CÔNEGO NICOLAU GESING – MINISTÉRIO DA CRUZ

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Filho de Germano Gesing e de Ana Füchter, Nicolau nasceu em São Ludgero, SC em 24 de agosto de 1893. Está entre os primeiros adolescentes e crianças que acolheram o chamado ao sacerdócio. Em São Ludgero era pároco Pe. Frederico Tombrock que, num primeiro tempo, duvidava que brasileiros tivessem condições de serem padres e de perseverarem no ministério. Num segundo tempo, acreditou que os descendentes de alemães teriam forças para o sacerdócio. E assim surgiu uma plêiade de jovens que enriqueceram a Igreja catarinense com sua qualidade pastoral e humana.

Santa Catarina estava incluída na diocese de Curitiba, criada em 1892. Quando Nicolau manifestou o desejo de ser padre, deparou-se com o problema: não havia seminário em terra catarinense. Pe. Frederico Tombrock percebia a dificuldade: bons meninos, vocacionados, como encaminhá-los? Houve uma tentativa, provisória: o alemão Pe. João Batista Kloecker, em 1907, chegou a São Ludgero, como vigário cooperador. Entusiasmou-se pela obra vocacional. Na casa paroquial mesmo, com o apoio do Pe. Tombrock, acolheu alguns meninos vocacionados, aos quais dava lições de latim e de outras disciplinas. Por falta de recursos, no ano seguinte os meninos foram enviados ao Rio Grande do Sul, fechando-se o projeto de Seminário. Quatro desses alunos foram ordenados presbíteros: Huberto Rohden, Nicolau Gesing, Bernardo Füchter e José Locks. O que chama atenção é a qualidade humana desses padres e sua personalidade marcante: Huberto Rohden foi o escritor, teólogo e filósofo; Bernardo Füchter foi o padre zeloso, empreendedor; José Locks, uma personalidade a parte no seu trabalho apostólico, sua preocupação pela ortodoxia e pela disciplina; e Nicolau Gesing, uma figura fascinante, marcada pelo sofrimento que o levou prematuramente.

O seminarista Nicolau era introspectivo, sensível à vida espiritual. Ainda jovem, nutriu o desejo de ser padre jesuíta. Acompanhado durante alguns anos pelo Superior de São Leopoldo, em 18 de novembro de 1917 escreveu ao bispo de Florianópolis, Dom Joaquim Domingos de Oliveira, pedindo autorização para ingressar na Companhia de Jesus. Para ele, era clara a vontade de Deus. Mesmo vivendo a carência de padres, Dom Joaquim respondeu positivamente em 27 de novembro de 1917: “não me oponho ao chamamento de Deus”. Com maior discernimento, porém, Nicolau decidiu pelo clero diocesano.

Ministério sacerdotal

O seminarista Nicolau Gesing marcava pela disciplina e seriedade. Comunicava-se bem em português, latim e alemão. No processo “de genere et moribus” para a Ordenação, recebeu as mais positivas recomendações quanto aos estudos, à piedade e ao comportamento. Concluídos os cursos de filosofia e teologia, foi ordenado presbítero em São Leopoldo, RS em 10 de agosto de 1919, escolhendo como lema: “Eu cantarei eternamente as misericórdias do Senhor” (Sl 88,1).

Concluiu o ano em Florianópolis, como secretário particular de Dom Joaquim. Aqui privou, também, do exemplo e confiança de Mons. Francisco Topp. Em 1920, foi vigário paroquial de São José, São José.

Confiando em sua capacidade, em 31 de julho de 1921 Dom Joaquim o provisionou como vigário de Nosso Senhor do Bonfim, Braço do Norte, à época denominado “Quadro”. Interessante observar que, criado como curato em 26 de julho de 1917, assim permaneceu até 1º de janeiro de 1950, quando foi retificado para a paróquia. Ali trabalhava como capelão o ex-dominicano espanhol Pe. Tertuliano Simon Villegas.

