2. Oração e respiração

É necessário procurar um guia que não cometa erros para que, através das indicações dele conheçamos os desvios da atenção à direita e à esquerda, ou, as carências e os excessos introduzidos pelo inimigo, e sejamos formados através daquilo pelo qual ele mesmo passou nas provações e nos revela; sem ambigüidade ele nos indique esse caminho espiritual e assim facilmente o possamos percorrer.

Não havendo o guia, é necessário procurá-lo com muito empenho; se não o encontrarmos, depois de ter invocado Deus com contrição de espírito e lágrimas e tê-lo suplicado na pobreza, faz o que te digo. Tu sabes que a respiração é o ar que respiramos e inspiramos, unicamente por causa do coração; ela é a causa da vida e do calor do corpo. O coração atrai o ar para colocar fora o próprio calor, mediante a expiração e atingir uma boa temperatura. Cooperador, ou melhor, ministro desse objetivo é o pulmão que, criado poroso pelo Criador, como um filtro introduz sem dor e faz sair o que nele está contido. Desse modo o coração, com a respiração atraindo o frio e expelindo o calor, observa sem transgressões a ordem que lhe foi confiada para a subsistência do corpo vivente.

Por isso, tu, senta-te, recolhe o profundo de teu coração, fá-lo entrar  pelas narinas, caminho pelo qual a respiração entra no coração, lança-o e o força a descer juntamente com o ar que é inspirado no coração; quando chegar lá, nada mais existirá privado de alegria ou de graça, mas, como um homem que emigrou da própria casa, quando retorna  se alegra porque foi digno de reencontrar os filhos e a mulher, do mesmo modo o profundo do coração, quando se uniu à alma, fica repleto de prazer e de alegria indizíveis.

Irmão, habitua o teu profundo a não sair de lá ligeiro demais: no início, realmente, será indolente pelo fato de estar preso lá dentro como numa prisão; mas quando se habituar, não mais suportará as relações externas, porque o reino dos céus está dentro de nós (cf. Lc 17,21). Aquele que o vê ali e o procura com a oração pura, considera odiosas e abomináveis todas as coisas exteriores. Se desde o início, como se disse, entras através do teu profundo no lugar do coração que te indiquei, rendamos graças a Deus. E tu, glorifica-o, exulta e estejas sempre preso por tal atividade e ela te ensinará aquilo que não sabes. Também isso deves aprender: que, logo que o profundo lá se encontra, dali em diante não deves permanecer em silêncio e inativo, mas ter como atividade e meditação incessante “Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim”, e nunca interrompas esta invocação. Quando essa oração mantém o profundo do coração longe das distrações, mostra-o inaprisionável e intocável dos assaltos do inimigo e o conduz dia após dia à caridade e ao desejo do divino.

Nicéforo Monge, Discurso sobre a sobriedade,
Vol. IV, pp. 26-27.

Desde o amanhecer, sentado num banquinho baixo, conduz a mente pelo princípio diretivo que habita as profundezas do coração e ocupa-a com ele; dobrando com esforço e com forte dor o peito, os ombros e o pescoço, grita com insistência no espírito e na alma: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”. Depois, por causa do aperto e do cansaço, talvez também pelo enjôo da repetição contínua… faz passar o profundo do coração à outra metade da oração e diz: “Filho de Deus, tem piedade de mim”; repete com freqüência a metade da fórmula, mas não a mudes por preguiça. As plantas continuamente transplantadas não fixam raízes. Segura também a respiração de modo a não respirar livremente, pois o ar que respiras sobe do coração, obscurece as duas profundidades, e afastando-as do coração agita a mente, ou então as entrega prisioneiras ao esquecimento ou, então, as dispõem a meditar ora isso ora aquilo, para que, sem se dar conta, acabe por encontrar o que não deve. Se te acontecesse ver as impurezas dos espíritos maus, ou pensamentos, que se manifestam ou assumem formas diversas, não te espantes; também se te aparecerem pensamentos bons não lhes dês atenção, mas segura a respiração o quanto te é possível, guarda o teu profundo dentro do coração e persevera na invocação contínua do Senhor Jesus; logo queimarás e afastarás esses pensamentos açoitando-os invisivelmente com o nome divino. Disse Clímaco: “Açoita os adversários com o nome de Jesus; não existe arma mais poderosa no céu e na terra” (João Clímaco, Escada 21).

Gregório Sinaíta, A paz interior,
Vol. IV, pp. 71-72).

Que se deva segurar a respiração, atesta-o Isaías Anacoreta e com ele muitos outros. Um diz: “Domina tuas indomáveis profundezas”, isto é, as profundezas dispersas pelo poder inimigo, por causa da negligência que retorna à alma indolente após o batismo juntamente com outros espíritos mais malvados, como diz o Senhor, e que torna a última situação pior que a primeira (cf. Mt 12,45)). Um outro diz que o monge deve ter a recordação de Deus em lugar da respiração. Um outro, que o amor de Deus precede a respiração. E o Novo Teólogo: “Segura também a respiração das narinas, para não respirar facilmente”. E Clímaco: “Une a recordação de Jesus à tua respiração, e então conhecerás a vantagem da paz interior” (João Clímaco, Escada 27). E o Apóstolo diz que não ele, mas Cristo vive nele (cf. Gal 2,20) realizando e inspirando a vida divina. E o Senhor diz: O vento sopra onde quer (Jo 3,8), tomando o exemplo do sopro do vento sensível para que, tornados puros, tenhamos recebido o penhor do Espírito (cf. 2Cor 1,22) e a palavra semeada em nós, como germe, como afirma o irmão de Deus, Tiago (cf. Tg 1,21).

Gregório Sinaíta,
A paz interior, Vol. IV, p. 72).

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