3. As palavras da oração

Assim diziam os Pais: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”, completo; outros diziam a metade: “Jesus, Filho de Deus, tem piedade de mim”, que é mais fácil por causa da fraqueza do profundo do coração, pois ele não pode dizer, por si mesmo, em mistério sem o Espírito “Senhor Jesus”, se não o diz no Espírito Santo (cf. 1Cor 12,3) em pureza e perfeição, mas é como uma criança que ainda balbucia, incapaz de repetir a oração com todas as suas articulações. Não é necessário freqüentemente mudar as invocações por indolência, mas algumas vezes para possibilitar a continuidade. Ainda: uns ensinam a dizer a oração com a boca, outros com o profundo do coração; eu aprovo as duas maneiras. E, realmente, às vezes é o profundo do coração que não tem a força para dizê-la por causa da acídia, outras vezes a boca. Por isso, é necessário rezar com as duas maneiras, quer com a boca que com a profundeza do coração, e é necessário dizer a oração com paz e tranqüilidade, para que a voz não crie confusão e não impeça a percepção e a atenção do profundo do coração; e isso enquanto o profundo, habituado a essa atividade, não progrida e não receba força do Espírito para poder rezar com plenitude e força. Então, na verdade, não há necessidade de proferir palavras com a boca, e nem mesmo é possível: já é possível fazer todo o trabalho somente com as profundezas do coração.

Gregório Sinaíta, Como o hesicasta…,
vol. IV, p. 80).

A oração feita no interior do coração com atenção e sobriedade, como se disse, sem outros pensamentos, isso é, sem qualquer fantasia, através das palavras: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”, faz com que as profundezas do coração se dirijam imaterialmente e sem palavras rumo ao próprio Senhor Jesus Cristo que é recordado. Com o “tem piedade de mim” as profundezas do coração retornam sobre si mesmas, como se não suportassem não rezar por si mesmas. Progredindo no amor através da experiência, se orientam para o Senhor Jesus Cristo, tendo recebido plena certeza referente à segunda parte da oração.

Calixto e Inácio Xantopoulos,
Método 48

Do alto, do princípio da Divina Escritura teve início essa oração, e são os três corifeus, apóstolos do Senhor Jesus, que falaram as palavras da oração; refiro-me a Paulo, a João e a Pedro. Deles recebemos essas palavras como uma herança paterna; elas são oráculos divinos e revelações do Espírito Santo, vozes de Deus, pois nós cremos que as coisas ditas e escritas pelos divinos e pneumatóforos apóstolos são todas palavras de Cristo, que ele disse pela boca dos apóstolos. Assim como o Nosso Senhor no santo Evangelho fez essa promessa: que ele, o Filho, junto com o Pai e o Espírito Santo viriam morar em nós (cf. Jo 14,23), não somente nos apóstolos, mas também em cada cristão que observe seus mandamentos. Por isso, o diviníssimo Paulo, que foi considerado digno de subir ao terceiro céu (cf. 2Cor 12,2), disse ao Senhor Jesus: Ninguém pode dizer Senhor Jesus a não ser no Espírito Santo (cf. 1Cor 12,3)…

E o teólogo João, que com voz de trovão manifestou realidades espirituais e teológicas, assumiu isso com que Paulo termina, e dele fez o princípio dizendo: Todo o que confessa Jesus Cristo vindo na carne vem de Deus (Jo 4,2)…

E também Pedro, o corifeu dos apóstolos, tomou o final e fê-lo tornar-se o início, isto é, o Cristo. Quando Nosso Senhor interrogou seus discípulos: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Pedro disse: Tu és o Cristo, o Filho de Deus ((Mt 16,15-16), o que foi revelado pelo Deus e Pai do céu, como atesta Nosso Senhor no santo Evangelho (cf. Mt 16,17). Medita como esses três santíssimos apóstolos de Cristo, nas palavras que dizem, estão ligados um ao outro como numa corrente. Um toma do outro as mesmas palavras, de modo que a palavra que o primeiro diz como última, o segundo fá-la tornar-se o princípio e assim o terceiro, e formam essa oração, pois Paulo diz: “Senhor Jesus”, João: “Jesus Cristo”, e Pedro: “Cristo Filho de Deus”; forma-se, assim, uma corrente admirável e o final que é “Filho de Deus”, se encontra com o início que é “Senhor”. Não há nenhuma diferença entre o dizer “Senhor” e “Filho de Deus”, pois as duas expressões mostram a divindade do Unigênito Filho de Deus … Desse modo, os bem-aventurados apóstolos nos transmitiram o uso de dizer no Espírito Santo e de confessar: “Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus”.