Pe. Nicolau sentiu-se muito bem acolhido pelo Pe. Tertuliano. Como a residência paroquial não possuía mobiliário próprio, fez pequeno empréstimo e adquiriu-o. Escreveu a Dom Joaquim em 1º de agosto de 1921: “Confesso que me causou grande impressão o tomar eu posse duma paróquia no aniversário do fundador da Companhia de Jesus. Pedi instantemente a Jesus Sacramentado que me desse um zelo de almas igual ao do mesmo Santo; pedi-lhe igualmente que me tirasse a vida antes que se perdesse uma só alma por minha culpa. ‘Da mihi animas, cetera tolle’ – Dá-me almas, o mais pode levar”.

Abriu escola paroquial em Braço do Norte, construindo o prédio sobre dois lotes urbanos, enquanto as aulas funcionavam em casa particular, freqüentadas por 104 alunos. O professor Pedro Scharf era auxiliado por duas professoras, e recebiam 220.000 réis. Pe. Nicolau sugere para o futuro a entrega a uma congregação religiosa, o que de fato aconteceu.

Mesmo com o muito trabalho, em 1922 atendeu a paróquia de Laguna, pois dela se retirara o pároco, o português Pe. Aurélio da Silveira, e acumulava ainda como vigário encarregado do Sagrado Coração de Jesus, Gravatal.

O estafante ministério paroquial nele provoca a angústia, como expressou em carta a Dom Joaquim, escrita em Laguna, de 8 de agosto de 1924: está feliz com a participação do povo no Quadro, pois “A paróquia, apesar de deixar muito a faltar, não vai mal. O vigário é que vai pior. Parece-me que vou sempre esfriando mais e estou certo disto. É falta de estudo, falta de aplicação, frieza, tibieza, com uma palavra, não estou na altura de um sacerdote”.

Foi ao Rio Grande aconselhar-se com o confessor e diretor espiritual e perguntar se deveria ingressar numa Ordem de clausura, e obteve a resposta de que deveria rezar e meditar. Em Pe. Nicolau era muito viva a preocupação em salvar a alma.

Em 1926 recebeu como coadjutor o Pe. Jacó Luiz Nebel, recém saído de grande crise pessoal e que retornava ao ministério que tinha deixado em São Pedro de Alcântara.

Feliz com a chegada do auxiliar, desejava Pe. Nicolau retirar-se num lugar onde pudesse descansar, despreocupadamente. Pediu, e em 20 de dezembro de 1926 foi nomeado pároco de São João Batista, Imaruí.

Para Dom Joaquim, Imaruí era pouco para um padre como Nicolau e trouxe-o para perto de si, nomeando-o Cura da Catedral de Florianópolis em 2 de abril de 1928.

Os anos que trabalhou na Catedral foram muito proveitosos, e adquiriu o afeto e respeito da população de toda a Ilha. Reorganizou as associações religiosas da Capital, empreendeu muitos melhoramentos na Catedral e, principalmente, cativava a todos pelo desvelo com que cercava os paroquianos dos mais distantes pontos da Paróquia.

Na Capital, enfrentou polêmica com o pastor presbiteriano Aníbal Nora (também Annibal dos Santos Nora). Pastor da Igreja Presbiteriana em Florianópolis de 1927 a 1929, Aníbal Nora desenvolvera grande trabalho na zona da mata mineira e foi o pioneiro da educação no vale do Manhumirim. Faleceu no Rio em 1971.

Os presbiterianos eram ferrenhamente anti-católicos. Em 10 de agosto de 1928, o Pastor Nora publicou alguns artigos polemizando com a doutrina católica, ou a “apostasia” católica. Pe. Gesing respondia do púlpito da Catedral e através da imprensa.

A maior polêmica foi um extenso texto publicado por Nora em O ESTADO (Anno XIV, N. 4269) com o título O CELIBATO UMA APOSTASIA. Afirmava que o Celibato é lei anticristã e cruel porque: 1) é contra o ensino de Cristo; 2) é contra o exemplo e o ensino dos apóstolos; 3) é contra o ensino dos dois Testamentos, e contra a lei natural. A esse, segue outro artigo em 13 de agosto (Anno XIV, N. 4271), sob o título MATRIMÔNIO E CELIBATO, atacando a doutrina e o Pe. Gesing, e colocando o celibato como causa da corrupção do clero.

Pe. Nicolau polemiza através do FOLHA NOVA (em 22 de agosto de 1928, Anno II), afirmando que, não tendo o que fazer, o pastor aproveita o tempo para “enxovalhar a nossa fé e a dos nossos maiores, ridicularizando e contestando, pela imprensa, os dogmas, as disciplinas e os santos ensinamentos da Igreja de Cristo – a Igreja Católica Apostólica Romana”.

O argumento dele segue a linha de Mateus 19,29 (E todo aquele que deixar pai, mãe…ou a mulher …receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”) e da Primeira carta aos Coríntios 7,25-35 (… O homem não casado é solícito pelas coisas do Senhor e procura agradar ao Senhor) e nega que o celibato seja causa de imoralidade, do mesmo modo que o casamento não é a causa da prevaricação dos casados.

Em 25 de agosto de 1928, sábado, também na FOLHA NOVA, argumentou contra o Pastor Nora com o título MATRIMÔNIO E CELIBATO (Immoralidade da herezia presbyteriana) e no dia 30, quinta-feira, pequena coluna CASAR OU NÃO CASAR?

A polêmica não poderia levar a lugar algum, pois o pastor atacava o celibato obrigatório da Igreja católica, e Pe. Gesing afirmava o ato livre e generoso do padre ao assumir o celibato. Aníbal Nora tinha necessidade de polêmica, e Pe. Gesing achava-a imoral.

Permanecia o desafio da falta de padres, o seminário de Azambuja tinha sido criado em 1927, e bom tempo seria necessário para ter-se frutos. Em 20 de setembro de 1929, Dom Joaquim escreveu a Pe. Nicolau, em latim, solicitando que procure “sacerdotes maxime ex origine germanica” – sacerdotes especialmente de origem alemã, para trabalharem na diocese, carente de padres. Pe. Nicolau, que a isso tinha-se disposto, assumiu o compromisso escrevendo para a Alemanha. Em 1934 recebeu a primeira resposta positiva, com alguns teólogos dispostos a vir no final desse mesmo ano. Dom Joaquim sugeriu a Côn. Nicolau que eles não viessem diretamente, mas que fossem encaminhados para o Colégio Brasileiro em Roma, onde seriam ordenados ao serviço da arquidiocese. Modesto, Dom Joaquim preferiria os que, sem maiores dificuldades, pudessem conseguir o doutorado.

Subida ao monte Calvário

Padre Nicolau Gesing

Cônego Nicolau Gesing

Um acontecimento político sacudiu Florianópolis e deu início ao profundo sofrimento que, de então em diante, crucificaria Pe. Nicolau: a Revolução de 1930, que derrubou as oligarquias da política nacional e colocou Getúlio Vargas no poder.

Em outubro daquele ano, a Ilha de Santa Catarina era o último baluarte catarinense legalista contra as tropas getulistas. Foram retiradas as tábuas do leito da Ponte Hercílio Luz, e sua cabeceira foi guarnecida por uma bateria de artilharia. As torpedeiras bombardeavam com suas granadas as tropas revolucionárias. Em 24 de outubro era deposto o presidente Washington Luís e logo foi restabelecido o leito da ponte e as tropas revolucionárias ocuparam Florianópolis.

A Ponte ficava relativamente próxima da Catedral, de onde Pe. Nicolau viu e ouviu a artilharia. Entrou em pânico pelo isolamento da Ponte fechada e adoeceu, não mais se recuperando totalmente. Foi demais para sua sensibilidade.

A conselho de Dom Joaquim, em novembro de 1930 foi a Braço do Norte, em repouso, ficando próximo de seus familiares. Obedecendo ao bispo, não presta atendimentos, pois foi para descansar. Mesmo assim, observou: “Interessante é que no interior desses sertões se mete o espiritismo e chegaram a espancar pobres criaturas até ficarem pretos nas manchas onde foram batidos como uns réus, querendo-lhes deste modo expulsar os maus ou bons espíritos”. Causa: a superstição entra onde há falta de fé e falta de instrução.

Nas suas cartas passou a assinar, sempre, “o servo inútil em Jesus Cristo”.

Em 24 de janeiro de 1931, foi nomeado professor no Seminário de Azambuja. Ali se localizava o Hospital de Alienados, o Hospício, onde poderia receber tratamento. Escreveu a Dom Joaquim em 8 de maio de 1931, cumprimentando-o por ter acolhido o Pe. Huberto Rohden, seu colega de terra e de curso, para trabalhar na arquidiocese “para suprir a falta de minha pessoa, inutilizado para trabalhos em paróquias de peso”. Pe.Rohden substituiu por pouco tempo o Pe. Chylinski, morto repentinamente em Cocal, pois logo seguiu adiante, fundando a Cruzada da Boa Imprensa e tornando-se conhecido em todo o Brasil.

Nessa carta, Pe. Gesing comenta sua doença, seus nervosismos e se coloca inteiramente nas mãos de Deus. Está feliz em lecionar, pois, assim, recorda o que estudou. Estranho: narra com pormenores o suicídio de dois doentes no Hospício de Azambuja e diz que, mesmo assim, manteve a calma. Está doente “dos nervos” e essa calma já era, a seu ver, um grande progresso.

Gostaria de fazer uma observação, aqui, a respeito do arcebispo de Florianópolis, normalmente considerado duro, intransigente, mas que, nas doenças e fraquezas de um padre, era sempre um verdadeiro amigo e pai. Não foi diferente com Pe. Nicolau, e o tratou sempre com muito carinho e respeito.

Em novembro de 1931 aconteceu nova crise, e foi atendido em Florianópolis pelo Dr. Ricardo Gottsmann, que prescreveu pouco tabaco e nenhum álcool. Mesmo doente, Pe. Nicolau luta com otimismo, demonstra zelo no atendimento aos doentes, até distantes.

Bastante recuperado, em 21 de janeiro de 1933 foi mais uma vez provisionado cura da Catedral de Florianópolis.

Sinal da confiança de Dom Joaquim, em 12 de abril, na Semana Santa foi nomeado Cônego Catedrático do Cabido Metropolitano de Florianópolis, o que foi visto como homenagem a “um sacerdote por todos os títulos digno, zeloso e, sobretudo, obediente à autoridade metropolitana, que nele conta um excelente e dedicado colaborador” (REPÚBLICA, 18 de abril de 1933).

Em 8 de junho de 1933 escreveu a Dom Joaquim, em latim, animado com o auxiliar recém chegado Pe. Antônio Waterkemper. Mas, no início de 1934, estava novamente em Azambuja, para tratamento. Em 7 de abril seu estado se agravou, agora também com doença cardíaca. Cônego Jaime de Barros Câmara cuidou bem dele, e temeu pelo pior. Restabelecido, seguiu para Itajaí, onde auxilia, no que é possível, a Mons. Giesberts. Em outubro, Dom Joaquim convida-o a acompanhá-lo na Visita Pastoral a São Pedro e Alto Biguaçu (católicos de origem alemã), Visita programada para inícios de novembro.

Em 1º de janeiro de 1935 foi nomeado secretário particular do Arcebispo de Florianópolis e auxiliar na Catedral: de manhã na Catedral, à tarde “ao Nosso serviço”. Em 28 de setembro de 1935 recebeu as faculdades missionárias de assistir a casamentos em lugares distantes da sé paroquial.

Quase um ano de vitórias, o que tornou possível ser nomeado, em 30 de outubro de 1935, vigário encarregado de São João Batista do Imaruí e do Senhor Bom Jesus do Socorro de Pescaria Brava. Em 10 de novembro prestou o juramento contra o modernismo, o juramento de fé e o juramento non alienandi o que é próprio da Matriz. Em 13 de novembro chegou a Laguna e seguiu para Imaruí, não deixando de comunicar a boa notícia ao Arcebispo, que lhe pede muito cuidado com a saúde.

Em Imaruí, trabalhou com zelo, preocupou-se na construção de casa paroquial e de possível convento de Irmãs Catequistas.

Nas eleições municipais de 1936, Pe. Bernardo Philippi, pároco de Laguna, escreveu a Dom Joaquim comunicando a chapa apresentada pelo diretório lagunense, citando os 11 cadidatos, ea afirmando que “todos ou são indiferentes à religião ou maçons”. Côn. Nicolau recebeu a mesma carta e escreveu a Dom Joaquim, concluindo que não se envolveria no assunto. Dom Joaquim respondeu (20 de fevereiro de 1936), aconselhando-lhe a mais absoluta imparcialidade, pois “é certo que se haverá em alguns falta de religião, não lhes falecerá boa vontade. Depois, não estariam obrigados a certa linha, por causa, ao menos, dos compromissos, explícitos e solenes do Partido?”. E conforta: deveriam acima de tudo contar com a atuação do chefe do Partido, o Sr. Governador do Estado, o amicíssimo Dr. Nereu de Oliveira Ramos. E, preocupado com a saúde do padre, acrescenta, “quando sair, prevendo que haverá grande movimento religioso, e se não houver um motivo muito forte em contrário, não deixe de fazer-se acompanhar do R. Pe. Lourenço, para ajudar no serviço. Aliás, está, como vê, até mais conforme à praxe de Nosso Senhor: “Misit illos binos”, enviou-os dois a dois. “Descanse sempre um bocadinho. Justamente como aqui. Lembra-se?”.

Nem tudo correu a contento, e retornou o sofrimento a Côn. Nicolau. No início de 1936, o reitor de Azambuja tomou posse como bispo de Mossoró, RN e assumiu seu cargo Pe. Bernardo Peters. Para ajudá-lo, e para tratamento de saúde, Côn. Gesing foi nomeado professor no Seminário de Azambuja. A saúde não se normalizou plenamente e, ao contrário, se agravava e o levaria à sepultura. Em agosto de 1936, foi novamente internado no Hospício, atendido pelo Dr. Humberto Mattioli Filho. Conseguiu alívio na situação, mas com momentos de incertezas, com esquecimentos durante a Missa. Pe. Bernardo Peters, reitor, sugere que fique em Azambuja, ajudando no Santuário e no Seminário, onde regia o Coro Misto e o de Vozes Iguais.

Côn. Gesing vivia momentos de grande intimidade com Cristo e sua Mãe Maria. Gostava de repetir: “O aeterne, amore aternali aeterne, aeterne et semper vellem te amare, amore sempiterno” – Ó eterno, com eterno amor eternamente, eternamente e sempre quisera amar-te, com amor sempiterno. E também: “Dich, o Ewigen, will ich ewig, ewig, ewig lieben ”- A Ti, ó Eterno, quero eu sempre, sempre, sempre amar. Na sua ordenação presbiteral tivera como lema cantar as misericórdias do Senhor (Sl 88,1), e tinha chegado a hora de cantá-las na cruz, sem revolta, sem indecisões.

Em janeiro de 1937 escreveu a Dom Joaquim longa carta, que é mais confidência espiritual. Narra que seu pai quer que o visite mas, pondera, é apenas pai carnal e o que importa agora é o pai espiritual.

Suas cartas passam a ser redigidas em latim, sem rasuras, e respondidas em belo latim pelo Arcebispo Metropolitano que sempre o leva a sério. Em 13 de janeiro de 1937 lhe escreve: “Vale, ergo, Fili, … Accipe benedictionem quam tibi peramanter concedit”, passa bem, Filho, … Recebe a bênção que te concede com afeto.

Assumiu o Coro Misto no Seminário. Alimentou grande devoção a Nossa Senhora, cuja imagem saúda todos os dias e gosta de recordar a palavra do Evangelho: “Domine, si vis, potes me mundare” que depois repete, assumindo o lugar do doente, “Domine, si vis, potes me mundare”, Senhor, se quiseres podes me curar.

Dom Joaquim coloca no frontispício da carta: “Carissime Fili”, e encerra “Memento humillimi Praesulis qui Te benedicit” – Caríssimo Filho. … Lembra-te do humílimo bispo que Te abençoa. Os dois travam diálogo de amigos. Dom Joaquim bem conhecia o valor espiritual e intelectual do padre e, sem dúvida, participava de seu sofrimento tão doloroso, até humilhante, porque lhe atingia a capacidade mental. Se hoje, com tantos recursos, a depressão conduz a intensa dor, muito mais o fazia naquele tempo, tratada com algumas drogas e choques.

