Arquivo para categoria Espiritualidade

SANTA EDITH STEIN – A TEOLOGIA DA CRUZ

Edith Stein

“o que vale a pena possuir, vale a pena esperar”

Edith nasceu em Breslau, então Alemanha, hoje Polônia, em 12 de outubro de 1891, numa família de judeus praticantes, última e predileta de 11 irmãos. Foi Uma criança dotada e sensibilíssima e muito cedo pressentiu ser chamada a um grande futuro, mas não sabia qual.

A sua era uma família piedosa e praticante da fé judaica.

Pelos 14 anos, mergulhou numa crise existencial e negou-se a continuar os estudos: “Foi o período no qual perdi a fé de minha infância e comecei, como pessoa autônoma, a rejeitar qualquer orientação, com plena consciência e por livre escolha; e perdi o hábito de rezar”.

Em 1911, foi uma das primeiras mulheres a se inscrever na Universidade de Breslávia. Era uma apaixonada pesquisadora da verdade. Não admitia verdade que não pudesse ser demonstrada.

Seguindo para Göttingen, tornou-se predileta discípula de Edmund Husserl, o grande filósofo alemão da época. Frequentou o curso de fenomenologia: aprende o método de por-se objetivamente diante dos Fenômenos. Deu grandes passos em sua busca da verdade do ser.

Sua tese de doutorado teve como tema a EMPATIA. Essa implica no máximo de proximidade, sem identificar-se com o outro, mas respeitando-o na sua individualidade.

Edith começa novamente a intuir a realidade do mundo interior que desde pequena sempre percebeu em si, e que tinha negado.

Na grande GUERRA DE 1915-1918, ela mergulhou num período de desespero, uma dolorosa desconfiança em si mesma e nos meios racionais. Interrompeu os estudos por causa da guerra e pediu para ser admitida como enfermeira na Cruz Vermelha.

Em 1916 conseguiu a láurea e se tornou assistente de Husserl, mas em 1918 deixou o encargo, desiludida das próprias aspirações intelectuais.

Ela percebeu que muitos discípulos de Husserl se convertiam ao Cristianismo: ela aprendeu a “olhar as coisas sem preconceitos, sem óculos que tampassem a visão. Os preconceitos racionalistas caíram, e o mundo da fé se ergueu novamente diante de mim”.

Edith tinha reencontrado a fé de seus pais, a fé judaica, mas, algo lhe faltava que lhe desse o sentido do ato de crer.

Deus a encontrou onde menos seria esperado. Em 1921 visitava alguns amigos, onde passou a noite. Procurando um livro, encontrou o MINHA VIDA, de Santa Teresa de Jesus, de Ávila, sua autobiografia. Começou a devorá-lo, sem interromper a leitura. Ao concluir, fechou o livro e exclamou: ESTA É A VERDADE. Para Edith aconteceu o encontro definitivo com Cristo, após 4 anos de luta interior.

Descobriu ser habitada por um TU que procura o relacionamento com o nosso EU: Deus mora em nós, é nosso amigo. Reconhece na experiência mística de Santa Teresa a VERDADE tanto procurada. Seu ponto de partida não foi a busca de Deus, mas do homem e, contudo, deixou-se encontrar por Deus que nos busca a nós que o buscamos. O caminho do encontro é o caminho da oração: rezar é um encontro de amigos.

Naquela noite, Edith recolheu-se judia, e acordou-se católica. Transformada, recebeu o Batismo em 1º de janeiro de 1922.

Pelo fato de ser de sangue judeu, mesmo sendo brilhante, e também por ser mulher, Edith foi impedida de seguir na sua profissão de conferencista e professora.

Nuvens negras cobriam a Alemanha

O poder de Hitler e o nazismo rapidamente invadiam a Alemanha e anunciavam o trágico destino reservado ao povo judeu.

Em 14 de outubro de 1933, Edith realizou o desejo de ser recebida entre as Carmelitas Descalças de Colônia, obtendo a permissão de continuar escrevendo. No Carmelo, recebeu o nome de Irmã Teresa Benedita da Cruz. Em Deus tinha encontrado tudo.

