PADRE JACOB JOÃO LUIZ NEBEL

Padre Jacob Nebel em 1938

Jacob João Luiz Nebel nasceu no Estado de Würtenberg, Alemanha em 4 de janeiro de 1887. Ingressou na Província alemã da Companhia de Jesus em 2 de outubro de 1908 e nela foi ordenado sacerdote em 20 de junho de 1920.

Em 1920 trabalhou em Mössingen bei Tübingen, já desejando trabalhar no Brasil, onde conhecia o Pe. Jacob Slater, pároco de Tijucas. Em 16 de fevereiro de 1921, Pe. Ludovicus Kösters, provincial alemão, em carta a Dom Joaquim Domingues de Oliveira atesta sua idoneidade moral. Em 20 de fevereiro de 1921, Pe. Jacob escreveu a Dom Joaquim, ainda como jesuíta, pedindo incardinação. Houve um motivo para essa tão rápida secularização: calúnia movida contra ele por um colega padre. E indicou o Pe. Jacob H. Slater como alguém que pode testemunhar a seu respeito. Em 18 de abril de 1921, Mons. Francisco Topp, Vigário geral, responde que Dom Joaquim o aceita por um triênio. Secularizado, veio para a diocese de Florianópolis em 18 de abril de 1921 num processo muito rápido.

Início do apostolado no Brasil

Sua primeira provisão foi de vigário de São Pedro de Alcântara (12 de setembro de 1921), auxiliando a Côn. Francisco Giesberts, que o descreveu como bom, sensível, que atende a todos. Em 8 de outubro de 1922, assumiu como pároco, tendo como primeira iniciativa a construção da capela do Sagrado Coração de Jesus, em Biguaçu do Meio, hoje Antônio Carlos.

À época, o centro da vida paroquial e do coração dos padres era a Capela do Senhor Bom Jesus, em Rachadel, cujos moradores eram excepcionalmente católicos e se esforçavam por ajudar financeiramente a paróquia.

Em março de 1925, Pe. Nebel abandonou o ministério sacerdotal e foi para o interior de São Paulo, onde comprou uma fazendinha, nela residindo com um empregado. Não houve envolvimento algum com mulheres. Motivo: o povo de São Pedro urdiu intrigas contra ele, que se deixava levar pelo diz-que-diz. Foi nessa saída que aconteceu um fato nunca explicado nem medido qualitativamente da queima do arquivo paroquial de São Pedro. A hipótese é que Pe. Nebel, ao ser transferido, magoado, provocou esse evidente prejuízo.

Pe. Bernardo Bläsing, seu sucessor, deparou-se com dívidas deixadas pelo Pe. Nebel, frutos de empréstimos de colonos de Rachadel, Santa Maria e São Pedro, montando à significativa quantia de 14.820:000 (14 contos de réis). O dinheiro teve como destino o Colégio Catarinense e a Cúria de Florianópolis. Apesar dos comentários, Pe. Nebel nada subtraiu em proveito próprio, fato comprovado pelos recibos que depois apresentou.

Em 15 de dezembro de 1925, Pe. Nebel se apresentou a Frei Nicolau Leurs, OFM, no Convento de São Francisco em São Paulo, solicitando que intercedesse junto a Dom Joaquim para ser novamente aceito: pedia uma penitência e que fosse nomeado para lugar longe de São Pedro, pois tinha muita vergonha do escândalo dado. Dom Joaquim respondeu em 22 de dezembro, pedindo que viesse falar com ele, sem condições. Quanto às dívidas, acrescentou, seriam resolvidas sob a responsabilidade de cada um.

O rico ministério em Braço do Norte

Feliz por retornar ao ministério, em seis de fevereiro de 1926 foi nomeado vigário paroquial do Quadro e Gravatá (Obs.: por Quadro era conhecido o distrito de Braço do Norte; em 1922 esse distrito de Tubarão passou a chamar-se Colaçópolis, retornando a Braço do Norte em 1928).

Pe. Nebel tendia a tomar partido em confusões políticas normais, o que acarretava problemas e cartas de reclamação. Numa carta, de 18 de outubro de 1928, por exemplo, W. L., ex-professor do seminário de Azambuja, se queixa que o povo conhece agora o passado do Pe. Nebel, que não reza o Breviário, faz sermões de valor nulo, mau administrador (um artesão queria cobrar 15$000 por uma lamparina e Pe. Nebel insistiu que cobrasse 40$000 e no fim aceitou, com vergonha, 25$000). Dizia que não era pecado dançar durante toda a noite, que perguntara a uma moça que vinha de mula se confessar se a mula também se confessaria, gostava de olhar as moças, etc.

O motivo mesmo foi intriga de famílias e a notícia de que Pe. Jacob seria pároco. Em 20 de novembro de 1928, o Vigário Geral enviou questionário a Pe. Nebel com cada uma das acusações a que ele respondeu ponto por ponto em 27 de dezembro de 1928, em alemão, para se expressar com mais clareza; cita as pessoas interessadas em removê-lo, sendo motivo principal a rejeição de um nome para dirigir a Escola paroquial. A direção de uma Escola paroquial era muito disputada, pois conferia prestígio moral e político na comunidade. Como acontece nesses casos, a um abaixo-assinado contra segue-se um a favor e em 31 de dezembro chegou à Cúria o abaixo-assinado dos Zeladores da igreja e de outros paroquianos, expondo o motivo pelo qual querem tirar o Pe. Jacó, e que estão muito felizes com ele.

Pe. Nebel era um padre zeloso e incansável, mas devedor de sua origem sueva, era capaz de explodir em gritos e ao mesmo tempo trabalhar calmamente.

Em 7 de fevereiro de 1931 foi nomeado pároco de Nosso Senhor do Bom Fim, Braço do Norte, vasta paróquia que abrangia Braço do Norte, Armazém, Aiurê, Gravatal e Grão Pará. Com os anos, esses centros se transformaram em paróquias.

Os problemas não cessam, mas, em 4 de março de 1931, Pe. Geraldo Spettmann SCJ, respeitado pároco de Tubarão, escreveu ao Vigário geral Frei Evaristo Schürrmann, OFM, desmentindo novas calúnias contra Pe. Nebel e reafirmando seu espírito sacerdotal. Toda a intriga tinha origem em algumas famílias políticas atiçadas pela política tubaronense e pela Maçonaria. Pe. Nebel não se curvou a essas instâncias e pagava por isso. Tanto ele como o clero do Sul tinham como adversário o poderoso Ernesto Lacombe que era industrial, político e jornalista, proprietário do jornal O LIBERAL. Aliado aos liberais na Revolução de 1930, foi nomeado governador do Sul catarinense, depondo prefeitos e nomeando outros. Para sua mágoa, não foi eleito deputado federal em 1933 pelo Partido Socialista Evolucionista. Por suposto, as palavras socialista e evolucionista nada agradavam ao clero e à maioria dos católicos.

A nova Escola paroquial

Padre Jacob Nebel

Fundada em 1923 como Escola Paroquial Dom Joaquim, de Braço do Norte, em 1930 passou a denominar-se Grupo Escolar Arquidiocesano Dom Joaquim Domingues de Oliveira, sendo Pe. Jacob Nebel o primeiro Diretor. Dotou-o de novo e espaçoso prédio. Não foi apenas mudança de nome: foi nova fundação, para livrar a Escola da influência da política local. Essa obra doeu muito aos adversários que moveram contínua campanha difamatória contra a Escola e seu Diretor.

Num gesto radical, em fevereiro de 1934 Pe. Nebel fechou o Grupo escolar, privando as crianças do início do ano letivo. Pais e professores se movimentam e recorrem ao Arcebispo que, em telegrama de 18 de fevereiro de 1934, deu ordem de abri-lo imediatamente. Abalado, em 20 fevereiro Pe. Nebel pediu excardinação, não aceita por Dom Joaquim, que afirmou ser ele indispensável para o bom andamento e direção espiritual do Grupo. Machucado, Pe. Nebel telegrafa considerando-se suspenso e pede padre para rezar Missa já no domingo seguinte. A resposta veio em 24 de fevereiro confirmando-o como pároco. Telegrafa em 26 de fevereiro a Dom Joaquim declarando que não se sujeita à política nem à interferência do judiciário a respeito do prédio escolar, nem aos conselhos dos deputados Adolpho Konder e Henrique Rupp.

Nesse momento Dom Joaquim sabia a quem recorrer: entrou em campo o Interventor Nereu Ramos que enviou alguém para informá-lo com duas perguntas a respeito do padre: se é alemão (sim), se é naturalizado (creio que não).

Resultado: como o Grupo Escolar tinha auxílio financeiro do Estado e o Diretor Pe. Nebel recebia salário pelo trabalho, o Governo demitiu Pe. Nebel (estrangeiro) e nomeou outro sem consultá-lo. Restava o prédio: Pe. Nebel decidiu que era da paróquia e funcionava como local das Missas enquanto se construía a nova igreja. Desse modo, cancelou o funcionamento da Escola, nele. Dom Joaquim responde que já pode ser celebrada a Missa na nova igreja, por isso, que continue sede do Grupo. Em 26 de maio de 1934 Pe. Nebel escreveu longa carta a Frei Evaristo, lamentando o ocorrido e as soluções tomadas; diz que nunca foi político e, mesmo assim, na eleição de 1933 para a Constituinte seu candidato recebeu 189 votos no Braço do Norte e o adversário 15; “Igualmente ganhei em Orleans”. Realmente, não era nada político…

Com a autodissolução da Constituinte de 1933, a nova eleição foi em 3 de outubro de 1934. Pe. Jacob fez campanha e, na noite de 14 de outubro, foi à venda de Teodoro Schlikmann, bebeu um bocado a mais e dirigiu-se à sala onde estava a Mesa Receptora, para discutir com o Presidente da mesma. Depois, Dom Joaquim recebeu carta em que se afirma que Pe. Nebel cantou até as 3 da manhã e ainda rezou Missa. Foi exagero do missivista.

Nova igreja matriz do Senhor do Bom Fim

Pe. Jacob Nebel, como um bom pároco, empenhou-se no atendimento às capelas, doentes, crianças, famílias. E, mesmo assim, encontrou energias para enfrentar a construção da nova igreja matriz de Braço do Norte, obra que empenhou o povo entre 1932 e 1951. Em 19 de maio de 1929, foi decidida pela comunidade a construção de nova matriz, ao invés de “uma torre” junto ao velho templo. A pedra fundamental foi oficialmente lançada a 07 de setembro de 1931 tendo como mestre-de-obras o italiano Angelo Colombo. As imagens de madeira foram feitas pelo também italiano Artur Pederzoli. A pintura da abóbada, representando a integração na Arca de Noé, foi feita pelo pintor suíço Guilherme Germano Mayer.

Em 30 de setembro de 1951 foi benta a nova matriz, sem a presença do Pe. Nebel, como veremos depois. O Jornal A NOTÍCIA (7 de agosto de 1938, n. 2.954) publicou texto de primeira página, com duas fotos, uma do Pe. Nebel e outra dele com os alunos, tecendo grandes elogios ao zeloso pastor e citando suas duas grandes obras: o Grupo Escolar e a nova igreja matriz que “pela majestosa beleza de suas linhas arquitetônicas, assim como pela riqueza das decorações internas, pode ser classificada como a segunda do Estado”. Por engano, Pe. Jacob é chamado Pe. Jacob Luiz Weber.

Nacionalização e política

Em 1937, o Presidente Getúlio Vargas decretou a ditadura, chamada de Estado Novo, que foi até 1945. Dr. Nereu de Oliveira Ramos foi nomeado Interventor do Estado de SC. Uma das decisões do Interventor foi a “nacionalização”, isto é, um projeto pedagógico e político que obrigou alemães, italianos e poloneses a se assumirem como brasileiros e com a obrigação do uso da língua pátria, o que trouxe grande sofrimento às comunidades e povo. Dom Joaquim apoiou essa política, irritado que estava de ser recebido com o hino da Itália ou da Alemanha. Proibiu-se o uso de língua estrangeira.

Em outubro de 1938 surgiu intriga: o Jornal A IMPRENSA, de Tubarão, denunciou que Pe. Nebel fazia sermões e presidia terços em alemão. Por ordem de Dom Joaquim, ele expede resposta ao mesmo Jornal (também publicada em DIÁRIO DA TARDE de Florianópolis, 14 de outubro de 1938), desmentindo a notícia. Afirmou que usava sempre o vernáculo e “quando muito, de vez em quanto, aqui e ali, algumas palavras em língua estrangeira, de acordo com as necessidades, ou circunstâncias locais, para melhor inteligência dos presentes” (essa resposta, de 3 de outubro de 1938, foi escrita com muita habilidade por Dom Joaquim). Mas, continuam a circular na imprensa queixas contra o terço em alemão. É publicado um Aviso indicando que as inscrições nos cruzeiros em frente às igrejas fossem redigidos em português. A situação era complexa: de um lado, quem mora no Brasil é brasileiro; por outro, os imigrantes construíram suas comunidades, igrejas e escolas por esforço próprio, sem o auxílio do Governo e, simplesmente, não sabiam português.

Em 15 de outubro de 1942, Pe. Nebel recebeu carta da Cúria em que se pede “não só nutrir, mas manifestar sentimentos de brasilidade, pelo menos sempre que oportuno… Nenhuma palavra, pois, nem em público, nem em particular, que não seja a vernácula, a nacional, a portuguesa. O Brasil acima de tudo”.

Como Pe. Nebel era estrangeiro, suspeitou-se de que tivesse interligação com países do Eixo através de aparelhos transmissores clandestinos. Vasculhada a casa, porões e paióis, altar, igreja e sacristia, nada foi encontrado. Teve decretado, mesmo assim, o confisco dos bens como rádio, automóvel, motoclicleta e interditados terrenos, casas e outros. Mais tarde esses bens foram buscados em Laguna, mas tudo tinha sido desviado. Ele mesmo foi confinado na casa paroquial. Em 23 de outubro de 1942, Pe. Nebel foi detido por ordem do Secretário da Segurança Social e Política, retornando a Braço do Norte somente dois meses depois. A Guerra acabou e também o nacionalismo doentio.

O drama da vida do Pe. Jacob Nebel

Padre Jacob Nebel

O ano de 1947 foi doloroso para Pe. Nebel. Em 7 de abril de 1947 foi mordido na nuca e nos cotovelos por um jovem louco, restando grave ferimento. Escreveu a Dom Joaquim sobre suas dores, semiparalisia, insônia e tontura. Solicitou autorização para fazer um tratamento com penicilina em Tubarão, e um substituto. Dom Joaquim pede-lhe que espere um pouco, pois não tem padre, e comenta: “Ora, ora o efeito de uma dentada… Mas admiro a sua calma e resignação. Mas também – que fazer, depois do mal feito?” (14/4/47). Para auxiliá-lo, em maio chegou Pe. Carlos Emmendoerfer e então busca tratamento, mas, em junho estava em Armazém, onde privava da amizade e intimidade de Mons. Giesberts. Na verdade, Pe. Jacob não buscou o tratamento.

No meio tempo começaram a surgir boatos sobre sua conduta. Em 28 de junho Dom Joaquim pede-lhe que fale a verdade, “tanquam filius ad patrem” (de filho para pai).  No mesmo dia escreveu a Mons. Giesberts, em Armazém, pedindo informações, pois duvidava que fosse verdade: “É inegável que dito Sacerdote trabalhou e se esforçou, nem revelou preguiça no serviço de Deus”. A resposta de Monsenhor chegou em 3 de julho de 1947: falou-se que ele queria ir para a América do Norte, esperando só receber um dinheiro; há anos vivia com o Pe. Jacob uma moça solteira e agora queria receber outra, que já tinha dois filhos. Essa é irmã de um padre e duas crianças dela estão na casa paroquial.

Entrou em jogo a recente inimizade com Frederico Kürten (eleito deputado), seu antes grande amigo. Pe. Giesberts sugere que Pe. Jacob deixasse a paróquia e a diocese para poder se regenerar, pois é muito conhecido e relacionado e tem serviços prestados que são reconhecidos por todos.

Em 4 de julho, Pe. Nebel escreveu a Dom Joaquim uma carta “de pai para filho”, expondo suas fraquezas, num espírito de muita humildade. Escreve que a doença o incomodava muito: passou para a articulação direita da mandíbula direita, às vezes não podia mastigar. Há dois meses tirou da casa paroquial a velha criada, porque não servia mais. “Ela revelou meus pecados sexuais com ela aos inimigos”; os antigos amicíssimos dele na política tornaram-se seus inimigos e outros querem eliminá-lo. Está sendo derrotado por causa do escândalo que a criada estava propagando: “Eu esperava que me denunciasse a um confessionário, mas parece que está furiosa de ciúme da sobrinha do Pe. Heriberto Borgert, que eu protegi; esta ganhou faz oito dias um filho natural de cor”. Ele reconhece as imprudências, o colocar-se no meio dessas intrigas familiares e conclui: “… é um orgulho ridículo meu de dar todas as chances aos inimigos e passar as condições mais humildes e tristes do destino. Se V.Excelentíssima me suspende ou aplica outras penas eclesiásticas me sentirei contente (não sei que insânia tenho na mente) e que perdi o meu prestígio político, me dá grande alívio. Infelizmente é minha desgraça grande prejuízo para a paróquia. Para evitar o pior, peço humildemente que me dê aquele Padre santo que salvará muita coisa” (é o Pe. Borgert). Não tenho coragem de beijar seu sagrado anel, mas tenho uma confiança que V. Excia. compreenderá melhor do que os outros padres minha situação”. Declara que só tirará batina se Dom Joaquim ordenar, e está velho para se adaptar a outro trabalho.   

Incrivelmente compreensivo diante desses fatos, Dom Joaquim respondeu em 16 de julho de 1947: lamenta que os boatos sejam verdade, como Pe. Jacob mesmo escreveu, e se preocupa com seus sacrilégios e a salvação de sua alma. Quanto aos remédios, os Cânones são formais nesse sentido, incluindo a privação do cargo. Mas, não terá pressa em aplicá-los, pois agirá com prudência e sabedoria. A Cúria tomará as providências, mas “Tomará, PARA ALIVIÁ-LO. Tomará, para, quanto possível, REABILITÁ-LO. E V. Rev.ma, por sua vez, e pois que se trabalha para o seu bem, há de ajudá-la nesse sentido. E o fará; estou certo”.

Como Pe. Nebel está doente e pediu um tempo para se tratar, o Arcebispo aconselha que usasse esse pretexto – que não é mentira – para deixar a paróquia. Sugere que passe a outros a gestão de seus bens e procure se confessar, e depois ir a um Hospital, e buscar regularizar o estado de sua alma, para poder celebrar dignamente. E encerra de um modo muito paternal: “E é nessa certeza que – obediente, dócil e, sobretudo, interiormente regenerado – que o abençoa quem se professa servo em J. C.”.  Dom Joaquim escreve também aos Monsenhores Tombrock e Giesberts, para que ajudassem Pe. Nebel.

Em 3 de agosto de 1947, Mons. Giesberts escreveu a Dom Joaquim e expôs: Pe. Nebel ficou satisfeito com a nomeação do Pe. Borgert, que já assumiu; pediu-lhe licença para celebrar depois de se recolher ao Hospital de Tubarão. No dia 1º de agosto, Pe. Jacob foi a Porto Alegre. Tem certeza de que o aumento das calúnias foi obra dos políticos, que não eram melhores do que ninguém.

Em 6 de agosto Dom Joaquim responde, satisfeito que Pe. Nebel tenha se retirado e espera que fique longe. “Se regressar, continuará como “doente”: Mas creio no bom senso do Pe. Jacob e, convicto que está de nossa boa vontade e que só não podemos fazer o que não podemos”; e, “desde que não se pode, não se pode mesmo”.

Mons. Giesberts dá retorno em 29 de agosto: Pe. Jacob foi a São Leopoldo, mas não fez retiro; teve uma conferência com o Pe. José Mors, SJ, reconhecido mestre de teologia, autor dos 6 volumes de Teologia Dogmática, para discutir e aprender sobre suas dúvidas de fé. No dia 17 de agosto esteve em Braço do Norte e celebrou. No dia 18, à tarde, conversou, abriu o coração com Mons. Giesberts durante 4-5 horas: declarou a sua completa apostasia, afirmando que não acredita na Divindade de Cristo. “Religião Católica é muito boa e bonita, só tem o defeito de não ser a verdade”. No dia seguinte retornou a Braço do Norte, de lá seguiria a Brusque, onde encomendaria roupa civil. Não podia vender seus bens imóveis em Braço do Norte porque Kürten não aceitava assinar, e somente assinaria quando tivesse se mandado de Braço do Norte para bem longe, para sempre. Há muitos comentários, mas, “no tempo da guerra, mentira como a terra”.

Com a situação cada vez mais delicada, no final de agosto de 1947 Pe. Jacob Nebel abandonou o ministério sacerdotal. Levou consigo a irmã do Pe. N., com os três filhos que adotou como seus (na verdade não eram). Foram residir em Pirabeiraba, Joinville, numa pequena propriedade rural. Pe. Nebel estava doente e emocionalmente abalado. Tudo isso explica a crise de fé que vivenciou, mas superou. Viveu isolado de todos. O autor deste texto visitou um dos filhos e percebeu a discrição e o respeito sagrado com que o Pe. Nebel é tratado.

A doença e o retorno

Em 7 de novembro de 1953 Pe. Nebel escreve a Mons. Giesberts, narrando seus últimos passos. Em 12 de maio viajara para o Rio, onde procurou Dom Jaime de Barros Câmara. O Cardeal tinha acabado de voltar do norte, e normalmente não recebia no Sumaré, mas, a ele recebeu logo, mostrou-lhe a cidade em tudo, por horas, e então falou de seu caso (Pe. Nebel tinha-lhe escrito antes): deveria em primeiro lugar conseguir um terreno para as três crianças que adotou como filhos e sua mãe. Depois, continuou Dom Jaime, deveria servir por um tempo como sacristão junto a um pároco, para provar a perseverança e obter a confiança dele. O primeiro item, a compra do terreno, demorou, porque a esposa do General José Gomes Carneiro, a quem pertencia o terreno em Pirabeiraba e que já lhe havia vendido, não assinava, provavelmente para castigar o marido, de quem vive separada. Quanto ao segundo item, trabalhar com um padre, não lhe era possível: em agosto ficara gravemente doente. Começou com asma que não o deixava dormir, tirava-lhe o apetite e fazia perder as forças. Com os remédios que tomou, apareceram problemas de intestino e bexiga. Dr. Ernesto Essenfelder Traube ajudou-o, de modo que as duas coisas estão praticamente sanadas. Aí começaram a inchar-lhe as pernas e os pés. De acordo com o médico, o coração não podia ser a causa. Os rins acusaram albumina. Assim ele foi tratado contra inflamação dos rins. Mas o inchaço ficou, e a asma também piorara. Parece que tudo piora, já quase não consigo andar.

No dia em que escreveu a carta, em grande aflição, chegou ao Hospital São José de Joinville para escrever-lhe, “pedindo se me poderia conseguir um lugar no hospital de Azambuja. Pois eu não quero morrer assim, sem estar reconciliado com a Igreja”. A doença recomendava mudança de clima. Pe. Nebel era grato à generosidade e zelo pastoral da Irmã Superiora, da Divina Providência. Doía-lhe muito estar sendo um peso para outros, mas agora está dependendo da graça e misericórdia de almas nobres e precisa dar-se por satisfeito encontrando perdão. Encerra: sei que o senhor é que pode melhor ajudar-me e confio-me à sua grande bondade.

Pe. Jacob foi ao Rio, tão longe, e a solução estava tão perto: a paternidade de Dom Joaquim, seu arcebispo, que o acolheu em Azambuja e o readmitiu ao ministério em 9 de dezembro de 1953, com residência no Seminário de Azambuja.

Um homem perdoado, um homem renovado

Quem foi o Pe. Jacob Nebel? A primeira resposta é: aquele padre que queimou o arquivo e fugiu com uma mulher.

Mas, que foi o Padre Jacob? Foi um padre de caridade notável, principalmente em relação ao atendimento de chamadas a doentes. De dia ou de noite, perto ou longe, com sol ou chuva, fizesse calor ou frio, a pé, a cavalo, de charrete, bicicleta, motocicleta ou automóvel, sempre que chamado a um enfermo, ia pressuroso. Numa ocasião, numa destas freqüentes, longas e sacrificadas viagens, foi atacado e espancado por três irresponsáveis anticlericais. Não fosse de pronto socorrido pelo sacristão, piores conseqüência lhe teriam advindo.

Sua simplicidade com o povo, a tolerância, seu desapego ao dinheiro, imprimiam-lhe caráter. Era um sacerdote atualizado, equipado com os modernos meios de comunicação, para atender o ministério. Teve de Braço do Norte uma antevisão bastante rica, o que é demonstrado pela grande e imponente igreja matriz numa situação topográfica das mais invejáveis.

A partir de 1931, a construção da nova igreja centralizou atenções, sem prejuízo da atividade pastoral. Organizou o trabalho por turmas de voluntários: turma para confecção e carreto de tijolos, areia, saibros de praia e ferro. Havia ainda turmas para serventes de pedreiro e limpeza. Cada qual trazia seu lanche, ração para o boi e trabalhava de sol a sol. O escalonamento era feito aos domingos por ocasião do sermão da Missa.

Promovia festas onde comparecia o povo de toda a paróquia. Pedia prendas de casa em casa, auxiliado pelas comissões. Muitas vezes foi visto transportando gado, leitões, patos e marrecos, galinhas, ovelhas e cabritos, massas, bolos, tortas, corujas, para arrematação em benefício da construção. Em aglomerações de batizados, casamentos, futebol, aniversários, e outras, todos sabiam: vinha o Padre Jacó com seu barrete emborcado na mão, ou bandeja, pedindo “um tostãozinho para a Matriz”. E ganhava.

Foi assim que conseguiu erguer a Matriz de Braço do Norte. Adquiriu grandes sinos e promoveu o remate dele: quem mais oferecesse em dinheiro, teria o direito de dar a primeira badalada e dar nome ao sino. Assim coube a honra a Henrique Dechering que deu o nome de São Sebastião ao primeiro sino, e a José Oenning, estreitamente ligado às vocações sacerdotais (pai dos Padres Valentim e Umberto), escolheu Santa Teresinha para o segundo.

Pe. Nebel deixou sua visão de beleza inscrita na Igreja Matriz Nosso Senhor do Bom Fim. O povo a quem amou e pelo qual se consumiu, perdoou-lhe as fraquezas. Sua memória é sagrada em Braço do Norte. 

Na Luz perpétua

Pe. Nebel esteve em Azambuja sete meses. Com grande piedade celebrava diariamente a Missa. Teve a graça e a emoção de ter celebrando na manhã de 14 de julho de 1954, dia em que foi chamado à eternidade. Pequena procissão acompanhou seus restos mortais até o Cemitério de Azambuja.

Um de seus últimos pedidos fora ser sepultado em Braço do Norte, o que na época não foi possível. Seus despojos foram trasladados para Braço do Norte em 22 de novembro de 1970. O povo recebeu-os emocionado e com gratidão.

Pe. Jacob João Luiz Nebel viveu 67 anos, e 34 como padre da Igreja. 

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 25 de julho de 2012 - 13:32

    Padre José Artulino Besen, que beleza de artigo!
    Quantas lições ele encerra.
    Estou recomendando-o a amigos de Braço do Norte, inclusive a Luteranos, irmãos de fé.
    Emocionou-me, também.

  2. #2 por Elias Sombrio em 17 de agosto de 2012 - 18:54

    Pe. José, parabéns pelo artigo! Emocionante! Foi-me foi recomendado pelo Ademar Cirimbelli. Sou de Braço do Norte, mas moro em Fpolis desde 1974. Fiz parte desta história, especialmente, quando os restos mortais do Pe. Jacob foram trasladados de Azambuja para Braço do Norte. Fiz questão de imprimir o artigo e ler para meu pai Celso Ângelo Sombrio (88 anos) e Isaura Uliano Sombrio (85 anos) que, efetivamente, viveram quase todos os momentos narrados no mesmo. Ficaram muito emocionados.

    • #3 por Pe. José Artulino Besen em 17 de agosto de 2012 - 20:42

      Elias, a memória dos antepassados é sagrada e é ingratidão não lembrá-los. Fico contente por suas palavras e por ter lido o texto para seus queridos pais que, sem dúvida, conheceram Pe. Nebel melhor do que eu.
      Pe. José

  3. #4 por alexsandra maria nebel em 24 de setembro de 2012 - 17:44

    Pe. José, obrigado pelo artigo que escreveu sobre Pe. Jacob Nebel. Sou uma das netas dele, filha de Osmar Nebel. Assim posso saber e entender mais sobre a sua vida.

  4. #5 por Pe. José Artulino Besen em 2 de outubro de 2012 - 08:40

    Alexsandra, é muito gratificante que você tenha conhecido melhor seu avô, o Pe. Nebel. Um grande padre, uma vida generosa e sofrida. Saúda seu pai por mim.
    Pe. José

  5. #6 por Aluizio Brand em 30 de outubro de 2012 - 08:04

    Vejam só que maravilha de história, gratificante. Meus três irmãos, batizados por Padre Jacó, eu e os dois manos mais velhos fizemos a 1ª Eucaristia com o Padre Jacó. Ele veio várias vezes trazer os sacramentos para os meus avós quando visitava a capela de Rio Cachoeirinhas. Eu, com menos de quatro anos, me lembro dele, brincava e ia no colo dele. Agora vejo as fotos e a história completa. Meus agradecimentos ao Padre José Artulino Besen.

  6. #7 por Rosemeri nebel em 28 de fevereiro de 2015 - 16:54

    Sou neta do padre Jaco e não canso de ler a história obrigado as pessoas envolvidas pois somente através desta história é que podemos saber um pouquinho da vida do nosso vovô

  7. #8 por Inacio em 16 de outubro de 2016 - 14:53

    Conheci o ex Pe. jaco Nebel. Ele morou em Três Barras, perto de Garuva – SC. Seria o mesmo???

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