PADRE EVALDO PAULI

Filósofo e Historiador

Evaldo Pauli - em 1994, na Academia Catarinense de Letras

Evaldo Pauli – em 1994, na Academia Catarinense de Letras

Evaldo Pauli nasceu em Antônio Carlos, então distrito de Biguaçu, em 24 de fevereiro de 1925, o mais velho numa família de 14 irmãos, filho de Silvestre Pauli e de Clara Maria Reitz. Sua mãe era irmã dos Padres Afonso, João e Raulino Reitz.

A vila em Antônio Carlos era essencialmente agrícola, de modo que aos jovens desejosos de seguirem outros caminhos sobrava como escolha o seminário, para onde se dirigiam ou para serem padres ou para estudar. Evaldo sempre falou a respeito dessa sua escolha: estudar. Por força das circunstâncias, ficou padre. Foi muito difícil o ingresso no Seminário, conforme contava. De um lado queria estudar e, de outro, não se sentia chamado ao sacerdócio. Seu pai, Silvestre, vendo seu pouco gosto pelo trabalho agrícola, tomou a decisão de confiá-lo ao tio, Pe. Dr. João Reitz, cura da catedral de Florianópolis, a fim de que lhe desse orientação. Assim, mesmo a contragosto, foi residir em Florianópolis e durante um ano estudou no Colégio Coração de Jesus. Ao final, Pe. João concluiu: o próximo passo é ir para o seminário.

Ingressou no Seminário Menor de Azambuja, em Brusque, em 1936, com 11 anos, ali cursando o ginasial e o clássico, seguindo depois para São Leopoldo, realizando os estudos filosóficos e teológicos, de 1943 a 1949.

Em São Leopoldo, era entusiasmado pelos estudos neo-escolásticos naquilo que tinham de mais básico e prático para as ciências aplicadas, como pedagogia e sociologia. Cumpria com seriedade os deveres de oração e vida comunitária, mas sua realização pessoal era o estudo filosófico. Em 1947 participou de grupo de estudos sobre “A nova orientação filosófica do Brasil”. Notando sua aptidão para a lógica e metafísica, Dr. Álvaro Magalhães, diretor da Faculdade de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do RS, pediu para publicar o fruto de seu estudo no “Jornal do Dia”, periódico católico. Como era de seu dever, em 20 de outubro escreveu ao arcebispo metropolitano Dom Joaquim Domingues de Oliveira, pedindo licença para a publicação, e obteve resposta positiva.

Evaldo Pauli - em 1936, aos 11 anos, quando ingressou no Seminário

Evaldo Pauli – em 1936, aos 11 anos, quando ingressou no Seminário

Nas férias de 1948, com seu tio Pe. Raulino Reitz, já embrenhado nos estudos e pesquisa botânica, viajou ao Rio de Janeiro, pois estava interessado na pesquisa sobre a História Eclesiástica de Santa Catarina. Teve oportunidade para pesquisar nos Arquivos da Cúria metropolitana do Rio, que estavam em organização, e contou com a orientação de seu diretor, Pe. Dr. Maurílio César de Lima.

Em 18 de março de 1948 escreveu ao Arcebispo comentando seu gosto pela filosofia, que continuava a estudar mesmo cursando a teologia. Em 28 de julho do mesmo ano preparou um texto que gostaria de apresentar no Primeiro Congresso Catarinense de História quando, praticamente pela primeira vez, historiadores e pesquisadores mergulharam na história catarinense, principalmente no estudo da imigração açoriana do século XVIII. Dom Joaquim respondeu em 11 de agosto, aprovando o projeto, mas ressaltando que o submeteria à sua revisão e depois o repassaria ao Desembargador Henrique Fontes. O texto foi aproveitado no Anuário da Arquidiocese de Florianópolis, em 1952, podendo-se dizer que foi, mesmo na sua brevidade, o primeiro texto de história eclesiástica catarinense, trazendo de forma fundamentada a criação das paróquias na Colônia e no Império, com maior exatidão de datas.