A experiência vivida por ela e agora, por seu povo, indicavam o rumo: “É PRECISO SEGUIR A CRISTO PELO MESMO CAMINHO QUE ELE TRAÇOU: O CAMINHO PASCAL. O dom da vida, o dom do amor, feitos àqueles que estão no cansaço e na sombra da morte, constituem a obra que Cristo confiou aos discípulos, à Igreja” e a ela.

Santa Edith Stein, carmelita

O que fazer para impedir o avanço do nazismo e a perseguição contra os judeus?

Teresa Benedita quer fazer algo de concreto. Pensou num encontro com o Papa, mas apenas pode escrever-lhe uma carta. O Papa enviou uma bênção para ela e sua família.

Teresa Benedita interpretava a perseguição a seu povo como um ódio a Cristo, que também era judeu.

Do Carmelo, Teresa Benedita acompanhava o avanço da política de Hitler: “Uma luz particularmente viva iluminou o meu espírito: somente nesse momento tive a intuição que a mão de Deus ainda pesava sobre meu povo e que o destino desse povo era também o meu”.

Em 1938, para garantir a segurança do Carmelo de Colônia, aceitou ser transferida ao Carmelo do Echt, na Holanda. Mas, também ali a perseguição começou a ser sentida.

Em 1941, seus irmãos Frida e Paul, bem como a esposa e a filha deste são deportados para o campo de concentração de Theresienstadt, onde morrem em 1942.

Um acontecimento fez as coisas se precipitarem: em 20 de julho de 1942 foi publicada a Carta Pastoral dos bispos holandeses contra a perseguição aos judeus. Então, iniciou os procedimentos para refugiar-se na Suíça, e com ela, sua irmã Rosa, também convertida. E assim, Teresa Benedita e a irmã Rosa não tiveram tempo para sair da Holanda, e foram envolvidas pelo ódio da vingança nazista contra os católicos judeus.

Em seu Testamento deixou escrito: “Quero oferecer-me a mim mesma ao Coração de Jesus, em sacrifício de expiação pela paz verdadeira. Sei que sou um nada, mas Jesus o quer e que nestes dias não deixará de fazer o mesmo pedido a muitas almas”.

Em 12 de agosto de 1942 dois guardas das SS nazistas aprisionaram Teresa e sua irmã Rosa. Deixando o Mosteiro, Teresa Benedita disse a sua irmã: “Vem, nós andamos pelo nosso povo”.

A primeira parada foi o campo de Westerbork, no norte da Holanda. “Teresa estava pálida, mas calma, e consolava seus companheiros de provação” (de uma testemunha). Socorria as crianças abandonadas pelas mães enlouquecidas pela dor. “Respondia a cada sofrimento com paciência infinita, com imenso amor” (id).

Três dias antes de sua morte, tinha dito: “Aconteça o que acontecer, estou preparada. Jesus está aqui conosco”. Foi com grande força interior que Teresa Benedita subiu no trem da morte, diretamente para Auschwitz-Birkenau. Era o dia 7 ou 8 de agosto de 1942.

Com toda probabilidade, Teresa Benedita e sua irmã Rosa foram mortas numa câmera da gás e imediatamente cremadas após sua chegada, em 9 de agosto de 1942.

Ela tinha afirmado: “o que nos salvará não serão as realizações humanas, mas a paixão do Cristo, na qual quero ter parte””. Edith Stein havia compreendido a ciência da cruz, por assim dizer, buscando o significado da verdade.

“Para onde Deus nos conduz, não sabemos. Apenas sabemos que ele nos conduz”.

“Quem espiará o que acontece ao povo judeu, em nome do povo alemão? Quem transformará essa culpa abominável em bênção para os dois povos?”.

“Também o caminho da fé é um caminho obscuro”.

“Devemos colocar-nos nas mãos de Deus sem garantias humanas, na certeza de sermos guardados por ele”.

