamento dele:

    O Professor Belarmino Correia Gomes

    Casado desde 2014, etc.

    Abraço,

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