No ano seguinte, em 7 de abril de 1949, crescendo no gosto pelo estudo e pela escrita, encaminhou ao Cônego Frederico Hobold, então pró-vigário geral de Florianópolis, dois trabalhos: “Novos Rumos” e “Adorar”, textos de espiritualidade que já estão a revelar sua superação de qualquer devocionismo. Preocupado com um estudante que escreve muito, Côn. Frederico responde com a pergunta preocupada: estaria estudando bem a Teologia?

Padre e serviço pastoral

Estudos completados, em 4 de dezembro de 1949 foi ordenado padre na Catedral de Florianópolis juntamente com Tarcísio Marchiori e Raimundo Ghizoni. Anos mais tarde, ao comentar este dia, normalmente tão feliz e grandioso, não esconde a angústia que vivia: o tempo e o estudo estavam completados, mas sua vocação era o sacerdócio? Quase por força da inércia, deu o passo com muito sofrimento. Na hora da imposição das mãos por Dom Joaquim, fez uma reserva mental sobre suas dúvidas, aceitando ser ordenado sem convicção a respeito do passo dado. Pe. Evaldo não sentiu a felicidade de um neo-sacerdote, sendo fato indicativo não ter adquirido e guardado fotos da celebração. Recaía sobre ele a influência da família, da arquidiocese e, sobretudo, dos três tios padres João, Afonso e Raulino.

Em 15 de janeiro de 1950 saiu provisão que o nomeava vigário paroquial de Santo Antônio de Pádua de Sombrio, cujo pároco era o tio Cônego João Reitz. Cumpria com seus deveres, e continuava a escrever. Em 29 de maio de 1950 envia correspondência à Cúria Metropolitana pedindo aprovação para um opúsculo seu, “Oração integral”, cujo último capítulo versava sobre a “Medianeira”, Maria mediadora universal de salvação. Dom Joaquim – e outros padres – não viam com bons olhos um padre recém-ordenado e já escrevendo, emitindo idéias. Não seria melhor que se contentasse em confessar, celebrar e pregar?

Em 9 de junho de 1950, Pe. Evaldo ajudou a fundar um jornal católico em Araranguá e pede a Mons. Frederico para que os seus artigos possam ser publicados com o “placet” do tio Côn. João Reitz. A Cúria respondeu em 19 de junho, com ordem de suspender logo o projeto, sine die. Aconselha-o a dedicar-se mais aos serviços pastorais, à administração dos Sacramentos. Não temos informações claras a respeito de uma dúvida: o tio Pe. João o apoiava ou trabalhava contra esse sobrinho irrequieto e capaz de reflexão? Teria pedido sua transferência?

De fato, foi transferido: nomeado vigário paroquial de Santo Antônio dos Anjos de Laguna em 25 de novembro de 1950, onde foi cumpridor dos deveres pastorais e mergulhava noite adentro para estudar e escrever.

Em 15 de março de 1952, encaminhou à Cúria o artigo a ser publicado em A GAZETA, com o título “Sociologia teórico-prática”, escrito a pedido do jornalista Martinho Calado Jr. No mesmo ano, em 23 de junho, enviou mais dois trabalhos, sob o título “A terceira posição política”. O Vigário geral parabenizou-o pelo esforço, mas acha que é bom dar uma parada, para adquirir reflexão e experiência mais maduras. Em 18 de outubro de 1952, Mons. Frederico acusa recebimento das “Efemérides”: fez revisão, pede que Pe. Evaldo corrija e devolva para outra revisão. Foi um trabalho muito bom, fruto de sua participação no Primeiro Congresso Catarinense de História. Publicado pela Arquidiocese, constituiu-se em ótimo subsídio para o conhecimento da Igreja na Arquidiocese.

Pároco na Trindade – alegrias e tristezas

De 12 de janeiro de 1953 a 01 de março de 1962, Pe. Evaldo inicia e encaminha um outro itinerário em sua vida: vigário encarregado da Santíssima Trindade e anexas, na Ilha de Santa Catarina. O “anexas” engloba as antigas freguesias da Ilha, como Lagoa da Conceição, Santo Antônio de Lisboa, Canasvieiras, Rio Vermelho e Ribeirão da Ilha, desativadas por falta de padres que as atendessem. Finalmente, com a chegada dos Freis Capuchinhos à Trindade, de 1962 a 1967, foi pároco de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão da Ilha, com residência na Trindade. Uma área imensa, pobre, vivendo profundamente o catolicismo popular com suas devoções, irmandades e procissões.

A fim de ter maior tranqüilidade para os estudos e ficar mais próximo da Universidade Federal de Santa Catarina, de 1959 a 1967 residiu na Trindade, na Casa das Irmãs da Divina Providência.

Pe. Evaldo alimentava bom relacionamento com o povo, pois era bom de conversa e gostava de instruir as pessoas. Já com as Irmandades, especialmente da Trindade, a história era outra. Por razões históricas, o catolicismo popular era de matriz laical e as igrejas tinham na Irmandade a administração e promoção de festas. Isso significava que o pároco não tinha voz na esfera administrativa, mesmo percebendo certos costumes e caprichos, especialmente despesas não controladas, o que despertava o zelo organizativo de Pe. Evaldo, ainda jovem sacerdote, nas primeiras experiências de administração paroquial. Especialmente o irritava que as receitas das festas eram depositadas em nome da Irmandade, e a paróquia continuava com dificuldades financeiras.

Em 14 de julho de 1953, no intuito de publicar seus trabalhos, registrou a firma de publicidade AGÊNCIA VERITAS, com sede na Trindade, de sua propriedade, com capital de 1.000 cruzeiros, registrada sob o número 21.662, em sessão de 14 de julho de 1953. Foi motivo para conflitos com a autoridade eclesiástica, que não admitia um padre com tamanha liberdade.

Foi duro o conflito que enfrentou com a Diretoria do Clube “Associação Desportiva Trindadense”, vizinha à igreja matriz, que tinha marcado baile para a festa da Santíssima Trindade. Escreveu a Dom Frei Felício César de Vasconcellos, arcebispo coadjutor, em julho de 1959, acusando a Diretoria da Irmandade pela afronta. Machucou-o muito quando, em 17 de agosto de 1962, foi publicado no O ESTADO uma sátira intitulada “As Três Pessoas”, com a finalidade de desacreditar o trabalho dele quando à frente da Paróquia da Trindade. Como prova de sua irritação, no dia 19 escreveu ao Arcebispo renunciando ao cargo de vigário do Ribeirão da Ilha. Dom Joaquim responde no dia 21, admirado com a autoridade com que Pe. Evaldo renuncia ao ministério paroquial, ironicamente louva-o pela coragem pessoal e, no final, acrescenta que, se o padre pode renunciar por conta própria, o arcebispo também pode aplicar o Cânon 2399 do Código de Direito Canônico, ou seja, suspendendo-o a divinis, ou seja, do exercício do ministério. Pe. Evaldo sentiu o golpe, e retomou o paroquiato.

Para surpresa de Dom Joaquim, o Jornal A GAZETA, de 23 de dezembro de 1956, publicou a nominata do Diretório Regional do Partido Democrata Cristão-PDC, tendo Evaldo Pauli como 5º secretário. Acontece que em 2 de janeiro de 1956 tinha sido publicado pela Cúria um AVISO com a determinação de que os padres não ocupassem postos nem se envolvessem com política partidária, conforme o 2º Sínodo Arquidiocesano, art. 20, no. 1. Com a repreensão da Cúria, o assunto morreu por ali.

Professor e escritor – a renúncia ao ministério

Ingressando em novo campo de atividade, agora filosófica, em 15 de novembro de 1954 pediu licença para ler a “Crítica da Razão pura”, de Kant e teria como orientação a obra do jesuíta belga Pe. Joseph Maréchal (1878-1944), autor da “Crítica de Kant”, que se movia entre a crítica kantiana e a ontologia tomista. O texto kantiano transformou Pe. Evaldo Pauli num kantiano e, a passos lentos, fê-lo perder a fé nos dogmas cristãos, mesmo que não o admitisse. Fruto desses caminhos foi a publicação de dois livros: Que é pensar? – Fenomenologia do conhecimento (1964), e Primeiras luzes do pensamento (1965). A razão, e somente ela, será o divisor de águas entre a verdade científica e o atraso supersticioso. Foi um caminho lento, mas sem retorno, causando desconforto para o povo simples, como o de Antônio Carlos, com quem falava que os dogmas marianos e cristológicos eram apenas narrações piedosas, sem base na realidade. Isso, afirmado por um padre vestido de batina, não poderia deixar de causar estranheza.

Com a devida autorização eclesiástica, viajou a São Paulo, onde participou do III Congresso Nacional de Filosofia, de 9 a 14 de novembro de 1959. A partir desse ano, Pe. Evaldo mergulhou a cada dia com mais intensidade nos estudos filosóficos. Em suas leituras e reflexões formava-se o filósofo e enfraquecia o sacerdote católico.

Vivendo o que melhor expressava uma nova vocação, Pe. Evaldo dedicou-se com zelo ao magistério. Foi professor assistente e, depois, catedrático substituto, de História da Filosofia, na Faculdade Catarinense de Filosofia, de 1955 a 1960. Em seguida, lecionou a mesma Disciplina na Universidade Federal de Santa Catarina, de 1960 a 1985. Como professor contratado, lecionou Teoria do Conhecimento na mesma Universidade

Redigiu muitos artigos para revistas especializadas e publicou os primeiros livros de Filosofia, acrescentando, aos citados acima, “O Tratado do Belo” e “Estética Geral”, em 1963. A Estética foi seu campo de estudos original, e pioneiro no Brasil. Em 1967 tinha material para a publicação de 10 livros nesse campo, além de 6 títulos de Filosofia. Optou pela não publicação, sendo a falta de editora e de recursos a principal.

Dedicou-se com competência aos estudos históricos e publicou “Cruz e Sousa – Poeta e pensador” (1973), “A fundação de Florianópolis” (1973), “Hercílio Luz, governador inconfundível” (1976).

Pe. Evaldo não cultivou a amizade nem com o clero nem com os tios padres, pois os assuntos eclesiásticos e pastorais não lhe despertavam interesse, e percebia que os padres tinham uma vocação e ele, outra. Ficou alheio ao movimento eclesial do Concílio do Vaticano II (1962-1965), que não mereceu dele qualquer comentário. Sua vida era a Filosofia e, nela, o repensamento de sua fé cristã e católica. Sempre mais isolado da vida de Igreja, não foi grande a surpresa quando, em 30 de outubro de 1967, encaminhou ao Arcebispo Dom Afonso Niehues ofício em que desistia do Uso de Ordens Sacras e dos compromissos a eles solidários. Foi residir à Rua Pedro Demoro, no Estreito. Dom Afonso, que tinha sido seu reitor no Seminário de Azambuja, compreendeu esse passo e procurou ajudá-lo liberando-o logo da recitação do Breviário e prontificando-se a encaminhar o processo canônico de dispensa do celibato e redução ao estado leigo.

Chegava ao final o drama pessoal iniciado em 4 de dezembro de 1949 quando foi ordenado padre. O ministério foi-lhe pesado, a cada ano percebendo que não fazia sentido nele continuar, e isso foi tão intenso que não se animava a propagar as vocações sacerdotais e ficava feliz quando seus irmãos deixaram o Seminário.

Nesse processo, Pe. Evaldo sempre deixou claro que não era movido por alguma crise do celibato, que o casamento não era sua preocupação. Foi extremamente correto na sua vida pessoal e moral em todos os sentidos. Foi característica sua a seriedade ética, em todos os dias de sua vida. Um mundo de jogos de interesse, de vaidade, não o seduzia, e nunca deixou-se levar por interesses pessoais que comprometessem sua retidão moral.

O casamento foi conseqüência da renúncia ao ministério. O agora Professor Evaldo Pauli não sentia nenhum prazer em atividades práticas, mesmo no magistério, necessário para seu sustento e que lhe ofereceu resistência psicológica para suportar a atividade pastoral. Seu campo predileto era a pesquisa pura.

Após o processo legal em que apresentou ao Papa as razões pelas quais pedia a redução ao estado leigo, tendo recomendação positiva de Dom Afonso Niehues, em 21 de fevereiro de 1969 o Papa Paulo VI assinou-a, tendo Dom Afonso comunicado o Rescrito 341/68 a Evaldo Pauli.

Relativamente novo nos seus 43 anos, Evaldo Pauli contraiu matrimônio com a professora Yolanda Bonnassis em 12 de dezembro de 1968, antes do Rescrito, e o fez por não saber quando chegaria a resposta da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.

Longa existência e o adeus aos familiares

Evaldo Pauli em seu Arquivo, em 2008.

Evaldo Pauli em seu Arquivo, em 2008.

Era justa a hipótese de que dificuldades apareceriam na vida matrimonial de um ex-padre, professor e pesquisador em tempo integral. A separação ocorreu em pouco tempo.

Pode-se dizer que sua fé em Deus a cada dia se revelava mais problemática, estando claro o desaparecimento da fé confessional, isto é, da admissão de uma religião e de uma igreja. Nas conversas que tive com ele, a referência nunca era à Igreja, ao catolicismo, à prática religiosa, mas à “religião”, que considerava inútil.

Teve a graça do encontro com Edeltrudes Gabriela Neumann, ex-religiosa, nascida em 1933, a quem tomou como esposa. Ela exigiu a celebração religiosa, que foi assistida por Gilberto Luiz Gonzaga, seu amigo e padre casado. Residiam no Campeche, significativamente na Rua Huberto Rohden. Profundamente religiosa, Edeltrudes Neumann foi responsável pelo paciente trabalho de reconduzir o marido a Deus, à vida de oração, libertando-o do total indiferentismo religioso. Ela, porém, não seguia a prática católica, pois estava filiada ao “Mahikari”, novo movimento religioso japonês (shinshūkyō) fundado em 1978, que seus membros acreditam ser uma arte espiritualista que tem por objetivo a renovação espiritual de toda a humanidade. Esta renovação é fundamentada por revelações divinas que Deus (o Deus Supremo, criador do Céu da Terra) teria revelado para seu fundador, Yoshikazu Okada.

Adotaram um bebê, Valda, como filha, com ela alegrando a vida conjugal. Infelizmente, Evaldo e Edeltrudes passaram pela grande dor de perdê-la quando completava 16 anos. Ia para o colégio quando um ônibus desgovernado atingiu-a mortalmente.

Em 30 de dezembro de 2007, nova dor estava reservada a Evaldo: a morte de sua esposa Edeltrudes, aos 74 anos. Vítima de um acidente que não teria maiores conseqüências, foi a batida da cabeça contra o chão que a deixou paralisada e sem o uso da razão. Após um mês de internação, Evaldo internou-a numa casa de saúde onde ela poderia receber cuidados paliativos, vindo a morrer alguns meses depois, sem ter recobrado a consciência.

Evaldo sofreu um infarto em 2008 e, a partir de 2010,  manifestou os primeiros sinais do Alzheimer. Ele, que vivera para o raciocínio, a memória, nos últimos tempos não reconhecia os familiares.

Homem de trabalho e de estudo

Evaldo Pauli foi um dos maiores responsáveis pela difusão do Esperanto, projeto de língua universal, em Santa Catarina. Pertenceu a inúmeras instituições, entre elas a Academia Catarinense de Letras, Academia Catarinense de Filosofia (da qual foi fundador), Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Academia Brasileira de Filosofia, Academia de Ciências de San Marino, Filosofia Asocio Tutmonda (FAT, associação de filósofos esperantistas, da qual foi fundador e presidente) e Universala Esperanto-asocio, com sede em Rotterdam, Holanda.

Em esperanto publicou “Rekta pensado” (1983) e traduziu as Categorias de Aristóteles, “Enkonduko en la kategoriojn de Aristotelo” (1984), além de “Esperanto básico – Baza esperanto” (1985), “Pri dubo kaj Certeco” (1985) e “Mil jaroj de la kristana folozofio” (1985). Muitas de suas obras, inclusive inéditas, estão generosamente disponíveis na internet e integradas à “Enciclopédia Simpozio”. Esta enciclopédia é universal, está on-line na web e é bilíngüe, reunindo artigos e tratados escritos em português e na língua internacional esperanto, sendo provedora e patrocinadora a Universidade Federal de Santa Catarina, nos endereços http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio e http://www.simpozio.ufsc.br. Infelizmente não está mais disponível [na frase anterior, você dá a impressão de uma Enciclopédia acessível, não?] essa preciosidade que publicou toda a pesquisa dele sobre a história catarinense, ano por ano, lugar por lugar.

Nos últimos anos de sua existência, Evaldo aplicou seus recursos financeiros na construção e organização de preciosa entidade, a “Biblioteca Superior de Cultura”, ao lado de sua casa, à Rua Huberto Rohden, 274, no Campeche.

Padre e Professor Evaldo Pauli com suas certezas

Vivendo tantos anos, 47 deles fora da Igreja católica e do ministério sacerdotal, Evaldo Pauli passou da fé cristã à razão kantiana, e desta à fé em Deus, livre de qualquer teologia, doutrina e comunidade religiosa.

Achava o Cristianismo e sua matriz judaica realidades atrasadas, antiquadas, autoritárias e misóginas, os dogmas sendo puras invenções. Nesse campo foi além de seu amigo e mestre a quem muito admirava, Pe. Huberto Rohden.

Mas, como homem de certezas, tinha clareza a respeito de Deus e da salvação eterna. Assim poder-se-ia explicar: Deus existe e é infinito, ocupando todos os espaços na sua infinitude. O que é diferente das religiões que admitem seres diante de Deus, tornando-o finito. Todos os seres criados são “modos de ser” eternos, diferenciando-os uns dos outros. Um exemplo: as ondas do mar são um modo de ser e, quando voltam ao oceano continuam a existir, mas em outro modo de ser. O ser humano é um modo de ser que, morrendo, continua a existir, mas em outro modo de ser. Alguns espíritas o incluíram entre os seus,  porque passava a imagem de uma reencarnação eterna. Ele rejeitava isso como voz do atraso.

Alimento a pergunta: Evaldo Pauli era panteísta? Ele diria que não, porque o múltiplo contém o único e o único contém o múltiplo, cada um com seu modo de ser.

Importante é sua afirmação da existência de Deus e da eternidade de cada pessoa em Deus.

Evaldo Pauli é meu primo, muito o admirei pelo estudo, pela correção ética, pela simplicidade de vida. Creio, porém, [que poder dizer?] que sua teologia não se nutriu dos novos teólogos, exegetas, dos novos filósofos cristãos, do renascimento católico. Preso a suas convicções racionais, não encontrou mais espaço para a reflexão sacramental, para o sentido comunitário da fé, para colocar-se à escuta do outro, especialmente de sua santa mãe.

Tendo completado 89 anos, faleceu em Florianópolis em 17 de agosto de 2014. Terminava assim uma existência até bastante sofrida, mas transcorrida na busca da verdade através da razão bem formada.

Presidindo os ritos fúnebres de seu sepultamento no Itacorubi, lembrei-me que muitos caminhos conduzem a Deus, e que nenhum caminho é suficiente para chegar até ele.

Pe. José Artulino Besen

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