São Maximiliano Kolbe e Santa Edith Stein – mártires do nazismo

SANTA TERESA BENEDITA DA CRUZ – SANTA EDITH STEIN

  • Em 4 de janeiro de 1962, em Colônia, tem início  o processo de beatificação.
  • Em 1º de maio de 1987,  Teresa é beatificada em Colônia pelo papa João Paulo II.
  • Em 11 de outubro de 1998, Teresa é canonizada pelo papa João Paulo II.
  • Em seguida é proclamada Padroeira da Europa. A Igreja celebra sua festa em 9 de agosto.

PALAVRAS DOS ESCRITOS ESPIRITUAIS DE SANTA EDITH STEIN

“Saudamos-te, Cruz santa, nossa única esperança!”, assim a Igreja nos faz dizer no tempo da paixão, dedicado à contemplação dos amargos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O mundo está em chamas: a luta entre Cristo e o anticristo encarniçou-se abertamente, por isso, se te decidires por Cristo, pode te ser pedido também o sacrifício da vida.

Contempla o Senhor que pende do lenho diante de ti porque foi obediente até a morte de Cruz. Ele veio ao mundo não para fazer a sua vontade, mas a do Pai. Se queres ser a esposa do Crucificado deves renunciar totalmente à tua vontade e não ter outra aspiração senão a cumprir a vontade de Deus.

À tua frente o Redentor pende da Cruz despojado e nu, porque escolheu a pobreza. Quem quer segui-lo deve renunciar a toda posse terrena. Estás diante do Senhor que pende da Cruz com o coração despedaçado; Ele derramou o sangue de seu Coração para conquistar o teu coração. Para poder segui-lo em santa castidade, o teu coração deve ser livre de toda aspiração terrena; Jesus Crucificado deve ser o objeto de todo o teu anseio, de todo o teu desejo, de todo o teu pensamento.

O mundo está em chamas: o incêndio poderia pegar também em nossa casa, mas, acima de todas as chamas, ergue-se a Cruz que não pode ser queimada. A Cruz é o caminho que conduz da terra ao céu. Quem a abraça com fé, amor e esperança é levado para o alto, até o seio da Trindade.

O mundo está em chamas: desejas extingui-las? Contempla a Cruz – do Coração aberto jorra o sangue do Redentor, sangue capaz de extinguir também as chamas do inferno. Através da fiel observância dos votos, torna o teu coração livre e aberto; então, poderão ser despejadas neles as ondas do amor divino; sim, a ponto de fazê-lo transbordar e torná-lo fecundo até os confins da terra.

Através do poder da Cruz, podes estar presente em todos os lugares da dor, em toda parte para onde te levar a tua compassiva caridade, aquela caridade que haures do Coração divino e que te torna capaz de espargir, por toda parte, o seu preciosíssimo sangue para aliviar, salvar, redimir.

Os olhos do Crucificado fixam-te a interrogar-te, a interpelar-te. Queres estreitar novamente com toda seriedade a aliança com Ele? Qual será a tua resposta? “Senhor, aonde irei? Só tu tens palavras de vida”.


Pe. José Artulino Besen

Anúncios

1 comentário

SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Jesus revela seu Coração a Santa Margarida

O Filho de Deus veio ao mundo para revelar o amor de Deus Pai por todas as criaturas, sem perder nenhuma. Veio trazer-nos a mensagem da paternidade divina em sua infinita bondade e compaixão. É essa a mensagem central da Sagrada Escritura: Deus é amor.

Houve períodos da história cristã em que o acento da fé e da vida recaíram no medo de Deus, na justiça divina mais como vingança por nossos erros do que como justiça que nos faz justos gratuitamente.

Nessas horas o Senhor desperta homens e mulheres e lhes dá a graça de sentirem sua misericórdia, anunciando-a pela vida e pela palavra. No século 20 conhecemos a mensagem extraordinária da Divina Misericórdia através de Santa Faustina, que trouxe para a Igreja uma poderosa corrente de confiança no Senhor que nos salva. Também conhecemos a vida de São Padre Pio, que fez do confessionário sua tribuna.

