CREIO NA RESSURREIÇÃO DA CARNE

Creio na ressurreição da carne!, afirmamos com alegria no 11º. artigo do Credo, nossa Profissão de Fé. “A confiança dos cristãos é a ressurreição dos mortos; crendo nela, somos cristãos”, se afirma desde o início do Cristianismo. A cada ano, no dia 2 de novembro, com a Comemoração dos Fiéis defuntos celebramos nossa fé em nossa ressurreição pessoal e na de nossos irmãos..

Em nossa sociedade hedonista, que reduz a perspectiva de felicidade para o aqui e o agora, crer na ressurreição parece desnecessário, porque se prefere afirmar que não há ressurreição e nossa sepultura é o último endereço. Se assim é, aproveitemos a vida e não percamos tempo com suposições, preferem muitos afirmar.

Nós cristãos, porém, cremos na ressurreição da carne, esperamos ardentemente o encontro final com o Criador. Essa esperança nos faz viver bem, porque cada dia é precioso, não podemos perder tempo, investimos a vida naquilo que é bom e justo. A fé na ressurreição faz de nossa vida uma escola de amor para o encontro com o Amor, uma escola de fraternidade para o encontro com o Pai. Com tão firme esperança, a morte não nos amedronta, pois sabemos que ela foi derrotada na Cruz. Existe a morte natural, afinal, nosso corpo segue os limites da natureza, mas não existe mais a morte metafísica, esse poder maligno que nos quer destruir.

Mas, o que é a ressurreição da carne? Primeiro, temos de responder a uma outra pergunta: o que entendemos por carne? Consideremos a Eucaristia: quando Jesus diz “quem come minha carne e bebe meu sangue” (Jo 6,56), está afirmando: “Quem me receber como alimento”. Carne e sangue significam a mesma realidade: a pessoa. Tanto isso é claro que comemos o Pão e estamos recebendo o Senhor em sua Carne transfigurada. Permanecem as espécies do pão e do vinho, mas agora transfiguradas no Corpo e Sangue do Senhor ressuscitado.

Somos espírito encarnado

Desse modo, quando professamos “creio na ressurreição da carne” estamos dizendo “creio na ressurreição da pessoa”. Na linguagem bíblica o termo “carne” significa pessoa na sua integridade. Nós não fomos criados corpo e alma, como duas realidades separadas: Deus soprou o espírito de vida num corpo que se tornou, desse modo, ser vivente, pessoa humana (Gn 2,7).

Por influência do dualismo grego, do platonismo (que dizia que a alma é prisioneira do corpo) somos levados a pensar o homem como composto de duas partes separáveis: o espírito e o corpo. Hoje somos convidados a superar essa dualidade, pois assumimos a linguagem bíblica: nós, carne, somos um espírito encarnado. Os anjos são espírito puro. Nós, porém, não somos anjos, somos homens e mulheres, somos alma na carne, de modo inseparável.

O Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida a nossos corpos mortais mediante o Espírito que habita em nós (cf. Rm 8,11): “corpo”, aqui, é a pessoa humana cuja morte foi vencida por Cristo no Espírito.

E como fica nosso corpo que vai para a sepultura e se decompõe? Nós não sepultamos uma pessoa, sepultamos um cadáver. Não há ninguém enterrado nos cemitérios e sim, cadáveres que retornam ao pó. A morte foi vencida: nós morremos, sim, mas logo somos ressuscitados pelo poder do Espírito.

Há uma outra conseqüência: como não somos anjos, mas espírito encarnado, no momento da morte recebemos um corpo transfigurado, pois continuamos a ser humanos. A linguagem dualista diz que o corpo vai para a sepultura e a alma para o julgamento e, no final dos tempos, os dois se reunirão. Podemos crer assim, pois a tradição catequética da Igreja, inclusive o atual Catecismo, ainda se servem da linguagem dualista: corpo e alma. Mas, devemos superar o dualismo corpo e alma como fruto do aprofundamento da Palavra de Deus que nos afirma que o Criador criou anjos (puros espíritos) e o homem e a mulher (espírito encarnado). Aqui entra igualmente a antropologia, o estudo do ser humano: somos pessoas humanas porque somos espírito encarnado. Não somos divisíveis.

A eternidade, superação do tempo e do espaço

Surge muito a pergunta: e depois, o que acontece? Para onde se vai? No momento da morte nós deixamos a condição humana que vive no tempo (quando?) e no espaço (onde?). Então, não faz sentido perguntar nem o onde nem o quando. Houve época em que se falava em 10 anos de purgatório, cinco meses de purgatório e os artistas até desenhavam ou descreviam a situação do Purgatório. Não faz muito tempo, ainda se pintava o Purgatório como um lugar de fogo, sede, sofrimentos, mas, isso é contraditório, pois na eternidade não há tempo nem espaço. O Purgatório é um estado de purificação diante do Deus Amor e não um lugar.

Se é assim, qual o sentido de rezar por alguém que morreu anos atrás? Por que somos convidados a rezar pelos mortos? É muito importante essa oração, pois, no momento de nosso julgamento, Deus tem diante de si todas as orações feitas e que se farão por nós, como tem diante de si toda a nossa vida. Deus é o eterno presente: todas as nossas orações, Missas celebradas pelos falecidos no presente e no futuro estão diante de Deus.

Nesse instante sentiremos a dor de nosso amor imperfeito (purgatório), sentiremos a alegria de entrar na vida divina (céu) e podemos optar pelo desespero eterno (inferno). Tudo isso já acontece fora do tempo. Alguém perguntaria: e como fica o corpo se não há espaço nem tempo? A pessoa humana – corpo encarnado – é transfigurada pelo poder do Espírito. Veja o que aconteceu com Jesus: ressuscitado, continuou sendo Verbo feito Carne, mas entrava por portas fechadas, pois estava transfigurado. Assim seremos nós. E o que acontecerá com nossas cinzas no cemitério? Tanto João Paulo II como Bento XVI ensinam que a nossa ressurreição não supõe nossa natureza física atual: Deus nos dará um corpo glorioso.

Graças damos a Deus que nos oferece tão feliz herança: habitar entre os santos e anjos pela eternidade. E tudo isso, porque Cristo ressuscitou: “Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação e vazia é também a vossa fé. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1Cor 15,12-14-.20).

Acima de tudo, tenhamos firme o olhar que contempla o Deus da misericórdia:

Um dia te encontrarei, e tu lerás em minha face
todo o desconforto, todas as lutas
todo o lixo dos caminhos da liberdade.
E verás todo o meu pecado.

Mas eu sei, meu Deus,
que o pecado não é grave,
quando se está na tua presença.
É diante dos homens que somos humilhados.
Mas, diante de ti, é maravilhoso sermos assim tão pobres,
a tal ponto somos amados!”
(Jacques Leclercq).

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Mariana em 25 de agosto de 2012 - 07:42

    Adorei.
    Muito esclarecedor!

    Obrigada

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