Anônimo (Marcos Eugênico),
Discurso admirável, vol. V, pp. 63-64)

[Os nossos pais] atingiram tal elevado grau de virtude por meio do dulcíssimo nome de Jesus; todavia, a nós, principiantes e que ainda atingiram a perfeição, transmitiram o uso de dizer o “tem piedade de mim” por nenhum outro motivo que não para nós conhecermos a nossa medida, a nossa situação, e como temos necessidade da grande e rica misericórdia do Deus santo e sejamos como aquele cego de que fala o santo Evangelho (cf. Mc 10, 46-52); ele, desejoso de receber a luz dos olhos, gritava enquanto o Nosso Senhor passava ao lado e dizia: “Jesus, tem piedade de mim” (cf. Mc 10,47). Assim, também nós, como cegos na alma, suplicamos a Deus que nos mostre a sua misericórdia e que nos abra os olhos da alma para que o vejamos espiritualmente. Por isso os pais estabeleceram que disséssemos também “tem piedade de mim”.

E outros, querendo nesse amor também incluir o amor do próximo, dizem assim a oração: “Senhor Jesus Cristo, nosso Deus, tem piedade de nós”. E intercedem por todos os seus irmãos, pois sabem que o amor é a plenitude da Lei e dos Profetas (cf. Mt 22,40; Rom 13,10) e que é uma virtude que inclui todos os mandamentos e toda obra espiritual. Por isso, é também com o amor do próximo que eles vão ao encontro da oração  e suplicam Deus para que tenha misericórdia tanto deles como de seus irmãos e, desse modo, movem mais intensamente Deus para fazer misericórdia, porque o chamamos Deus comum, ou seja, Deus de todos nós, e por isso procuram nele a misericórdia geral que o Deus sumamente bom costuma ter por nós quando nos vê conservar a reta fé nos ensinamentos e a perfeição dos mandamentos nas obras. Ambas as coisas estão incluídas no breve versículo da oração “Senhor Jesus Cristo, Deus nosso, tem piedade de nós”.

Anônimo (Marcos Eugênico),
Discurso admirável, vol. V, pp. 66-67)

As palavras “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”, e mais brevemente “Senhor, piedade” foram doadas aos cristãos desde o tempo dos apóstolos e foi ordenado que os cristãos as digam sem cessar, como na realidade o fazem. Mas, na verdade, poucos sabem o que significa esse “Senhor, piedade”; todo dia o gritam inutilmente e – pobre de mim – em vão “Senhor, piedade” e não recebem a misericórdia do Senhor, porque não sabem o que pedem …

Os cristãos que, depois de terem recebido de Cristo seu Senhor tantos dons e tantos benefícios, de novo se deixaram enganar pelo diabo, se afastaram de Deus através do mundo e da carne, e foram dominados pelo pecado e pelo diabo de quem fazem a vontade, e que, contudo, não são tão insensíveis a ponto de não tomarem consciência do mal que fizeram, compreendem a sua culpa e reconhecem a escravidão em que foram jogados, mas não podem sozinhos libertar-se e recorrem a Deus, esses dizem: “Senhor, tem piedade”, para que o Senhor, no seu grande amor, os cubra com sua misericórdia e compaixão, os acolha como ao filho pródigo (cf. Lc 15,20), dê-lhes novamente a graça divina de modo que sejam libertados do pecado e se afastem dos demônios, recuperem sua liberdade, possam viver de modo agradável a Deus e guardar seus mandamentos. Os cristãos que dizem “Senhor, piedade” com esse objetivo querem seguramente receber a compaixão do Deus absolutamente bom, querem receber a sua graça para serem libertados da escravidão do pecado e serem salvos.

Anônimo (Marcos Eugênico),
Explicação, vol. V, pp. 69-70

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