O século XVII espalhou pelo mundo uma devoção, a maior e mais legítima devoção cristã: ao Sagrado Coração de Jesus. Foi numa época em que prevalecia o rigorismo cristão, a busca da salvação pelas obras e pela penitência. O Senhor manifestou a devoção ao Sagrado Coração a uma jovem religiosa, Santa Margarida Alacoque e usou como canal a Companhia de Jesus.

Margarida nasceu no dia 22 de Agosto de 1647 em Verosvres, na Borgonha (França). Seu pai, Claudio de Alacoque, juiz e tabelião, morreu quando Margarida ainda era muito jovem, forçando ela e a mãe a irem morar com um tio e junto a parentes que lhes fizeram conhecer a humilhação da necessidade, parentes pouco generosos e nada propensos a consentir que ela realizasse o seu desejo de ingressar no convento.

Depois foi internada no pensionato das religiosas clarissas, iniciando uma vida de sofrimento que soube orientar para Deus: “Sofrendo entendo melhor Aquele que sofreu por nós”. Uma enfermidade forçou-a a viver acamada por quatro anos. Foi curada pela intercessão da Virgem Maria.

Na festividade de São João Evangelista de 1673, moça de vinte e cinco anos, irmã Margarida Maria, recolhida em oração diante do Santíssimo Sacramento, teve o singular privilégio da primeira manifestação visível de Jesus, que se repetiria por outros dois anos, toda primeira sexta-feira do mês. Margarida passou a viver em intensa intimidade com o Senhor, que lhe mostrava o Coração.

Em 1675, durante a oitava do Corpo de Deus, Jesus manifestou-se-lhe com o peito aberto e, apontando com o dedo seu Coração, exclamou:

Eis o Coração que tem amado tanto aos homens a ponto de nada poupar até exaurir-se e consumir-se para demonstrar-lhes o seu amor. E em reconhecimento não recebo senão ingratidão da maior parte deles“.

Segundo seu testemunho, o Coração estava rodeado de chamas de fogo, coroado de espinhos, com uma ferida aberta da qual corria sangue e de cujo interior brilhava uma luz.

Meu divino Coração está tão apaixonado de Amor pelos homens, em particular por ti, que, não podendo conter nele as chamas de sua ardente caridade, é necessário que as derrame valendo-se de ti, e a eles se manifeste para enriquecê-los com os preciosos dons que te estou revelando, os quais contém as graças santificantes e salutares necessárias para separá-las do abismo de perdição. Te escolhi como um abismo de indignidade e de ignorância, para que tudo seja obra minha”.

A difusão da obra de Santa Margarida

Sendo mulher e mística e religiosa, Margarida foi muito incompreendida no seu ambiente e também na Igreja local que julgava as aparições “fantasias” místicas, “coisas de mulher”. Opinião diferente teve o jesuíta São Cláudio de la Colombière, profundamente convencido da autenticidade das aparições. Tornado diretor espiritual dela, buscou não só defende-la, mas também propagar a espiritualidade do Sagrado Coração.

Margarida progrediu na santidade pessoal, na vida comunitária e teve a alegria de ver a difusão da devoção do Sagrado Coração, nos séculos seguintes assumida pela Igreja, pelos Papas. A Associação do Apostolado da Oração, nascida para a vivência da misericórdia divina se espalhou pelo mundo, congregando atualmente 35 milhões de pessoas. Assumida pelas padres jesuítas, a cada mês os associados se unem ao Papa que lhes confia uma Intenção Geral e uma Intenção Missionária.

O Catecismo na Igreja Católica (§478 ) assim se expressa:

“Jesus conheceu-nos e amou-nos a todos durante sua Vida, sua Agonia e Paixão e entregou-se por todos e cada um de nós: “O Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim” (Gl 2,20). Amou-nos a todos com um coração humano. Por esta razão, o sagrado Coração de Jesus, traspassado por nossos pecados e para a nossa salvação, – é considerado o principal sinal e símbolo daquele amor com o qual o divino Redentor ama ininterruptamente o Pai Eterno e todos os homens”.

Margarida Maria de Alacoque faleceu em 17 de Outubro de 1690, aos 43 anos de idade. Foi canonizada pelo Papa Bento XV em 1920.

Difundiu e ajudou a difundir as 12 Promessas do Sagrado Coração de Jesus, alimento seguro de milhões de devotos.

  1. Dar-lhes-ei todas as graças necessárias ao seu estado de vida.
  2. Estabelecerei a paz nas suas famílias.
  3. Abençoarei os lares onde for exposta e honrada a imagem do Meu Sagrado Coração.
  4. Hei-de consolá-los em todas as dificuldades.
  5. Serei o seu refúgio durante a vida e em especial na hora da morte.
  6. Derramarei bênçãos abundantes sobre todos os seus empreendimentos.
  7. Os pecadores encontrarão no Meu Sagrado Coração uma fonte e um oceano sem fim de Misericórdia.
  8. As almas tíbias tornar-se-ão fervorosas.
  9. As almas fervorosas ascenderão rapidamente a um estado de grande perfeição.
  10. Darei aos sacerdotes o poder de tocarem os corações mais empedernidos.
  11. Aqueles que propagarem esta devoção terão os seus nomes escritos no Meu Sagrado Coração e d’Ele nunca serão apagados.
  12. Prometo-vos, no excesso de Misericórdia do Meu Coração, que o Meu Amor Todo-Poderoso concederá, a todos aqueles que comungarem na Primeira Sexta-Feira de nove meses seguidos, a graça da penitência final; não morrerão no Meu desagrado nem sem receberem os Sacramentos: o Meu Divino Coração será o seu refúgio de salvação nesse derradeiro momento.

“Do vosso lado aberto a Igreja nasceu, e dos Sacramentos a fonte correu” – assim cantava um antigo hino religioso, afirmando o nascimento da Igreja pelo Coração aberto do Senhor, donde brotaram o Batismo e a Eucaristia, a água e do sangue.


Pe. José Artulino Besen

3 Comentários

A TRINDADE SANTÍSSIMA – NOSSO DEUS

Domínio Público, via Wikipédia*

“É absurdo e impróprio pintar em ícones a Deus Pai com barba cinza e o Filho Unigênito em seu seio com uma pomba entre ambos, posto que ninguém viu o Pai segundo a Sua Divindade, que o Pai não tem carne […] e que o Espírito Santo não é, em essência, uma pomba, mas, em essência, Deus” (Grande Sínodo de Moscou, 1667).

Esta decisão da Igreja Ortodoxa Russa condenou a tendência de artistas russos que, de certo modo, estavam imitando a arte ocidental, deixando de lado os princípios canônicos que determinavam a forma e o conteúdo dos ícones. E, a Rússia já tinha oferecido à Igreja o ícone da Trindade Santíssima por obra do monge Andrei Rublev (1360-1430), e que se tornou modelo para os outros ícones. Rublev, canonizado pela Igreja russa em 1988, para sua obra prima teve seus dias de pura inspiração e, quando apresentou aos monges o ícone da Trindade, provocou um puro assombro: estavam diante de algo divino, jamais concebido por artista humano, e prorromperam num hino de louvor ao Deus Trindade, cuja beleza ninguém podia imaginar, mas que se revelara ao monge Rublev, na igreja do Mosteiro da Santíssima Trindade de Moscou.

A Trindade é um mistério – e sempre o será nesta terra. Às vezes, porém, nos são concedidos vislumbres da vida divina, e o ícone de Rublev nos permite espreitar brevemente por trás do véu que oculta o mistério.

Após prolongado jejum e oração, encontrou a inspiração no texto sagrado, em Abraão junto ao carvalho de Mambré e recebendo a visita de três homens: Leia o resto deste post »

2 Comentários

A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

menina-com-cancer

Esperávamos a paz, e construímos uma década de violência, de guerras. Países em guerras fratricidas no mundo árabe da Síria, do Iraque, do Oriente médio. Nações africanas em guerras internas, cujo único objetivo é a garantia do poder e do domínio sobre riquezas e populações. Em nosso mundo latino-americano sofremos a guerra pelo tráfico e pelos pontos de drogas. Nos países ricos assistimos a outra guerra, a da rejeição dos migrantes, dos fugitivos do mundo conflagrado que diariamente tentam encontrar novo chão, nova pátria, e encontram a expulsão, o desprezo a deportação.

Milhares de famílias abandonam sua terra e seus bens e atravessam fronteiras esperando alguma acolhida, mas são acolhidas pela ordem de retorno ao lugar nenhum, pela deportação. São consideradas peso morto, ameaça ao conforto dos países ricos. As famílias deixam de ser famílias: são mães abandonadas, crianças fugindo pelas estradas e ruínas, homens tentando salvar algum coisa, jovens deserdados da esperança. As imagens geradas por esses dramas quase não comovem, pois  a violência continua e as ruínas aumentam com destruições sempre maiores.

Mas, sem dúvida, o que mais nos fere são as imagens das crianças, das quais se rouba a infância e que são marcadas a ferro pelo vírus da violência, a ponto de não conhecer outro tipo de vida. Apesar disso, as crianças brincam, jogam bola, as meninas se fazem de professoras, realizando o milagre da  vida mas injetando no coração o sentimento da violência, pois foi isso que sempre viram e sentiram. Leia o resto deste post »

2 Comentários

ATEÍSMO, OU FAZER TEOLOGIA TOMANDO CHÁ

Os pobres - Vincent Van Gogh

Os pobres – Vincent Van Gogh

Foi no ano 2000. Dom Luciano Mendes de Almeida estava tomando um cafezinho e alguém lhe perguntou sobre a Igreja hoje. Sua resposta pronta: o problema é que aumentaram os teólogos e cada vez mais faltam teólogos santos. Essa lembrança me conduz a outra, à afirmação de Evágrio Pôntico, mestre de espiritualidade: “Se és teólogo, rezarás de verdade. Se rezas de verdade, és teólogo”. Um grande teólogo, portanto, é um grande mestre de espiritualidade e, também, a velhinha que passa o dia rezando, percorrendo as contas do rosário, é verdadeira teóloga.

A teologia é luz, a oração é fogo: o fogo gera a luz, a oração gera a teologia. Unindo as duas temos a união da inteligência e do coração.

Numa de suas meditações na Missa matutina em Santa Marta, Francisco se referiu às igrejas que, estando fechadas, não permitem ninguém entrar e o Senhor, que está dentro, não pode sair (17 de outubro de 2013). A inspiração lhe veio da palavra do Senhor: “Ai de vós, doutores da Lei, porque ficastes com a chave da ciência: vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que queriam entrar” (Lc 11, 52). Os fariseus, doutores da Lei e sacerdotes julgavam que a chave do Templo lhes pertencia porque somente eles conheciam o sentido da Lei, da Torá. Achavam Jesus insuportável, pois não tinha passado pela escola rabínica e andava ensinando ao povo o caminho do Senhor. Sempre que podiam, o escorraçavam. A diferença entre eles e Jesus era que eles possuíam, de fato, o conhecimento, mas, em Jesus, o conhecimento do Pai era gerado pela oração, pela intimidade com ele. Jesus tinha o fogo.

De certo modo, as situações podem se repetir, e as vítimas são os pobres e os humildes que vivem uma fé simples como a de Jesus. Temos, sempre mais em abundância, os doutores que fazem teologia tomando chá, que fazem da teologia um meio de aumentar patrimônio, um modo de ganhar a vida. Conseqüência: a teologia se perverte em conhecimento, palavra é transformada em vaidade, passa a ser ideologia e se reduz a um repelente: espanta, afugenta o povo e distancia a Igreja do povo.