Recordando imagens de seu passado, aos 85 anos Dom Vito Schlickmann comenta: “Só me lembro dele quando, criança de 8 a 10 anos, o via algumas vezes em São Ludgero, sempre de mãos postas e de cabeça inclinada. E o comentário: “Aquele é o Pe. Nicolau Gesing, que está  perturbado da cabeça”.

O pobrezinho Cônego Nicolau Gesing

Desde 1930 doenças nervosas, e profunda depressão, atingiam Pe. Nicolau. Nos tempos de alguma melhora, sem complexos ou revoltas, retornava à atividade. Sua vida espiritual sempre se fortaleceu. Carregava a cruz havia sete anos, sofrendo com ele seus amigos, seus alunos. A partir de 1937, o sofrimento foi sempre mais intenso, alternando Seminário e Hospício, lucidez e apagamento. Em 1938 mergulhou na noite do sofrimento, dela saindo poucas e sempre mais curtas vezes.

Em certa hora, tomou consciência de si, mas como outra pessoa: era o papa Pedro II. Assumiu essa persona com responsabilidade: criou cardeais, nomeou bispos, depôs superiores de ordens religiosas, estabeleceu dioceses. O pobrezinho não incomodava ninguém. Consoante seu “ministério petrino”, Côn. Nicolau não mais escrevia a Dom Joaquim. Escrevia para si próprio.

Deus permitiu sempre mais forte provação, fazendo-o passar pelo “nunca bastante” e, em 7 de agosto de 1939, recolheu-o no Céu. Uma vida breve e de perfeição longamente alimentada: 20 anos de sacerdócio, 46 anos de vida. Em nenhum momento reclamou dos sofrimentos, em nenhum momento desanimou no ardor apostólico. Foi sepultado em Azambuja, à sombra de Nossa Senhora.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por ALUIZIO,BRAND em 8 de setembro de 2013 - 16:49

    Padre Besen,
    Admiro e gosto dos artigos que o sr. escreve, de sua lealdade de expor em minimos detalhes as coisas e os fatos ocorridos ao longo dos tempos de certos individuos acometidos por enfermidades. Eu imagino o sofrimento de Cônego Guesing durante a revolta de 1930. Por desrespeito à constituição, e que em seis anos a 2ª Revolução, simplesmente pelo poder sem o aval do povo eleitor, e imagino o sofimento do Cônego e da população. Gosto das histórias do Passado e genealogias. Grande abraço, Padre Jose Besen.

    • #2 por José Artulino Besen em 14 de setembro de 2013 - 17:46

      Aluízio, muito obrigado pelo incentivo e pela leitura. Gosto muito de meditar a vida desses homens justos.

  2. #3 por Ademar A. Cirimbelli em 9 de setembro de 2013 - 09:16

    Padre Besen, mais uma vez, estou maravilhado com seu artigo. Dedicados servos de Deus! Sempre é bom recordar que as condições da época eram muito difíceis, sem estradas, com poucos recursos médicos etc. A cada dia, mais admiro, também, o nosso saudoso Arcebispo Dom Joaquim. Peço sua bêncão, amigo Padre José A. Besen.

    • #4 por José Artulino Besen em 14 de setembro de 2013 - 17:47

      Ademar, Pe. Gesing é, de verdade, um servo de Deus. A cruz não o derrotou: o engrandeceu. Pela cruz à Luz. Obrigado pela leitura

  3. #5 por Ana Paula Gesing em 20 de fevereiro de 2015 - 14:25

    Pe. Besen, se o Cônego Nicolau era filho de Germano Gesing e Ana Fuchter, acredito que ele era irmão do meu bisavô Henrique Gesing. Como foi bom ler esta história…como eu queria saber mais história dos meus antepassados!

  4. #6 por Lauro gesing em 30 de janeiro de 2017 - 19:57

    Este foi um dos meus antepassados. Legal ler sua história.Lauro Gesing

  1. CÔNEGO NICOLAU GESING – MINISTÉRIO DA CRUZ | Pe. José Artulino Besen

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