Arquivo para categoria JUBILEU DA MISERICÓRDIA

MISERICORDIA ET MÍSERA

Abraço de Francisco

Abraço de Francisco

No dia 13 de março de 2015, segundo aniversário de seu Pontificado, numa liturgia penitencial Francisco anunciou a celebração de “Um Jubileu extraordinário que tenha como centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia, para que vivamos à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36)”. Nesta celebração foi proclamado o Evangelho da mulher pecadora (Lc 7, 36-50), que colocou-nos diante da misericórdia e do julgamento. Uma mulher perdoada porque muito amou.

Mulheres, ícones da misericórdia

008-misericordiaHoje, 20 de novembro de 2016, papa Francisco fechou a Porta Santa da basílica de São Pedro, encerrando o Jubileu extraordinário do 29º Ano Santo da Misericórdia. No dia 21, Francisco publicou a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, e coloca-nos diante de outra mulher, perdoada porque muito amou (cf. 8, 1-11). “MISERICÓRDIA E MÍSERA (misericordia et misera) são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador:  ´Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia’”.

Objetivo do Jubileu foi agradecer a Deus Pai por sua eterna misericórdia e avivar sempre mais intensamente nossa fé/confiança na misericórdia divina. Francisco mergulhou o Ano Santo no despertar para o Concílio do Vaticano II (1962-1965) e sua mensagem de abertura eclesial para o mundo dos pobres, a Igreja servidora, Igreja missionária em saída, hospital de campanha, o diálogo ecumênico e inter-religioso.

 A partir da bula “Misericordiae Vultus” foi tocante e desafiador o compromisso papal com as obras da misericórdia corporal e espiritual, já um pouco esquecidas e agora reavivadas com a força do Espírito que impele a Igreja à misericórdia divina e à misericórdia com o próximo. A misericórdia foi orientada para os pobres, as vítimas da “guerra mundial em pedaços”, os 65 milhões de migrantes forçados, rejeitados como lixo pelas potências, a paz entre as nações, nela incluída a participação efetiva na pacificação interna da Venezuela, da Colômbia, de Cuba, de nações africanas em conflito. E, deve ser sempre mais recordado, o cuidado com a Casa Comum, o meio-ambiente, que mereceu a rica encíclica “Laudato si”. Francisco tornou-se a voz incômoda ao defender os pobres e a paz, defender a natureza violentada e que gera mais pobres. Com a “Amoris Laetitia” entoa um hino de louvor à família cristã e um hino de compreensão com os casais cuja primeira união fracassou. Ninguém está excluído do amor divino e do amor eclesial. Àqueles que preferem as certezas jurídicas admoesta: “certos rigorismos nascem de uma carência, de querer esconder dentro de uma armadura sua triste insatisfação pessoal”.

Peregrino da misericórdia

007-misericordiaNas Sextas-feiras da Misericórdia, Francisco realizou uma obra de misericórdia, dentro e fora de Roma, e podemos citar: o encontro amigo com prostitutas, travestis, transformers e gays, a visita às prisões, visita a doentes terminais, a jovens resgatadas da exploração sexual, aos tóxico-dependentes, recém-nascidos doentes, a favelas, celebração com presidiários e seus familiares na Basílica vaticana, a visita aos migrantes alojados na ilha grega de Lesbos que funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças; visitou de improviso sete ex-padres e suas famílias, encontrou-se com os sem-teto, em outras palavras, colocou os excluídos e as periferias do mundo e da Igreja no centro da Igreja; e a canonização de Santa Teresa de Calcutá.

Viajou, e muito para um homem de 79 anos, para países das periferias geo-políticas, visitando católicos, ortodoxos, protestantes, judeus e muçulmanos, a ninguém rotulando de fieis ou hereges, revelando um coração completamente dominado pelo amor sem medida para os filhos de Deus. Não é dominado pelo instinto de conquista para as estatísticas católicas, inclusive rotulando de pecado o proselitismo, a pescaria de almas: “O proselitismo entre cristãos é um pecado grave. A Igreja não é um time de futebol à procura de torcedores” (Avvenire, 18/11/2016). Revelou profundo e respeitoso afeto e veneração por todas as autoridades religiosas que visitou ou recebeu em Roma.

Sem receio das críticas, foi a Lund, na Suécia, participar da inauguração do 5º Centenário da Reforma luterana. Francisco fala do caminho da Igreja para viver e testemunhar o Evangelho como caminho de misericórdia e não como ideologia. “A viagem foi mais um passo para fazer compreender o escândalo da divisão, e que deve ser superado com gestos de unidade e de fraternidade” (no no avião, de retorno de Lund, 01/11).

Foram muitos os passos dados no Ano Santo no caminho da reconciliação entre cristãos, mas os tempos da plena unidade são estabelecidos pelo Espírito Santo: “Para o ecumenismo é decisivo juntos servir os pobres, ‘a carne de Cristo’, sem contrapor doutrina e caridade pastoral’ (idem).

O Papa, além da caridade, inclui no ecumenismo os encontros e as viagens, que muito ajudam a fraternidade e fazem-na crescer. Entabular processos ao invés de ocupar espaços é a chave do caminho ecumênico. Para os que julgam o caminho ecumênico muito lento, iniciado há 50 anos, Francisco diz que “não podemos ser impacientes, desencorajados, ansiosos. O caminho exige paciência no preservar e melhorar o que já existe, que é muito mais do que o que divide”: a unidade não acontece porque nos colocamos de acordo entre nós, mas porque caminhamos seguindo Jesus (Avvenire 19-11). Para pedir a unidade entre nós cristãos somente basta contemplar Jesus e suplicar que o Espírito Santo opere em nós.

Francisco julga que a unidade dos cristãos é feita em três estradas: caminhando juntos, com as obras de caridade; rezando juntos e reconhecendo a confissão de fé comum que se expressa no martírio comum recebido no nome de Cristo, e no ecumenismo de sangue.

Cantar, sempre, a divina Misericórdia

O Jubileu foi um hino à misericórdia do Pai, ao Senhor, rosto da misericórdia. Foi o confronto entre o “amor louco” de Deus por seu povo e a nossa infidelidade. O amor de Deus “sem medidas” de um lado e, do outro, “a resposta do povo egoísta, duvidosa, adúltera, idolátrica”.

“O que faz sofrer o coração de Jesus Cristo é essa história de infidelidade, de não reconhecer as carícias de Deus, o amor de Deus, de um Deus enamorado que te procura, que deseja que também tu sejas feliz” (Santa Marta, 17/11/2016).

Francisco está convencido de que o câncer da Igreja é o dar-se glória um ao outro, buscar o prestígio, lógica da ambição do poder. A Igreja é o Evangelho, a autorreferencialidade é o câncer. É obra de Jesus Cristo, que cresce por atração. Quando prevalece a tentação de construir uma Igreja “autorreferencial” que em vez de olhar a Cristo olha a si mesma, surgem as contraposições e divisões: o câncer é um glorificar o outro. A Igreja não tem luz própria, somente “existe” como instrumento para comunicar aos homens o plano misericordioso de Deus.

Ser cristão é viver e anunciar a misericórdia

Conversa amiga com dois Cardeais

Conversa amiga com dois Cardeais

Com seu Consistório de 19 de novembro, o Papa ampliou as fronteiras do mundo, incluindo no Colégio cardinalício nações nunca representadas, com isso deslocando o eixo católico dos velhos centros europeus para as periferias onde moram os pobres. Os três Consistórios de Francisco premiaram pastores com “cheiro das ovelhas”, dioceses periféricas, continentes pouco representados. São 17 novos cardeais que na Igreja devem ser bem mais do que príncipes: são missionários nos pontos mais distantes e muitas vezes mais atribulados do mundo.

A coragem de ser pobre é outro tema em que Francisco insiste nos encontros jubilares com bispos, padres, religiosos, diplomatas: o povo de Deus tem imensa capacidade de perdoar as fraquezas e pecados dos padres, mas não consegue perdoar dois: o apego ao dinheiro e quando o padre maltrata os fieis (Santa Marta, 18/11/2016).

Como fruto principal do Ano Santo da Misericórdia o Papa espera que muitas pessoas tenham descoberto que são muito amadas pelo Senhor, recordando que o amor de Deus e do próximo são “inseparáveis”: servir os pobres significa servir Cristo, porque os pobres são a carne de Cristo (Avvenire, 19/11/2016).

Para encerrar, essas palavras de Francisco no Consistório (19/11/2016):

“O inimigo é alguém que devo amar. No coração de Deus não há inimigos, Deus tem somente filhos. Nós erguemos muros, construímos barreiras e classificamos as pessoas. Deus tem filhos, e não para afastá-los de sua companhia”.

“O nosso Pai não espera para amar o mundo quando formos bons, não espera para amar-nos quando seremos menos injustos ou perfeitos; ama-nos porque decidiu amar-nos, ama-nos porque nos deu o estatuto de filhos. Amou-nos quando éramos seus inimigos. O amor incondicionado do Pai por todos foi, e é, verdadeira exigência de conversão para o nosso pobre coração que tende a julgar, dividir, opor e condenar. Saber que Deus continua a amar também quem o rejeita é uma fonte ilimitada de confiança e estimulo para a missão”.


Pe. José Artulino Besen 

 

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O AMOR ESCANDALOSO DE DEUS

Jubileu dos padres da Arquidiocese de Florianópolis
Santuário de Azambuja, 2 de junho de 2016.

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Neste Ano Santo da Misericórdia, Jubileu de graça e de reconciliação, recebemos a imerecida graça de podermos nos colocar diante do Deus Pai da Misericórdia que é o Senhor, e diante do homem e da mulher, filhos da Misericórdia gerados no Espírito Santo e regenerados pela Cruz do Senhor. O Ano da Graça não é um período de regeneração delimitado pelo começo e pelo fim de um ano na cronologia da história, mas sim, é um Ano mergulhado no Hoje de Deus, no mistério da salvação decidido por Deus desde toda a eternidade, pois o plano da criação inclui o plano da salvação (Rm 16,25; Ef 3,9; Cl 1,26). Ao proclamar  Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir, na sinagoga de Cafarnaum, Jesus une o Antigo Testamento (cf. Isaías 61,1ss) ao Novo (cf. Lucas 4,18-19), sem delimitar nem povo nem tempo. Assim, o Ano Santo é ocasião propícia para tomarmos consciência do Ano da Graça, e viver na alegria da misericórdia sempre oferecida a cada um de nós.

Gostaria de propor breve reflexão, confrontando o ato da criação com o ato da redenção: o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus e segundo a sua semelhança (Gn 1,26). Nós somos à imagem e semelhança de Deus, e Deus é à nossa imagem e semelhança. A primeira semelhança se refere ao ato da criação e a segunda, ao ato da encarnação. É bastante difícil aceitarmos que o Deus encarnado seja à nossa imagem e semelhança, parecendo-nos uma afirmação blasfema ou jogo literário. Na realidade, o dogma cristão inclui essa verdade quando afirma que o Filho eterno se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem, homem-Deus, igual a nós em tudo, exceto no pecado.

Em Cristo, Deus assume a condição humana, e nós recuperamos a semelhança divina. Deus vivencia os sentimentos humanos e, ao mesmo tempo, oferece-nos a graça de vivermos os sentimentos divinos: “haja entre vós o mesmo sentir e pensar que no Cristo Jesus” (Fl 2, 5). É o caminho da humanização divina e da divinização humana realizada de modo exemplar em Maria: quando o Verbo se fez carne o ventre de Nossa Senhora foi divinizado pela habitação, nele, da Trindade e a carne humana e a natureza divina foram unidas. Na Encarnação, o ventre de Maria é o Sacrário onde acontece a história da salvação.

Essa comunhão-comunicação dá-se no amor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36), lema do Jubileu da Misericórdia: o Pai é o Misericordioso e nós recebemos o mandamento de vivermos a mesma misericórdia que Jesus revela nas parábolas da ovelha perdida e encontrada, da dracma perdida e encontrada, do filho perdido e encontrado (Lc 15), narrando quem é e como age o Pai. Com sua vida humano-divina, Cristo é o narrador do Pai que quer encontrar a humanidade plenificada em seu amor.

Mais do que pensarmos em indulgência, porta santa, o Jubileu nos propõe conhecermos nosso Deus, pois, antes de tudo o Jubileu é uma questão de Deus: dar a Deus o que é de Deus, e corrigir as distorções da imagem divina que nos foram transmitidas na educação religiosa e familiar.

O desafio é grande no Ocidente secularizado: reabrir, em termos existenciais, a questão de Deus, quem é Deus, seu rosto, num mundo que age como se Deus não existisse, e isso porque não reconhece mais aquele que é o Misericordioso. A secularização priva-nos da paternidade divina, nos abandona na aridez de uma vida sem espiritualidade que também nos deixa sem o calor da fraternidade, pois são irmãos os que possuem o mesmo pai, o Pai. Também a fé cristã se deforma na influência dessa secularização quando insiste na ética, na organização pastoral, na produtividade, atividades tão amadas em nosso tempo, mas que nos privam da alegria do improviso da graça, da inesperada ação divina. Deixamos de ser pastores para sermos agentes de pastoral. Deixamos de procurar e encontrar a ovelha, a dracma, o filho.

A Misericórdia se expressa no Encontro de Deus conosco, e se propaga noutro Encontro: com todos aqueles que vivem nas periferias existenciais. Misericórdia e Encontro são categorias fundamentais na antropologia de Papa Bergoglio e definem a ação pastoral e missionária da Igreja.

A misericórdia escandalosa de Deus

Há imensa dignidade em cada um de nós, sem nenhum merecimento: somos o centro aonde converge o amor divino e recebemos o dom inestimável de poder amar, de sermos divinos pelo ato de amar.

Deus é amor, o amor é divino: nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus e recuperamos nossa semelhança pela conversão ao amor. E isso não é pesado, não é um mandamento duro: somos amados primeiro. Nosso amor é somente resposta. “O Senhor não olha tanto a grandeza das nossas obras. Olha mais o amor com que são feitas” (Santa Teresa d’Ávila).

Por diversas vezes, Francisco tem-se referido ao capuchinho Frei Luiz Dli, apreciado confessor em Buenos Aires. Escrupuloso, quando receia ter sido excessivamente indulgente com o pecador, põe-se diante do sacrário e diz: “Jesus, perdoa-me porque perdoei demais. Mas, foste tu quem deu o mau exemplo!”. Frei Luiz reconhece que alguns pecadores deveriam primeiro receber uma boa penitência, e depois a absolvição. Reconhece, contudo, que a misericórdia do Senhor é escandalosa mesmo, ilimitada. Dele provém o perdão sem condições, prazos, admoestações, também porque o confessionário não é uma “câmara de tortura”,  nas palavras de Francisco, mas um “hospital de campanha” onde são tratadas as vítimas da guerra decretada pelo mal: se fizermos muita exigência, acabarão morrendo. Recordo aqui o Cura d’Ars que, diante de penitentes mais graves, declarava que ele mesmo faria a penitência. Nossa penitência é aceitar o amor!

“A misericórdia é algo de escandaloso e até loucura”, escreveu Enzo Bianchi, prior da comunidade monástica de Bose, em 15 de maio de 2016 (cf. Enzo Bianchi: L’amore scandaloso di Dio – San Paolo – 2016).

Nas suas palavras, nem os homens religiosos entenderam de verdade a misericórdia de Deus. Na história da Igreja, a misericórdia foi interpretada exatamente ao contrário do que Jesus pôs em prática, e citamos como exemplo sua atitude diante da mulher adúltera que os escribas e fariseus queriam apedrejar, a quem Jesus primeiro perdoa e depois pede a conversão. E podemos contemplar ainda mais claramente o grande mistério deste amor dirigindo o olhar para Jesus crucificado. Enquanto, inocente, está para morrer por nós, pecadores, suplica ao Pai: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). É na cruz que o pobrezinho Jesus, todo ferido pela violência, apresenta à misericórdia do Pai o pecado do mundo: e o pecado de todos, os meus, os teus, os nossos foram perdoados com antecedência.

A misericórdia é algo de escandaloso, e até loucura na lógica humana, repito. Sentido paradoxal da misericórdia: não é o arrependimento que cria o perdão, “mas o perdão que nos é dado provoca o arrependimento”. O perdão instaura o cenário do arrependimento e permite ao homem de recomeçar.

Para entendermos de verdade o sentido do perdão, devemos ir à Escritura e ler a afirmação revolucionária do profeta Oséias, que coloca na boca de Deus: “Eu quero misericórdia e não sacrifícios, o conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6), e o próprio Filho de Deus declara: Quero misericórdia e não sacrifícios (Mt 9,13). É radicalmente novo colocar juntos misericórdia e conhecimento de Deus. Significa que podemos conhecer a Deus somente numa experiência passiva de misericórdia, de amor e de reconciliação. Caso contrário, Deus se torna um ídolo que fabricamos sob medida, o produto de nossas projeções autoritárias que fazem ameaçar com castigos o pobre pecador já fragilizado. O inferno, para o homem, para cada um de nós, é não sermos perdoados por ninguém.

A evolução do rito penitencial, com a imposição de largas e longas penitências antes de proclamar o perdão foi uma das causas da exigência de sacrifícios para ser declarado perdoado, mas isso foi causado pelo distanciamento da prática de Jesus, que veio para os pecadores e não para os justos: a inversão levou à convicção de que somente se participaria da comunhão eclesial após pagar pelos pecados, levando a crer que Jesus veio para os justos (cf. Mt 5,23).

Na verdade, o sacrifício de Jesus na cruz liberta o homem do sacrifício, afirma Bianchi. O Cristianismo inclui uma concepção antissacrifical: Jesus é uma possibilidade de libertação do sacrifício, da abnegação, da mortificação. Jesus liberta a lei da própria lei, com ele termina a concepção patibular, retributiva e justicialista da lei. A justiça de Deus que Jesus encarna implica a exceção, a possibilidade do perdão = a misericórdia.

O filho pródigo - Murillo

O filho pródigo – Murillo

Pode-se ver isso na história da adúltera ou do filho pródigo (Jo 8,1-11; Lc 15,11-32): o filho não retorna à casa porque estivesse arrependido, mas porque tinha fome, tanto que pede para ser tratado como um dos empregados. Mas, o pai não pede explicações, logo o veste e prepara a festa. O perdão do pai precede o arrependimento do filho. Este é o escândalo. A adúltera se refugia junto a Jesus para não ser apedrejada, e recebe o perdão sem pedir, e depois o convite à mudança de vida.

Escreve Enzo Bianchi: “o sacrifício é comum a todas as religiões e chega a gerar violência. Se o sacrifício é mortificação, não tem nada a fazer com a vida cristã. Se, ao contrário, é renunciar a algo pelo outro, então todos os dias fazemos sacrifícios”. A espiritualidade cristã oferece a unidade jejum-esmola-oração para nos libertar do sacrifício pelo sacrifício, fazendo com que o não consumido pelo jejum seja esmola para o próximo. Assim, o sacrifício cristão supõe uma privação pessoal de tempo, dinheiro e alimento doados ao pobre e ao doente. Evidente que não se deve confundir o sacrifício voluntário com os sacrifícios que nascem de nossa condição de fragilidade, como doenças e privações de coisas e pessoas.

“O sacrifício torna-se patológico quando gera um prazer no sujeito e se torna critério de superioridade moral em confronto com os outros: eu jejuo, eu me mortifico, eu faço penitência. Esse é o risco sempre presente na psicologia do homem religioso. Jesus Cristo morre na Cruz e completa o último, grande sacrifício que definitivamente liberta o homem do sacrifício” (Recalcati, psicanalista italiano). 

A reconciliação ou, Deus oferece o perdão

 Deus nunca deixou de oferecer o seu perdão aos homens: a sua misericórdia faz-se sentir de geração em geração (cf. Sl 100,5; 106). Muitas vezes pensamos que os nossos pecados afastam o Senhor de nós: na realidade, pecando, somos nós que nos afastamos dele que, ao ver-nos em perigo, vem-nos procurar ainda mais, como um bom pastor que não se contenta enquanto não encontra a ovelha perdida (cf. Lc 15,4-6). Ele reconstrói a ponte que nos une ao Pai e permite reencontrar a dignidade de filhos. Mas, por que é possível que nos escondamos do Senhor, a ponto dele precisar nos procurar?  Adão, onde estás?, uma pergunta tão atual! A resposta reside no ato criador de Deus, quando nos fez à sua imagem e semelhança. Ser à imagem e semelhança inclui, por analogia, a própria condição divina com a posse da liberdade: o pecado não nos privou da imagem divina e o mistério da salvação é recuperarmos a semelhança com Deus, segundo a doutrina de Irineu de Lyon (cf. Adversus Haereses), fonte da soteriologia patrística.

O pecado é deveras uma expressão de recusa do amor divino e tem como consequência nos fecharmos em nós mesmos, na ilusão de que encontramos mais liberdade e autonomia, conforme a tentação original, mas, longe de Deus, já não temos uma meta, e de peregrinos neste mundo tornamo-nos “errantes”.

“Reconciliai-vos com Deus!” (2Cor 5, 20): aceitemos o convite a deixar-nos reconciliar com Deus, para nos tornarmos novas criaturas e poder irradiar sua misericórdia entre os irmãos, no meio do povo.

Não necessitamos ficar abismados pelos santos que deram a vida pelo próximo, pelos jovens que se consagram à missão, por aqueles que empenham toda a vida no serviço ao próximo, à família: sentem-se amados e não conseguem se fechar em si, também se dilatam no amor.

Tudo se faz amor quando meditamos no amor pessoal de Deus por cada um de nós: “Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura”, declarava, cheia de encanto e maravilha, Santa Catarina de Siena (1347-1380). Ela, a analfabeta doutora da Igreja, sentia a paixão divina por ela, caso contrário, não a procuraria sem lhe dar sossego. É essa, igualmente, nossa história: Deus se enamora de nós, a cada dia com mais intensidade. Nunca esqueçamos: Jesus se deixa “contaminar” pelos pecadores, ele se contamina pelos nossos pecados.

O Evangelho é a boa nova da Misericórdia, e não o anúncio da lei esterilizante que sucumbe à tentação de nos julgarmos avalistas do amor de Deus. É o Evangelho da misericórdia que transforma, que faz entrar no coração de Deus, que nos torna capazes de perdoar e olhar para o mundo com mais bondade.

E qual é a resposta única que Deus nos pede? Papa Francisco nô-la oferece meditando a parábola do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31): “Ignorar o pobre é desprezar Deus porque, se não abro a porta de meu coração ao pobre, ela permanece fechada também para Deus, e isso é terrível”. Quantas vezes disfarçamos nosso olhar e passos para darmos a impressão de que não vemos o pobre, que ele não existe: a misericórdia de Deus por nós está ligada à nossa misericórdia pelo próximo.

Pe. José Artulino Besen

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ANO SANTO DA MISERICÓRDIA – ENXUGAR AS LÁGRIMAS

 

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Criança salva nos escombros de bombardeio em Aleppo – 28-04-2016

Dentro do Ano Santo da Misericórdia, Francisco preside no dia 5 se maio, quinta-feira, uma Vigília de oração para enxugar as lágrimas dos que sofrem. A imensa Basílica de São Pedro no Vaticano será casa de misericórdia, casa de compaixão, seu magnífico espaço não será olhado pela beleza da arte, da arquitetura, mas pela beleza de corações que choram, que derramam lágrimas tanto por si quanto pelos outros que padecem de dor física ou espiritual.

Consolar os aflitos é uma das sete obras da misericórdia espiritual, que leva-nos a enxugar os rostos regados pelas lágrimas de sofrimento e oferecer consolação e esperança.

Ao anunciar essa Vigília com a presença do Papa, a Rádio Vaticana assim descreveu a finalidade: “um anúncio visível da misericordiosa mão do Pai que busca enxugar as lágrimas: de uma mãe que perdeu um filho, de um filho que perdeu o pai, dos que padecem enfermidades, dos que perderam o emprego ou não o encontram, dos que vivem situações de desunião familiar, dos que fazem experiência da solidão e do abandono, dos que são vítimas da injustiça, daqueles que perderam o sentido da própria vida e não conseguem encontrá-lo. São numerosos e de toda espécie os sofrimentos que cada um carrega dentro de si, todos verdadeiros e que podem nos conduzir à falta de esperança e de confiança”.

O dia de enxugar as lágrimas será o Jubileu daquele que chora lágrimas de dor ou de felicidade, de desespero ou de emoção por um acontecimento inesperado. Francisco não faz diferença quanto à origem do choro, desde que nasça do coração.

A Igreja e, nela, cada um de nós deve aprender a consolar os aflitos e abrir a Porta Santa para todos aqueles que sabem chorar. Sem citá-lo, o Papa se refere ao “dom das lágrimas”, dom concedido pelo Espírito Santo e que nos faz chorar nos momentos pessoais de escuridão ou de claridade. Pergunta Francisco: “Sentimos o valor das lágrimas que lavam nossos olhos para contemplar, ver o Senhor? […] É uma graça. Chorar por tudo: pelo bem, por nossos pecados, pelas graças, também pela alegria”.

Tanto as lágrimas de alegria como as de dor nascem do mesmo ventre do amor: “são filhas de um coração que deseja e espera sempre o bem daquele a quem se ama. As mamães o sabem muito bem. Se uma mãe chora, é quase sempre por causa de seus filhos. São lágrimas inquietas, fruto do amor profundo que nutrem por seus filhos”.

As lágrimas são fruto de corações misericordiosos, e somente desses corações. A frieza de um comerciante de armas resseca seus olhos, a ânsia pelo poder não permite as lágrimas. A frieza dos fanáticos religiosos ou políticos que fazem guerra tornam-nas mais abundantes nas famílias destruídas, nas crianças que vagueiam sem escola, sem infância, nos jovens privados de sonhar o próprio futuro, nos anciãos desamparados de quem se roubou até o passado.

A justiça divina vai nos julgar não por nossas obras, por nosso sucesso, e sim, pelas lágrimas que enxugamos no sofredor, pelas lágrimas que soubemos derramar. A balança do julgamento pesará as lágrimas e gemidos que decidirão nossa eternidade.

Deus é solidário com nossas dores e alegrias

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Nossa Senhora das Lágrimas de Siracusa – foto da lacrimação de 29-08-1953

Nosso Deus chora por nós e conosco: o Filho Jesus chorou pela morte do amigo Lázaro e pelo sofrimento de suas irmãs Marta e Maria. Seremos também surpreendidos pelas lágrimas de Deus Pai, pois também ele chora: “Se não quiserdes obedecer, em segredo minha alma vai chorar: por causa do orgulho, estarão meus olhos chorando sem parar, derramando lágrimas” (Jeremias 13, 17). Quanta ternura contemplamos em nosso Abbá-Pai num cantinho, chorando, de esguelha olhando para nós, esperando que nos decidamos por ele!

“Contaste os passos da minha caminhada errante, minhas lágrimas recolhes no teu odre; acaso não estão escritas no teu livro?” (Salmo 56, 9). Nada justifica a omissão, nem o mais empenhativo compromisso religioso: “Quando estiveres extasiado junto de Deus, se um doente te pedir uma tigela de caldo, desce do sétimo céu e dá-lhe o que pede” (Ruysbroeck). Nada está acima da misericórdia, nada é mais importante do que enxugar lágrimas.

Não podemos ficar indiferentes diante das tragédias de nossa época, como o sofrimento dos migrantes, a dor de quem é escravizado para o serviço da riqueza ou do prazer dos poderosos, do desemprego que humilha, não permitamos nossos ouvidos tratarem as mortes no trânsito, nos bombardeios apenas como problemas estatísticos, porque a morte de uma pessoa já é excessiva.

Para a Vigília na Basílica de São Pedro, o Papa decidiu trazer e expor uma pequena imagem, Nossa Senhora das Lágrimas. Em 29 de agosto de 1953, em Siracusa um jovem casal corria o risco de interrupção da gravidez. A futura mãe chorava desconsolada quando levou um susto e gritou: “Olhem que a imagem chora!”. E era verdade: lágrimas escorriam pela face da imagem mariana e a lacrimação se prolongou por 4 dias aos olhos de todos, de devotos ou curiosos, de médicos, fotógrafos, filmadores. A ciência não conseguiu explicar o fenômeno, pois era inexplicável mas, quem enxuga lágrimas logo compreende: a Mãe de Jesus tem diante de seus olhos o Filho crucificado pelo qual chorou dolorosamente e sempre chora ao ver o sofrimento daqueles de quem ele falou: “Mulher, eis aí teu filho”.

Pe. José Artulino Besen

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PROCLAMAÇÃO DO JUBILEU DA MISERICÓRDIA

2015-04 - Misericórdia divinaA Misericordiae Vultus (Jesus é o rosto da misericórdia), bula de proclamação do Jubileu da Misericórdia, de 11 de abril de 2015, traz o motivo do Ano Santo extraordinário: num tempo, o nosso, de tantas mudanças, desafios, sinais de vida e de morte, a Igreja é convocada para oferecer com mais força os sinais da presença e da vizinhança de Deus, a viver menos no barulho, e mais concentrada no essencial. Um tempo para a Igreja reencontrar o sentido da missão que o Senhor lhe confiou no dia da Páscoa: ser sinal e instrumento da misericórdia do Pai.

“O mistério da misericórdia: é fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”.

Este é o tempo da misericórdia: curar as feridas, sem nos cansarmos de trazer as pessoas à vizinhança de Deus, oferecer a todos o caminho do perdão e da reconciliação.

O caminho não terá Roma e suas quatro Basílicas como único destino. Francisco quer evitar a espetacularização do Ano Santo, as viagens, o turismo, as portas santas mágicas. Simbolizando o Ano Santo universal, para alcançar todos os Bispos do mundo, maiores responsáveis pelo anúncio e vivência do Jubileu, Francisco entregou cópias da Bula Misericordiae Vultus aos arciprestes das quatro basílicas maiores de Roma e para cardeais e bispos simbolizando a Igreja nos cinco Continentes, no mundo missionário e às Igrejas orientais.

As simbólicas Portas Santas podem ser as catedrais, os santuários, as igrejas indicadas pelo bispo, podem ser as esquinas do mundo, pois a Igreja não quer privar ninguém da alegria do encontro com o Senhor da misericórdia.

E, um gesto bem de Francisco, convida os judeus e muçulmanos para também participar, refletindo e vivendo com os cristãos o Deus da Aliança de Abraão e Moisés, o Clemente e o Misericordioso do Islam.

 O verdadeiro rosto de Deus

Sem misericórdia não há cristianismo, porque toda a história da salvação não é outra coisa do que a manifestação histórica do amor de Deus por suas criaturas humanas. A vitoriosa onipotência de Deus se manifesta com a “misericórdia e o perdão” e não com a força muscular de argumentos doutrinais de algum apologista, como tem ocorrido na história da Igreja.

Não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, que com sua morte e ressurreição traz a salvação com a misericórdia que justifica, e então a justiça de Deus se transforma em libertação para quantos estão oprimidos sob a escravidão do pecado e todas as suas conseqüências. A justiça de Deus é o seu perdão. A misericórdia de Deus “não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta” com a qual “revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem no profundo de suas vísceras pelo próprio filho”.

Francisco escreve que “é a misericórdia a coluna que sustenta a vida da Igreja” e estamos novamente no tempo em que a Igreja deve recuperar o anúncio alegre do perdão. “É o tempo do retorno ao essencial, para assumirmos as fraquezas e as dificuldades de nossos irmãos”.

Ações concretas

Francisco julga que, no Ano Santo, devemos viver o ordinário da vida da Igreja, os tesouros da graça que nos foram concedidos a partir dos Sacramentos, especialmente do tribunal da misericórdia, a Confissão. Espera enviar por todo o mundo Missionários da Misericórdia como sinal vivo de como o Pai acolhe quantos procuram o perdão, com faculdades de absolverem também pecados reservados à Santa Sé. Pede que os confessores sejam magnânimos, e não interrogadores impertinentes. Sejam como o pai do filho pródigo que logo interrompeu a “lista de pecados” do filho que retornava. Não julgar nem condenar, oferecer a alegria do perdão. “Frente à visão de uma justiça como simples observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justos e pecadores, Jesus orienta para revelar o grande dom da misericórdia que procura os pecadores para oferecer-lhes o perdão e a salvação”.

Relembra “a iniciativa 24 horas para o Senhor, que será celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao IV Domingo da Quaresma, e deve ser incrementada nas dioceses. Há muitas pessoas – e, em grande número, jovens – que estão a aproximar-se do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida”.

O Ano Santo será para todos e em todos os lugares, para os “filhos que estão longe” e não especialmente devotos de categorias “empenhadas”, o que seria o retorno à auto-referencialidade.

O Papa também recorda que de certo modo esquecemos as obras de misericórdia corporal e espiritual: redescubramos essas obras de misericórdia para despertar nossa consciência que muitas vezes se sente impotente diante do drama da pobreza. Essas obras, tão pequenas, mas fundamentais, multiplicam pelo mundo a presença amorosa de Deus. As obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos.

E também recorda, sem citar, o dom das lágrimas, chorar por nós e pelos outros: “Este é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido, mesmo crimes graves, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afetos, da própria vida. Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa”. Para os criminosos e corruptos, a admoestação: “mudai de vida”, pois Deus não se cansa de estender a mão.

As Indulgências

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Foram as indulgências o detonador da reforma luterana de 1517, e hoje agradecemos a Deus que permitiu que sofrêssemos a divisão eclesial por causa do blasfemo comércio permitido pelos papas renascentistas para financiarem suas obras de arte e o luxo de sua corte. Mediante pagamento, era garantido ao pecador o perdão e a salvação das almas do purgatório.

Com a reforma tridentina, a Igreja manteve a práxis das Indulgências pelos vivos e defuntos mediante práticas penitenciais, não isentas de desvios, pois supunham remissão de dias ou anos de purgatório. Paulo VI, no Ano Santo de 1975, explicitou a doutrina: para obtermos a indulgência requer-se o caminho da conversão e da renovação de vida.

O fundamento da doutrina das Indulgências reside na infinita graça que nos mereceu Cristo, acrescida das obras de santidade da Comunhão dos Santos e de que podemos nos servir para obter o perdão para os vivos e os mortos.

Papa Francisco, graças a Deus, repropõe a doutrina das Indulgências libertando-as das “penas devidas pelos pecados já perdoados”, das condições de tempo e de espaço, das portas santas e da doutrina do mérito: faço isso, mereço tal.

Francisco prefere referir-se à indulgência, não indulgências: o perdão de Deus para nossos pecados não tem limites. Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. É possível deixar-se reconciliar com Deus através do mistério pascal e da mediação da Igreja. Deus está sempre disponível para o perdão, não Se cansando de oferecê-lo de maneira sempre nova e inesperada. No entanto, todos nós fazemos experiência do pecado. Sabemos que somos chamados à perfeição (cf.Mt 5, 48), mas sentimos fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo em que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados.

No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas permanece o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado.

Em vez de “penas dos pecados já perdoados”, Francisco nos lembra que o pecado deixa conseqüências em nós, do mesmo modo que um doente curado ainda necessita de cuidados. Um exemplo: se me entreguei a um vício, depois de libertado e perdoado ainda sinto em meu organismo suas feridas. A Indulgência é um socorro à nossa fragilidade especialmente pela Eucaristia, que oferece a comunhão, que é dom de Deus, e faz realizar união espiritual que nos une, a nós crentes, com os Santos e Beatos cujo número é incalculável (Ap 7, 4).

“Viver a indulgência no Ano Santo significa aproximar-se da misericórdia do Pai, experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até as últimas consequências aonde chega o amor de Deus. Vivamos intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perdão dos pecados e a indulgência misericordiosa em toda a sua extensão”.

O caminho luminoso do Concílio do Vaticano II

Francisco é homem de gestos e de símbolos, e isso fica claro na data de abertura do Ano Santo: 8 de dezembro, festa da Mãe da Misericórdia e 50 anos do encerramento do Concílio. Lembra palavras da abertura em 1962 e do encerramento: “Voltam à mente aquelas palavras, cheias de significado, que São João XXIII pronunciou na abertura do Concílio para indicar a senda a seguir: ‘Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. (…) A Igreja Católica, … deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados”.  E, no mesmo horizonte, havia de colocar-se o Beato Paulo VI, que assim falou na conclusão do Concílio: ‘Desejamos notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais, a caridade. (…) Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. (…) Rejeitaram-se os erros, como a própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que, em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios cheios de esperança; para que o Concílio falasse ao mundo atual não com presságios funestos, mas com mensagens de esperança e palavras de confiança. Não só respeitou, mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas e, depois de purificá-los, aprovou todos os seus esforços. (…) Uma outra coisa, julgamos digna de consideração. Toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades”.

Assim, o Ano Santo é também viver, traduzida para nosso tempo, a graça da maior assembléia católica, o Vaticano II. Abatendo as muralhas em que se tinha fortificado, a Igreja abriu-se o mundo para anunciar o Evangelho em modo novo.

Assim conclui Francisco a Misericordiae Vultus: “neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e perdoar. Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar: Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre” (Sl 25/24, 6)”.

Pe. José Artulino Besen

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O ANÚNCIO DO ANO SANTO DA MISERICÓRDIA

Cristo, rosto da misericórdia do Pai

Cristo, rosto da misericórdia do Pai

No dia 13 de março de 2015, segundo aniversário de seu Pontificado, numa liturgia penitencial Francisco anunciou a celebração de “Um Jubileu extraordinário que tenha como centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia, para que vivamos à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36)”.

O Papa explicou o motivo: “Muitas vezes me perguntei como a Igreja possa tornar mais evidente sua missão de ser testemunha da misericórdia. É um caminho que inicia com uma conversão espiritual; e devemos fazer esse caminho”.

O Ano terá início na solenidade da Imaculada Conceição, 08 de dezembro, e será concluído em 20 de novembro de 2016, domingo de Cristo Rei do universo e “rosto vivo da misericórdia do Pai”. Terá início sob o olhar de Maria Imaculada, Mater misericordiae, também no 50º aniversário do encerramento do Vaticano II. Sua conclusão será no dia em que se celebra o Cristo que julga a história de seu Trono que é a Cruz. O Julgamento coincide com o amor. A cruz é também julgamento: Deus nos julga amando-nos. Se acolho seu amor, estou salvo; se o renego, estou condenado, não por ele, mas por mim mesmo, porque Deus não condena. Deus somente ama e salva.

O anúncio foi num contexto penitencial e pede um desenrolar sóbrio, meditativo, não ligado a grandes eventos, mas a uma profundidade interior que é uma forma de exercício espiritual. Não é um Ano Santo para as agências de turismo nem para o comércio romano.

A misericórdia, pode-se dizer, é a palavra chave do pontificado de Francisco. Representa o leitmotiv de seus discursos, homilias e gestos. Com palavras e obras o papa quer mostrar ao mundo o verdadeiro rosto do Pai. “Ninguém pode ser excluído da misericórdia de Deus. Todos conhecem a estrada para chegar a ela, e a Igreja é a casa que a todos acolhe e a ninguém rejeita. Suas portas estão abertas para que, os que são tocados pela graça, possam encontrar a certeza do perdão”, falou o Papa.

Comentou o Evangelho da mulher pecadora (Lc 7, 36-50), lido na Celebração: “Nesse texto retornam com insistência duas palavras: amor e julgamento. Há o amor da mulher pecadora que se humilha diante do Senhor; mas, antes disso, há o amor misericordioso de Jesus por ela, o que a leva a aproximar-se. … Essa mulher verdadeiramente encontrou o Senhor. No silêncio, abriu-lhe o coração; na dor, mostrou-lhe o arrependimento por seus pecados; com seu choro, apelou à bondade divina para receber o perdão. Para ela, não haverá outro julgamento do que aquele que vem de Deus, o juízo da misericórdia. O protagonista desse encontro é certamente o amor, a misericórdia que ultrapassa a justiça”.

À figura da pecadora o Papa contrapõe a de Simão, o dono da casa, o fariseu que, ao contrário, “não consegue encontrar a estrada do amor. Tudo é calculado, tudo é pensado… Ele permanece firme na formalidade. O amor formal é algo bruto, difícil entendê-lo. Não é capaz de dar o passo seguinte, subir o degrau da escada para andar ao encontro de Jesus, que lhe traz a salvação. Simão limitou-se a convidar Jesus para o jantar, mas não o acolheu de verdade. Em seus pensamentos invoca apenas a justiça e fazendo assim, se engana. Seu julgamento sobre a mulher o afasta da verdade e não lhe permite compreender quem é seu hóspede”

Com frequência, o Papa se expressa retratando o rosto da Igreja como “a casa que acolhe a todos e a ninguém rejeita”, e alerta que mesmo homens de Igreja projetam Deus como uma sombra e, como Judas, não sabem ler a misericórdia nos olhos do Mestre.

A misericórdia é a substância do Evangelho

O Ano Jubilar é um convite à Igreja para uma conversão profunda, uma conversão “missionária” do coração e da mente. É uma mudança de “lógica”: a lógica de Deus, o seu modo de olhar o mundo, a história, a humanidade e a cada ser humano. É a lógica que Paulo define como “os sentimentos de Cristo Jesus” (Fl 2,5), a lógica que não tem como fundamento o medo, mas a liberdade. Fala de “duas lógicas de pensamento e de fé: o medo de perder os salvos e o desejo de salvar os perdidos. Elas se cruzam hoje: a dos doutores da lei, ou seja, afastar o perigo afastando a pessoa contagiada; e a lógica de Deus que, com sua misericórdia abraça e acolhe reintegrando e transfigurando o mal em bem, a condenação em salvação e a exclusão em anúncio. Essas duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: afastar e reintegrar”.

A misericórdia é a poderosa força de reintegração que jorra do coração de Cristo e, graças à Igreja, pode tocar cada pessoa humana, mesmo a mais distante de Deus. Essa força de reintegração que salva o pecador também do zelo cego daqueles que estão prontos para o apedrejamento, com isso julgando aplicar a Lei – é demonstrada pelo cura do leproso: “Jesus quis tocá-lo, reintegrá-lo na comunidade, sem “autolimitar-se” nos preconceitos; sem adequar-se à mentalidade dominante do povo; sem nem mesmo se preocupar com o contágio. Jesus responde à súplica do leproso sem meias palavras e sem os costumeiros pedidos de tempo para estudar a situação e todas as eventuais consequências. O que conta para Jesus é, sobretudo, alcançar e salvar os distantes, curar as feridas dos doentes, reintegrar todos na família de Deus.

A misericórdia não é apenas uma atitude pastoral, mas é a própria substância do Evangelho de Jesus.

O Jubileu é uma questão de Deus. Assim, nesse Ano Jubilar a Igreja, “hospital de campanha”, se sente empenhada diante do mistério do anúncio e da reconciliação, e também da reflexão e do pensamento. As leituras dos domingos do Tempo Comum serão as de Lucas, chamado de “o evangelista da misericórdia”. O desafio é grande frente ao Ocidente secularizado: reabrir em termos existenciais a questão de Deus, sobre quem é Deus, seu rosto, num mundo que age como se Deus não existisse, e isso porque não reconhece mais o Misericordioso.

Pe. José Artulino Besen

No dia 11 de abril o Papa publicou a Bula do Ano Santo que tem o título de “Misericordiae Vultus” (Cristo é a face da misericórdia) e como lema “Sede misericordiosos como o Pai”.

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