Os moralistas e teólogos ideologizados ficam às portas das igrejas para ver quem está preparado, isto é, quem está atualizado, moderno e pode afirmar que é cristão consciente. E ali, os pobres e humildes, os primeiros destinatários da Palavra, não têm vez, porque os doutores e mestres pastoralistas guardam a chave no bolso e cuidam para que a porta esteja fechada aos não entendidos, aos que não receberam “formação”. Agem diferente da ordem de Jesus: ide por todas a ruas, esquinas, trazei para dentro a todos, bons e maus.

Sua palavra forte é “conscientizar”, ensinar a agir, colocando no coração dos pobres e humildes que eles têm apenas superstição, tradição, necessitam de conscientização, isto é, sejam conduzidos a viver não seguindo Jesus, mas dominados por uma leitura da vida de Jesus. Serão salvos pelo conhecimento, pelos estudos.

A oração, causa e sustento da fé e da vida cristã

Numa conferência sobre a religiosidade popular, proferida em janeiro de 1976, Leonardo Boff afirmou que a teologia verdadeira é feita a partir dos devocionários populares da geração anterior, e uma teologia popular é a reflexão da vida de oração dos humildes. Na casa do pobre podemos não encontrar livros de teologia, mas, descobriremos antigos devocionários, com capas ensebadas porque milhares de vezes manuseadas pelas mãos trabalhadoras de mães e pais.

Papa Francisco, na Vigília de Pentecostes de 2014, no Encontro com os Movimentos, comentou sua palavra de que gostaria de uma “Igreja pobre e para os pobres”, e explicou que basta “sair para encontrar a pobreza”. Lamentou que hoje em dia encontrar um mendigo morto de frio ou fome pela rua já não seja uma notícia … Criticou aqueles que permanecem indiferentes a esta realidade, especialmente aqueles cristãos “que falam sobre teologia, enquanto tomam chá”. E completou: não precisamos de “cristãos de salão” neste momento na Igreja.

Esse tipo de cristãos iluministas, adeptos da higienização da fé, é fruto de um processo mental: transformar a fé cristã numa ideologia: não se é levado a ser discípulo de Jesus, mas ser um estudioso de Jesus. Não lhes interessa o Jesus encarnado de Nazaré, sua ternura, sua mansidão. É um caminho para o ateísmo, porque transforma a fé num modo de pensar, o anúncio em argumento.

Já no início do Cristianismo a Igreja sentiu o perigo do gnosticismo, das pessoas que preferiam o conhecimento à fé e se tornavam rígidos moralistas, sem a ternura tão característica de Jesus. A eles o apóstolo João ensinou: “o que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam da Palavra da Vida,… nós vimos, testemunhamos e anunciamos” (cf. 1Jo 1, 1-4).

Por que tantas lideranças cristãs, bispos, padres, líderes e teólogos foram tomados por essa fixação na organização?  Francisco afirma, com muita simplicidade que, hoje, a causa disso é que o cristão não reza: “A chave que abre a porta da fé é sempre a oração e, quando não há a oração, sempre fechamos a porta”.

Podemos repetir que a teologia é luz, a oração é fogo. É o fogo que gera a luz, é o fogo da oração que torna o teólogo lâmpada a iluminar os passos dos crentes. Sem a oração, morre em nós a humildade, sentimo-nos mestres e doutores, superiores ao povo, nosso testemunho se torna testemunho soberbo e orgulhoso. Passamos a buscar a glória pessoal, nossa promoção.

Quem reza não se afasta da fé. O Senhor pediu que nunca parássemos de orar a fim de não perdermos a fé. Permanecendo humildes, teremos consciência de que a porta é o Senhor. Se somos evangelizadores, agentes de pastoral sem oração intensa, seremos apenas profissionais do Evangelho distraindo do caminho do Senhor em vez de sermos testemunhas do Senhor. O mundo necessita de testemunhas da fé, não especialistas em fé. Há tanta teologia na vida dos humildes quanto nos teólogos que dobram os joelhos.

Pe. José Artulino Besen

5 Comentários

%d blogueiros gostam disto: