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OS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – SERÃO CANONIZADOS

Prot – Forte dos Reis Magos, onde se refugiaram os Mártires de Uruaçu

São estes os sentimentos que invadem o nosso coração, ao evocarmos a significativa lembrança da celebração dos 500 Anos da Evangelização do Brasil, que acontece neste ano. Naquele imenso País, não foram poucas as dificuldades de implantação do Evangelho. A presença da Igreja foi-se afirmando lentamente, mediante a obra missionária de várias Ordens e Congregações religiosas e de Sacerdotes do clero diocesano. Os mártires que hoje são beatificados saíram, no fim do século XVII, das comunidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte. André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Presbíteros, e 28 Companheiros leigos pertencem a essa geração de mártires que regou o solo pátrio, tornando-o fértil para a geração dos novos cristãos. Eles são as primícias do trabalho missionário, os Protomártires do Brasil. A um deles, Mateus Moreira, estando ainda vivo, foi-lhe arrancado o coração pelas costas, mas ele ainda teve forças para proclamar a sua fé na Eucaristia, dizendo: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Hoje, uma vez mais, ressoam aquelas palavras de Cristo, evocadas no Evangelho: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 28). O sangue de católicos indefesos, muitos deles anônimos crianças, velhos e famílias inteiras servirá de estímulo para fortalecer a fé das novas gerações de brasileiros, lembrando sobretudo o valor da família como autêntica e insubstituível formadora da fé e geradora de valores morais. (HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II – NA MISSA DE BEATIFICAÇÃO DOS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – Domingo, 5 de Março de 2000).

OS MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

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TERESINHA – A PEQUENA GRANDE MISSIONÁRIA

Santa Teresinha e seus pais São Luís e Santa Zélia

Santa Teresinha e seus pais São Luís e Santa Zélia

Teresa pertencia a uma família de classe média-alta da época. Morava numa mansão, tinha escola e até professora particular. Uma menina mimada e apaixonada pelo pai, o senhor Martin, que a chamava de “minha rainhazinha”. Teresa tinha tudo para se tornar uma dama rica da sociedade francesa do fim do século XIX.

No entanto, seu coração humilde bem cedo sente o desejo de se entregar única e exclusivamente a Deus. Teresa está convencida que o “Deus vingador” que lhe é apresentado na catequese não corresponde à imagem de Pai misericordioso que tem no coração. Partindo dessa convicção, ela sente a necessidade de buscar outros caminhos. Quer ser “santa, grande santa”, mas não como certos santos antigos…

Teresa oferece ao futuro um novo estilo de santidade, uma nova forma de amar: o pequeno caminho.  O único caminho para o amor é a confiança, a perseverança, a aceitação: “Agora compreendo que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não estranhar suas fraquezas, em edificar-se com os menores atos de virtude que a gente vê praticar.”

Naquela época já havia elevador nas casas ricas, fato que levou Teresinha a fazer esta comparação: “Nas casas muito altas, as pessoas se esforçam por chegar até em cima usando o elevador. Eu encontrei o meu elevador, ele me leva até o Pai… são os braços de Jesus.”

Na vida comunitária do Carmelo, Teresinha não quer ficar perdendo tempo com as mesquinharias do dia-a-dia. Ela intui que o que conta é o amor, só o amor.  Entende que amar é acolher o outro; é saber dar ao outro a liberdade de amá-la ou mesmo de não amá-la; é contemplar no outro a pessoa de Jesus: “É a Santa Face de Cristo que amamos, impressa em cada pessoa.”

Teresinha sente-se missionária, como os que tinham a coragem de partir rumo às terras distantes. Mas, como sê-lo ficando parada, enclausurada? Teresinha supera essa dificuldade: “Sinto em mim todas as vocações: de apóstolo, de missionário, de sacerdote, de mártir, de doutor… Considerando, porém, que não posso vivê-las todas, na Igreja eu serei o amor”.

Assim Teresa nos ensina que todos, mesmo permanecendo onde estamos, poderemos chegar lá onde o coração quer ir. A missionariedade não é questão de geografia, é questão de amor.

Santa Teresinha é uma santa para nossos dias, para todos os dias, para a eternidade: “Sinto que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o Bom Deus, como eu o amo; de indicar às almas meu pequeno caminho. Se o Bom Deus atender meus desejos, meu céu se passará na terra…, até  o fim do mundo. Sim, quero passar meu céu fazendo o bem sobre a terra.”

Breves informações:

Santa Teresinha aos 8 anos

Santa Teresinha aos 8 anos

1873 – Teresinha nasceu em Alençon, pequena cidade da França. Era a última de 5 irmãs. Em 1877, Teresinha ficou órfã de sua mamãe, morta por um câncer no seio. Toda a família se transferiu a Lisieux para estar mais perto dos tios.

Paulina, que, para Teresinha, ocupava o lugar da mãe, entra no Convento das Carmelitas de Lisieux em 1882.

Em 1886, Maria, outra irmã, também se tornou Carmelita em Lisieux. Teresinha vive um momento de tremenda solidão e crise. Mas, na noite de Natal, encontrou forças para reagir a suas fraquezas de criança.

Teresinha confidencia a seu pai que quer ser carmelita. Viaja a Roma para pedir ao Papa Leão XIII a licença para entrar no Carmelo com 15 anos, e ingressou em 1888.

1890 – Com a Profissão religiosa, tornou-se carmelita. Papai, o seu “rei”, está junto dela, feliz. Em 1894, morreu Luís, o querido papai. Celina junta-se à irmã no Carmelo.

Teresinha descobriu estar gravemente doente de tuberculose, em 1896. Naquele tempo a doença era incurável.

Em 30 de setembro de 1897, morreu Teresinha aos 24 anos e 8 meses dizendo, ao contemplar o Crucifixo: “Oh, meu Deus, eu vos amo”.

O Papa Pio XI a proclama Santa em 1925, e mais de 500 mil peregrinos estavam em Roma para aclamá-la. Em 1997, o mundo inteiro celebrou o Centenário de sua morte e o Papa João Paulo II a declara  Doutora da Igreja”.

Em 18 de outubro de 2015, Francisco celebra a canonização dos pais: São Luís e Santa Zélia.

RECORDAÇÕES DE MAMÃE ZÉLIA

“Minha filha caçula, Teresinha, logo me impressionou pela sua inteligência, caráter decidido e por sua vontade de ser boa. Eu a apelidava de meu “pequeno furacão” e, desde quando a amamentava, sentia sua força e determinação. Quando pequenina, gostava sempre de dizer “não” e, mesmo que a prendesse o dia inteiro num quarto, passaria também a noite, mas não diria um “sim”.

Percebi que era orgulhosa quando, num dia, por brincadeira, lhe disse: – Teresinha, se beijas o chão, eu te dou uma moeda. Para uma criança, uma moeda era muito dinheiro e, abaixar-se para beijar o chão, era muito fácil para ela, que tinha uma estatura pequena. Com determinação, a pequerrucha respondeu: “Obrigada, mamãe, prefiro não ganhar a moeda”.

Quando pequena, Teresinha tinha um costume muito especial: ao subir a escada, parava a cada degrau e gritava “mamãe!”. Se eu não respondesse logo: “Oi, minha pequena”, parava no degrau, sem subir e nem descer.

Teresinha gostava muito que eu lhe falasse sempre do céu e, uma vez, me disse: “Mamãe, se fosse para eu ir para o inferno, fugiria para junto de ti no paraíso, então tu me esconderias juntinho de ti e Deus não iria separar a mamãe de sua filhinha, não é verdade?”

O   EVANGELHO DE TERESINHA

“Tenho sede!” Escreveu: “Este trecho do Evangelho de João (19,28) começou a martelar-me no mês de março de 1887 quando, na França, o único assunto era Pranzini, um delinqüente perigoso que tinha assassinado três pessoas com a finalidade de roubar.

Pranzini foi condenado à guilhotina. Nunca o tinha visto, mas, diante deste fato, recordei-me das palavras de Jesus na Cruz: “Tenho sede”.  Tinham me ensinado na catequese que Jesus tem sede de almas. Esta alma tinha abandonado o amor de Deus e eu deveria trazê-la de volta a qualquer custo. Pranzini não era somente um criminoso: era também uma alma para ser salva.

Naquele tempo eu tinha apenas 14 anos e decidi assumir a responsabilidade espiritual por aquele homem. Somente com a oração e a penitência poderia impedir que fosse para o inferno. De vez em quando dava uma olhadela nas notícias do jornal de papai: Pranzini continuava arrogante, endurecido em seu pecado. Não desanimei. Continuei a rezar, até encomendei uma Missa por ele e pedi a Celina que me ajudasse a salvar aquela criatura de Deus. Queria entregá-la nas mãos do Pai, que lava todo o pecado com o sangue de seu Filho Jesus.

No dia 13 de julho foi decidida a condenação à morte de Pranzini, com execução marcada para o dia 31 de agosto. Eu escutava os comentários da redondeza. Impressionavam-me a raiva do povo e os julgamentos inflexíveis das pessoas. Se tivessem oportunidade, o matariam dez vezes. Estavam esquecidos de que aquela alma custara a morte de Jesus na Cruz.

Intensifiquei minhas orações e, no dia 1º de setembro, dei uma olhada no jornal La Croix; Pranzini tinha subido à guilhotina sem se confessar mas, no último momento pediu um crucifixo e beijou as chagas de Jesus. Meu Deus! Estava salvo! Venceu tua misericórdia!” 

O   PEQUENO CAMINHO

Santa Teresinha com suas irmãs

Santa Teresinha com suas irmãs

No Carmelo, Teresinha adoeceu gravemente e viveu a doença com a serenidade que lhe era própria. O extraordinário em Teresinha foi ter realizado coisas normais com tanto amor.

Rezou, serviu, calou, pintou, escreveu, sofreu: somente por amor.

Num dia em que sentia a vontade de salvar o mundo e se via prisioneira numa pequena cela, exclamou: “A minha vocação é o amor. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor, e assim serei tudo”. Neste amor estendido ao mundo e oferecido a Deus pelo mundo, Teresinha partiu em 30 de setembro de 1897.

O Pequeno Caminho de Teresinha compõe-se de dois valores:

a misericórdia do Pai,

– a necessidade de permanecer criança para sempre permanecer em seu amor.

É um caminho que todos podem percorrer sem medo, sem angústia, porque Ele faz tudo: “Quero ir para o céu através de um pequeno caminho, bem reto, muito curto, um pequeno caminho bem novo.

Estamos num século de invenções. Nas casas dos ricos um elevador tira o cansaço das escadas. Eu também quero encontrar um elevador que me leve a Jesus, porque sou pequena demais para subir a dura escada da perfeição”. “O elevador que me deve levar até ao céu são os vossos braços, Jesus, por isso não preciso ficar grande, pelo contrário, devo permanecer pequena”. Andei lendo: “Se alguém é pequeníssimo, venha a mim”. Então, Senhor, penso ter encontrado aquilo que procurava: “Como uma mãe acaricia o filho, assim eu vos consolarei, vos carregarei no meu coração e vos apoiarei nos meus joelhos” (Is 66,12-13). 

A   GRANDE MISSIONÁRIA

Santa Teresinha, padroeira das Missões

Santa Teresinha, padroeira das Missões

Teresinha nasceu missionária. Desde pequena, pegava suas economias e oferecia uma moeda para as Missões. Foi uma missionária infatigável entre as quatro paredes de sua cela. Sua oração, seu sacrifício, o amor que punha em todas as pequenas coisas do dia-a-dia, eram oferecidos pelos sacerdotes e para a missão deles. Era a força que impelia os apóstolos.

O anúncio do Evangelho no mundo inteiro não deixava de preocupá-la a ponto de desejar partir em missão para a Indochina, onde havia sido fundado um Carmelo, mas a saúde frágil não lhe permitiria. Santa Teresinha, já em seus últimos dias de vida terrena, profetizará que seria missionária sempre ao dizer que “passaria o seu tempo no céu fazendo o bem sobre a terra”.

Em 1927, o Papa Pio XI a declarou “Padroeira Universal das Missões e dos missionários, como São Francisco Xavier.” Suas intervenções em favor dos missionários se fizeram sentir em todo o mundo. Em 1917, o missionário Pe. Charlebois, que há cinco anos lutava pela evangelização dos esquimós na baía de Hudson, sem qualquer resultado, certo dia jogou sobre eles um pouco de terra que havia sido recolhida do túmulo de Teresa. Os esquimós, sentindo-se tocados interiormente, pediram o batismo. Teresa ensinou que evangelizar não é só pregar, ensinar… mas sim, como Cristo fez, amar e doar a própria vida. O amor é sempre um meio de evangelização mais eficaz e mais eloqüente que as palavras.

PENSAMENTOS

“Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar, dirigido aos céus, um grito de gratidão ou de amor em meio a provações ou alegrias. É algo, enfim, muito grande, sobrenatural que me dilata a alma e une a Jesus”.

“Eu fiz a experiência: quando não sinto nada, quando não sou capaz de rezar, é então o momento de procurar as pequeninas ocasiões, os nadas que dão prazer…

Quando não tenho ocasião, quero pelo menos dizer muitas vezes a Jesus que eu O amo…”

“Tudo o que fiz –  até apanhar uma agulha – era para dar prazer a Deus, para salvar almas.

Caminho em lugar de um missionário. Penso, que muito longe, um deles se encontra cansado, em suas andanças apostólicas. E, para diminuir suas fadigas, ofereço as minhas a Deus”.

Sua última oração, escrita com mão trêmula: “Ó Maria, se eu fosse a Rainha do Céu e vós fôsseis Teresinha, eu queria ser Teresinha a fim de que fôsseis a Rainha do Céu”.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA MARIA MADALENA – apóstola dos apóstolos – 22 de julho

maria-madalena

Não me segures – Jesus e Maria Madalena – Giotto

Assinado em 3 de junho de 2016 por decisão de Francisco, um decreto da Sagrada Congregação do Culto elevou a memória de Santa Maria Madalena ao grau de Festa, como a devida aos outros apóstolos. A decisão está inserida no novo contexto eclesial que pede profunda reflexão sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina.

São João Paulo II já tinha se referido à missão peculiar de Maria de Mágdala como primeira testemunha que viu o Ressuscitado e primeira mensageira que anunciou aos apóstolos a ressurreição do Senhor.

Santa Maria Madalena é apresentada como um exemplo de “verdadeira e autêntica evangelizadora”, que anuncia a alegre mensagem central da Páscoa. Francisco tomou essa decisão para significar a importância desta mulher que demonstrou um grande amor a Cristo e que tão profundamente foi amada por ele.

O papa São Gregório Magno definiu-a como “a primeira testemunha da ressurreição”, e Santo Tomás de Aquino chamou-a de “apóstola dos apóstolos” porque foi ela que anunciou aos discípulos amedrontados e trancados no cenáculo o que eles deverão, por sua vez, anunciar a todo o mundo. João evangelista a descreve em lágrimas por não ter encontrado no túmulo o corpo do Senhor. Jesus teve compaixão dela fazendo-se reconhecer como Mestre e transformando suas lágrimas em alegria pascal. Tudo isso motivou a decisão papal de que sua festa litúrgica de 22 de julho tenha o mesmo grau das celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral.

Segundo os biblistas, Santa Maria Madalena não foi a prostituta de que Lucas fala e que ungiu os pés do Senhor (Lc 7, 36-50), uma anônima pecadora conhecida na cidade. Também não é a outra Maria, irmã de Marta e Lázaro, a Maria de Betânia (Jo 12, 1-8). Esse engano deu origem a intensa devoção e inspirou grandes artistas.

Maria Madalena é o que diz seu nome: era de Mágdala, povoado de pescadores à margem do Lago de Tiberíades, mercado de peixes, cujas escavações nos anos 70 do século XX revelaram o desenho urbano da antiga vila. E escavações em 2009 possibilitaram a descoberta da antiga sinagoga, uma das mais antigas dentre as descobertas em Israel: sua posição na estrada que liga Nazaré a Cafarnaum indicaria como aquela frequentada por Jesus.

Maria Madalena aparece pela primeira vez no capítulo 7 de Lucas, quando se narra que Jesus passou por cidades e povoados proclamando a Boa-nova do Reino de Deus, e com ele estavam os Doze a algumas mulheres que tinham sido libertadas de espíritos malignos e de enfermidades e que lhe serviam com seus bens. Entre elas estava “Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios”. Como escreveu o cardeal Gianfranco Ravasi, “em si mesma, a expressão [sete demônios] pode indicar um grave mal (sete é o número de plenitude) físico ou moral que afligiu a mulher de que Jesus tinha libertado.

Sofrendo um mal grave, de natureza desconhecida, Maria Madalena pertencia, assim, ao povo de homens, mulheres e crianças feridas em muitos aspectos que Jesus liberta do desespero para devolvê-los à vida e aos seus entes queridos. Jesus, em nome de Deus, só faz gestos de libertação do mal e de resgate da esperança perdida. O desejo humano de uma vida boa e feliz pertence à intenção de Deus, que é o Deus da cura, nunca cúmplice do mal.

Maria Madalena reaparece nos Evangelhos na hora mais terrível e dramática da vida de Jesus: em seu fiel apego ao Mestre acompanha-o ao Calvário juntamente com outras mulheres, para observá-lo de longe. Em seguida, se apresenta quando José de Arimatéia deposita o corpo de Jesus no túmulo, que é fechado com uma pedra. Depois, no sábado, na manhã do primeiro dia da semana volta ao túmulo e descobre que a pedra fora retirada e corre para contar o fato a Pedro e João, que, por sua vez, correm ao sepulcro para conferir a ausência do corpo do Senhor.

O encontro com o Ressuscitado  

Enquanto os dois discípulos voltam para casa, ela permanece ali, chorando. Inclinando-se no túmulo vê dois anjos e lhes pergunta se não sabiam onde colocaram o corpo do Senhor. Então, olhando para trás, ela vê Jesus, mas não o reconhece, acha que é o jardineiro. Quando Ele pergunta a razão de suas lágrimas e o que procurava, ela respondeu: “Senhor, se tu o levaste, diz-me onde o puseste, e eu vou buscá-lo”.  Jesus disse-lhe, então: “Maria!” (Jo 20,15-16). Citando-lhe o nome, Jesus se revela como o seu Senhor, aquele que ela procura.

O diálogo continua e Maria Madalena diz em hebraico: “Rabuni”, o que significa “Mestre”. Jesus diz: “Não me segures, pois ainda não subi para o Pai; mas vai dizer a meus irmãos: “Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Eu vi o Senhor!”. E também narrou o que ele tinha dito “(Jo 20, 16-18).

Maria expressa a maternidade na fé e da fé. Com ela tem início a longa série das mães que, através dos séculos, se dedicam à geração de filhos e filhas de Deus. A decisão de Francisco é um dom belo, expressão de uma revolução antropológica que se refere à mulher e atinge toda a vida eclesial: entender que homem e mulher, numa dualidade encarnada, podem tornar-se anunciadores luminosos do Ressuscitado.

Pe. José Artulino Besen

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DOM OSCAR ROMERO, MARTÍRIO E MEMÓRIA

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Pe. Oscar Romero

Era segunda-feira, 24 de março de 1980. Às 18 horas, Dom Oscar Arnulfo Romero iniciou a celebração da Missa na capela do hospital da Divina Providência na colônia Miramonte de San Salvador, para onde se tinha mudado. Ele percebeu que alguém se postou à porta de entrada da igreja, ergueu o fuzil e disparou um tiro certeiro que lhe perfurou o coração. Caiu fulminado, e morreu pouco depois no hospital, aos 62 anos de idade. Somente 31 anos depois, por imposição de organismos internacionais, soube-se quem foi o assassino e quem foram os mandantes: foi Marino Samayor Acosta, sub-sargento da seção II da Guarda Nacional, membro da equipe de segurança do presidente da república, por ordem do major Roberto d’Aubuisson, criador dos esquadrões da morte e do coronel Arturo Armando Molina. Preço do serviço para assassinar Dom Romero: 114 dólares.

Na véspera, domingo, dia 23 de março, preocupado com a violência dos esquadrões da morte e das guerrilhas, lançara um pedido dramático:

“Eu gostaria de fazer um apelo muito especial aos homens do Exército e, concretamente, às bases da Guarda Nacional, da polícia, dos quartéis. Irmãos, vocês são do nosso próprio povo, vocês matam os seus próprios irmãos camponeses, e, diante de uma ordem de matar dada por um homem, deve prevalecer a Lei de Deus, que disse: ‘Não matar’. Nenhum soldado é obrigado a obedecer a uma ordem contra a Lei de Deus. Uma lei imoral, ninguém precisa cumprir. Já é hora de recuperarem a consciência e obedecerem antes à sua consciência que à ordem do pecado. A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da Lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa, não pode ficar calada diante de tanta abominação. Queremos que o Governo leve a sério que para nada servem as reformas se forem manchadas com tanto sangue. Em nome de Deus, pois, e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem ao céu cada dia mais tumultuosos, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno, em nome de Deus: cesse a repressão!”

A repressão era sempre mais intensa naquele pequeno país de 22.000 km2. Entre 1979 e 1992, ano do acordo de paz, foram assassinados 85.000 salvadorenhos, 80% deles civis. Eram jovens, camponeses, 13 sacerdotes, 3 religiosas. De um lado estavam as forças da repressão, financiadas pelos Estados Unidos e pelos proprietários das melhores terras, de outro, os camponeses vítimas da miséria, da exploração de sua mão de obra, seduzidos pelo movimento de guerrilha de inspiração marxista.

Foto de arquivo do arcebispo Oscar Arnulfo Romero (Foto: A)

Foto de arquivo do arcebispo Oscar Arnulfo Romero (Foto: A)

Sacerdote e bispo à imagem de Cristo

Oscar Arnulfo Romero nasceu em 15 de agosto de 1917 em El Salvador, segundo de sete irmãos. Desde a infância manifestou profunda piedade, cujo centro era a oração noturna diária e a veneração ao Imaculado Coração de Maria. Aos 13 anos, em 1930, ingressou no seminário de San Miguel. Em 1937 dirigiu-se ao Seminário São José de San Salvador e, no mesmo ano, foi enviado a Roma, onde residiu no Pontifício Colégio Pio Latino e estudou na Universidade Gregoriana.

Foi ordenado padre em Roma aos 24 anos, em 4 de abril de 1942. Retornou à pátria em 1943, recebido com entusiasmo pelo seu povo, que muito o estimava. Foi pároco de Anamorós e, depois, de Nossa Senhora da Paz e, ao mesmo tempo, secretário do Bispo diocesano.

Em 1968 foi nomeado secretário da Conferência episcopal, acompanhando todo o processo da Conferência de Medellín e sua opção pelos pobres. Em 21 de abril de 1970, foi nomeado bispo auxiliar de San Salvador, sendo ordenado em 21 de junho. O próximo passo foi a nomeação de bispo diocesano de Santiago de Maria em 15 de outubro de 1974, vivendo ali seus mais felizes anos. Finalmente, em 3 de fevereiro de 1977, o papa Paulo VI o elegeu arcebispo de San Salvador, assumindo em 22 de fevereiro. O clero não recebeu essa nomeação com entusiasmo, pois o tinha como bispo conservador e preferia o auxiliar Dom Artur Rivera y Damas (que depois foi o sucessor).

Pe. Rutílio Grande, mártir

Pe. Rutílio Grande, mártir

Pouco depois, em 12 de março de 1977, um acontecimento mexeu com todos os sentimentos humanos, espirituais e pastorais de Dom Romero: o assassinato de seu íntimo amigo, o jesuíta Pe. Rutílio Grande, pároco de Aguilares, com dois camponeses que o acompanhavam. Pe. Rutílio encarnara em seu ministério a opção pelos pobres de Medellín e se dedicava à formação de Comunidades Eclesiais de Base. Não concordava com seus colegas da Universidade Católica, pois via sua teologia muito comprometida ideologicamente. A teologia da libertação de Pe. Rutílio era essencialmente fruto da reflexão do Evangelho junto aos camponeses, que se alegravam por descobrirem sua dignidade e capacidade de organização para fazerem frente aos latifundiários que tomavam as melhores terras e exploravam sua força de trabalho.

O martírio do amigo, cujo processo de canonização foi aberto em 2015, iluminou sua vida cristã e episcopal: após a noite inteira em vigília junto ao corpo de Rutílio Grande, entendeu que os camponeses tinham ficado órfãos de pai. Era necessário assumir o lado dos pobres, dos camponeses, o trabalho de reconciliação nacional e lhe tocava essa missão. Tinha consciência dos perigos que lhe estavam reservados, mas não tinha mais nenhum medo. Arriscando a vida, procurou as partes no conflito, governo e guerrilha. Conhecendo pessoalmente o presidente Arturo Molina, foi-lhe ao encontro, exigindo que investigasse o assassinato de Pe. Rutílio. Com riso de deboche, Molina apresentou-lhe os pêsames e disse que investigaria. Nada acontecendo, Dom Romero decidiu e comunicou que não participaria mais de nenhuma cerimônia oficial do Estado. E decidiu que, aos domingos, haveria somente uma Missa na catedral, para que ricos e pobres se encontrassem e escutassem sua mensagem em defesa dos camponeses.

Ao se reunir com o presidente Arturo Molina este lhe apresentou uma lista com os nomes de 30 sacerdotes que deveriam deixar o país, ao que o arcebispo respondeu: “Os sacerdotes são intocáveis”.

Vida oferecida pelo povo

A partir dessa hora, as homilias do arcebispo são sempre mais claras e proféticas. Num dia, seu irmão Gaspar pediu que ele amaciasse o tom, pois corria perigo e recebeu a reposta: “Alguém deve falar que essa tragédia não pode continuar. De uma parte, o exército mata e incendeia povoados inteiros, de outra, a guerrilha… Devo intervir e dizer a minha verdade”.

De Roma, através do núncio de Costa Rica, lhe chega a comunicação que queriam assassiná-lo. Paulo VI, paternalmente, lhe propõe um caminho: se a situação se tornasse muito perigosa, alegando doença poderia pedir transferência. Dom Romero respondeu: “Escolho viver aqui, porque é aqui que devo concluir meu apostolado. Se me matarem, já os perdoei a todos. Em todo caso, é aqui que devo morrer porque devo ressuscitar no meio de meu povo”.

O Arcebispo redobrou seu empenho pessoal pelo povo que o procurava: gente influente pedia sua mediação pela libertação de um filho seqüestrado pela guerrilha, camponeses que pediam que encontrasse os filhos seqüestrados pelo exército, pobres que pediam pão e esmola e ele procurava um modo de atender a todos.

A perseguição desencadeada pelo governo contra ele se intensifica: ameaças a seus familiares, desmoralização através de campanhas que diziam que ele escrevia as homilias sob o efeito do álcool, que tinha sido diagnosticado doente mental. Uma delegação de católicos de direita foi a Roma para denunciá-lo e pedir sua remoção. Roma envia um representante que, lendo suas homilias, aprovou sua ação. Com toda essa campanha de difamação e ameaça, aumentava sempre mais a coragem e o amor pelo seu povo. Se transfigurava a cada dia, o que podia ser constatado na simplicidade amorosa com que reunia as famílias, comia de sua feijoada, explicava o Evangelho. Ao mesmo tempo, no mesmo dia participava de reunião no Ministério do Exterior, recebia delegação da ONU e se transformava: falava com firmeza e com capacidade de líder experimentado.

As ameaças fazem sofrer seus familiares que quase se sentiam na necessidade de negar que fossem seus parentes. Recebe cartas sempre mais ameaçadoras.

Dom Romero sofre a noite escura dentro de sua Igreja: os irmãos no episcopado o abandonam, acusando-o de ser responsável pelo recrudescimento da violência; Dom Lopes Trujillo, arcebispo de Medellín é porta-vos das acusações que chegam a Roma. Dentro do Vaticano se encontram seus maiores opositores e difamadores, num primeiro momento levando João Paulo II a crer nas acusações. Chegavam a Roma quilos de cartas contra ele, acusando-o de envolver-se na política, de seguir a teologia da libertação, de desequilíbrios de caráter. Numa viagem a Roma, o Papa o recebeu friamente, deixando-o muito sofrido, mas, Dom Romero não podia voltar atrás: seguia o caminho do Evangelho, o Vaticano II, Medellín e Puebla, era um arcebispo fiel às orientações católicas no tocante à defesa dos pobres. Como poderia abandonar a palavra da Igreja e seu povo?

Sua perseverança em meio a tantos conflitos preparou o tapete que lhe foi estendido naquela tarde de segunda-feira, 24 de março de 1980, pelas 18 horas, quando a tirania cobrou o preço: uma bala de fuzil furou-lhe o coração. Não mataram Dom Oscar Romero na rua, num atentado: quiseram assassiná-lo dentro da Igreja, quiseram calar a Igreja.

Religiosa beija a fronte de Dom Romero

O povo sofreu dolorosamente a morte de seu pastor. Seu corpo ficou exposto na catedral durante quatro dias, visitado por mais de 250 mil pessoas. O mundo chorou o ato violento contra um homem frágil, suja única força era o amor a Cristo e aos pobres. O Vaticano fez-se representar pelo Cardeal arcebispo do México, Ernesto Corrípio y Arrumada. O povo que chorava seu bispo tentou organizar uma grande procissão e, nessa hora, o exército mostrou sua face cruel: fez explodir uma bomba em meio à multidão e 42 pessoas morreram.

A verdade liberta e triunfa

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Papa João Paulo II, rezando diante do túmulo do arcebispo Romero

A maioria dos bispos de El Salvador negou-lhe qualquer sinal de gratidão pelo trabalho heróico. Quando, em março de 1983, João Paulo II visitou o país, não estava prevista nenhum visita a seu túmulo, mas o Papa fez questão de ir lá para rezar. Teve que esperar bons minutos até que se encontrasse a chave da Catedral. Na preparação da celebração das Testemunhas da Fé, em Pentecostes do ano 2000, os bispos fizeram chegar o pedido de evitar citar o nome de Dom Romero. João Paulo II, num de seus grandes gestos, acrescentou de próprio punho do nome de Romero no Oremus final.

Nesses anos operava em Roma um influente grupo de prelados que faziam o possível para resistir à canonização do arcebispo. No mesmo ano 2000, o Cardeal vietnamita Van Thuan orientou os exercícios espirituais ao Papa e à Cúria romana e foi severamente criticado por ter incluído Dom Romero entre as grandes testemunhas da fé de nosso tempo e citado esse nome diante do Papa. Meses depois, quando as meditações foram publicadas em livro de grande repercussão, o nome de Dom Romero não apareceu em nenhuma citação.

Quando Bento XVI viajava para o Brasil, em maio de 2007, durante o vôo alguém lhe perguntou sobre Romero e o papa respondeu com uma pequena apologia do arcebispo assassinado, descrevendo-o como “uma grande testemunha da fé”, recordando sua morte incrível diante do altar e que era digno de ser beatificado. Novamente aconteceu o inusitado: mesmo tendo falado diante de tele câmeras, dezenas de gravadores, essas palavras foram apagadas nas versões oficiais da entrevista publicada nas mídia do Vaticano.

Menos mal, em 2012 Bento XVI desbloqueou o processo, trancado em Roma havia 17 anos. Dom Romero não foi assassinado por questões políticas, como quiseram impor seus acusadores dentro e fora da Igreja. Foi martirizado in odium fidei, por ódio à fé cristã, e disso dá testemunho o tiro disparado dentro de uma igreja, com mensagem clara: atingir um cristão. A acusação de comunismo era uma “acusação fácil” que se fazia contra quem estava perto dos pobres e foi morto durante a Missa e não em casa ou na rua. “Queriam matá-lo no altar”.

Dom Oscar Arnulfo Romero repousa em sua Catedral, vizinho à cátedra onde anunciou a justiça e denunciou a injustiça e ali ressuscitou no meio de seu povo. Seu túmulo é meta de peregrinação de ricos e pobres, dos fortes e dos fracos do mundo. Quatro anjos ladeiam seu túmulo, simbolizando os quatro Evangelhos que anunciou ao povo. A catedral anglicana de Westminster, em Londres, ergueu uma estátua sua como homenagem aos que deram a vida em defesa dos direitos humanos. A Assembléia Geral das Nações Unidas – ONU, proclamou o dia 24 de março – data da sua morte – como o “Dia Internacional pelo Direito à Verdade, em relação a graves violações e a dignidade das vítimas”, em honra ao mártir salvadorenho.

E chegou a vez da Igreja: reconhecendo-lhe o martírio em 3 de fevereiro de 2015, Francisco, o primeiro Papa latino-americano, marcou sua beatificação para o dia 23 de maio de 2015, véspera de Pentecostes. O povo cristão poderá invocá-lo como São Romero da América. O arcebispo salvadorenho vai ser declarado bem-aventurado pelo primeiro papa sul-americano da história, que pede “uma Igreja pobre para os pobres”, centro da ação de Dom Oscar Romero e causa de seu martírio.

Pe. José Artulino Besen

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OS 21 TRABALHADORES EGÍPCIOS MÁRTIRES

O Senhor coroa os 21 mártires egípcios - Ícone de Tony Rezk

O Senhor coroa os 21 mártires egípcios – Ícone de Tony Rezk

A Igreja Ortodoxa Copta do Egito, antiqüíssima comunidade cristã fundada por São Marcos, tem a coragem e o testemunho de fidelidade provados por quase dois milênios. Nos primeiros séculos, foi perseguida pelo Império romano e, em seguida, pelo Império bizantino, mas não cedeu na fidelidade à pregação apostólica. E a grande provação continuou a partir do século VIII, com a dominação árabe e muçulmana, mas permanece fiel. Ela corresponde, hoje, ao antigo Patriarcado de Alexandria, onde vicejaram milhares de mártires e vicejou a grande Escola Teológica de Clemente e Orígenes, de Cirilo e de Atanásio. O nome “copta” é corruptela da palavra grega “eguipto”.

Foi nos desertos e oásis do Egito que, a partir do século III, Santo Antão deu impulso à vida monástica cristã nas suas formas de eremita e anacoreta: homens e mulheres deixavam tudo, família, bens, livros, para penetrarem nos desertos e ali combaterem o diabo face a face e se aprofundarem na contemplação de Deus: os Pais e Mães do deserto teciam cestos enquanto “ruminavam” a Palavra de Deus. Para não caírem na tentação do intelectualismo, preferiam ser analfabetos memorizando os textos bíblicos, especialmente os Salmos, rezados sem cessar.

Muitos desses mosteiros foram esvaziados pelo tempo, comodismo, pela perseguição. E foi no século XX que um jovem farmacêutico do Cairo, vendeu tudo, deu-o aos pobres e foi para o deserto: Matta El Meskin (1909-2006). Seguindo seus passos, milhares de jovens mergulharam no deserto e repovoaram dezenas dos antigos mosteiros. A perseverança dos cristãos coptas gerou comunidades fortes, decididas, corajosas frente às oposições. São 10% da população do Egito, 8 milhões de cristãos.

Foi nessa Igreja que, no dia 15 de fevereiro de 2015, 21 homens de El Minya, na maioria entre 20 e 30 anos, testemunharam a fé derramando seu sangue: Milad, Abanub, Maged, Yusuf, Kirollos, Bishoy e seu irmão Somaily, Malak, Tawadros, Girgis, Mina, Hany, Bishoy, Samuel, Ezat, Loqa, Gaber, Esam, Malak, Sameh e um operário do povoado de Awr.

Para ajudarem no sustento da família, imigraram numa cidade da vizinha Líbia, onde trabalhavam. Ali foram presos por integrantes do Estado Islâmico (EI) e levados para a provação final. Esses fanáticos aprendem a arte de degolar degolando cabras, pois o ódio deve manifestar também competência. Revestem seus prisioneiros com túnicas alaranjadas e eles vestem túnicas e capuzes negros. Filmam o rito de suas execuções para que sejam difundidas pela Internet: um pequeno discurso atacando o Ocidente e os cristãos, postam-se atrás da vítima, com uma mão erguem o queixo e com a outra cortam-lhe a garganta.

Os 21 mártires cristãos coptas

Trabalhador, sereno na hora do martírio

Trabalhador, sereno na hora do martírio

Os coptas que assistiram ao vídeo da execução ouviram com clareza que esses jovens pronunciaram o Nome de Jesus antes que a navalha lhes roubasse a voz. O Nome de Jesus salva e foi esse Nome que lhes tirou o medo. Suas faces conservam a serenidade e ocultam a dor de deixarem suas famílias. Nenhum deles apostatou, na tradição de fidelidade própria dos coptas que aprenderam a alegria de viver e morrer como cristãos. Para que não paire dúvidas a respeito da fidelidade à fé cristã até o final, no momento do Batismo o copta recebe no pulso a tatuagem de uma cruz para que, se não puder falar ou expressar a fé, o sinal da cruz é a garantia de sua perseverança.

Beshir Kamel, irmão de dois egípcios decapitados – Bishoy, 25 anos, e seu irmão Somaily, 23 anos –, explicou que esta violência do EI “ajudou a reforçar a fé” dos coptas no Egito. Também comentou que sua mãe, uma sexagenária sem instrução, perdoou o assassino de seus filhos: “Minha mãe disse que ela suplicará a Deus para que a deixe entrar em Sua Casa, pois ele permitiu a seus filhos entrar nas Mansões eternas”.

Tawadros II, Papa da Igreja copta, ao ver que os jovens invocaram o Nome de Jesus antes da morte, incluiu os 21 nomes no Synaxarium, equivalente ao Martirológio romano, significando sua canonização, com a festa fixada para o dia 15 de fevereiro de cada ano. Por que logo canonizar? Aqueles simples trabalhadores, no momento em que iam sendo trucidados invocaram o nome de Jesus Cristo e a ele se confiaram.

Com sua morte, os 21 trabalhadores foram causa de unidade entre as grandes Igrejas: de Moscou a Kiev, de Constantinopla a Canterbury, os arcebispos e patriarcas manifestaram os mais fraternos sentimentos de dor e edificação a Tawadros II.

E Francisco, o Papa de Roma, abriu o coração e, sem perguntas doutrinais, fez um gesto nunca ouvido ou visto: comemorou numa Eucaristia católica cristãos de outra confissão: “Ofereçamos esta Missa pelos nossos 21 irmãos coptas, decapitados pelo único motivo de serem cristãos … rezemos por eles, que o Senhor os acolha como mártires, rezemos por suas famílias, pelo meu irmão [o patriarca copta] Tawadros que está sofrendo muito”. Foram palavras de grande intensidade espiritual, e a evocação da palavra “martírio” não é casual: aqueles simples operários a Jesus se entregaram, não renegaram sua fé, que foi o único motivo da morte violenta. Os algozes não perguntaram o nome de sua Igreja, quais suas crenças, doutrinas, ritos, mas apenas o objeto de sua fé: Jesus Cristo.

Papa Francisco concretizou o gesto do ecumenismo do sangue, do martírio. Aqueles homens eram simplesmente “cristãos”, discípulos de Cristo, por quem deram a vida. Chamando-os de mártires, Francisco canonizou-os com a Igreja Copta.

Lembro aqui um outro acontecimento da Igreja, a Celebração Ecumênica das Testemunhas da Fé no Pentecostes do Ano 2000. João Paulo II desejou celebrar os mártires de todas as confissões cristãs e o fez numa emocionante celebração diante do Coliseu em 7 de maio de 2000. Seu desejo era que fosse a Celebração dos Mártires da Fé cristã, mas o Cardeal Ratzinger fez-lhe chegar a observação de que, usando a palavra “mártir”, estaria canonizando a todos. Pelo bem da exatidão, optou-se pela palavra “Testemunhas”. Mas, em outro ponto manteve-se firme: os 11 bispos de El Salvador fizeram-lhe chegar o pedido para que não incluísse o nome do mártir Dom Oscar Romero, pois ele tinha sido uma das causas da violência em El Salvador. João Paulo II não perdeu tempo: incluiu o nome de Dom Romero e citou-o na oração da Coleta…

Francisco é um homem que vive a liberdade cristã: como não fazer seus os mártires das Igrejas cristãs, como não invocar aqueles, não católicos romanos, que morreram por serem cristãos?

Jesus acompanha os 21 trabalhadores coptas - WAL MORIES

Jesus acompanha os 21 trabalhadores coptas – WAL MORIES

O Espírito fala pelos artistas

Pela rapidez dos meios eletrônicos de comunicação, correu e corre mundo um desenho do jovem artista egípcio, Wael Mories: os trabalhadores vestindo a túnica alaranjada caminhando junto com os algozes e, à frente, Jesus caindo por terra carregando a cruz, também ele com a túnica alaranjada. Os trabalhadores caminham firmes, e somente Jesus cai por terra: faz sua a dor de todos eles que morrerão por ele, e sofre intensamente o sofrimento deles. Solidário, não resiste e, quem sabe, pergunta: “Onde estás, ó homem? Onde está tua humanidade?” Foi a mesma pergunta que Francisco fez no Yad Vashem, em Jerusalém, recordando as vítimas do Holocausto judeu.

E outro artista egípcio, Tony Rezk, desenhou o ícone dos Mártires e que será a imagem a ser contemplada na Liturgia copta. Rezk desenhou os 21 homens com túnicas alaranjadas e estola vermelha, os Anjos e o Senhor também com a estola vermelha. A partir do Reino da glória Jesus lança as 21 coroas com que os dois Anjos coroam os mártires. Todos têm o mesmo rosto de Cristo, mas há um de cor diferente: é o trabalhador sudanês, de rosto mais escuro.

Quando a força do mal parece proferir a última palavra, a graça continua o caminho da vitória, pois o sangue dos mártires é semente de novos cristãos.

Pe. José Artulino Besen

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SÃO JOÃO XXIII – O DULCÍSSIMO PAPA CAMPONÊS

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No dia 28 de outubro de 1958, o Cardeal Patriarca de Veneza Ângelo Giuseppe Roncalli foi eleito papa. Após as homenagens dos cardeais, da Cúria romana, da apresentação ao povo reunido na Praça de São Pedro, dos cumprimentos de familiares e amigos, a noite já ia avançada. Então o fidelíssimo secretário Loris Capovilla lhe pergunta: “Ocorre-lhe mais alguma coisa, enviar algum telegrama?”, e João XXIII responde singelamente: “Agora, façamos a coisa mais simples, meus filho. Tomemos o Breviário e recitemos Vésperas e Completas . Assim foi a vida do Papa canonizado em 27 de abril de 2014. Ocupou os mais altos e significativos postos nos serviços da Igreja, mas nunca perdeu a unidade interior. Em nenhum momento achou que merecesse alguma honraria, pois elas eram sempre fruto da bondade da Igreja. O importante, para ele, era cultivar a alma, a santidade, cumprir seus propósitos de vida formulados durante os Exercíos Espirituais em 1895, no Seminário de Bérgamo e escritos nos cadernos do DIÁRIO DA ALMA . A última anotação no DIÁRIO foi em 20 de maio de 1963. Morreu no 3 de junho seguinte.

Filho de camponeses pobres e de sólida formação cristã, duas pessoas ficaram em sua memória espiritual e humana: o vigário Francisco Rebuzzini e o tio Savério que lhe ensinou as primeiras orações e princípios de vida cristã. Dava-lhe muita alegria observar os dois homens conversando e rezando enquanto caminhavam perto da casa paroquial de Sotto il Monte, o humilde povoado onde nasceu em 25 de novembro de 1881.

João XXIII conservou sempre a fé simples e profunda dos camponeses bergamascos. Suas missões diplomáticas na Bulgária, Grécia, Turquia e Paris, o cardinalato e o supremo Pontificado não complicaram em nada essa fé que o comprometia diariamente e era a causa de sua felicidade e, nela, a humildade e o silêncio tinham lugar privilegiado.

Foi Píer Paolo Pasolini, o famoso poeta e cineasta italiano, que o apelidou de “Dulcíssimo Papa Camponês”. Pasolini estava em Assis em 4 de outubro de 1962, quando lá esteve João XXIII, que tinha empreendido a peregrinação ao Santuário de Loreto e a Assis a fim de colocar sob a proteção de Nossa Senhora e de São Francisco o Concílio Ecumênico que seria inaugurado no dia 6 seguinte. Na verdade, Pasolini estava em Assis para confirmar seu anticlericalismo, sua rejeição ao Papado, queria olhar nos olhos aquele Papa que olhou nos olhos os presidiários romanos, armado apenas de imensa e arguta piedade. Estava no hotel quando, ao som dos sinos, o Papa ia passar. Teve o desejo de levantar-se e o olha-lo, mas venceu e, inexplicavelmente, tomou o livro dos Evangelhos que estava no quarto e leu do início ao fim o Evangelho de Mateus. Quando João XXIII ia se retirando, Pasolini tinha pronto seu filme, o “O Evangelho segundo Mateus”, dedicado ao Papa . O filme é a reprodução literal do Evangelho de Mateus, o Evangelho das Bem-aventuranças.

Na história do mundo a vida de papa Roncalli confirmou o valor atraente da bondade evangélica, que conserva sempre um lugar de honra no Sermão da Montanha: bem-aventurados os pobres, os mansos, os pacíficos, os misericordiosos, os sedentos de justiça, o puros de coração, os atribulados, os perseguidos.

João XXIII não apreciava muitos os livros e artigos a seu respeito, que julgava exagerados, equivocados: “Somente o olhar do Senhor nos vê como somos, e é somente isso o que conta”, respondeu a Indro Montanelli, jornalista que teve o privilégio de entrevista-lo em 1959 .

O que é ser santo?

João XXIII morreu após a primeira Sessão do Concílio, em 3 de junho de 1963. Seria fidelidade à tradição canonizar o Papa que morresse durante um Concílio. E, ao final do Vaticano II, um bispo polonês se levantou para pedir que fosse canonizado ao final da Assembléia conciliar. Em seguida, mais dois arcebispos fizeram o mesmo: o cardeal Stefan Wyszynski e Karol Wojtyla, que foi canonizado no mesmo dia como São João Paulo II. Um, o Santo que veio do mundo camponês e, o outro, o Santo que veio da opressão do Leste europeu. Evidente que poderosos Cardeais da Cúria se opuseram a esse anseio, pois, canonizar João XXIII seria canonizar um modo demasiado humano de ser papa, e isso não seria conveniente.

Com apenas 26 anos, Ângelo Roncalli definiu o que é ser santo: saber anular-se constantemente, destruindo dentro e ao redor de si aquilo que o mundo elogia como causa de louvor; conservar viva no coração a chama de um amor puríssimo para com Deus, acima dos lânguidos amores da terra; dar tudo, sacrificar-se pelo bem dos próprios irmãos, e, na humilhação, na caridade de Deus e do próximo seguir fielmente os caminhos indicados pela Providência que conduz as almas eleitas no cumprimento da própria missão: está aqui toda a santidade. Roncalli foi fiel a esses princípios por toda a longa e movimentada existência. Vida pública e privada. Antes e depois de ser eleito papa. Eleito bispo e papa, escolheu como seu o lema do Cardeal César Barônio: “Obediência e Paz”, duas virtudes que lhe permitiram viver na alegria e na simplicidade e que tanto atraem os estudiosos de sua vida: “a nossa paz é a vontade de Deus”.

O padre Ângelo Giuseppe Roncalli

Em 10 de agosto de 1904 foi ordenado sacerdote, um padre à moda antiga, mas ancorado no terreno sólido da revelação cristã. Quis sempre ser um padre marcado com fogo pela familiaridade com Cristo, preocupado com nada além do nome, do reino e da vontade de Deus, sua alegria.

No dia 24 de maio de 1915 partiu para o serviço militar em Saúde. Estava vivendo o horror da primeira grande guerra. Na véspera escreveu em seu DIÁRIO: “O Senhor dispôs a minha última hora para o campo de batalha? Nada sei; a única coisa que quero é a vontade de Deus em tudo e sempre e a sua glória no sacrifício completo do meu ser”.

Todo o ministério era causa de alegria: recitava a Liturgia das Horas com grande alegria interior, celebrava cada Missa como que mergulhado dentro dela, em êxtase. Era no altar o que era fora do altar: “a pessoa do sacerdote é sagrada”, falou ao clero romano já como papa em 26 de janeiro de 1960. De sua vida de oração brotavam as palavras que dirigia ao povo. Para ele era claríssimo que a autenticidade e a fecundidade de seu sacerdócio dependiam essencialmente de sua santificação pessoal, de sua vida de comunhão íntima com Deus.

Alimentava profunda espiritualidade missionária, o ardente desejo de que todos os povos cohecessem a Jesus. Teve a alegria de trabalhar em Roma na Obra pela Propagação da Fé, entre 1921 e 1925. Mais tarde, escreveu que a “Obra da Propagação da Fé é a respiração de minha alma e de minha vida” . Em 3 de março de 1958, recordando a entrega do Crucifixo para um grupo de missionários no distante 1910, escreveu: “nas conversas e confidências com alguns dos anciãos que retornavam dos campos da evangelização, me sentia como que preso por uma edificação e ternura inefável, que ainda não despertava em mim uma vocação missionária, mas educava meu espírito à admiração por quem se sentia chamado e respondia correndo àquele caminho corajoso e misterioso”.

Após anos de serviço diplomático, entre 1925-1953, comentou que tinha sido um trabalho importante, mas sem comparação com a saborosa e serena alegria da ação missionária, do contato com almas e ambientes diversificados e interessantes que me introduziram num conhecimento mais profundo com o que se refere às orientações e esperanças do Reino de Cristo no mundo.

João XXIII em seu escritório

João XXIII em seu escritório

Os caminhos de Deus

Ordenado padre para o serviço direto com o povo, em 1925 foi chamado pelo Papa Pio XI ao trabalho diplomático, primeiro na Bulgária, depois na Grécia e Turquia e, enfim, na sofisticada Paris marcada pela humilhação da Guerra. Em 19 de março de 1925 foi ordenado bispo. Em comum, essas nações passavam pelas provações da política que humilha os pobres e busca dominá-los.

Até aqui, Roncalli tinha sido um culto e estimado sacerdote, secretário pessoal de Radini Tedeschi, bispo de Bérgamo, com doutorado em Roma, professor de história eclesiástica e de apologética. Descobriu, comentou, traduziu e iniciou a publicação dos 5 volumes das Atas da visita apostólica de São Carlos Borromeu a Bérgamo, em 1575.. Brilhante “carreira eclesiástica”, pode-se dizer.

Agora, sua missão primordial era atender às comunidades católicas búlgaras, gregas e turcas. Procurou ser bispo com coração de padre para seus sacerdotes, participando de seus Exercícios Espirituais, de sua pobreza.

Como bispo e delegado apostólico continuou sua vida sacerdotal e inicia um caminho que o levou à Nunciatura de Paris e ao Patriarcado de Veneza. Seu DIÁRIO DA ALMA não descreve recepções, encargos recebidos, publicações e honrarias: está preocupado com sua alma, com sua santificação, em participar com o proveito do Retiro Espiritual. O cuidado com os pobres, todos os pobres, toma boa parte de seu tempo. Os católicos eram exígua minoria em países ortodoxos e na muçulmana Turquia. O campo de apostolado germinou nele a consciência ecumênica e de diálogo religioso. Concretamente, quase nada conhecia do mundo ortodoxo, menosprezado e esquecido pelo Ocidente católico. A formação sacerdotal não tinha em conta essas comunidades. Isso foi nele contrabançado pela capacidade de encontrar cada pessoa, de conviver com todos. A unidade humana e cristã prevalecia: “Sentia-me irmão deles. Possuem a sucessão apostólica, recebi-os como bispos irmãos. É uma dor não poder ainda celebrar a eucaristia juntos, mas existe a amizade. Abençoamo-nos uns aos outros, um irmão abençoa o outro”, confessou anos depois. Atenágoras, Patriarca ecumênico de Constantinopla, aplicou a João XXIII a passagem evangélica “houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João”.

Alargou os braços da Igreja, reunindo-os num sentimento comum, primeiro de estima, depois de veneração. Fortalecidos por esse afeto, durante o pontificado de João XXIII, os bispos ortodoxos visitavam-no nos tempos de opressão dos regimes comunistas, vinham com a confiança de filhos, filhos de uma Igreja irmã, a pedir socorro. Suas viagens a Roma era verdadeiras visitas ad limina Petri . Também como a irmãos foi seu relacionamento com o povo turco, muçulmano. Eram irmãos. Sua espiritualidade fez com que entendesse sempre mais o diálogo ecumênico e religioso como via pacis, via charitatis, via veritatis: paz-caridade-verdade.

A experiência deplomática e sacerdotal abriu-lhe os horizontes que levaram ao Concílio Ecumênico do Vaticano II. Acrescente-se a isso seu estar próximo das pessoas e o encontro com os mais pobres: ele nasceu de uma família pobre. Nos anos que vão de 1939 a 1945 fez o possível para socorrer as vítimas da guerra, de modo todo especial se empenhando na salvação de milhares de judeus ameaçados de extermínio. Era Núncio em Paris quando, em 1953, Pio XII o escolheu para Cardeal e Patriarca de Veneza. Estivera 28 anos fora de sua Itália e agora, para sua felicidade, era padre e bispo, podendo dedicar-se exclusivamente ao bem das almas. Por cinco anos foi o vigário de Veneza, abraçando a todos, católicos, não católicos, não-crentes. Estava feliz nessa missão, a cada dia se preparando espiritualmente para uma boa morte quando, em 28 de outubro de 1958, foi eleito Papa, escolhendo João como nome, e a missão de preparar os caminhos do Senhor.

Dia 27 de abril de 2014 - Com a presença de Bento XVI, Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II

Dia 27 de abril de 2014 – Com a presença de Bento XVI, Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II

Um Anjo com o nome de João

João XXIII continuou sendo o mesmo seminarista que seguia os propósitos escritos em 1895 nos Caderninhos que lia com freqüência para seus exames de consciência. As grandes recepções, o afeto que o mundo lhe consagrava, a fama, o Concílio, nada podia distraí-lo do cuidado com sua alma. Continuava a viver a devoção a Nossa Senhora, São José, São Francisco Xavier, recitando as orações diárias de sua juventude. Pode ser incluído entre as almas eleitas nas quais o pecado não conseguiu ter nenhuma influência.

Nunca, em nenhum dia, mesmo como Papa, esqueceu suas origens humildes, seu tio Savério, o povo de Sotto il Monte. Loris Capovilla, quase centenário e agora Cardeal, afirma : “Ângelo Giuseppe Roncalli, da infância ao final de sua vida terrena, foi sempre a mesma pessoa: um cristão que levou a sério as promessas batismais; um cristão que sacerdote primeiro, depois bispo, cardeal e Pontífice, viveu sempre no altar entre um livro, o da divina revelação, e o cálice que é compêndio celeste que nos faz filhos de Deus”.

O Cardeal Capovilla, agora residindo em Sotto il Monte, não aprecia que se identifique João XXIII com o apelativo “Papa BOM”, porque muitos o entendem em sentido até pejorativo como Papa Bonachão, que não enxergava a realidade, o mal presente no mundo, o mestre do bom humor. Não se pode folclorizar esse homem, o Papa do diálogo, do Concílio, do Ecumenismo, da Mater et Magistra e da Pacem in terris.

Papa Roncalli foi homem de princípios, de clara visão da realidade, rigoroso no seguir as normas, príncipe da paz nos conflitos da Guerra fria. Um Papa que introduziu na visão eclesial os “sinais dos tempos”, isto é, ser fiel à Igreja mas enxergando sempre os novos horizontes históricos, um homem alimentado pela esperança e não agindo com pessimismo, que conhecia as dificuldades e os obstáculos.

Para o cristão, a fé é anúncio de salvação, de conversão do homem às coisas de Deus e a missão do sacerdote é encorajar as pessoas a medir-se com as situações, a empenhar-se, a trabalhar. Era uma pessoa firmíssima que sabia que sem clareza não se realiza o diálogo e que falar com todos não significa ceder.

No final de setembro de 1962, menos de 15 dias antes da abertura do Concílio, os médicos diagnosticaram a doença que o levaria à morte alguns meses depois: um câncer que lhe provocava muitas dores. Em 11 de outubro, após a abertura do Vaticano II, confidencia ao secretário: “Durante a leitura do discurso olhava os que me estavam vizinhos e pedia ao Senhor que ele falasse a cada um dos presentes”. E à pergunta “Como se sente?”, respondeu “Com aquilo que hoje o Senhor me concedeu devo sentir-me bem”.

Alma de criança e de gigante, de camponês provado pelas glórias humanas, repreendeu Loris Capovilla que chorava seu fim de vida: “Por que chorar? Esse é um momento de alegria, um momento de glória”. Tinha vivido 82 anos a espera do encontro com o Senhor.

E o mundo inteiro chorou no dia 3 de junho de 1963, quando morreu João XXIII, a quem a Igreja venera e invoca com o nome de São João XXIII.

Pe. José Artulino Besen

NOTAS

  1. Saverio Gaeta. Giovanni XXIII – uma vita di santità. Milano: Mondadori, 2000, p. 200ss.
  2. Foi publicada nova edição em português pela Editora Paulus, em 2000. O DIÁRIO é o relato de seu caminho de santidade, da busca incessante de fazer a vontade de Deus. Ele mesmo escreveu: “A minha alma está mais nestas folhas do que em qualquer outro escrito meu”.
  3. Zizola, G. Giovanni XXIII. Sotto il Monte: Servitium Editrice 1998, , p.142-144.
  4. Montanelli descreveu suas impressões no Corriere della Sera de 29 de março de 1959.
  5. Nutria grande ternura pelo Pontifício Instituto das Missões-PIME e pela memória de seu fundador Dom Ângelo Ramazzotti, que gostaria de ver canonizado. Hoje, os padres do PIME conservam e alimentam a memória de João XXIII em Sotto il Monte.
  6. Kiril Plamen Kartaloff. La sollecitudine ecclesiale di monsignor Roncalli in Bulgária. 2014: Città del Vaticano. Entrevista com o autor por Antonella Pilia , em 28 de março de 2014.
  7. LUOGHI DELL’INFINITO, 7 di aprile 2014 – numero speciale.

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SÃO JOÃO PAULO II – CONTEMPLAÇÃO E AÇÃO

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As aclamações e faixas com o “Santo súbito”, na Liturgia exequial de 2005, significaram o reconhecimento cristão e popular da santidade pessoal de Karol Wojtyla. Suprimindo os tempos de espera para a causa de beatificação, foi rápida a conclusão dela.

No desenrolar do processo de beatificação e canonização de João Paulo II foram ouvidos, sob juramento, 114 testemunhas: 35 cardeais, 20 arcebispos e bispos, 11 sacerdotes, 5 religiosos, 3 religiosas, 36 leigos católicos, 3 não católicos e um judeu.

Dado realçado na figura do Papa pelos leigos foi a libertação dos medos, dos condicionamentos, do sentimento de decadência da Igreja. Um guia excepcional, muito pessoal e carismático, com sua personalidade substituindo faltas das instituições e das pessoas. Um Papa corajoso, uma personalidade que arrastava multidões.

Também foram salientados seus gestos originais da Jornada Mundial de Assis, da visita à Sinagoga de Roma, à mesquita dos Omíadas em Damasco e a renúncia aos privilégios da Concordata de 1929 entre o Vaticano e a Itália, as grandes Celebrações do Ano 2000. Um depoimento severo, e quase solitário, foi dado pelo Cardeal Martini (1927-2012), de Milão, que julgava ser prudente deixar mais tempo passar. Entre os pontos que salientou e que depunham negativamente a respeito do Papa Wojtyla, podemos citar: escolhas não sempre felizes de bispos e arcebispos, escolha não as melhores de colaboradores sobretudo nos últimos tempos, o excessivo apoio aos Movimentos ao invés do apoio às Igrejas locais, seu “imprudente” colocar-se no centro das atenções, especialmente nas viagens, disso resultando obscurecida a missão da Igreja local e do bispo, ao mundo dando a impressão de ser o “bispo do mundo”. Martini afirmou ver no Papa um corajoso homem de Deus, capaz de grande recolhimento mesmo no tumulto das atividades, sua dedicação total à Igreja, mas, talvez tivesse sido prudente retirar-se do ministério petrino quando a doença se agravou e forças retrógradas assumiam o governo central da Santa Sé. Aqui devemos incluir também o sofrimento que infligiu a Dom Hélder Câmara (1909-2009) e à Igreja de Olinda-Recife, impondo como sucessor um bispo cuja missão parecia ser negar a herança cristã desse homem de Deus.

O teólogo e ex-abade de São Paulo fora dos Muros, Giovanni Franzoni, citou, em seu depoimento, aquelas atitudes de João Paulo II a seu ver negativas: a frieza com que recebeu o arcebispo mártir de Salvador Dom Oscar Romero (“Nunca me senti tão sozinho como em Roma”), em 1979, recebendo o conselho de trabalhar mais de acordo com o Governo. No ano seguinte, o santo pai dos pobres e defensor dos injustiçados foi martirizado enquanto celebrava a Missa. Franzoni também não julgou profética a atitude papal de ignorar os escândalos financeiros no Vaticano, os casos de pedofilia no clero, a dureza na dispensa do ministério dos padres egressos. Certamente o Papa sempre agiu no desejo firme de proteger o bom nome da Igreja, para não dar aos fiéis motivo de escândalo. Além disso, tinha vivido na Polônia as calúnias levantadas pelo regime comunista contra padres e bispos: não seria esse o caso? Infelizmente, não era.

Nem Martini, nem Franzoni, duvidam da santidade pessoal de Wojtyla, mas se perguntam se é possível, ou recomendável, separar a pessoa do Papa da missão exercida.

João Paulo II – a vida a serviço de Deus

Desde jovem, foi homem de profundíssima vida de oração e isso era tão visível que algum colega escreveu na porta de seu quarto de seminarista “Futuro santo”. Todas as suas decisões na vida concreta eram assumidas à luz de sua relação com Deus, e essa relação lhe proporcionava uma confiança enorme e uma enorme coragem.

Em seu testemunho, Joseph Ratzinger (Bento XVI) declarou “- “Que João Paulo II era um santo, durante os anos de colaboração com ele, se tornava cada vez mais e mais claro para mim. (…) Se doou com uma radicalidade que não pode ser explicado de outro modo. (…) Seu empenho era incansável, e não apenas nas grandes viagens, cujos programas eram cheios de eventos do início ao fim, mas também no dia a dia, desde a Missa matutina até tarde da noite”. “A espiritualidade do Papa foi caracterizada principalmente pela intensidade das suas orações, profundamente enraizada na celebração da Santa Eucaristia e realizada juntamente com toda a Igreja, com a recitação do breviário. (…) todos nós sabemos do seu grande amor pela Mãe de Deus. Doar-se totalmente a Maria significava ser, com ela, totalmente do Senhor”.

De acordo com o Papa emérito, neste contexto deve ser compreendida a santidade de João Paulo II: “Somente a partir da sua relação com Deus é possível compreender o seu incansável empenho pastoral”.

Mons. Slawomir Oder, postulador do processo de canonização, descreve a santidade de João Paulo II a partir da sua relação íntima com Deus e Nossa Senhora: uma relação que nem todos conseguiam entender e achavam até estranha. “Às vezes, durante a oração mariana, o Papa parecia em êxtase, desligado do contexto circundante, como num encontro. Ele vivia uma relação pessoalíssima com Nossa Senhora”. Para algumas testemunhas, quando João Paulo se dirigia à Virgem Maria não falava com alguém distante, mas, com alguém próximo, a seu lado.

Seu segredo de santidade era sua vida interior, de oração. O próprio João Paulo II sugeriu a chave para o conhecerem: “Muitos tentam me conhecer olhando de fora, mas eu só posso ser conhecido de dentro, do coração”. Alimentava relação íntima com Deus, que se realizava na oração incessante, fazendo, muitas vezes, com que deixasse intacta a cama e preferisse passar a noite no chão, imerso em oração, e isso apesar do cansaço das viagens, da progressão da doença e da fragilidade física.

Mons. Oder refere um fato concreto: “no final de uma das últimas viagens apostólicas, foi quase arrastado para o quarto pelos seus colaboradores. Os mesmos colaboradores, na manhã seguinte, encontraram a cama intacta, porque João Paulo II tinha passado toda a noite em oração, de joelhos no chão. Para ele, recolher-se em oração era essencial, tanto que, nos últimos meses de vida, ele pediu no quarto um espaço para o Santíssimo Sacramento. Sua relação com nosso Senhor era verdadeiramente extraordinária”.

Wojtyla nutria um relacionamento íntimo com o Cristo vivo, especialmente na Eucaristia, de onde vinha tudo aquilo que vimos nele como fruto de extraordinária caridade, zelo apostólico, paixão pela Igreja, amor pelo Corpo místico. Numa palestra em que estive presente, Dom Luciano Mendes de Almeida comentou que aconteceu presenciarem o Papa, na ação de graças após a Missa, na sacristia, estar prostrado no chão, em sua preferida posição de cruz (braços estendidos) e falando em voz alta, num profundo diálogo espiritual com o Senhor.

O jornalista e historiador Vitório Messori, que teve o privilégio de contata-lo pessoalmente, assim se expressou: “Diria que no caso de Wojtyla nem se pode falar de ‘homem de fé’, pois está possuído pela certeza. Não tem necessidade de crer: ele vê. Falando com ele, tem-se a impressão de que esteja imerso numa espécie de visão. Aquilo que vê não o espanta, parece-lhe natural e não fonte de dúvida. Não se pode explicar seu pontificado se não se leva em conta esse aspecto do homem: cada pensamento e cada ato fincam raízes na contemplação e na oração”.

Seu identificar-se com Cristo significou também estar com Ele crucificado, ver o aniquilamento das energias, forças, carisma de comunicação que marcaram o início do Pontificado em 1978. O dia 13 de maio de 1981 marcou a transição de um Pontificado do Papa vigoroso para o Pontificado do Papa humanamente fragilizado: os tiros que recebeu na Praça de São Pedro significaram a progressão no caminho da Cruz. Na Carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984, convidava a Igreja a penetrar no sentido salvífico do sofrimento de Jesus Cristo, sofrimento vencido pelo amor. João Paulo II aprofundava a vivência do sofrimento que aniquila as forças físicas, mas, liberta as forças espirituais. Em sua Carta Novo Millennio Ineunte, de 2001, convida a Igreja a contemplar a face de Cristo em sua dor sem medida e em sua glória sem fim.

Impressiona o número de Mártires beatificados e canonizados por ele: os que derramaram o sangue por Cristo receberam estatuto de glória, neles incluídos os martirizados pelos regimes comunista, nazista, ditatoriais e inimigos da fé cristã. Carregando sua cruz, o Papa nos fez olhar para tantos homens e mulheres que não fugiram da morte no testemunho da fé no Senhor. O século XX foi o século dos mártires tanto católicos como ortodoxos, anglicanos e evangélicos, escreveu na Tertio Millennio. E o século XXI continua a sê-lo.

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João Paulo II – o retorno à Casa do Senhor

O dia da morte dos santos é seu dies natalis, nascimento para a eternidade. E esse dia chegou para João Paulo II quando tinha vivido 84 anos, dos quais 57 de sacerdócio, 47 de episcopado e 27 de pontificado.

Servimo-nos de algumas palavras do doutor Renato Buzzonetti, médico que o acompanhou até os últimos instantes e narrou as últimas horas do Papa no livro-entrevista “Accanto a Giovanni Paolo II” (publicado na Itália pela Editora ARES):

“Na quinta-feira, 31 de março de 2005, por volta das 11 horas da manhã, enquanto celebrava a Missa na capela privada, o Santo Padre sentiu um tremor intenso, seguido por uma séria elevação da temperatura e por um gravíssimo choque séptico. Graças à habilidade dos reanimadores, a situação crítica foi controlada e dominada mais uma vez.

Perto das 17 horas, foi rezada a santa Missa ao pé da cama do Papa, que aos poucos emergia do choque. Na Consagração, o Papa levantou fracamente o braço direito, duas vezes, em direção ao pão e ao vinho. Tentou bater no peito com a mão direita no momento do Agnus Dei. Depois da Missa, a convite de Mons. Stanislaw, os presentes beijaram a mão do Santo Padre. Ele chamou as freiras pelo nome e acrescentou: “Pela última vez”. Depois, sendo quinta-feira, o Santo Padre quis comemorar a hora de adoração eucarística: leitura, recitação dos salmos, cantos entoados pela irmã Tobiana.

Na sexta-feira, 1º de abril de 2005, após a Missa concelebrada por ele, o Santo Padre pediu, às 8 horas, para fazer a Via sacra, fazendo o sinal da cruz em cada uma das 14 estações. Participou da recitação da terceira hora do Ofício divino e, às 8:30h, pediu para ouvir a leitura de passagens da Sagrada Escritura.

No sábado, 2 de abril de 2005, foi celebrada a santa Missa ao pé da cama do Santo Padre. Ele participou com atenção. No final, com palavras arrastadas e quase ininteligíveis, João Paulo II pediu a leitura do evangelho de São João, que o Pe. Styczen fez devotadamente, lendo nove capítulos. Homem contemplativo, com a ajuda dos presentes, o Papa recitou as orações do dia até o Ofício das leituras do domingo que se aproximava.

Por volta das 15h30, o Santo Padre sussurrou para a Irmã Tobiana: ‘Deixem-me ir para o Senhor…’, em polonês. Foram suas últimas palavras, o seu ‘consummatum est’ (Jo 19, 30). Ele não queria atrasar esse encontro com o Senhor, esperado desde os anos da juventude. Foi para isso que ele tinha vivido. Aquelas palavras eram de expectativa e de esperança, de renovada e definitiva entrega nas mãos do Pai, seu TOTUS TUUS definitivo.

Depois das 16 horas, o Santo Padre foi adormecendo e perdendo gradualmente a consciência. Por volta das 19 horas, ele entrou em coma profundo e em agonia. O monitor registrava o esgotamento progressivo dos parâmetros vitais. Às 20 horas, começou a Missa celebrada aos pés da cama do Pontífice que falecia. Cantos poloneses se entrelaçavam com os cantares que subiam da Praça de São Pedro, lotada. Uma pequena vela brilhava sobre o criado-mudo, ao lado da cama.

Às 21:37h, o Santo Padre morreu. Depois de poucos minutos de atônita dor, foi entoado o Te Deum em língua polonesa e, da Praça, de repente, viu-se iluminada a janela do quarto do Papa. A morte de João Paulo II às 21,37 horas deste sábado coincidiu com as vésperas da festa litúrgica da Divina Misericórdia”.

A grandeza dos santos está em buscar sempre a Misericórdia que regenera a vida. Eles não acertaram em tudo o que fizeram, porque eram humanos, mas souberam ser conduzidos pela graça.

O Bem-aventurado João Paulo II cometeu erros, ou equívocos, no exercício do ministério papal, boa parte deles fruto de escolhas que fizera na Cúria romana e de bispos cujos conselhos ouvia. Nada disso tira o esplendor de sua vida, e sim, manifesta como Deus é admirável nos seus santos. Seu testemunho de vida fiel e corajosa na opressão comunista de sua Polônia natal, a perda da mãe, pai, irmão, sua confiança inabalável no Senhor e na intercessão de sua Mãe Maria, seu amor intransigente pela Igreja e pela humanidade tornaram justo que o invoquemos como São João Paulo II a partir de 27 de abril de 2014.

Pe. José Artulino Besen

 

 

 

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SÃO JOSÉ DE ANCHIETA – O APÓSTOLO DO BRASIL

São José de Anchieta - Alfredo Cherubino - 2014

São José de Anchieta – Alfredo Cherubino – 2014

José de Anchieta nasceu na ilha de Tenerife, no arquipélago das Canárias, em 19 de março de 1534. Era filho de Juán López de Anchieta, um revolucionário que tomou parte na revolta dos Comuneros contra o Imperador Carlos V da Espanha, e grande devoto da Virgem Maria. Descendia da nobre família basca Anchieta (Antxeta). Sua mãe chamava-se Mência Dias de Clavijo e Larena, natural das Ilhas Canárias,filha de cristãos-novos (judeus convertidos). Um seu tataravô, que devia ser um fervoroso judaizante, foi queimado pela Inquisição [1]. O avô materno, Sebastião de Larena, foi um judeu convertido do Reino de Castela, também perseguido pela Inquisição.

Com 14 anos de idade mudou-se para Coimbra, em Portugal, onde foi estudar filosofia no Colégio das Artes, anexo à Universidade de Coimbra. Se era espanhol, por que em Portugal? A ascendência judaica foi determinante, uma vez que na Espanha, à época, a Inquisição era mais rigorosa.

Em 1551 ingressou na Companhia de Jesus como Irmão. O Pe. Manuel da Nóbrega, Provincial dos Jesuítas no Brasil solicitou mais braços para a evangelização e José de Anchieta foi um dos indicados. Chegou ao Brasil em 1553, com apenas 19 anos. Entusiasmado, Anchieta logo pôs-se a estudar o tupi, que aprendeu em seis meses, e consagrou sua vida ao trabalho de evangelização. Sua ação missionária se estendendo de São Paulo à Bahia.

Participou da fundação, no planalto de Piratininga, do Colégio de São Paulo, do qual foi regente, em 25 de janeiro de 1554. Ali nascia a cidade de São Paulo, que ele descreve no mesmo ano em uma carta ao fundador Santo Inácio de Loyola: De janeiro até o presente se fez ali uma pobre casinha feita de barro e palha com catorze passos de comprido e doze de largo, moravam bem apertados os irmãos. Ali tinham escola, enfermaria, dormitório, refeitó­rio, cozinha e despensa (…). As camas eram redes, os cobertores o fogo.

Para mesa usavam folhas de bananas em lugar de guardanapos (…). A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio e, mais raramente ainda, alguma caça do mato (…). Todavia não invejamos as espaçosas habita­ções, pois Nosso Senhor Jesus Cristo dignou-se morrer na cruz por nós.

Outra carta indica a data da fundação: 25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa.

Cuidava não só de educar e catequizar os aborígenes, mas foi igualmente incansável defensor deles, protegendo-os dos abusos dos colonizadores portugueses que os queriam como escravos e, não raro, se amancebando com mulheres índias. Descendo a serra, evangelizou o litoral sul de São Paulo, passando por Itanhaém e Peruíbe.

Mediador da paz em Iperoig

Padre Manuel da Nóbrega percebeu a facilidade de Anchieta para aprender línguas, de se comunicar com os índios e sua resistência física. Não hesitou, no ano de 1563, em levá-lo junto para as negociações de paz entre os índios tamoios e os colonos portugueses da região de Ubatuba e da Guanabara onde, oito anos antes, os franceses tinham se estabelecido, e se aliaram aos tamoios contra os tupis e os portugueses.

Várias tentativas de expulsar os invasores tinham resultado num impasse, com os dois lados combatendo o tempo todo. Os indígenas de Iperoig – hoje Ubatuba – foram convencidos a se aliar aos da Guanabara, formando a Confederação dos Tamoios.

O governador Mem de Sá encarregara Nóbrega de tentar fazer os tamoios de Ubatuba desistirem dessa aliança. Pe. Anchieta entrou nas aldeias falando em voz alta, como era costume dos índios, em perfeito tupi, demonstrando autoridade. Em pouco tempo ele e Nóbrega puderam construir um pequeno altar na cabana que os abrigava. Anchieta começou a fazer pregações em tupi, abrindo o caminho para evangelizar a tribo.

Tendo Anchieta como intérprete, Nóbrega tratava da paz e ficou sabendo que os tamoios também queriam a paz. Estavam cansados de perseguir e matar portugueses, mas nada tinham a reclamar dos franceses da Guanabara, que lhes davam armas, ferramentas e roupas. O único obstáculo à paz eram os tupis, inimigos dos tamoios e aliados dos portugueses. Vivendo em clima de perigo iminente, Nóbrega e Anchieta ficaram isolados do mundo: os navios em que tinham vindo estavam na Guanabara, onde também se tentava um acordo. E permaneciam sob constante ameaça dos índios mais exaltados, irritados com o simples fato de a tribo ter recebido os dois jesuítas amigos dos portugueses.

Logo Anchieta ficou inteiramente só, como refém, enquanto Nóbrega voltou a São Vicente para finalizar o tratado de paz. Anchieta iniciou a escrever nas areias de Iperoig e a decorar os versos de um longo poema em latim dedicado à Virgem Maria, com 3.000 hexâmetros,  4.172 versos. Foi a primeira epopéia escrita na América e Anchieta o escreveu em cumprimento de um voto: que a Virgem Maria o protegesse para não cair na tentação da carne, tendo diante de si índias nuas oferecidas por chefes. Venceu a tentação. O poema é um completo Tratado mariológico onde, ao lado da oração à Virgem, têm lugar a apologética, a história da Salvação, e profundas revelações de sua vida interior. Significativo foi incluir todo o texto do Cântico dos Cânticos, que sabia de memória. É a teologia mística de serviço de Deus por amor, percorrendo os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, nas palavras do Pe. Murillo Moutinho, SJ [2]. Assim podemos ler quando fala à Chaga de Jesus:

Deixa-me entrar no peito aberto pela lança ir morar no coração de meu Senhor, / por esta estrada chegarei até às entranhas de seu amor piedoso; / aí farei meu descanso, minha eterna morada. / Aí afundarei os meus delitos / no rio de seu sangue, /  e lavarei as torpezas de minh’alma, /  nesta água cristalina. Nesta morada, neste remanso, / o resto de meus dias, quão suave será viver, / aí por fim, morrer!”.

E a beleza de sua espera do último dia:

Minha alma agitada, em meio, tem sede de ti, / torrente abundante / de prazer eterno! / Feliz o dia em que me saciará, /  como em rio transbordante, / a Mãe e o Filho com o seu amor!”.

Terminado o cativeiro, transcreveu de memória o poema inteiro.

Por fim a paz foi acertada. Depois de cinco meses como refém, Anchieta partiu com uma ponta de tristeza: sentia deixar desamparadas as almas que estava conquistando para Cristo. Os índios também não esconderam sua melancolia pela partida do pajé branco que falava com Deus, lhes ensinava a doutrina cristã e tratava de suas doenças.

No mesmo ano de 1563, o perigo da morte, com a qual Anchieta convivera diariamente em Ubatuba, voltou a ameaçar o jesuíta e os índios do Planalto de Piratininga: em sua volta, esperava-o a epidemia de varíola, espalhada pelos europeus, e que mataria trinta mil índios em toda a costa brasileira.

Os férteis campos de Piratininga logo se transformaram num vasto hospital a céu aberto. Nessa ocasião, Anchieta valeu-se de conhecimentos medicinais que possuía e do uso de ervas nativas que tinha descoberto [3]. Nos casos mais graves, recorria aos sangramentos – em média de dez por dia -, que apavoravam os índios, já bastante assustados pela doença que nunca tinham visto.

Em 1566 foi enviado à Bahia com o encargo de informar o governador Mem de Sá do andamento da guerra contra os franceses, possibilitando o envio de reforços portugueses ao Rio de Janeiro. Por essa época foi ordenado sacerdote, aos 32 anos de idade.

No ano de 1569, Anchieta fundou a povoação de Iritiba ou Reritiba, atual Anchieta, no Espírito Santo e ainda dirigiu o Colégio do Rio de Janeiro por três anos, de 1570 a 1573, e onde tinha fundado a Santa Casa de Misericórdia. Em 1577 foi nomeado Provincial da Companhia de Jesus no Brasil, função que exerceu por dez anos. Nessa honrosa e delicada função percorreu o imenso território brasileiro de São Paulo ao Recife, constituindo-se sua grande preocupação o cuidado dos enfermos e moribundos. Como Provincial enviou ao Paraguai os primeiros missionários que formariam o núcleo inicial das famosas Reduções Jesuíticas.

Em 1587 retirou-se para Reritiba (Anchieta, ES), mas teve ainda de dirigir o Colégio dos Jesuítas em Vitória do Espírito Santo, até 1595.

Evangelizador, catequista, literato e santo

Para a catequese, os padres compuseram cantigas em tupi e colocaram letras cristãs em músicas indígenas. Além disso, serviram-se de danças e teatros que comunicavam de modo compreensível a mensagem cristã. As crianças aprendiam os cantos e danças e depois os retransmitiam aos adultos. “Com a música e a harmonia eu me atrevo a trazer a mim todos os indígenas da América”, escreveu o Pe. Manoel da Nóbrega. Um método de inculturação criticado pelo primeiro bispo do Brasil, Dom Pedro Fernandes Sardinha e que lhe valeu uma admoestação da Inquisição; respondia às ameaças com “Acabarei com as Inquisições a flechadas”.

Todo o trabalho missionário possibilitou que até 1600 tivessem sido batizados 100 mil índios brasileiros. Os jesuítas apenas batizavam aqueles que superavam as rigorosas etapas de um prolongado catecumenato. E mais não foi feito porque o destino dos índios era o cativeiro e a morte nas fazendas aonde eram levados para o trabalho forçado.

Pe. José de Anchieta, o “Apóstolo do Brasil”, fundador de colégios e cidades, missionário incomparável, foi gramático, poeta, teatrólogo, historiador e fino redator de cartas. O intenso apostolado não o impediu de cultivar as letras, compondo seus textos em quatro línguas – português, castelhano, latim e tupi, tanto em prosa como em verso. O movimento de catequese influenciou seu teatro e sua poesia, resultando na melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro. Sua vasta obra só foi totalmente publicada no Brasil na segunda metade do século XX. No início do 3º. milênio tem início uma avaliação positiva de sua obra, com o reconhecimento de seu valor literário por parte da crítica.

Sua primeira peça, “Pregação universal”, escrita por sugestão de Pe. Manoel da Nóbrega, foi encenada pela primeira vez em 1567. O título “universal” se referia às três línguas usadas, tupi, português e espanhol. Escreveu 11 peças teatrais onde, ao lado inseparável da finalidade catequética e evangelizadora, percebe-se qualidade literária, tendo como modelo a forma de Auto religioso da Idade Média, escrito em versos [4]. Dessas encenações, Pe. Fernão Cardin cita um “artista”, o índio Ambrósio Pires, em 1585, no papel de Anhangá, um diabo, na peça “A Aldeia de Guaraparim”: “A esta figura fazem os índios muita festa, por causa de seus gatimanhos e trejeitos”.

O Brasil lhe deve a primeira gramática da língua tupi, com a qual, praticamente, criou uma nova língua, a “língua geral”: a “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, impressa em Coimbra em 1595, já havendo a versão manuscrita desde 1556, no Colégio da Bahia. É a primeira gramática contendo os fundamentos da língua tupi com suas variantes [5].

O trabalho de Anchieta foi decisivo para a implantação do catolicismo no Brasil. Com seu conhecimento e sua fé, percorreu a pé, a cavalo, em embarcações, boa parte do território brasileiro de São Paulo ao Recife. Além de abrir caminhos que se transformariam em estradas, contribuiu para manter unificado o país nos séculos seguintes. Lançou os fundamentos da catequese e educação dos jesuítas no Brasil e começou a reverter o quadro iniciado desde o descobrimento, em que os nativos eram vistos apenas como propriedade da Coroa e, como tal, passíveis de serem escravizados. Defendeu sua dignidade de filhos de Deus. Com seus dotes inatos de comunicador, conseguiu com o indígena um amplo entendimento.

Por todos admirado como santo e milagroso, cansado das viagens, enfraquecido, em 9 de junho de 1597 Deus o chamou em Reritiba, onde residia desde 1587. A campanha para a sua beatificação foi iniciada na Capitania da Bahia em 1617, mas passou pelas vicissitudes de sua Ordem e não teve continuidade devido à perseguição de Pombal que expulsou os jesuítas do Brasil em 1759 e à supressão da Companhia de Jesus em 1773, sendo restaurada em 1814. O Apóstolo do Brasil foi declarado bem-aventurado pelo Papa João Paulo II em 22 de junho de 1980 e canonizado por Francisco em 3 abril de 2014.

Hoje, muitas pessoas procuram percorrer o caminho “Os Passos de Anchieta”, que resgata o trecho de 105 quilômetros compreendidos entre Anchieta e Vitória, e que José de Anchieta percorria regularmente duas vezes por mês, o denominado “caminho das 14 léguas”. Anchieta vencia a distância – frequentemente na dianteira – na companhia dos guerreiros temiminós que o acompanhavam na missão de cuidar do Colégio de São Tiago, erguido num platô da Vila da Nossa Senhora de Vitória, hoje transformado no Palácio do Governo, na cidade de Vitória do Espírito Santo, e onde jazem parte de seus restos mortais.

Essa “energia” de Anchieta incluía um físico frágil, menos de 1,60 metro e sofrendo fortíssimas dores nas costas, que poderiam ser provocadas pela tuberculose óssea. A doença já tinha se manifestado em Coimbra e, na tentativa de aplacar a dor, usava cintas apertadas, o que só contribuía para piorar o sofrimento. Nunca se queixou e se apresentava sempre disposto. Sua interioridade espiritual era vivida na Cruz, nas noites que passava em íntimo colóquio com Deus e no amor incondicional aos índios brasileiros.

Pe. José Artulino Besen

DOIS POEMAS DE ANCHIETA

Jesus na Manjedoura

– Que fazeis, menino Deus,
Nestas palhas encostado?
– Jazo aqui por teu pecado.

– Ó menino mui formoso,
Pois que sois suma riqueza,
Como estais em tal pobreza?

– Por fazer-te glorioso
E de graça mui colmado,
Jazo aqui por teu pecado.

– Pois que não cabeis no céu,
Dizei-me, santo Menino,
Que vos fez tão pequenino?

– O amor me deu este véu,
Em que jazo embrulhado,
Por despir-te do pecado.

– Ó menino de Belém,
Pois sois Deus de eternidade,
Quem vos fez de tal idade?

– Por querer-te todo o bem
E te dar eterno estado,
Tal me fez o teu pecado.

Ao Santíssimo Sacramento

Oh que pão, oh que comida,
Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar
Cada dia.

Filho da Virgem Maria
Que Deus Padre cá mandou
E por nós na cruz passou
Crua morte.

E para que nos conforte
Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento
Sua graça.


[1] Cf. ANITA NOVINSKI: Padre Anchieta: cristão ou judeu?. Folha de São Paulo, 24 de janeiro de 2014, opinião, A3. Historiadora e professora da USP, tem dedicado suas pesquisas à presença de cristãos velhos e cristãos novos no Brasil.

[2] Bibliografia para o Centenário da Morte de José de Anchieta. 1597-1997. São Paulo: Edições Loyola, vol. I. p. 204ss.

[3] Anchieta tinha especial inclinação para a medicina, profissão tradicional entre judeus e realizou inúmeras curas, afirma A. NIVINSKI, op. cit.

[4] NELSON DE SÁ: A restauração de Anchieta. Folha de São Paulo, 25 de janeiro de 2014, Caderno Ilustrada, E1. O autor discorre com simpatia sobre a obra de Anchieta, citando a opinião atual de diversos críticos literários. Ariano Suassuna percebe até ecos de Aristófanes no texto todo em tupi da peça “Na Aldeia de Guaraparim”, especialmente a fala de um demônio chamado Tatapitera: “Transtorno o coração das velhas, irritando-as, fazendo-as brigar. Por isso as malditas correm como faíscas de fogo, para ficar atacando as pessoas, insultando-se muito umas às outras”.

[5] Há um exemplar desta primeira edição na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na USP. Na folha de rosto está escrito “nomen Domini tvrris fortíssima”, castelo forte é nosso Deus (Prov 18,10).

 

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SANTA TERESA DE ÁVILA OU SÓ DEUS BASTA

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Santa Teresa de Jesus aos 61 anos – retrato por Fray Juan de la Miseria tendo-a diante de si.

Teresa de Cepeda d’Ávila y Ahumada, nascida na espanhola Ávila em 1515 entrou na história porque seu avô comprou esses belos sobrenomes. Por que? Era um Sanchez, de origem judia, o que significava, pelas leis da Espanha e da Igreja, que Teresa não poderia ser religiosa. Felizmente, a astúcia do velho “purificou” o sangue, e temos a grande Teresa, padroeira dos escritores de língua espanhola. Alguns de seus livros, como O Livro da Vida; Castelo Interior ou Moradas; O Caminho da Perfeição (1577 – síntese plena de sua doutrina); As Relações (sobre sua experiência mística); As Fundações, relatando sua obra reformadora; Pensamentos sobre o Amor de Deus se incluem nos mais belos retratos da experiência mística cristã.

Teresa era uma menina empolgada com o heroísmo. Querendo ser mártir, aos 7 anos de idade fugiu de casa “para morrer entre os mouros”, ela e o irmãozinho Rodrigo. Um tio os descobriu e devolveu-os aos pais. Tinham mais o que fazer.

Sentindo ser chamada à vida consagrada, ingressou no Carmelo de Ávila em 1533, professando no ano seguinte, aos 19 anos. Teresa, porém, sentiu que o Carmelo não vivia fielmente o espírito carmelita: muita conversa, muita vaidade e, o pior, muita visita de familiares e moços bonitos da cidade. Ela queria mais e teve início seu caminho de conversão. Teve a imerecida graça de ter encontrado grandes diretores espirituais, do porte de São Francisco de Borja, São Pedro de Alcântara e São Luiz de Beltrão, além de outros teólogos. Muitos anos depois, Teresa afirmou: “Ai daquele que pretender seguir sozinho um caminho espiritual”. O demônio é sempre muito esperto e convence o ingênuo de que é, de fato, um grande sábio, afogado em dons espirituais. Teresa, com seu bom humor, acrescentou: “confundem arroubamento com abobamento”. Papa Francisco diria que “não é preciso viver a fé cristã aos gritos e gemidos”…

A reforma da vida carmelitana

Após 21 anos de vida carmelita, apoiada por seus diretores espirituais, em 1555 iniciou a reforma da vida carmelitana e, em 1561, sua aventura de retorno à estrita observância. Em 24 de agosto de 1562 fundou, em Ávila, o Carmelo de São José da Ordem das Carmelitas Descalças: ela e quatro noviças assumiram o compromisso de austeridade, pobreza e clausura na obediência e na castidade. Teresa queria que cada carmelita fosse introduzida na pedagogia da oração, tivesse a condição para um caminho de encontro e intimidade sempre mais profundos com Deus. Para Teresa, cada Carmelo deve ser como um jardim onde se vive a amizade com as irmãs e com o Senhor. Crescer na amizade para ela significava penetrar na riqueza da oração que é “uma conversa de amigos”.

Na sua perspicácia humana e psicológica, Teresa sabia que um convento imenso, cheio, não possibilitaria a amizade, donde ter decidido que o ideal é 12 irmãs, no máximo 14, por carmelo. Dali em diante Teresa percorreu as cidades vizinhas fundando novos carmelos : fundou 16 ao todo. E, é claro, teve de enfrentar a oposição dos antigos carmelos e carmelitas, dos nobres que gostavam de freqüentar carmelos e, o mais pesado: a sagrada Inquisição espanhola.

Acusada injustamente, difamada, teve escritos censurados, sua “Minha Vida” foi destruída. Para os inquisidores não era bom sinal uma mulher andar por aí fundando obras religiosas, especialmente falando de vida mística, pois achavam que mística feminina era sinônimo de neurose. O Núncio na Espanha definiu Teresa como “mulher inquieta e andarilha”. Querendo diminuí-la, acertou: ela, de fato, era inquieta em seu grito reformador: “Todos los que militais debajo de esta bandera ya no durmais… pues que no hay paz en la tierra”. Não era uma neurótica, aventureira, insubmissa. Quando pediram, muitos anos depois, uma autodefinição, Teresa foi direta: “Sou filha da Igreja e eternamente cantarei as misericórdias do Senhor”. Nada mais.

Teresa não estava nem aí com as perseguições e com os sofrimentos físicos: continuou seu trabalho, seu caminho espiritual. As andanças, procura de dinheiro para novas fundações, oposições não lhe tiravam a paz interior. Nela o amor de Deus era tão sensível e forte, portador de tanta felicidade que sofrer um pouco era até necessário. Creio que ela poderia rezar como São Francisco Xavier: “Basta, Senhor, de tanta felicidade, pois acabarei explodindo!”.

No meio do caminho, aconteceu um grande encontro: em 1567 estava em Medina para fundar novo convento das Descalças e participou da Primeira Missa de um jovem carmelita de 25 anos: João da Cruz. Impressionada, convidou-o a reformar também o ramo masculino do Carmelo. E assim aconteceu, e o jovem passou pelas mesmas tribulações, ainda piores: por sete meses esteve preso nas masmorras da Inquisição, uma prisão cuja finalidade era enlouquecê-lo numa sala subterrânea em completa escuridão. João resistiu, deu um jeito de fugir e escreveu em seguida um grande hino de alegria, o Cântico Espiritual. Estava melhor do que antes.

Teresa e João alimentaram belíssima amizade, a ponto de as irmãs acharem um despropósito sua experiente Madre Superiora aconselhar-se com um “gurizote”. A diferença de idade era de 27 anos e Teresa, madura nos seus 52 anos chamava-o de “Meu Mestre”, “Pai de minha alma” a um jovem de menos de 30.

Teresa, Mestra da oração

Santa Teresa de Jesus, a andarilha - Fernando Mayoral

Santa Teresa de Jesus, a andarilha – Fernando Mayoral

Há um consenso em afirmar que Santa Teresa foi a mais profunda pedagoga da oração na Igreja católica. Com sua perspicácia psicológica, capacidade pedagógica ensinou-nos a centralizar a vida de fé na oração, fazer da oração o caminho da amizade com Deus e, nesse caminho, prevenir contra vaidades, desvios e neuroses.

A palavra “amizade” é fundamental nesse método. Pedro aceitou olhar-se com o olhar de Jesus, e se arrependeu. Judas não o fez, e se matou. Não podemos achar que Deus nos procura por sermos bons: Deus nos procura exatamente em nossa fraqueza. Deus quer que lhe ofereçamos o que temos, nossa miséria e ele entra sempre com a misericórdia. Não são nossos pecados que impedem a graça divina, a não ser que não queiramos nos abrir ao diálogo.

No caminho espiritual, Teresa nos admoesta quanto ao perigo de cairmos na psicologia da tentação: – não rezo porque não tenho tempo, estou ocupado em ensinar os outros a rezarem; não rezo porque estou doente; autojustificação: sei que devo fazer, mas minha situação é especial. Para Teresa, são esses os pecados: resistência ao amor de Deus; risco de perder a Deus pela tepidez cínica, fazer tudo mais ou menos; áurea mediocridade (faço assim porque todos fazem – così fan tutti), para que ser diferente?

O realismo teresiano: se já começaste a rezar, não pares. Se ainda não começaste, começa. Ninguém tomou a Deus por amigo e se arrependeu. A oração é um “tratar de amistad”: relacionar-se com Deus como amigo. É o conceito central na pedagogia da oração teresiana: o fundamental não é saber rezar, mas ser amigo, pois a oração é a porta da relação personalizada com Deus. Deus é amigo: a oração é um diálogo de amizade. Temos medo de rezar porque temos medo de mudar a vida. Se rezamos, Deus vem e o amor nos arrasta.

Encarnação e Igreja

A amizade supõe a paridade de parceiros: ou já estão, ou estarão em igualdade de condições. Em nossa pobre condição humana, não temos condições de ser amigos de Deus. Para que a oração seja possível, Teresa afirma a necessidade da Encarnação: assumindo a natureza humana, Deus está em pé de igualdade conosco. No instante da comunhão com Deus, último estágio da oração, a união é tão plena que Deus e o homem são uma só realidade, cada um conservando suas propriedades.

E mais, Teresa ensina que não há oração verdadeira sem vida eclesial: quando rezamos, nossa oração se enche de pessoas. Não são pessoas que nos distraem, mas que rezam conosco ou precisam de nossa oração. Pe. Paulo Bratti (+1982) nos falava de “solidão povoada”.

Quanto mais se ama a Deus, mais se sente a falta da presença dos amigos de Deus, isto é, a oração leva à comunidade. E então, sua afirmação “Deixar a Deus por Deus” que significa deixar a oração para o serviço do próximo. A oração não é legítima se não leva ao amor do próximo.

Santa Teresa de Jesus de Ávila foi chamada por Deus aos 67 anos, em 4 de outubro de 1582. Aconteceu que nesse dia passou a vigorar o calendário gregoriano que suprimiu 10 dias: desse modo a grande Mestra espiritual é celebrada em 15 de outubro. Seu mestre a amigo, São João da Cruz, patrono dos poetas espanhóis, faleceu nove anos depois, aos 49 anos, em 14 de dezembro de 1591. Recebem o título de Doutores da Igreja.

Pe. José Artulino Besen

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SÃO FRANCISCO DE ASSIS, A MAIS PERFEITA CRIATURA

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Francisco de Assis – verdadeira imagem do Santo, pintada por Cimabue.

Há 800 anos Francisco impele o Cristianismo a retornar às fontes: ao Jesus em Belém e a Jesus no Calvário. E deixou-nos, para lembrança contínua, o Presépio e a Via-sacra.

Sua herança não é uma doutrina, mas um espírito, um jeito de ser. A melhor palavra que expressa a mensagem vital de Francisco foi dada pelo primeiro biógrafo, Tomás de Celano: “Francisco foi enviado por Deus num momento em que a doutrina evangélica estava quase esquecida por toda a parte, para mostrar a loucura da sabedoria humana e, com a sua loucura, reconduzir os homens à sabedoria de Deus”.

Este jovem filho de dona Pica e do negociante Pedro Bernardone, nascido em Assis em 1182, irradiava o seu ser filho de Deus. Isso formou seu caráter até o íntimo, mediante a liberdade do cristão, que não é dono de todas as coisas e sim servidor e irmão de tudo, também dos animais, das plantas, das rochas, da água, do sol e da lua. Suas atitudes mostram uma face comovente de sua personalidade e vida, a ponto de parecer incompreensível que quisesse ser um doido neste e por este mundo, pois compreendeu que não pode existir um Cristianismo que ao mesmo tempo não seja um escândalo.

Ele é um milagre: não existiu na história cristã – nem em toda a história humana – uma personalidade cuja rica vida espiritual seja construída até o último sobre uma experiência pessoal de tal modo interior. Nunca existiu tal gênio humano em que, em sequer um instante ou setor, o “eu” tenha prevalecido sobre o puro serviço.

Era dotado de enorme bom senso, sabedoria e bom humor. Era um homem livre, e isso desde a juventude. Não era de convenções. Era tão livre que podia se dar ao direito de ser criança, falar com os passarinhos, com o fogo, tomar atitudes que pareciam tolice, mas eram fruto dessa liberdade interior que se irradiava pelo exterior.

As conversões de Francisco

Criado numa família rica, cercado de amigos bem de vida, Francisco deixou-se consumir pela vaidade, pelas farras, jogos, serenatas, danças, músicas. Era de simpatia e generosidade incomuns. Devido a seu estilo original de viver, estava sempre cercado de amigos ou aproveitadores.

Todo jovem medieval sonhava em ser cavaleiro, cortejado pelas moças que suspiravam ao vê-lo retornar do campo de batalha. Em 1204, com armadura cara e um vistoso uniforme pôs-se a caminho para um combate mas, a caminho, ao avistar um cavaleiro muito mal vestido, reduzido à pobreza; compadeceu-se dele e com ele trocou as vestes. Em Espoleto caiu doente e, acamado, ouviu uma voz pedindo que retornasse, pois seu caminho era “servir ao seu Mestre, e não ao homem”.

Francisco obedeceu e retornou ao lar. Estava mudado. Começou a apreciar o silêncio e gostava de se retirar para lugares afastados a fim de pensar, meditar, rezar, conversar com Deus. Com dor no coração, passou a analisar sua vida passada, a vaidade, o pecado. Depois foi tocado pela misericórdia divina e teve a certeza do perdão. Uma alegria imensa tomou conta de seus sentimentos. Queria se controlar, para que ninguém percebesse a felicidade, mas não conseguia. Feliz, cantava e dançava pelas ruas de Assis.

Certo dia, ao cavalgar pelas planícies ao redor de Assis, deparou-se com um doente, cujas úlceras lhe pareceram tão repugnantes, que ficou horrorizado. Tinha verdadeiro horror pelos leprosos. Mas desceu do animal, e quando o doente lhe estendeu a mão para pedir uma esmola, Francisco, ao apresentá-la, beijou-lhe a mão. A partir dali, passou a visitar os hospitais e a servir os doentes, distribuindo entre os pobres ora as vestes, ora o dinheiro.

Em 1205, enquanto estava rezando na igreja de São Damião, fora dos muros de Assis, pareceu-lhe ouvir uma voz vinda de um crucifixo pendurado atrás do altar. A voz lhe falou três vezes seguidas: “Francisco, vai e reconstrói a minha casa que, como vês, está ruindo”. Olhando o estado lastimável da capela, pensou que a voz pedisse uma restauração material.

Entra em cena o pai, em 1206. Ficou furioso por ele estar gastando tudo com os pobres. Foi atrás dele, deu-lhe uns socos na cabeça e exigiu: ou voltasse para casa, ou renunciasse à herança e devolvesse o dinheiro. Quanto à herança, Francisco concordou logo. Quanto ao dinheiro, Pedro Bernardone levou-o à presença de Guido II, bispo de  Assis, para convencê-lo a devolver o dinheiro. Francisco obedeceu e acrescentou: “Pai, minhas roupas também lhe pertencem. Pegue-as de volta”. Ato contínuo, para susto de todos os presentes, despojou-se das vestes, ficando completamente nu, e disse a Bernardone: “Pai, até agora o tenho chamado de meu pai aqui na terra, mas doravante direi: ‘Pai nosso que estais no céu’. Renuncio a ser seu filho”. O bispo cobriu-o com seu manto.

Passou a primavera deste ano em Gúbio, cuidando dos leprosos e outros doentes. Em julho, voltou a Assis. Vestiu-se de eremita (uma túnica, cinto, sandálias e um cajado) e começou a reconstrução da capela de São Damião. Para isso, saiu pelas ruas de Assis pedindo esmolas. Aqueles que o tinham conhecido como pessoa rica, dele zombavam e mostravam-lhe total desprezo, mas Francisco tudo aceitava com alegria.

Anunciador do Evangelho

Em 24 de fevereiro (entre 1206 e 1208), festa de São Matias, ouviu o Evangelho sobre a missão apostólica (Mt 10, 7-19): “E por onde passardes, pregai: Está próximo o Reino dos Céus… Dai gratuitamente o que de graça recebestes… Não busqueis ouro… não carregueis duas túnicas, nem sandálias, nem cajado… Vede que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos”. Francisco entendeu que Jesus o queria como pregador ambulante, e não como eremita. Tinha tomado a decisão de viver o Evangelho sem comentários e aplicou o texto a si próprio, ao pé da letra: dispensou as sandálias, o cajado e o cinto, ficando apenas com uma pobre túnica que ele amarrou com uma corda em torno do corpo.

A personalidade cativante de Francisco, a força de suas palavras e o testemunho de vida, passaram a atrair jovens que pediam para serem companheiros e discípulos. Em 1208, recebeu a companhia do rico mercador Bernardo de Quintavalle e de Pedro Cattani. Tomaram a decisão de viver a essência do Cristianismo e pregar a penitência. O número cresceu e seus Frades andaram por vários países e Francisco chegou ao Egito.

Gostava de ver as igrejas limpas e varridas. Muitas vezes levava uma vassoura consigo, para esse serviço. Quando passavam diante de uma igreja ou dum crucifixo, ou mesmo avistando de longe uma torre, se ajoelhavam e recitavam a pequena oração que Francisco lhes ensinara: “Nós vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, presente aqui e em todas as igrejas do mundo”.

A finalidade concreta que Francisco deu à sua Ordem não era o mendigar, e sim a pregação e o trabalho. O pedir esmolas era apenas o último recurso, quando faltava trabalho. Defendia os pobres: “Quando vês um pobre, irmão, é a imagem do Senhor e de sua pobre Mãe que tens diante dos olhos!”.

Francisco, o adorador do Pai Criador

A piedade de Francisco era, sobretudo, adoração. Por horas e horas, de dia ou de noite, seus lábios pronunciavam “Meu Deus e meu tudo!” Quando rezava, toda a sua pessoa era oração. Foi contemplando a Cristo despojado de suas vestes e crucificado, e novamente crucificado na pessoa dos pobres sofredores, que Francisco chegou a amar a pobreza como sua Senhora.

Seu amor por todas as criaturas, seu carinho pelos animais, pelas aves, por todos os elementos da natureza, fizeram dele o patrono da ecologia. Uma ecologia não teórica, mas de louvor, de respeito pela obra do Criador. Francisco afirmava que toda criatura diz e clama: “Foi Deus que me criou por causa de ti, ó homem”. Acariciava e contemplava com afeto a todas as criaturas. Todas existiam para lembrar ao homem de louvar o Criador. É difícil imaginar Francisco dentro de uma igreja: é fácil imaginá-lo na grande catedral que é o universo.

São Francisco abraça o Leproso

A espiritualidade de Francisco torna-se acessível a todos

Vendo aumentar desse modo o número de companheiros, em 1209 Francisco escreveu breve Regra de vida para a Ordem, e vai a Roma com os 11 irmãos. Causava impressão aqueles frades pobres, esfarrapados, brincalhões, descalços se dirigirem ao Papa. Inocêncio III estava sentado em seu trono, e os 11 frades mal vestidos e sorridentes o contemplavam como crianças maravilhadas: estavam diante do Papa!. Francisco explicou-lhe seu programa. Depois de ouvi-lo, o Papa  concedeu aprovação à Regra, mas só oralmente

Pelo ano de 1209, Francisco e seus irmãos estavam pregando em Alviano. Ali, como em outros lugares, tinha percebido que sacerdotes seculares, homens casados, profissionais, militares, queriam viver o Evangelho como os frades viviam, mas sem deixar suas ocupações. Para impedir que deixassem o mundo, Francisco indicou-lhes um caminho. Surgia uma revolucionária espiritualidade evangélica penetrando em todas as esferas do mundo medieval, também nos altos escalões da hierarquia. Primeiramente chamada de Ordem dos Irmãos e das Irmãs da Penitência, depois recebeu o nome de Ordem Terceira Secular. Assumiam estes compromissos: fazer a paz com os inimigos, não carregar armas, restituir riquezas mal adquiridas, pagar os dízimos, escrever um testamento que não trouxesse confusão entre os herdeiros, evitar juramentos e não aceitar honras públicas. Com Clara, fundou a Segunda Ordem, das Clarissas.

Nos últimos tempos a Irmã Dor o visitou e deixou-o desfigurado: ferida purulenta nos olhos, inchaço no fígado e nas pernas. O Pobrezinho era o retrato de Jesus e dele recebeu os estigmas da Paixão em 1224 e assim sofreu junto com ele.

Com a proximidade da morte, pediu que o deitassem nu, no chão, unido à irmã Terra. Depois aceitou emprestado o hábito que o guardião lhe dá. Agradeceu mais esta esmola.

Francisco pediu que lhe trouxessem um pão, partiu-o e deu um pedaço a cada um dos presentes, em sinal de amor mútuo e de paz, dizendo: “Eu fiz a minha parte. Que Cristo vos ensine a fazer a vossa”. Fez ler o Evangelho da Última Ceia e abençoou os filhos seus, presentes e futuros.

Na tarde de 3 de outubro de 1226, o mundo perdia seu filho mais original, mais santo. Francisco morreu, morreu cantando. Conforme o historiador David Knowles, por sua obra, Francisco fez mais do que qualquer outra pessoa para salvar da decadência e da revolução a Igreja dos tempos medievais. Em 13 de março de 2013 um Papa escolhe o nome de Francisco, e aceita a missão de tornar a Igreja pobre para ser livre, partindo sempre das periferias e dos pobres.

Pe. José Artulino Besen

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SANTA TERESINHA E O PEQUENO CAMINHO

Eu entrei no Carmelo para salvar almas e, sobretudo, para rezar pelos padres - Santa Teresinha

Eu entrei no Carmelo para salvar almas e, sobretudo, para rezar pelos padres – Santa Teresinha

Santa Teresinha morreu aos 24 anos e dizendo, ao contemplar o crucifixo: “Oh meu Deus, eu te amo!”. Era o ano de 1897, em Lisieux, França. Tinha início a aventura cristã da filha dos bem-aventurados Zélia e Luís. Ela, que gostava de afirmar: “passarei meu céu fazendo o bem sobre a terra”, prometia uma chuva de rosas e essa nunca cessou de cair: em todo o mundo se sente a atração de seu exemplo, o poder de sua intercessão e a proteção às Missões. Foi canonizada em 1925 e declarada Doutora da Igreja em 1997.

O que é necessário para ser “Doutor da Igreja”, qual o currículo exigido? É um currículo muito exigente, mas que não requer estudos acadêmicos, do que a analfabeta Doutora Santa Catarina de Sena é prova. Então, são três exigências fundamentais: santidade de vida, reta doutrina, vivência e narração de uma nova face do mesmo e eterno Evangelho. Essa última é a mais importante: ter apresentado uma característica nova de vida cristã.

Santa Teresinha foi santa, teve fé íntegra e, qual foi sua “novidade”? É o “Pequeno “Caminho” para se unir a Deus, também denominado de infância espiritual. A “infância espiritual” nada tem a ver com criancice, infantilismo, pois exige uma atitude extremamente adulta e consciente no buscar a união com Deus.

O Pequeno Caminho de Teresinha compõe-se de dois valores: – a misericórdia do Pai e – a necessidade de permanecer criança, para sempre permanecer no seu amor.

Um pequeno caminho que todos podem percorrer sem medo, sem angústia, porque Jesus faz tudo: “Quero ir para o céu através de um pequeno caminho, bem reto, muito curto, um pequeno caminho bem novo”. Confiar em Deus como a criancinha confia nos pais, confiar sempre na misericórdia do Pai. Para Teresinha, todo esse amor é canalizado para Jesus, seu único amor. Quando ela fala em Deus está falando em Jesus, que conduz ao Pai pelo Espírito Santo.

Em outras palavras, Teresinha queria dar alegria a Jesus, fazer Jesus feliz, aplacar a sede de Jesus quando diz: “Tenho sede”. Não é sede de água, é sede de almas. Assim, tudo o que fazia e vivia, sua alegria, a grande e dolorosa cruz que a levou à morte, tinha como fim matar a sede de almas que Jesus sente. Uma conseqüência dessa decisão é a vontade de ser missionária para oferecer mais almas a Jesus.

A flor é Jesus, a gotinha que apaga a sede é Teresa

Teresinha aos 8 anos - foto histórica colorizada

Teresinha aos 8 anos – foto histórica

A infância espiritual teve como primeira imagem a criança no colo de Jesus, ser um brinquedo em suas mãos. A segunda imagem é mais profunda, fruto de profundo amadurecimento humano e espiritual: Jesus é a florzinha do campo e Teresinha é a gotinha de água. Ela serviu-se de duas imagens: a primeira, do Cântico dos Cânticos (2,1): “Eu sou a flor dos campos e o lírio dos vales”, unida a outra, a palavra de Jesus à Samaritana, em João: “Dá-me de beber” (João 4,7). Jesus é o esposo com sede, Teresa é a água que lhe aplaca a sede. O imenso Jesus, na Encarnação fez-se pequenino como uma florzinha, e Teresinha é uma gotinha suficiente para matar-lhe a sede. A flor é Jesus na pequenez que caracteriza a sua humanidade durante toda a vida terrestre. A gotinha é a esposa de Jesus na mesma condição terrestre. Teresinha desposou a pequenez de Jesus assim como Francisco tinha desposado a Pobreza.

Teresinha não seria capaz de ser tão grande como Jesus na glória, mas é capaz de ser “suficiente” para unir-se ao Jesus de Belém e do Calvário. Escreveu à sua irmã Celina: “Feliz gotinha de orvalho, só de Jesus conhecida, não pares para olhar o curso barulhento dos rios que são a admiração das criaturas, tampouco, não olhes o límpido regato que serpenteia no prado. Sem dúvida, seu murmúrio é muito suave, mas pode atingir os ouvidos das criaturas, e depois o cálice da Flor dos campos não o poderia conter. Não basta ser de Jesus. Para pertencer-lhe, é preciso ser pequeno, pequeno como uma gota de orvalho”.

Teresinha aos 13 anos - foto histórica e original

Teresinha aos 13 anos – foto histórica e original

Seu imenso sofrimento nos últimos dois anos de vida não é vivido no dolorismo, no sentir-se vítima, mas na alegria que permanece presente, e é exatamente nesse período de paixão que Teresa oferece a mais bela expressão de sua alegria: “Jesus, a minha alegria é amar-te”.

Teresa descobriu sua vocação na Igreja, ela que desejava todas as vocações para alegrar Jesus, concluiu: “Entendi que o amor encerra todas as vocações, que o amor é tudo, que abraça todos os tempos e todos os lugares, numa palavra, que é eterno. Então, no excesso de minha alegria delirante, exclamei: Jesus, meu Amor, finalmente encontrei a minha vocação, a minha vocação é o amor! Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, e este lugar, meu Deus, fostes vós que me destes! No coração da Igreja minha Mãe, eu serei o amor. Assim serei tudo”.

Teresa morreu em 30 de setembro de 1897 exclamando: “Oh Meu Deus, eu te amo”. Estas últimas palavras foram endereçadas a Jesus: a Santa olhava o crucifixo que apertava em suas mãos. Exprimiam, assim, aquilo que havia animado toda a sua existência, o simples ato de Amor: “Jesus Te amo”.

Pe. José Artulino Besen

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