PADRE JOSÉ EDGARD DE OLIVEIRA

pe-edgar

Padre José Edgard De Oliveira – 1929-2016

Padre José Edgard de Oliveira nasceu no bairro Cardoso, em São João Batista, pequena cidade catarinense no vale do rio Tijucas, em 31 de dezembro de 1929. Seus pais eram católicos fervorosos, Francisco Joaquim Leonardo de Oliveira e Nila Soares Pereira de Oliveira. O pai dirigia o culto dominical na capela do bairro, puxando o terço do rosário. Isso é o bastante para se dizer que os filhos beberam na mesma fonte religiosa.

Em 1943, o jovem José Edgard, depois sempre conhecido por Edgard, manifestou o desejo de ir para o Seminário para ser padre. Saiu de sua casa para o seminário de Pinheiral, instituição dos padres jesuítas que atendiam à paróquia de Nova Trento. Terminando o estudo preliminar, a família preferiu que fosse matriculado no Seminário Nossa de Lourdes, em Azambuja, onde já se encontravam colegas seus.

Pode-se dizer que a grande característica que o marcou por toda a vida foi a alegria espontânea, a peraltice, a capacidade de fazer amigos e “aprontar” surpresas que animavam os colegas. Um artista nato. Era inteligente para os estudos, especialmente para a língua portuguesa e a declamação.

Os primeiros anos em Azambuja coincidiram com a Guerra mundial (1939-1945) e a prevenção contra o comunismo ateu. Esse medo estava ligado à contínua oração contra o perigo vermelho, que os seminaristas temiam estar planejando a invasão do Seminário de Azambuja. Pe. Edgard gostava de lembrar a noite em que uma coruja entrou com barulho no dormitório e algum seminarista gritou “os comunistas!”. Foi o que bastou para se instalar um clima de pavor, a maioria fugindo para o pátio e rezando. Comoveu a todos o Raul de Souza (Pe.) ajoelhado e gritando: “Meu Deus, ofereço a minha vida pela conversão da Rússia!”. Outros mais se ofereceram pela salvação das almas, mas ficaram felizes ao descobrirem que tudo foi causado por uma desgovernada coruja.

Concluídos o ginásio e o clássico, foi enviado para os Seminários Maiores de São Leopoldo e Viamão, onde estudou filosofia e teologia. Sua turma foi a última do Seminário São Leopoldo, dos jesuítas, e a primeira do Seminário de Viamão.

Tudo pronto, em 7 de dezembro de 1958 foi ordenado sacerdote no Seminário de Azambuja  por Dom Joaquim Domingues de Oliveira.

Passou o primeiro ano de ministério sacerdotal, 1959, como vigário paroquial (coadjutor) de Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha no Estreito, Florianópolis e, devido à sua capacidade de comunicação com os jovens, em 1959 Dom Joaquim nomeou-o assistente eclesiástico da JEC – Juventude Estudantil Católica. Continuou com o trabalho da Ação Católica até 1963. Sua alegria contagiante, amor acolhedor de todos, galvanizavam os adolescentes. Fundou e presidiu o Centro de Oratória do Estreito-COE.

Em 1960-1961 foi provisionado vigário paroquial da Catedral de Florianópolis, retornando ao Estreito nos anos de 1962-1963. Por informação de Lourival Amorim fiquei sabendo que Padre Edgard foi um dos fundadores do Ginásio Industrial do Estreito, hoje, CARS-COLÉGIO ADERBAL RAMOS DA SILVA, em 1963. Fazia parte de um seleto grupo de professores, como o Padre José da Graça Simões (nosso diretor), Paulo Michels, Ângelo Crema, Mafalda Pereira Boing e Álbio Boing, Nilton Medeiros Santiago, Lyra, Custódio Horácio da Silveira, Jutair Beiro Caramez, entre outros. Nossa formatura de fundadores (1966), presentes Laudelino José Sardá , Célio Struve, Moacir Kovalski, Jorge Antonio Amaral Amarall, Vitorio Luiz Gandolfi, Luiz Alberto Lemos, Paulo Gama, entre outros. Padre Edgard marcou presença entre os alunos com seu carisma, com sua inteligência e irreverência.

Compromisso com o social

Padre Edgard era um homem justo, um sacerdote defendendo a justiça social e, acima de tudo, um padre a procura de pobres, prostitutas, homens e mulheres da rua. Nele havia a preocupação com aqueles que eram rejeitados pela sociedade, o povo da sarjeta.

Quando terminava o dia no expediente paroquial, ele saía à rua para abraçar, beijar, conversar com os sofredores da vida. Encarnava como poucos, a palavra do papa Francisco: tinha cheiro do povo. Em nenhum momento caía no moralismo, condenando a sociedade católica conservadora e que não queria misturar-se com os rejeitados.

Não atacava os ricos, a elite da sociedade: amava a todos, sem distinção, de modo especial sendo procurado pela juventude universitária e da classe média que lhe abriam o coração. Era um “beijoqueiro” incorrigível: nem padres, nem bispos, nem leigos conseguiam escapar de seus beijos efusivos, verdadeiros.

Os primórdios de seu ministério foram marcados dois movimentos: a ação católica especializada, militante e a reação anticomunista e da direita, que levou ao golpe militar de 31 de março de 1964, que mergulhou todos os movimentos católicos e leigos na bacia do comunismo e prendeu os principais líderes.

Acima de tudo isso, a renovação do Concílio do Vaticano II (1962-1965), por ele abraçada com entusiasmo e compromisso. Quando pode, deixou o uso da batina. Sem inibição andava pela Praça XV (hoje largo São João Paulo II), pelas ruas centrais da Capital, com o uniforme de escoteiro, boné e calça curta. Para muitos, era um escândalo, para ele, pura diversão.

Num dia foi abordado pelo sisudo General Paulo Vieira da Rosa, prefeito municipal de Florianópolis de 1964-1966. O General pediu licença, e falou: – Padre Edgard, eu sou militar, sigo as regras do quartel, uso o uniforme, e por que o senhor anda desse jeito? Padre Edgard respondeu com bom humor: – General, é assim mesmo como o senhor fala mas, eu sou padre, e ando como quero!

O clima político tornava-se oprimente pela caça aos assim chamados comunistas que, na verdade, eram todos os que criticavam a política autoritária e defendiam a justiça social. Padre Edgard passou a receber críticas, também de colegas padres. As queixas chegaram à residência do senhor Arcebispo e a autoridade policial preveniu que Padre Edgard era seriamente suspeito de militância comunista e que poderia ser preso a qualquer hora se a Igreja não tomasse uma atitude. Com seu prestígio, Dom Joaquim apresentou a solução que trouxe alívio às autoridades que não queriam prender um padre tão irrequieto, mas tão amado: custódia numa casa paroquial, isto é, prisão domiciliar sob as vistas de um pároco. Dom Joaquim escolheu a dedo os dois padres de maior vigilância com relação ao comunismo: Monsenhor José Locks, pároco de São João Batista e Cônego Rodolfo Machado, pároco de Biguaçu. Cumprindo a promessa/condenação, em 1964 Pe. Edgard foi coadjutor sob custódia em São João Batista, e em 1965, em Biguaçu. Dom Joaquim não teria tempo de vigiar o cumprimento da sentença e os dois padres sabiam estar lidando com um padre livre, bem humorado e indomável.

Nos anos de 1966 e 1967, Pe. Edgard foi provisionado vigário paroquial da Catedral e encarregado da Pastoral da Juventude e do Movimento Escoteiro. O afeto e zelo pelo Escotismo nunca o deixou: foram décadas e décadas de encontros locais, estaduais, nacionais, formação, dedicação, acampamentos. Padre Edgard encontrou o campo onde plantar o afeto nas novas gerações, preocupando-se com o desenvolvimento integral dos jovens, complementando o esforço da família, da escola e de outras instituições. Com seu espírito juvenil, chamava a atenção ver um sexagenário de boné, calça curta, pernas finas acompanhando as crianças e jovens, feliz como cada um deles.

Nos anos de 1967-1968 ocupou o cargo de Assessoria e Animação na ACARPESC (Associação de Crédito e Assistência Pesqueira). Criada em 1968, foi um diferencial importante para o desenvolvimento da aqüicultura no Estado, atual líder da produção aqüícola brasileira. A ACARPESC foi para o pequeno pescador o que a ACARESC significou para os agricultores. Pe. Edgard não era nem de ensinar a pescar nem pedir aos pescadores que fossem obedientes, mas trabalhou para conscientizá-los de seus direitos, da obrigação do Estado em assisti-los. Suas palavras incomodaram a classe dirigente, que mal suportava pescadores artesanais querendo falar em pé de igualdade com as pessoas importantes.

Em 1969, retornou à Catedral, como vigário paroquial, Assessor da Pastoral da Juventude, do Movimento Escoteiro e das Equipes de Nossa Senhora. Sentindo a necessidade de suporte para analisar e trabalhar a realidade, em 1970 residiu no Rio de Janeiro, onde cursou o IBRADES (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Econômico e Social), órgão dos padres jesuítas, fundado em 1968 com a finalidade de trabalhar a realidade social e religiosa para capacitar agentes de pastoral; prestou excelente trabalho de assessoria à Conferência dos Bispos. Ali, Pe. Edgard teve oportunidade de aprender a analisar a situação brasileira com instrumentais científicos oferecidos pelas ciências sociais.

Infelizmente, a situação política brasileira, em plena e dura vigência do AI-5, da patriotada do Brasil Grande, do “ninguém segura esse país”, minou-lhe a possibilidade de um trabalho articulado em âmbito arquidiocesano. Dom Afonso Niehues era agora arcebispo metropolitano de Florianópolis e apoiava o trabalho de conscientização política, seguindo as diretrizes da CNBB, única voz que de público podia criticar a ditadura militar e as violações dos direitos humanos. Mas, não restava muito espaço de liberdade por que o total controle dos Meios de Comunicação induzia a população a acreditar no “milagre brasileiro”. 

Dedicação à Pastoral da Juventude

A convite de Dom Afonso, de 1971 a 1980 Pe. Edgard morou na residência episcopal. Devido a seu bom humor, brincávamos dizendo que o trabalho principal do padre era alegrar o Senhor Arcebispo… Dom Afonso estava convencido que Pe. Edgard deveria ser deixado livre. Na verdade, foi um longo período de animação pastoral: professor e assessor de religião no Colégio Coração de Jesus, assistente religioso no Escotismo e, de modo especial, integrante do Secretariado Arquidiocesano de Pastoral na assessoria aos movimentos de juventude.

Foi o tempo áureo dos movimentos jovens no meio urbano, coordenados pela ARMOJ-Assessoria religiosa dos Movimentos de Juventude. Padre Edgard desdobrou-se na animação juvenil, estimulando o Encontrismo, que formava a juventude em retiros de fins de semana e depois os organizava em grupos paroquiais. Dos anos de 1980 a 1982, residindo no Convívio Emaús, na Trindade, Pe. Edgard buscou organizar a Pastoral Universitária. Foi um período difícil, marcado pela incipiente redemocratização: a voz religiosa era substituída pela voz da conscientização política, de esquerda.

Ao perceber o crescimento de Itajaí, Dom Afonso Niehues pediu que Pe. Edgard fosse residir na paróquia São João, no bairro homônimo, com a missão de preparar a criação da paróquia de São Vicente de Paulo. Feliz com a missão, entre 1982 e 1987 dedicou-se a esse trabalho mas, não o concluiu: retirou-se em 1987 para tratamento de saúde, em São João Batista. Restabelecido, foi mais uma vez provisionado como coadjutor na paróquia de Nossa Senhora de Fátima no Estreito, ali permanecendo de 1988 a 1990. A paróquia de São Vicente foi criada em 13 de janeiro de 1990.

pe-edgar1

A silenciosa visita da Cruz

Durante 13 anos (1990-2003), Pe. Edgard carregou dolorosa cruz, motivada por injusta acusação que foi nos ouvidos do Arcebispo Dom Eusébio O. Scheid a respeito de seu trabalho com os escoteiros. Sentiu-se ferido por dois motivos: não conseguir amar o arcebispo e ver sob suspeição sua consagração às crianças e jovens escoteiros. Foi acolhido e amparado fraternalmente pelo pároco de São José, Pe. Neri José Hoffmann, que lhe ofereceu a residência, a manutenção e a liberdade para continuar a missão junto aos escoteiros. O sofrimento marcou-o profundamente, e não foi mais o padre efusivo, barulhento e cheio de vida.

Com a liberdade que Pe. Neri lhe concedeu, durante o período aceitou a Capelania do Carmelo Cristo Redentor em Picadas do Sul, também em São José. Em 2004, viveu intenso trabalho junto aos Grupos de Terapia em Florianópolis e São José, foi Assistente Espiritual de Equipes de Nossa Senhora, Assessor religioso da União dos Escoteiros Brasileiros/UBE. A partir de 2005 foi residir em São João Batista e ali ajudou na paróquia, na Comunidade Terapêutica Fazenda Espírito Santo e semanalmente celebrando no Carmelo Cristo Redentor.

Foram 10 anos de renovada dedicação sacerdotal, anos silenciosos e fecundos no convívio com seus familiares.

Quem era o Pe. José Edgard de Oliveira?

Claro, é tudo o que foi descrito acima, um padre dedicado, trabalhador, verdadeiro, feliz, de palavra, desprovido de qualquer preconceito. Um homem de Igreja, de fé cristã, misericordioso, amante da pessoa humana. Um comunicador pelo exemplo, pela palavra, pelos gestos e mímica. Dotado de bela voz rouca, cantava muito bem e tocava violão.

Era muito organizado e preparava os encontros ou simples reuniões cuidando de cada detalhe. Elaborava relatórios minuciosos.

Mas, seu pecado era a pontualidade: não admitia a exigência de horário nem para o início nem para o fim. Quando estava em São Vicente, convidou os padres das paróquias vizinhas para ajudá-lo nas confissões. A igreja estava lotada, os padres à disposição. A preparação que fez com os penitentes foi quase até as 22h., de modo que na hora da confissão havia pouca gente. Era seu jeito, e julgou que os verdadeiros penitentes ficaram firmes.

Tinha o dom da oratória, da fala clara, da comunicação com imagens e expressões que levavam à alegria e às lágrimas. Suas homilias, beleza, piedade e intuição. Lembro de uma palestra que dirigiu aos enfermeiros do Hospital de Caridade. Motivou-a com o algodão: “um algodão limpinho, que saiu da farmácia, não vale nada. Mas, um algodão cheio de pus, restos de ferida, sangue, esse sim mostrou para que serve, ele purificou o corpo de um sofredor. E veio a lição: quando tocamos um corpo ferido, coberto de chagas, sujo, com veste esfarrapada e o tocamos com carinho, fazemos uma carícia, então sim, vivemos o amor, carregando em nós o sofrimento dele”. Essa imagem marcou sua pastoral da sarjeta, do carinho com a pessoa sofrida, doente, prostituída. Nele, Pe. Edgard nele abraçava o Servo de Javé.

Ficou na história a Semana Santa que conduziu na capela de Governador Celso Ramos. Na procissão de ramos notou que os homens estavam tímidos, não aclamando o Senhor com os ramos. Pe. Edgard – não sei se usava de ambiguidade – pedia aos homens: “Homens, força, cada um levante e balance seus galhos!”. E, na Missa da Ceia do Senhor, com a igreja cheia de crianças, foi explicar o jeito de cada apóstolo. As crianças estavam à sua frente e hipnotizadas na mímica empregada para cada apóstolo. Quando foi imitar Judas Iscariotes a expressão e os gritos foram tão fortes que a gurizada apavorada fugiu da igreja. Esse era o Pe. Edgard.

Sua vida oferece muito material para fioretti, e mais ainda as histórias que ele narrava do Pe. Januário Testa e de Monsenhor José Locks.

Pe. José Edgard de Oliveira deixou saudades, muitos amigos com saudade de sua misericórdia e amizade.

Grande amigo seu, Jairo Aldo da Silva, ofereceu esse testemunho: “Realmente este era o nosso querido Pe. Edgard. Companheiro de muitas e muitas celebrações, muitos encontros, retiros, mas, sobretudo, de muitas horas de trabalho árduo, de troca de confidências, de saber ouvir, de se fazer companheiro incondicional em qualquer circunstância. No entanto, o que sempre me chamou a atenção neste companheiro foi o quase paradoxo de uma pessoa tão extrovertida e às vezes até parecer inconsequente e irreverente, ter uma espiritualidade tão profunda. Dirigia-se a Jesus como se fossem companheiros de travessuras e Maria era a sua mãezinha com quem se relacionava e em quem confiava como se fosse sempre seu bebê. Coerência, honestidade, dedicação, comprometimento com as pessoas, fidelidade integral à sua vocação, são alguns valores deste padre exemplar”.

Preparou e viveu o Jubileu de Ouro Sacerdotal. Como de seu costume, tudo foi vivido intensamente, com quase um ano de organização. Era um menino feliz preparando a sua festa.

O lema escolhido retrata um coração pacificado e grato: “Com amor eterno Eu te amei, por isso compadecido de ti, Eu te atraí a Mim”. (Is 14, 7-8).

Muitos amigos o procuraram e participaram da Celebração em 7 de dezembro de 2008 em São João Batista e no Estreito.

Por seus méritos literários, em 13 de março de 2015 foi empossado na Academia Batistense de Letras, em solenidade na Câmara Municipal de São João Batista.

Em 2016, a Irmã Dor visitou-o, consequência de um câncer na próstata. Passou por internação nos Hospitais de Azambuja, de Camboriú e Florianópolis. No dia 29 de maio, Pe. Vilson Groh ministrou-lhe a Unção dos Enfermos, vivenciada com alegria e fé. Antes da sedação pediu que o padre dissesse aos colegas: “Diga aos padres que sempre amei-os muito, amei-os muito, sem nenhuma reserva”. Foram suas últimas palavras. Deus o recolheu à sua Casa na tarde de 31 de maio de 2016. Seus colegas no ministério e o povo a quem serviu, dele se despediram nas Exéquias celebradas na matriz de São João Batista. Sua vida se encerrou com a Visitação de Maria e ressuscitou no mês do Sagrado Coração de Jesus, 1º de junho.

Pe. José Artulino Besen

%d blogueiros gostam disto: