Arquivo para categoria Liturgia e Sacramentos

SÍNODO DOS BISPOS – MATRIMÔNIO E MISERICÓRDIA

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Na Festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro, papa Francisco presidiu a Missa na Basílica de São Pedro e abençoou o casamento de 20 casais, alguns jovens, outros mais vividos, alguns já acompanhados de filhos. Esses últimos são o lado vistoso de nossa vida paroquial, cuja celebração chamamos de “legalização do matrimônio”. Papa Francisco, que deve ter presidido a centenas dessas “legalizações” nas periferias de Buenos Aires, festejou a todos. Mais um sinal de que o Papa quer a Igreja católica mais aberta e inclusiva.

Podemos ligar essa Celebração à 3ª. Assembléia Geral Extraordinária dos Bispos sobre a Família, a realizar-se no Vaticano de 5 a 19 de outubro. O 253 participantes, provenientes dos cinco Continentes, incluindo cardeais, bispos, casais, especialistas, religiosos refletirão sobre “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”.

O tema família é central na vida humana, na vida da Igreja, e a família cristã é uma das mais atingidas pela revolução de costumes das últimas três décadas. Hoje, a família é desafiada por outras vivências humanas, como casais sem filhos, casais separados, casais em segunda, terceira união, crianças somente com pai, ou somente com mãe, casais homossexuais, alguns adotando filhos, casamentos provisórios etc., numa diversidade que pode nos assustar, mas nos obriga ao acolhimento misericordioso. Vetos e condenações facilitam a ação pastoral e nos deixam com a consciência do dever comprido, mesmo ao preço de afastar muita gente da Igreja. Lembro de um padre, zeloso, bem intencionado, que declarou a uma senhora em segunda união: “A senhora está em pecado mortal, porque vive em situação de prostituição”. O padre apenas esqueceu de olhar a criança que ela carregava no colo, e outro já andando: ela era mãe!

Voltemos ao Sínodo: está sendo a oportunidade de revelar uma realidade desagradável: a oposição ao Papa Francisco e à sua vivência como Bispo de Roma desde que fixou residência na Casa Santa Marta, símbolo da Igreja acessível, pobre, que sai dos seus palácios, dos âmbitos psicológicos tradicionais: para católicos e bispos tradicionais, isso foge do mundo eclesiástico europeu e italiano, arquivado pela eleição de um bispo argentino. Francisco não é eurocêntrico, e nenhuma doutrina coloca a Europa como modelo para a Igreja. Em particular, algum cardeal já afirma que “o modelo latino-americano não funciona aqui na Europa”, esquecendo que a recíproca é justa: “o modelo europeu também não funciona no Terceiro Mundo”. Não é esse o problema verdadeiro, e sim, a palavra que Francisco propõe: uma Igreja pobre, com os pobres, acolhedora, misericordiosa. Esse é o caminho pastoral dele: lavar os pés de todos, acolher os migrantes, ter cheiro de pobre. Suas viagens não foram para a Europa rica, e sim, para os que estão longe: América latina-Brasil, Lampedusa-migrantes, Ásia-Coréia do Sul, Europa-Albânia.

É compreensível que haja descontentamento com as escolhas de Francisco, pois o fato de morar na Casa Santa Marta permite que tenha contato direto com pessoas sem a intermediação da poderosa Cúria no Palácio Apostólico; atacando o carreirismo como câncer da Igreja, rejeita uma elite que passa a vida em Roma; abandonando os rituais principescos, estimula que padres e bispos façam o mesmo; a bela e despojada Liturgia dele contrasta com os enfeites e suntuosidades de certos padres e bispos; tratando cada diocese como Igreja apostólica, desconsidera as tradicionais sedes cardinalícias que envenenaram a vida pastoral de bispos em busca de sedes “importantes”. A reforma corajosa das finanças do Vaticano dá credibilidade à Santa Sé, o rigor no tratamento dos casos de abuso de menores revela a face de uma Igreja que pede perdão, e a reforma da Cúria romana, em andamento, significará um novo tempo na condução da vida da Igreja. Enfim, Bergoglio foi eleito pelos cardeais porque nele enxergaram a pessoa para orientar uma Igreja voltada para si mesma numa Igreja missionária, voltada para o serviço do mundo, conforme pediu o Vaticano II.

Permanecer na verdade e na misericórdia

Causou espécie no mundo católico a publicação do livro “Permanecer na verdade de Cristo: Matrimônio e comunhão na Igreja católica”, assinado por 5 cardeais e claramente dirigido a atacar o cardeal Walter Kasper, cujas posições sobre o Matrimônio são bem consideradas pelo Papa. É um muro conservador que se ergue, claramente atingindo o Papa através do Cardeal, e se situa na hostilidade às propostas de renovação pastoral a serem discutidas no Sínodo. Como compreender a atitude de purpurados opondo-se a um caminho que Francisco iniciou consultando todos os bispos do mundo, que será proposto na Assembléia sinodal de outubro e, depois de um ano, em novo Sínodo em outubro de 2015? A convite do Papa, o cardeal Kasper falou sobre a família no Consistório de fevereiro último e, na última parte de sua colocação, elogiada pelo Papa que a definiu “teologia de joelhos” que revela o “amor pela Igreja”, sugeriu como hipótese – caso por caso, em determinadas condições e depois de um caminho penitencial – a possibilidade de readmitir os divorciados recasados à comunhão.

A publicação do livro não foi elegante, nem eclesial, pois os cardeais signatários primeiro o apresentaram à imprensa e não a W. Kasper, e bem sabem da posição de Francisco e de seu respeito pelo cardeal alemão. O confronto está definido: de um lado, uma visão pastoral que não admite adequar a doutrina aos sinais dos tempos, como sempre foi feito e, de outro, Francisco: sem negar a doutrina da indissolubilidade matrimonial, considera decisiva a mensagem da misericórdia e continua a convidar a Igreja a sair de si mesma e ir ao encontro dos homens e mulheres nas condições em que vivem. Os 5 veneráveis cardeais estão receosos de que Francisco caia no erro, pois ouvindo todos os bispos pode ser “enrolado” na doutrina. O livro, assim, é uma espécie de convite a que o Papa tenha cuidado.

O sacramento do matrimônio é uma graça de Deus, falou o cardeal Kasper, e faz dos esposos um sinal de sua graça e de seu amor definitivo. Mas, também um cristão pode fracassar e, infelizmente, muitos matrimônios fracassam. Na sua fidelidade, Deus não deixa ninguém caído e, na sua misericórdia, oferece a cada um que deseja converter-se, uma nova chance. Por isso, a Igreja que é o sacramento, o sinal e instrumento da misericórdia divina, deve estar próxima, ajudar, aconselhar, encorajar. Não se podem conceder segundas núpcias, mas, segundo os Pais da Igreja, depois do naufrágio, se lança um bote salva-vidas. Não um segundo matrimônio sacramental, mas os meios sacramentais necessários na sua situação. Assim como não duvidamos que a Igreja católica é a realização mais completa do plano de Jesus, mas enxergamos nas outras Igrejas sinais de salvação, não poderíamos ver o mesmo no casamento civil em que, na fidelidade e na piedade o casal vive sua fé?

Podemos continuar com os vetos do passado, ignorando as novas situações, ficando insensíveis à realidade concreta de tantos que sofrem. Certamente, a atitude misericordiosa de tantos padres e bispos aproxima-os do sofrimento do rebanho e do exemplo de Jesus, o Bom Pastor. Importante expor a doutrina com fidelidade, mas não esquecer que a misericórdia triunfa no julgamento.

 Pe. José Artulino Besen

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EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ

2014-09 - EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ (ícone russo do século XV)

2014-09 – EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ (ícone russo do século XV)

Há uma palavra que não funciona ao se querer narrar o mistério da Salvação cristã: é a palavra “lógica”. Já tem início com a declaração de Jesus: “se alguém quiser me seguir, tome sua cruz e me siga”. O lógico seria: “se alguém quiser me seguir, será feliz e eu o libertarei da qualquer cruz”. A lógica de uma vida venturosa e vencedora é subir, vencer, crescer, acumular, ser servido. A lógica de Jesus não tem lógica: descer, repartir, perdoar, servir, amar o inimigo, ser o último. O mundo diz: seja amado!, e Jesus: ame!.

A imagem de todas as divinas contradições está num símbolo de derrota e que a Igreja festeja como glória: a Cruz. A maldita cruz é celebrada como bendita cruz. No dia 14 de setembro, as Igrejas do Oriente e do Ocidente festejam a Exaltação da Santa Cruz, cuja origem está em Jerusalém, na dedicação da Basílica da Ressurreição, no ano 335. Local da Basílica: onde o Senhor foi crucificado, morto e sepultado. Onde o Senhor venceu a morte e ressuscitou.

Seguindo a lógica humana, os homens se gloriam das vitórias, sucessos, beleza, prazer, fama: nós, porém, devemos gloriar-nos da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é nossa salvação, vida, esperança de ressurreição, escreve São Paulo.

Na Festa da EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ a verdade da Liturgia cristã narra a vitória do amor sobre o ódio, da vida sobre a morte: revela que, no momento em que Adão e Eva foram seduzidos por Satanás e comeram do fruto da árvore do bem e do mal, movido pela compaixão o Pai decidiu plantar outra árvore, cujo fruto destruiria a morte: a árvore da Cruz. Os Pais da Igreja narram o drama do Calvário: houve um duelo entre a vida e a morte, e o inimigo caiu na própria cilada, julgando que na crucifixão obteria a vitória definitiva. Mas, foi derrotado: do lenho da morte Deus fez nascer a redenção. Satanás gravou na cruz todos os pecados da humanidade, querendo mostrar a derrota do Bem e o fracasso do Criador. Novamente sai derrotado: do lado direito do Senhor corre sangue e água e lavam os pecados gravados na cruz.

Com os pregos prendendo o Senhor na cruz, Satanás quis revelar a força de sua maldade vitoriosa condenando o Senhor a sofrer “o mais terrível e desprezível suplício” (Cícero), reservado a ladrões e escravos. Para deixar bem claro sua vitória, determinou que a cruz fosse erguida no alto, enterrada num chão que guardava nas entranhas o sangue de muitíssimos condenados.

Foi derrotado: o sangue que escorreu pela cruz penetrou a terra, transfigurando-a em terra de salvação e de vida. E o peso do sofrimento do Senhor fez com que a cruz maldita penetrasse o chão no momento em que gemia: “Pai, perdoa, eles não sabem o que fazem. Em tuas mãos entrego meu Espírito”. Naquela hora, a cruz se transforma na Cruz que penetra as profundezas dos abismos infernais, rompe os grilhões da morte, derrotada pela Vida. A Luz vence as trevas e os prisioneiros podem contemplar o Senhor da Glória e saborear os frutos da Árvore da Vida.

A Cruz que une a terra ao céu, sinal glorioso do amor divino

Reconciliada, na Liturgia a comunidade escuta: A Cruz exaltada convida toda a criação a cantar hinos à paixão imaculada daquele que sobre ela foi erguido: sobre a Cruz ele levou à morte quem nos tinha dado a morte, ressuscitou os mortos e, tendo-os purificado, em sua compaixão e infinita bondade os fez dignos de viver nos céus.

Após aquele dia, destinado por Satanás para ser o dia da infâmia, nós, redimidos pelo Crucificado, festejamos a Cruz vivificadora, preço generoso pelo nosso resgate, exaltada nos céus. Santa Faustina narrou uma visão que teve do Dia do Juízo: querendo salvar toda a humanidade, Cristo apresenta o Pai, os Santos, a glória celeste, porém, os homens e mulheres não se convencem e o desprezam. Então, como último troféu, a Cruz aparece nos céus para descrever o preço de nossa salvação. É o preço de cada um de nós.

O ícone da Cruz é ícone da consolação, há cinco séculos contemplado pelo povo russo: ao pé da Cruz, Maria leva a mão à garganta para sufocar o grito de dor, e o apóstolo João olha para o infinito, meditando o mistério encerrado nessa cena de dor. Mas, o Senhor Crucificado é o Senhor Ressuscitado, inseparavelmente: é de paz profunda seu rosto, o corpo se volta para a Mãe numa curva de oferta. O Sangue não é recordação dolorida, mas sangue que dá vida.

Penetrando a terra, contemplamos a Cruz abrindo os porões onde estão os mortos, os ossos que recebem carne, e o Espírito que dá vida à carne. A antiqüíssima Liturgia da Igreja Antioquena medita a voz que se espalha pelo reino da morte: “A paz esteja convosco”. Adão, que jamais deixara de recordar aquela voz que escutara no Paraíso perdido, grita para todos: “É o Senhor!”. E novamente todos escutam: “A paz esteja convosco”, e proclamam: “E contigo também!”. A luz celeste invade o espaço das trevas e todos se saúdam na alegria da vida recebida.

O povo eslavo, provado por séculos de perseguição, nunca deixou de cantar o hino “Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos salvarás”. A Cruz nunca desviou o olhar de tantos homens e mulheres, anciãos e criancinhas diante de seus carrascos. Antes de a espada ou o fuzil penetrarem seu peito, sorridentes diziam: “Nenhum poder tens sobre nós. Cristo ressuscitou!”.

Exaltando a santa Cruz, continuemos o hino: “À sombra de teus braços a Igreja viverá. Por ti, no eterno abraço, o Pai nos acolherá”. Por isso, “adoramos a tua Cruz, Senhor, e glorificamos a tua santa ressurreição!”

Pe. José Artulino Besen

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MILAGRES EUCARÍSTICOS – ADORAÇÃO EUCARÍSTICA

São João Paulo II adorando o Milagre eucarístico de Siena. em 1980. Desde 1730 o Senhor continua presente na espécie de Hóstia.

São João Paulo II adorando o Milagre eucarístico de Siena. em 1980. Desde 1730 o Senhor continua presente na espécie de Hóstia.

Desde a catequese de Primeira Comunhão foi-nos ensinado que, entrando numa igreja, olhássemos em direção ao sacrário: se lá houvesse lamparina acesa, deveríamos fazer reverente genuflexão, pois Jesus está presente na espécie do Pão consagrado. Em seguida, ficando de joelhos, fazer momentos de adoração ao Santíssimo, imensa graça que nos é oferecida e que foi amada pelos santos e santas. A totalidade deles viu nessa adoração um tempo privilegiado de adoração e ação de graças, tão simples e precioso. Quando São João Vianney perguntou a um agricultor que, diariamente, indo para o trabalho entrava na igreja e ali ficava de joelhos silenciosamente: “O que o senhor faz?”, ele respondeu com simplicidade: “Nada. Eu olho para Ele e ele olha para mim”. Ele tinha compreendido a profundidade da adoração: estar diante do Senhor que está diante de nós.

O Catecismo Católico assim explica a Presença no sacrário: “A santa reserva (tabernáculo) era primeiro destinada a guardar dignamente a Eucaristia para que pudesse ser levada, fora da missa, aos doentes e aos ausentes. Pelo aprofundamento da fé na presença real de Cristo em sua Eucaristia, a Igreja tomou consciência do sentido da adoração silenciosa do Senhor presente sob as espécies eucarísticas” (§1379).

Devemos ter claro, porém, que a grande graça da Eucaristia é a celebração da Eucaristia, a participação da missa, onde não só adoramos o Senhor, mas o recebemos como alimento, Pão da Vida. Por um certo descuido na teologia, durante séculos acentuou-se de tal modo a presença no tabernáculo que a participação da missa foi descuidada e a Comunhão reduzida a poucas pessoas. Lembro de minha infância, quando era coroinha: quem queria comungar, vinha na primeira missa, pois na segunda normalmente não se distribuía a Comunhão. Foi um exagero, já superado com o maior conhecimento do sacramento do altar. Outro exagero foi estender de tal modo as exigências de santidade pessoal para se comungar que poucos sentiam-se dignos da Comunhão. A Comunhão sempre é o alimento do pecador, pois ninguém é santo, e sempre proclamamos antes de comungar: “Senhor, eu não sou digno!”. Comungamos porque Jesus se oferece como o alimento que nos purifica e salva.

A presença de Cristo no Pão e no Vinho

É oportuno que, na aproximação da grande festa litúrgica de Corpus Domini (Corpus Christi), lembremos o entendimento equivocado, beirando a heresia, a respeito dos chamados “Milagres eucarísticos”. Foi por ocasião de um deles, na cidade italiana de Bolsena, que o papa Urbano IV instituiu a Festa em 1264. No ano anterior, o Pe. Pedro de Praga foi tomado pela dúvida na elevação da Hóstia e, milagrosamente, caíram sobre a toalha gotas de sangue. Cristo veio em socorro à fé do sacerdote. Levaram a toalha ao Papa que estava em Orvieto; impressionado instituiu a festa para toda a Igreja, uma manifestação pública da fé na presença real. A toalha com manchas de sangue continua exposta na catedral de Orvieto.

O mais conhecido desses Milagres é o de Lanciano: numa mesma situação de fraqueza na fé, a Hóstia transformou-se em carne e o Vinho em sangue. Isso foi no século VIII e até hoje as relíquias se encontram expostas em Lanciano. Estudos científicos comprovam a conservação biológica do pedaço de carne e das partículas de sangue após de mais de um milênio, o que é um milagre biológico, não eucarístico.

Deve-se fazer a pergunta: as relíquias são Corpo e Sangue de Cristo? Muitos devotos ficam irritados, mas não são. O Catecismo da Igreja é muito claro: “A presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e dura também enquanto subsistirem as espécies eucarísticas. Cristo está presente inteiro em cada uma das espécies e inteiro em cada uma das partes delas, de maneira que a fração do pão não divide o Cristo” (§1377). Nós devemos amadurecer nossa fé e não sermos levados por sentimentalismo barato e fora de propósito: Cristo está presente nas espécies de pão e vinho. No momento em que, por algum imprevisto, o pão/Hóstia se deteriorar, cobrir-se de fungos, não é mais pão e, por isso, não é mais Hóstia; se parte da espécie do vinho/Sangue se tornar vinagre, não é mais Sangue de Cristo, é apenas vinagre.

Desse modo, o Milagre aconteceu no momento em que a hóstia e o vinho se transformaram em carne e sangue, como um sinal do amor divino que veio em socorro à fraqueza do padre. Em seguida, não são mais espécies eucarísticas, pois deixaram de ser pão e vinho. Para confirmarmos ainda melhor a doutrina da Igreja, é importante ter presente que o Cristo eucarístico é o Cristo ressuscitado, transfigurado, Deus verdadeiro, não podendo, por isso, ser espécie de carne e sangue. Se assim fosse, algum pedaço de Cristo estaria deslocado, o que é evidentemente impossível. São relíquias a serem veneradas, nunca adoradas.

Um Milagre eucarístico permanente

Há 284 anos se conserva o Milagre eucarístico em Siena.

Há 284 anos se conserva o Milagre eucarístico em Siena.

Há, contudo, um Milagre eucarístico verdadeiro na sua permanência: o Milagre eucarístico de Siena, que permanece há 284 anos. Foi visitado pelos Papas Paulo VI e João Paulo II e que, diante do Milagre, caíram em adoração.

Foi em 1730. Na basílica de São Francisco em Siena, ladrões roubaram o cibório com 351 Hóstias consagradas. A cidade e os frades ficaram entristecidos pelo sacrilégio ocorrido na véspera da festa da Assunção de Maria, 14 de agosto. Para alegria de todos, três dias depois as Hóstias foram encontradas em outra igreja e trazidas, em procissão, para a Basílica. Estavam jogadas num cofre sem condições de higiene, cheio de pó e teias de aranha, mas elas perfeitamente conservadas. Como acontece nos momentos de forte emoção, houve muita adoração e devoção às Hóstias que foram guardadas e, depois, esquecidas por 50 anos. E então se percebeu o Milagre: as Hóstias ainda estavam perfeitamente conservadas, como pão de trigo feito naquela manhã, o que é impossível do ponto de vista da biologia. Algumas foram consumidas e notou-se o sabor íntegro, sem alteração alguma.

Em 1914, por decisão do Papa São Pio X, foi nomeada uma comissão de estudos com professores de bramatologia, higiene, química e farmacêutica para responder a perguntas simples: as hóstias eram de farinha de trigo sem fermento? Sofreram alguma alteração? As respostas confirmaram a permanência do Milagre: eram hóstias de trigo, sem nenhuma alteração. A cada 25 anos se consome uma para testar o sabor e o Milagre permanece: são hóstias de farinha de trigo, com o sabor de recém fabricadas. Isso após 284 anos. Ajoelhado diante delas, assim falaram tanto Paulo VI como João Paulo II: “É a presença!”. Cristo está ali, realmente presente no sacramento eucarístico.

A presença do verdadeiro Corpo de Cristo e do verdadeiro Sangue do Senhor neste sacramento não se pode descobrir pelos sentidos, diz Santo Tomás, mas só com fé, baseada na autoridade de Deus. Por isso, comentando o texto de São Lucas 22,19 – “Isto é o meu Corpo que será entregue por vós” – São Cirilo declarou: ‘Não perguntes se é ou não verdade; aceita com fé as palavras do Senhor, porque ele, que é a verdade, não mente’. No dia de Corpus Christi participemos da procissão com o Santíssimo, publicamente professemos nossa fé na Presença: Venite adoremus – Vinde, adoremos!

Pe. José Artulino Besen

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DE COROINHAS E ANJINHOS

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Além do evidente sentido teológico, as celebrações católicas oferecem aos olhos beleza e encanto através das flores, dos cantos, luzes e da presença das crianças. Há alguns anos, para insistir no valor dos adultos nas Celebrações e no enfraquecimento da piedade popular, o nascimento de uma Liturgia mais contemplativa, conceitual, com minhas memórias de infância pensava que duas classes estariam chegando ao fim. E percebia mesmo que me encontrava diante dos últimos exemplares dessa espécie: os anjinhos e os coroinhas.

Os anjinhos eram presença necessária nas procissões, coroações, recepções, tinham seu Globo de Ouro nas Primeiras Comunhões, Coroações de Nossa Senhora, Corte do Divino, e eram anjinhas, pois as vestes femininas, o diadema, as asas, a cestinha com pétalas de rosas, eram ornamentos que os meninos rejeitavam por tudo e pelo cheiro de menina que ficava na roupa.

Para tão importante função eram destacadas as meninas clarinhas, cabelo crespo, jeito piedoso bem falsinho. As morenas e pretinhas nem entravam no jogo, pois, cor de anjo, quanto mais branca, mais verdadeira pois anjo é luz. As candidatas ao ministério angelical ficavam tristes quando cresciam pois não poderiam mais ser anjos. Alguma tia com suposto discernimento maior diria que “mesmo sem crescer já não pode mais, pois para anjo não leva mais jeito. Tenho ouvido coisas…”. Para alguma crescida restava o consolo de cantar o “Aceitai essa coroa” nas Coroações.

Para meu espanto de vigário, e para alegria de minha infância despertada, os anjinhos retornaram com tudo e, quebrando todas as santas regras, temos OS anjinhos, pois os meninos não aceitam a exclusão em favor das meninas. Os anjinhos e as anjinhas convivem bem, exceto por alguma escaramuça das anjinhas, que rejeitam não comandar o ritual. É evidente que as anjinhas preferem levar as túnicas para casa, evitando o cheiro de futebol, de tangerina roubada e suor com que os meninos carimbam tudo.

E assim é: tudo parece que mudou, mas, os anjinhos sobrevivem e podem ser observados na cidade e na roça, catedrais e capelas, retornando donde tinham sido excluídos, agora branquinhos e pretinhos, felizmente, pois a Corte celeste se revela bem mais colorida.

Coroinhas e acólitos

Muito piedoso, o coroinha controla o vigário enquanto oferece vinho ao padeiro

Muito piedoso, o coroinha controla o vigário enquanto oferece vinho ao padeiro

Os coroinhas passaram por ameaça semelhante de extinção: não deveriam ser coroinhas, mas acólitos, gente grande, de jovem para cima, de preferência casais, manifestando a família na Liturgia. Coroinha nem fica bem, pois vigários modernos não se sentem à vontade coroados pela gurizada que já traz no nome a missão: coroa de enfeite; na verdade, a origem de coroinha vem de “menino de coro”, crianças que cantavam no coro. O patrono dessa turma, São Tarcísio (século III), deixou de ser cultuado como um menino para ser contemplado como um Ministro da Comunhão heróico. Ultimamente voltou a ser conhecido como a criança romana que levava a comunhão para doentes e que, atacado a pedradas por meninos, morreu defendendo a Santa Hóstia.

A criançada feliz que forma o grupo dos coroinhas passou a ser vista como vestibular do Seminário, racinha onde bom olheiro vocacional já divisa futuros padres, pois muitos padres tiveram o primeiro sinal vocacional servindo de coroinhas e nem sempre eram os mais piedosos. Algumas igrejas até cederam o secular espaço dos coroinhas para seminaristas envergando túnicas ou batinas, ou para jovens com jeito de futuros clérigos.

Os coroinhas estão por tudo e têm o maior prazer em servir o padre, ou servir na Missa. Ressurgiram com força e, como tudo tem troca, devem conviver com as meninas coroinhas que aceitaram a presença dos meninos anjinhos. Mas, necessitam de muita atenção, porque, à menor distração, as meninas ocupam todo o espaço e toda autoridade.

Se nossa língua fala em coroinhas, outras usam vocábulos sonoros e simpáticos: chierichetto em italiano, servant d’autel em francês, monaquillo em espanhol, altar server em inglês e Messdiener em alemão.

Receberam novos nomes e dignidades por causa das novas missões no altar, e podem ser acólitos, sacristãos, sineteiros, turiferários, naveteiros, ceroferários, cruciferários, caudatários, libriferários, mitríferos, baculíferos, pois são muitas as necessidades num dia mais solene e a turma dos coroinhas aceita o peso dessas funções. Saber todos esses nomes é sinal de importância e estabelece graus de domínio. Realmente, levei um susto quando escutei um coroinha comentando a beleza da “férula” do Papa. Pesquisei e descobri que a férula é a Cruz processional papal. Ter esse conhecimento equivale a vencer uma olimpíada litúrgica no facebook.

As vestes formam outro conjunto de variedades e tenho percebido na Liturgia gosto insistente pelo uniforme do leitor, comentarista, ministro e, claro, dos coroinhas. Os coroinhas estão caindo em tentação: querem se vestir como o padre. Não há regras fixas, mas suas vestes podem ser batinas+sobrepeliz+pala, túnica+escapulário, batina vermelha+sobrepeliz branca, túnica branca+capuz, batina na cor litúrgica.

Os coroinhas, quanto mais sérios e dignos de confiança, mais inventam outras funções: tocar o sino fora de hora, pendurar-se na corda para ver aonde chega, brincar de esconder nos corredores e sacristias, vestir-se como manda a regra e sair para jogar corrida fora da igreja, desprezar e provocar as meninas, esbarrar na sineta quando o padre fecha piedosamente os olhos durante as leituras, tirar o badalo da sineta para fazer a coroinha chorar. Havendo dois desses santinhos numa mesma sacristia, alternadamente um se coloca piedosamente de joelhos diante do altar para controlar a movimentação enquanto que o outro bebe uns goles de vinho. Se o padre descobrir, denunciam o pobre sacristão da véspera. 

Anjinhos e coroinhas

Os coroinhas participam de reuniões, encontros onde aprendem a usar a Bíblia, refletem temas litúrgicos e lhes são passados princípios de convivência de meninos com meninas, momento esse último em que se parte para o ataque e o mexerico, no qual as meninas saem-se melhor.

Em 2004, o papa São João Paulo II pediu que os párocos tivessem atenção especial com os coroinhas, “que são como um ‘viveiro’ de vocações sacerdotais. O grupo de acólitos, bem acompanhado por vós no âmbito da comunidade paroquial, pode percorrer um válido caminho de crescimento cristão, formando quase uma espécie de pré-seminário”, declarou.

Numa audiência geral particular, com mais de quarenta mil Coroinhas da Europa, o Papa Bento XVI pediu aos pequenos servidores do altar que estivessem abertos à possível chamada à Vocação Sacerdotal, aos meninos, e religiosa, para as meninas. Pode-se ver como esses meninos e jovens são importantes!

Anjinhos e coroinhas são bela tradição, sentida recordação de quem viveu a experiência e a contempla em alguma foto guardada pela mãe que sente emoção pelo filho coroinha, pela filha anjinho. Ou ajudando no altar ou abrilhantando solenidades, neles mergulhamos na singeleza da infância e da mocidade, no desejo de emendar os fios rompidos da primeira religiosidade. Complicamos tanto nosso presente que nos emocionamos ao afirmar: “Aquilo é que era tempo bom!”. Continua bom.

Pe. José Artulino Besen

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QUARESMA – CAMINHO BATISMAL

O amanhecer da ressurreição - JRC Martin

O amanhecer da ressurreição – JRC Martin

Quando a Liturgia quaresmal nos propõe as leituras do ANO A, mergulhamos de modo claro, esclarecido e decidido na contemplação da graça batismal, revivendo na Liturgia a catequese dos primeiros séculos ao preparar os catecúmenos para o Batismo. A Vigília pascal é vigília batismal: o fogo que ilumina, as luzes, a renovação das promessas do Batismo, a água que é aspergida são símbolos da Páscoa do Senhor: assim como Jesus foi sepultado e ressuscitou para a Vida, no Batismo somos com ele sepultados e com ele ressuscitamos.

No ANO A, a Igreja escolhe textos do Evangelho segundo João, cada um deles sendo catequese preparatória para a Vigília pascal, quando os catecúmenos são batizados e os batizados renovam sua profissão de fé e de vida.

Em comum, nos ANOS A, B ,C, no primeiro domingo temos a leitura das tentações de Jesus no deserto e sua vitória contra o grande sedutor; no segundo domingo contemplamos o Cristo transfigurado, imagem que preanuncia a glória da ressurreição.

A partir do terceiro domingo da Quaresma, o Evangelho de João nos ilumina sobre o porquê Jesus veio ao mundo e o que em nós realiza pela graça batismal.

Cristo – água para nossa sede (João 4, 5-42): a mulher samaritana dirige-se ao poço de Jacó. Contradizendo a tradição do desprezo pelos samaritanos, a inferioridade da mulher a quem um Rabi não dirigiria a palavra, Jesus lhe pede: “Mulher, dá-me de beber”. A mulher espantou-se e Jesus, após leva-la a um exame de consciência e revelar-se como o Messias, fala da Água viva que aplaca a sede para sempre. E a mulher pede: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede”.

A água que Jesus pedira não era simplesmente água, porque sua sede era a sede do Salvador: sede de almas, sede de salvar, sede de pessoas, sede que manifestará no alto da Cruz: “Tenho sede!” e que continua a gritar pela história humana: “Tenho sede de almas para salvar!”. A mulher samaritana compreendeu a Palavra salvadora e teve saciada a sede de vida.

Cristo – luz para nossas trevas (João 9, 1-41): a cura do cego de nascença. Jesus não lhe concede apenas o dom de enxergar, pois quer oferecer-lhe a graça de discernir entre treva e luz. Manifesta seu poder salvador com dois sinais: a saliva misturada com terra que produz lama e que colocou nos olhos do homem cego que necessitava ser recriado como na primeira criação, quando o Pai tirou o homem do barro e soprou-lhe nas narinas o sopro de vida, e ele se tornou um ser vivente (Gênesis 2, 7). Somente Jesus tem o poder de renovar a vida de uma criatura mergulhada nas trevas do pecado. O segundo sinal: “Vai lavar-te na piscina de Siloé”. O homem foi e voltou enxergando. O Batismo purifica a natureza humana e a ilumina com a Luz que torna a vida possível, pois nas trevas não há desenvolvimento de vida.

Cristo – ressurreição para nossa vida (João 11, 1-45): a ressurreição de Lázaro é a revelação da divindade de Jesus, pois somente Deus tem o poder de dar a vida. Há quatro dias sepultado, Lázaro, o amigo transformado em cadáver putrefato e que desperta em Jesus o sentimento da amizade, as lágrimas choradas pelo drama vivido pelo Pai que contempla os filhos desamparados, destruídos pelo mal. Jesus quer alegrar o Pai dando vida ao cadáver e grita: “Lázaro, vem para fora!”. Palavra eficaz, e o morto agora é um ser vivente.

“Vem para fora” é o clamor que Jesus dirige à humanidade desde aquela sexta-feira em que assumiu sua glória no trono da Cruz, realizando a promessa feita a Ezequiel: “Ó meu povo, vou abrir as vossas sepulturas, e sabereis que eu sou o Senhor” (cf. Ezequiel 37, 12-14). Cristo não oferece ao Pai um imenso cemitério ornamentado por urubus, mas um jardim onde vive a humanidade renovada.

A Páscoa da humanidade

Dessedentados pela Água viva que o Espírito derrama em nossos corações, iluminados por Cristo, luz do mundo, lavados pela água batismal, escutamos a grande promessa: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais”. Lemos essa promessa gravada em tantos túmulos e capelas funerárias por onde passamos, e poucas vezes nos damos conta de que o Senhor não quer apenas consolar os familiares dos mortos, mas quer que nós tomemos a decisão definitiva: “Eu quero ressuscitar”. E assim criamos a ponte entre o divino e o humano, entre o tempo e a eternidade. Iniciamos a vida eterna na grande vigília que é nossa existência e que anualmente vivenciamos, renovada, na Vigília Pascal.

Mas, falta ainda a eficácia dos sinais da água, da luz e de Lázaro. Jesus, com eles, antecipou o que irá tornar realidade em Jerusalém: é lá, onde o acompanhamos a partir do Domingo de Ramos, que recebe plenitude todo o mistério da salvação, através da Paixão, Morte, Ressurreição, Ascensão e Pentecostes. Jesus que morre é o Cristo ressuscitado que envia o Espírito, renovando a criação.

Importante: Deus não quer um povo de escravos, pois é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gálatas 1, 5) da sede de vida, das trevas e da morte. Ele quer companheiros no caminho, quer repartir conosco o Pão da Eucaristia, alimento de eternidade, sustento pascal e ouvimos sua palavra: “Desatai-o e deixai-o caminhar”.

Pe. José Artulino Besen

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NA EUCARISTIA CELEBRAMOS O MISTÉRIO PASCAL

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A Eucaristia celebra a Vida nova da ressurreição – Giuseppe Cordiano.

“Tudo está consumado” (Jo 19,30): estava completa a criação do mundo ao se revelar o Cordeiro imolado desde a criação do mundo! (Apc 13,8). Horas antes, o Senhor oferecera o pão e o vinho como palavra decisiva, a fim de que a história humana tivesse alimento no caminhar: “Tomai e comei, isto é o meu Corpo; bebei dele todos, este é o cálice da aliança no meu Sangue que é derramado por vós” (cf. Lc 22, 14-20). Quando o Senhor proclamou que tudo estava consumado tornou possível a Eucaristia da Igreja, com o alimento do seu Corpo oferecido como Pão e seu Sangue derramado como Vida, até a Parusia.

A Eucaristia é afirmação da dignidade e beleza da criação sintetizada no pão e no vinho, do amor do Senhor pela criatura, pois tudo ele assumiu em sua encarnação e em tudo penetrou sua divindade, com a humanidade sendo elevada à divindade. Pela Eucaristia, o Senhor restaura a integridade da criação, pois o pão e o vinho ofertados são fruto da terra e do trabalho humano, representam toda a realidade que, no Espírito, é transfigurada.

A consumação proclamada por Cristo gera a Igreja, Carne e Sangue vivificados pelo Espírito na ressurreição. No Cristo ressuscitado, toda a criação recebeu a semente da ressurreição, não só o ser humano, pois toda a realidade que geme em dores de parto (Rm 8,22).

Ensina Olivier Clément (1921-2009), convertido, teólogo ortodoxo francês: “A Igreja é o sacramento do Cristo Ressuscitado e o núcleo, o sol dessa sacramentalidade é a Eucaristia. A Eucaristia faz a Igreja, faz da Igreja o Corpo de Cristo do qual jorra a potência da vida, da ressurreição”.

A Eucaristia é o sacramento “da” Igreja, não “na” Igreja. Não é um dos sete sacramentos, mas é “o” Sacramento, pois, sem ela não há ressurreição, não há sinal sacramental, não há a Igreja. Quando Paulo fala em reunir-se num mesmo lugar, dirige-se à Igreja que está aqui ou ali, refere-se à Eucaristia, à Assembléia que celebra o Ressuscitado: “O cálice que bebemos é comunhão com o sangue de Cristo; o pão que repartimos é comunhão com o corpo de Cristo. Há um só pão e nós, sendo muitos, somos um só corpo, pois participamos do único pão” (cf. 1Cor 10,16-17). Desse modo, a Igreja faz-se realidade como comunidade.

Mistério pascal – Páscoa eterna

Na Liturgia eucarística, após o hino do Santo, o presidente da celebração, em nome do povo, pede ao Pai que envie o Espírito Santo para tornar o pão e o vinho Corpo e Sangue de Cristo e, através deles, incluir-nos no Corpo de Cristo. A palavra da epíclese é “tornar-se” Corpo e Sangue, mas, o uso patrístico se serve do verbo “integrar” para o mesmo mistério e expressa com muita intensidade a realidade sacramental, pois o pão permanece pão, mas está oculto dentro do Corpo do Senhor, e o Corpo do Senhor se oculta no pão. Ao comermos o Pão e bebermos do Cálice penetramos na vida divina e a vida divina penetra em nós: nasce a Igreja, Corpo de Cristo, forma-se o Povo “de” Deus. Os fiéis participantes, incorporados a Cristo, se tornam consangüíneos com Cristo, raça divina (cf. At 17,28), participantes da natureza divina (cf. 2Pd 1,4).

A Eucaristia é a consumação da Carne e do Sangue do Filho do Homem e, quem não o consome, não terá a vida (cf. Jo 6,53). O capítulo 6º de João – multiplicação dos pães – é claro ao afirmar que quem come desse pão permanece para a vida eterna, pois o pão verdadeiro descido do céu é o Filho do Homem.

Após a Consagração, o presidente da Celebração proclama: “Eis o mistério da fé!”, e a comunidade concelebrante responde: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa ressurreição! Vinde, Senhor Jesus”. Todas as variantes dessa proclamação incluem o mistério pascal da Paixão e Morte do Senhor, da sua gloriosa Ressurreição e Ascensão, do Pentecostes e a súplica final, a mais antiga oração cristã: “Maranathá! Vem, Senhor Jesus!”. Alguns intérpretes julgaram inconveniente a proclamação “Eis o Mistério da Fé”, porque entenderam-na como profissão de fé na Eucaristia, enquanto que o sentido é mais profundo: todos os mistérios da fé bíblica, o Credo cristão estão presentes na Eucaristia que é o Mistério, o Símbolo da ação divina. Pelo anúncio da Palavra, faz-se vida a Criação (pão e vinho) e a Redenção.

A Eucaristia é memória da Paixão do Senhor: sua humanidade crucificada inclui também as misérias, os sofrimentos da história humana; nela ressoa o grito na cruz “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46) como grito de desespero da humanidade. Na Eucaristia o fogo do Espírito Santo preenche o abismo do abandono criado pelo pecado, e Jesus pode dizer: “Tudo está consumado”, o Espírito uniu o Filho ao Pai, e nós ao Pai.

Com a Ressurreição-Ascensão, a humanidade do Senhor tecida de nossa carne e de toda a carne da terra se encontra presente no seio da Trindade, com as feridas do Senhor. Dessas feridas luminosas vem-nos a vida.

Com o Pentecostes, nossa humanidade divinizada e divinizante se enche do fogo do Espírito que dá-nos a graça da Eucaristia: “A Eucaristia transforma em si mesma, de modo que os fiéis podem ser chamados deuses, pois Deus todo inteiro os enche inteiramente” (Máximo o Confessor, Mistagogia 21). Sem o Espírito que realiza a Eucaristia, a Igreja é um corpo social, o cristão um agente religioso. Com ela, somos Povo de Deus, existimos em Deus.

Pe. José Artulino Besen

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O BATISMO DAS CRIANÇAS – EPIFANIA DA GRAÇA

Criança brincando em São Tomé e Príncipe (Foto: Maria Pernadas)

Criança brincando em São Tomé e Príncipe (Foto: Maria Pernadas)

A Luz contemplada pelos Magos no Oriente levou-os a caminhar até Jerusalém, onde foram informados a respeito do que afirmava a Escritura sobre o Messias, e então seguiram para Belém, o pequeno povoado onde devia nascer. Ali encontraram um Menino e o adoraram (Mateus 2,9). Era um Menino, apenas. E o adoraram oferecendo-lhe presentes, para espanto até de Maria e José: os dons indicavam o Menino como Deus/incenso, Rei/ouro e homem/mirra. Silenciosamente chegaram, silenciosamente retornaram.

O gesto dos Magos foi totalmente gratuito, foram misteriosamente conduzidos pela estrela que colocou-os a caminho. Não discutiram: viram e seguiram.

A oração depois da Comunhão da Missa da Epifania é um tocante pedido para que também sejamos guiados por uma luz, luz celeste:

Ó Deus, guardai-nos sempre e por toda parte com a vossa luz celeste, para que possamos acolher com fé e viver com amor o mistério de que nos destes participar. Por Cristo, nosso Senhor”.

Dois são os pedidos: acolher com fé, viver com amor. É importante acolher o dom de Deus com amor e com afeto. Suplicamos a capacidade de crer contemplando uma luz que provoca admiração e não julgarmos a fé como fruto de conquista: é graça. Evidente que a fé e a Palavra se procuram no decorrer da vida, e devem ser acolhidas com maturidade crescente.

Há uma fé que nasce do encanto e acontece no batismo das crianças. Tantas vezes – em muitos casos com razão – se afirma que não devemos batizar as crianças, porque o batismo supõe a fé, e bebê não tem fé. Também se diz – e com razão – que a fé dos padrinhos e pais não conta, pois quem é batizada é a criança.

A Igreja sempre batizou crianças de famílias cristãs e batizou adultos após devida preparação. Certa visão de Igreja militante, formada pelo engajamento da vida conspira contra o batismo das crianças. Uma pena duvidarmos do batismo de crianças, esse imenso presente que a comunidade oferece aos nossos bebês e que tanta felicidade traz aos pais, padrinhos, familiares, à comunidade, especialmente aos pobres. O encanto revelado no olhar de cada criança nos repõe a alegria de viver, pois, quando nasce uma criança o mundo recomeça. Em diversas colocações, o biblista e membro da Pontifícia Comissão Bíblica, Pe. Ney Brasil Pereira, tem afirmado que o batismo da criança é o cordão umbilical que une a família católica à Igreja. Rompido esse, com facilidade abandona-se a pertença católica.

O batismo das crianças é a afirmação de que nada podemos colher e nada podemos acolher a não ser por dom divino. É quase o símbolo maior da gratuidade divina que não se cansa de presentear-nos.

O batismo faz o recém-nascido iniciar um caminho longo, longo como a vida, até o encontro com o Senhor. Assim aconteceu com os Magos: eram mestres em astrologia, foram levados pela leitura dos astros, mas, a estrela os fez chegar a Belém e adorar o Menino. A graça fez com que fizessem a passagem da superstição à fé. Não é assim com nossas crianças? A família pode até pensar que batismo traz saúde, faz a criança dormir, é feio ser pagão, é bom ter padrinho e, mesmo assim, o singelo gesto de batizar a criança é início de um caminho de fé. Não representa a posse da verdade, mas ilumina-lhe a procura, dá-lhe o ponto de partida.

Sepultados com Cristo, com ele ressuscitamos

A teologia paulina ajuda nossa compreensão do batismo das crianças, pois nos permite contemplá-lo além da fé, do “quem crer e for batizado será salvo”, tão usado para combatê-lo. Ao lermos Mateus 28, 18-20 é bem claro que o anúncio precede o batismo: fazer discípulos e batizar. No tempo da Reforma na Suíça, Calvino decidiu pelo batismo apenas de adultos, ficando para a criança a celebração de apresentação, como o fazem hoje os pentecostais. Mas, pergunto, estava equivocada a Igreja nos 15 séculos em que aceitou batizar crianças? É inútil? Aqui é de bom conselho lembrar que Calvino via no batismo um sacramento de ingresso na Igreja, e não um sacramento eficaz que comunica a graça, conforme ensinam e vivem as outras grandes Tradições eclesiais.

Há uma teologia batismal que faz agir além do critério “crer”, e se inserir na vida de Cristo, pois a Palavra de Deus é um rico jardim donde colhemos flores diferentes, mas todas belas flores. É a teologia de Paulo, que coloca o batismo em paralelo com a sepultura de Cristo: morremos com Cristo, fomos sepultados com Cristo, ressuscitamos com Cristo:

“Devemos permanecer no pecado para que haja abundância da graça? De forma nenhuma! Uma vez que já morremos para o pecado, como poderíamos ainda viver no pecado? Ou vocês não sabem que todos nós, que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Pelo batismo fomos sepultados com ele na morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim também nós possamos caminhar numa vida nova” (Romanos 6, 1-5ss).

O Cristo sepultado estava morto e, ressuscitando, venceu a morte. A criança é imagem dessa morte e pode receber a graça de ter a morte vencida pelo batismo, pelo banho sacramental. A pia batismal é a sepultura da qual ela ressurge na vida nova pela glória do Pai. Ressuscitada com Cristo, ingressa na família de todos aqueles que recebem a vida nova em Cristo. Não há méritos, não depende de conhecimento: é puro dom. Dom de Deus, da Igreja e da família. Aceitando dar ao bebê a graça da vida nova, e crendo que com Cristo ele vence a morte, o batismo não só é um dom possível, mas um presente que devemos oferecer-lhe logo após o nascimento, fazendo-o quase coincidir com o nascimento para a vida.

A criança batizada, projeto de pessoa adulta mergulhada no único corpo de Cristo, terá necessidade da família e da comunidade para amadurecer até o dia em que Deus chamá-la a si. Terá necessidade da comunidade para que assuma de modo pessoal, responsável o que lhe aconteceu no dia do batismo. E nesse caminho entra a importância única do sacramento da Crisma, desfigurado por tantos cristãos, mas inseparável da graça batismal. Através desse sacramento, confirma-se a decisão madura de continuar vivo em Cristo e viver como Cristo. Muito do que se pede para o batismo fica bem mais coerente pedi-lo na Confirmação. Ressuscitada com Cristo, a criança é conduzida pela comunidade à maturidade de Cristo.

Pe. José Artulino Besen 

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MENORÁ – O CANDELABRO SÍMBOLO DA ALIANÇA

Menorah – reconstruída segundo a descrição bíblica

Os sábios de Israel afirmam que toda a Torá (o Pentateuco) tem um significado; cada livro da Torá tem um significado; cada frase da Torá tem um significado; cada palavra da Torá tem um significado; cada letra da Torá tem um significado. Com essa convicção, os sábios querem manifestar a insondável profundidade da Palavra de Deus que, quanto mais entendida, mais falta entender, pois a Palavra de Deus é o próprio Deus. E, quem pode dizer que o domina pelo conhecimento? Pedimos na Liturgia das Horas: “Fazei que todos aqueles que se dedicam à busca da verdade possam encontrá-la, e, encontrando-a, se esforcem por buscá-la sempre mais” (III Semana,Vésperas da Segunda-feira). É fonte inesgotável.

Com o mesmo espírito devemos procurar descobrir as riquezas dos símbolos bíblicos, vencendo a tentação racional de breves e definitivas definições. Em si, os símbolos são sempre ricos e passíveis de muitas explicações; maior ainda a riqueza se forem encontrados nas Escrituras. E se manifestarem na Liturgia.

Dito isso, gostaria de levar o leitor a explorar, para seu alimento espiritual, um símbolo que hoje está presente em Israel, em nossas igrejas, em ilustrações e imagens: a Menorá, o Candelabro de sete braços com sete lâmpadas (Menorá significa lâmpada, candelabro). Sua descrição está no livro do Êxodo (25, 31-40), no momento em que o Senhor descreve a Moisés o modo de construir o Santuário onde serão guardadas as Tábuas da Lei: “O candelabro será polido, tanto a base como a haste. Seus cálices, botões e flores formarão uma só peça. Seis braços sairão de seus lados, três de um e três de outro”.

Moisés fez como o Senhor lhe ordenou e, na Terra prometida, a Menorá foi guardada no Templo de Jerusalém, sempre acesa com óleo puríssimo. Após o ano 70, quando o Templo foi destruído pelos romanos e Israel deixou de existir como Estado, foi levada a Roma pelos soldados e ficou exposta no Templo da Paz de Vespasiano. Depois, perdem-se as notícias e surgem mitos. Hoje, a Menorá é o símbolo do Estado de Israel.

O que significa a Menorá?

O Senhor não explicou o significado da Menorá, mas deu seu Espírito para que busquemos as riquezas de seu simbolismo, tanto judeu como cristão. Alguns significados:

Sábado e os outros dias da Criação – o Shabat – Sábado, o Sétimo Dia é sagrado porque celebra a conclusão da obra criadora de Deus. É o dia reservado para o repouso e para o louvor à obra que o Senhor viu que “era muito boa”. O Sábado é o último dia da semana: Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, pois nesse dia Deus repousou de toda a obra da criação (Gn 2, 1-3). A Menorá simboliza a semana: a lâmpada central é o Sábado, e os seis braços os seis dias da Criação.

Ao entrar no Templo e, hoje, nas Sinagogas, contemplando a Menorá o povo judeu nele vê a obra do Senhor e louva sua sabedoria e beleza.

Árvore da Vida – “E o Senhor Deus fez brotar do solo toda sorte de árvores de aspecto atraente e de fruto saboroso, e, no meio do jardim, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2, 8-9). Comer desse fruto é a decisão de querer ser igual a Deus, decidir por conta própria o que seja bom ou mal. A Árvore da Vida, em algumas ilustrações, finca as raízes nos céus e seus ramos cheios de frutos se estendem generosamente pela terra. Unidos ao Senhor teremos sempre o alimento que dá a vida.

A Menorá também significa a Árvore da Vida. Ela recorda ao crente que não viverá separando-se do Criador.

Menorá – sua mais antiga representação, no Arco de Tito em Roma. Após o incêndio do Templo de Jerusalém no ano 70, foi levada pelos soldados romanos.

Sarça ardente – a descrição da Sarça ardente que Moisés contemplou no Monte Horeb é uma das mais ricas de toda a vida mística, vida em comunhão com Deus: o Senhor é o Fogo que tudo consome mas não é consumido, é fogo que atrai irresistivelmente mas não pode ser tocado; do Senhor somente podemos nos aproximar com os pés descalços, em profunda adoração. Apareceu a Moisés o anjo do Senhor numa chama de fogo, do meio de uma sarça. Moisés notou que a sarça estava em chamas, mas não se consumia (Ex 3, 1-6) e recebe a ordem do Senhor para libertar seu povo.

A Menorá, Árvore da Vida, é também a Sarça ardente, a Vida que arde de amor pelo povo em busca da libertação. Mas, o povo somente terá a liberdade enquanto ficar descalço diante do Senhor, enquanto adorá-lo em espírito e vida.

Símbolo cósmico – o candelabro tem sete braços simboliza os sete dias da Criação e também simboliza a autoridade do Criador sobre os cosmos, expressa a totalidade. Desse modo, contando o último braço à esquerda e o último à direita e seguindo para o centro, a Menorá contempla o céu e a terra – o norte e o sul – o oriente/leste e o ocidente/oeste. Na lâmpada ao centro o Espírito de Deus pairando sobre o universo.

Corpos celestes – os estudiosos de astronomia, no tempo da Antiga Aliança, contemplaram na Menorá os corpos celestes deles conhecidos: ao centro, o Sol e, nos braços laterais: a Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

O Espírito do Senhor e seus dons – por sua vez, outros rabinos afirmam que, sem sombra de dúvida, a Menorá conduz à visão de Isaías (11, 2), completando a revelação do Senhor a Moisés, nessa ordem: 1 – O Espírito do Senhor (braço central) – 2 e 3 – Espírito de Sabedoria e Inteligência (a cada lado do braço central) – 4 e 5 – Espírito de Conselho e de Fortaleza – 6 e 7 – Espírito de Conhecimento e de Temor de Deus.

Nós cristãos, seguindo essa revelação, contemplamos na Menorá os sete Dons do Espírito Santo.

Menorá – Paixão e Glória do Senhor – Jesus Cristo é a plenitude da Aliança, tudo nele encontra a plenitude no mistério da Redenção, tudo foi feito por ele, com ele e nele. A Profissão de Fé paulina, num dos mais antigos textos no Novo Testamento (Fl 2, 5-11), explicita a Paixão e Glória do Senhor com os termos de descida e subida.

Com esse entendimento, os braços da Menorá nos trazem a história da Redenção da Nova Aliança. Ao centro contemplamos a Glória de Deus e, a partir da esquerda, o mistério da descida (kênosis): despojou-se da condição divina – assumiu a forma humana de escravo – humilhou-se até a morte de cruz. E, da direita para o centro, o mistério da subida (glória): por isso Deus o exaltou acima de tudo – deu-lhe um Nome diante do qual todos se prostrem – e proclamem Jesus Cristo é o Senhor.

No livro do Apocalipse (1, 16), João contempla o Filho do Homem que “na mão direita tinha sete estrelas … e seu rosto era como o sol no seu brilho mais forte”: Jesus carrega a Menorá, e Jesus é a Menorá, unindo numa só as duas Alianças.

E com isso, apenas iniciamos a meditar o símbolo da Menorá, do Candelabro dos setes braços! Nele contemplamos a plenitude do Ser divino, do ser humano e da Criação. E ainda falta muito para nos aprofundarmos em sua riqueza. A vida é breve para tirarmos toda a água desse poço que mata nossa sede.

Pe. José Artulino Besen

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A LITURGIA, MISTÉRIO DA IGREJA – PALAVRA E EUCARISTIA

I – INTRODUÇÃO

O Concílio Vaticano II (1962-1965), após 50 anos de sua abertura, continuará pelas próximas décadas a destilar, lenta e fecundamente, sua riqueza na vida da Igreja. Certas leituras apressadas da vida da Igreja podem chegar à conclusão de que o Concílio foi traído e, de modo todo particular, teve o impacto diluído no longo pontificado de João Paulo II (1978-2005). A esses seria recomendável lembrar que 40 anos após o encerramento do Concílio de Trento (1542-1563) – a menina dos olhos da veneração dos conservadores e a gata borralheira dos progressistas – São Roberto Belarmino escrevia ao Papa pedindo-lhe que aplicasse as decisões conciliares! Fizeram-no até bispo de Cápua para tê-lo longe de Roma. Isso para dizer que os grandes lances renovadores de uma instituição multissecular e multifacetada como a Igreja Católica demandam anos – e muitas décadas – para serem absorvidos em seu corpo espiritual e organizacional.

Nem sempre é oportuno buscar coincidências em datas, mas, olhando-se o progresso na aprovação e promulgação dos documentos conciliares, um fato me chamou a atenção: o desenvolvimento cronológico da promulgação das quatro Constituições (SC, LG, DV, GS). A primeira – a Sacrosanctum Concilium-SC, sobre a Sagrada Liturgia (4/12/1963) – pareceu a mais atraente e a mais fácil. A grande palavra pós-conciliar foi a da renovação litúrgica e foi também a que mais problemas causou. Depois ofereço uma interpretação para o fato. Seguiu-se a Constituição dogmática Lumen Gentium-LG sobre a Igreja (21/11/1964), com a feliz insistência na Igreja Povo de Deus, superando uma eclesiologia tripartite, nem bíblica nem patrística, de Igreja hierarquia-religiosos– leigos. O tema que parecia ser o mais fácil antes do Concílio, tornou-se o mais difícil e renovador e deu-nos a Constituição Dogmática Dei Verbum-DV sobre a Revelação Divina (18/11/1965), superando a dicotomia Escritura e Tradição.

E, na véspera do encerramento da assembléia conciliar, parecendo um presente de boa vontade oferecido ao mundo, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes-GS sobre a Igreja no mundo de hoje (7/12/1965). Favoreceu até uma leitura simples e triunfante: a Igreja se reconciliava com o mundo moderno, do qual assumia as alegrias e as esperanças.

Na homilia de encerramento (7/12/1965), Paulo VI citou o desafio que o humanismo laico e profano apresenta(va) ao Concílio e, portanto, à Igreja: “A religião do Deus que se fez homem encontrou-se com a religião (porque tal é) do homem que se faz Deus”. Diante de tamanho desafio, deduz o Papa que o caminho conciliar não é o do fácil anátema, combate, luta, e sim, o do bom samaritano: “Um imenso amor para com os homens penetrou totalmente o Concílio”.

Com esse mesmo espírito, no dia seguinte, festa da Imaculada Conceição de Maria, protótipo da história e destino humanos, declarada Mãe da Igreja, era encerrada a assembléia conciliar. Papa Montini, um homem reconciliado com a história e avesso a simplismos modernizantes, negação da modernidade, ao falar nesse “imenso amor para com os homens que penetrou totalmente o Concílio”, olhava para os passos dados na aula conciliar: tudo era parte constitutiva de um Deus que se faz homem, diante de um homem que se faz Deus. As quatro Constituições do Vaticano II se espelham no mistério da encarnação para abrir ao homem o mistério da divinização: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

A antropologia de João Paulo II, uma cristologia

O Papa Karol Wojtylla (1978-2005), último bispo participante do Concílio foi um papa de talhe espiritual. As abundantes beatificações e canonizações são apenas a face mais visível de sua atividade para o renascimento da vida espiritual e mística na Igreja, superando o devocionismo e a ascese tradicional. Ao findar do Concílio, a mística católica passava por uma fase de descrédito, talvez por causa de uma visão distorcida do próprio conceito que, não sendo visto como comunhão de Deus com o homem e do homem com Deus, presta-se a interpretações misticistas e até neuróticas.

Paulo VI levou um susto quando o cardeal carmelita Atanásio Ballestrero sugeriu-lhe proclamar Teresa D’Ávila doutora da Igreja. Convenceu-se, porém, e aceitou. Para não favorecer demais os carmelitas, que já tinham João da Cruz, proclamou também a dominicana Catarina de Siena, as duas em 1970. João Paulo II deu o mesmo título a outra carmelita, Teresinha do Menino Jesus. E as comportas foram abertas e ninguém mais segura a grande explosão de luz com que os místicos iluminam a história. A vasta bibliografia depois publicada – felizmente também no Brasil – oferece-nos a oportunidade de mergulhar nesse insondável mistério da união com Cristo. Repete no mundo católico aquilo que Paissy Velichkovsky (1722-1794) fez para a Ortodoxia eslava que se estava empobrecendo num espiritualismo racionalista e ritualista, traduzindo para o eslavônio uma seleção de textos patrísticos com o nome de Filocalia – O amor do Belo. Uma obra poderosa que renovou o mundo monástico e leigo eslavo: em 1810 havia 452 mosteiros na Rússia; em 1914, 1025!

O mesmo vale para as atuais iniciativas editoriais que nos põem em contato com os textos dos místicos e com os Santos Pais: todos os grandes lances renovadores, na Igreja, são fruto de correntes de santidade..

O talhe espiritual de João Paulo II é um talhe antropológico: sua antropologia é a da GS 22. Este capítulo da Gaudium et Spes oferece a hermenêutica dos documentos do Papa atual: “A doutrina do Concílio trouxe novos aprofundamentos ao conhecimento da natureza da Igreja, abrindo os corações dos crentes a uma compreensão mais atenta dos mistérios da fé e das próprias realidades terrestres na luz de Cristo. N’Ele, Verbo feito carne, revelou-se realmente não só o mistério de Deus, mas também o próprio mistério do homem. N’Ele, o homem encontra redenção e plenitude”, escreve na Carta Apostólica Mane Nobiscum, proclamando o Ano Eucarístico. Somente em Cristo o homem pode se realizar em plenitude: Redemptor Hominis (O Redentor do Homem), foi sua encíclica programática.

Com isso, podemos afirmar que seu longo pontificado buscou aprofundar a teologia conciliar insistindo em seus quatro temas centrais: a Liturgia (SC), que gera a Igreja (LG) com a Palavra (DV), e a alimenta para construir o homem novo, à imagem de Cristo (GS).

O Ano Eucarístico (2009-2010) e a Liturgia

Muito se fez pela renovação litúrgica e, o que é normal em toda grande obra, houve acertos, exageros, retrocessos, boa vontade e sempre a capacidade de retornar às fontes. Deu-se muito valor ao casamento entre liturgia e linguagem moderna, infelizmente não se tendo prestado a devida atenção à renovação da assembléia cristã. Tem-se visto liturgias angustiadamente procurando agradar aos participantes, como se esse fosse o caminho: a liturgia é um mistério e não tem como finalidade agradar outro que não a Deus!

Se olharmos o Capítulo II da Sacrosanctum Concilium, veremos como os Bispos conciliares trataram do tema, na mais perfeita consonância com a tradição litúrgica da Igreja, iniciando pelo ápice e caminhando para aspectos menores (mas importantes): o Mistério Eucarístico – os outros sacramentos e sacramentais – o Ofício Divino – o Ano Litúrgico – a Música sacra – a Arte sacra e alfaias litúrgicas.

Esta é a ordem teológica. Os mais distraídos acham que se deva começar pelo último ou penúltimo tema, mais impressionáveis…. Talvez esse equívoco seja a causa de muita esterilidade celebrativa e dê margem ao saudosismo dos pontificais cerimoniosos.

João Paulo II, a partir da Tertio millennio foi concluindo seu magistério, cujo centro é Cristo e o homem, com a Eucaristia, fonte e ápice da Igreja. Há uma lógica profunda em seus documentos, lógica essa que ele mesmo descreve na Mane Nobiscum: a encíclica Redemptor hominis – a Tertio millennio adveniente – a Carta apostólica Dies Domini (o domingo como dia do Senhor, da Eucaristia) – o Jubileu do Ano 2000 (com o Congresso Eucarístico) – a Carta apostólica Novo millennio ineunte (em que sugere a perspectiva de um empenho pastoral fundado na contemplação do rosto de Cristo, no âmbito duma pedagogia eclesial capaz de tender para a «medida alta» da santidade, procurada especialmente através da arte da oração) – a Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae (retoma o discurso da contemplação do rosto de Cristo a partir da perspectiva mariana), a Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia (com ela ilustrando o mistério da Eucaristia na sua ligação indivisível e vital com a Igreja) – o Ano da Eucaristia (num horizonte que se foi enriquecendo de ano para ano, embora permanecendo sempre bem assentado sobre o tema de Cristo e da contemplação do seu Rosto). A Eucaristia é a fonte e o cume do pontificado wojtylliano, pois o é também da vida da Igreja e de cada um de nós.

O Mistério da Liturgia, Mistério de Santidade

Os teólogos espirituais não foram convidados ao Concílio. Foi, por isso, uma grata surpresa a Constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja ter dedicado o capítulo V ao tema da santidade. Outra surpresa, ter afirmado que a vocação à santidade é universal, vem do batismo e não é apanágio dos religiosos ou de um ou outro leigo heróico. E, maior surpresa ainda, foi ter afirmado que o primeiro meio de santificação é a Palavra de Deus, seguindo-se os sacramentos e outros. Surpresa, porque os autores espirituais da época não falavam da Palavra como meio de santificação. Então, como isso aconteceu? Os autores são conformes em afirmar que, além do Espírito Santo, a grande influência foi dos biblistas, entre eles Georges Auzou, que falava no “sacramento da Palavra”. A fonte dos Sacramentos é a Palavra de Deus. Sem a Palavra, o sacramento torna-se rito mágico. E, quando falamos em Sacramento queremos nos referir à Eucaristia, síntese de toda ação divina, pois nela recebemos a Palavra e a Jesus Cristo, Palavra feito carne.

De lá para cá, desenvolveu-se uma sólida teologia espiritual, rica, ecumênica, missionária, comprometida. Uma teologia espiritual onde a tradição ocidental se enriquece com as duas outras tradições de santidade na Igreja: a oriental e a evangélica, em mútua fecundação.

Nas páginas seguintes, quero oferecer ao leitor uma experiência de teologia sacramental que tem como centro o Batismo-Eucaristia e que é fruto do estudo da espiritualidade litúrgica oriental. Ofereci a estudantes do ITESC este tema em forma de seminário, partindo dos ícones e festas bizantinas. Servi-me do texto num curso de teologia para leigos sob o tema Liturgia e, surpresa minha, foi grande o proveito e entendimento: o mistério não é obscuro, é sempre Luz. Igualmente publiquei estes temas no Jornal da Arquidiocese de Florianópolis, partindo do “logo” do 15o Congresso Eucarístico Nacional (celebrado em Florianópolis no ano de 2006) e também na REVISTA ENCONTROS TEOLÓGICOS, Florianópolis, no. 3, ano 19, 2004.

Espero que signifiquem para o eventual leitor ao lê-los a alegria que me deram ao escrevê-los, agora atualizados no tempo e separados como pequenos artigos.

Pe. José Artulino Besen

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II – VINDE, PAI DOS POBRES!

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O Batismo e a Eucaristia nos levam ao centro do mistério da vida cristã: o Cristo. A água e a hóstia são geradas na cruz onde está o Senhor e Salvador, de cujo lado aberto correm sangue e água, os dois sacramentos que geram o cristão e a Igreja. A celebração do mistério sempre abre uma janela para a eternidade, permitindo-nos contemplar o que acontece além das condições do espaço e do tempo. Neste primeiro momento queremos abrir essa janela e contemplar o Espírito Santo. Tudo é obra do Espírito: o Pai é o ventre fecundo, o Filho a obra-prima e o Espírito Santo é o artista. Ele é verdadeiramente o artista da criação e da transformação de cada criatura em filho de Deus.

O Espírito Santo está em tudo e em todos

Ele é quase invisível, não lhe conhecemos o rosto: a obra leva a assinatura do artista, mas não lhe mostra a face. O Espírito está em todo o universo e em todos os corações, pois é o artista com o qual o Pai esculpe sua obra. É representado mais por símbolos de sua ação: o fogo que abrasa, que purifica o ouro, o vento impetuoso que tudo transforma por onde passa, a brisa suave indicando a presença do amante. E a pomba. Segundo o biblista Pe. Ney Brasil, assim como o Filho é simbolizado pelo manso cordeiro, de modo análogo o Espírito o é pela silenciosa, graciosa e pacífica pomba. Tudo na Trindade é amor, suavidade, paz, delicadeza.

Ele gera a unidade criando a diversidade: no Pentecostes o fogo era um só, mas se repartiu em doze línguas: cada Apóstolo recebeu a sua e todos se entendiam, pois uma era a fonte da comunicação, o Espírito. De uma Igreja o Espírito gerou doze igrejas: o artista ama a variedade harmoniosa. No mundo, cada igreja expressa uma cultura, um povo, unindo-as na harmonia do amor. Uma Igreja ou comunidade que não aceita a variedade não é espiritual: é obra material de algum artista humano.

O Espírito é a fonte da liturgia

A vida cristã é uma grande liturgia, a criação expressa a liturgia trinitária, a Eucaristia expressa a liturgia pascal da Ceia. Através do Espírito, o amor divino se estende a toda a vida humana, tudo penetrando: o coração, o ser pessoal, os afetos, a cultura, as relações pessoais, a sociedade.

Sem o Espírito Santo não existe liturgia: existem cerimônias vazias, padres bem enfeitados em seus paramentos e comunidades sentindo-se cada vez mais esterilizadas na vida de fé, porque privados do gerador da vida, o Espírito do Senhor.

A Trindade despe-se de sua glória e reúne em seu seio pecadores e santos, porque o Espírito gera misericórdia. Quando contemplamos o imenso afresco de Michelangelo na Capela Sistina, representando o Juízo final, estamos diante de uma obra humana: quem pode garantir que em algum dia acontecerá aquela cena dolorosa e apavorante de pecadores atirados no inferno? Será que o Espírito Santo não tocará todos os corações? A Trindade de André Rublev é mais espiritual: em seu inspirado ícone, coloca as Três Pessoas divinas hospedando toda a humanidade no tesouro eucarístico.

Vinde, Pai dos pobres!

Esta antiqüíssima prece cristã (estrofe do hino “A nós descei, divina luz”) manifesta a pobreza divina: Deus é pobre (Ele nada tem, Ele “é”: Eu sou aquele que é – Ex 3,14); o Filho é pobre, tudo recebe do Pai, que é “maior” do que Ele (Jo 14,28), recebe e nos dá o Espírito, o Pai dos pobres. É pobre porque é amor puro que se doa, com isso tornando possível a liturgia eucarística onde se faz alimento, pão .

E isso é fundamental: na liturgia, o Espírito faz do Filho pão para os pobres em todos os sentidos: espiritual, material, moral. Ele vai além: torna Deus pobre e o pobre Deus: “Tudo o que fizestes a um desses pequeninos é a mim que o fizestes…” (Mt 25,40). No Espírito, Jesus assume todo o sofrimento humano como seu, assume nossa morte e nos dá a ressurreição.

É conhecida a palavra de São João Crisóstomo, querendo unir a liturgia eucarística à liturgia da vida: “o sacramento do altar é o sacramento do irmão; deixamos o altar da eucaristia para ir ao altar do pobre. Os dois altares são inseparáveis, porque a finalidade da liturgia é gerar a Igreja da compaixão, à imagem de Deus. A Igreja se transforma na sarça ardente, da qual ninguém pode se aproximar sem “ver a miséria do povo e ouvir seus gritos” (cf. Ex 3,7). Deus é inacessível a quem não se deixa trabalhar pelo Espírito Pai dos pobres.

O liturgista Jean Corbon (1924-2001) nos lembra que os pobres caminham para debaixo do altar na grande liturgia eterna, conforme lemos no Apocalipse (6,9ss): o altar do holocausto se transforma no altar dos pobres, da compaixão, onde gritarão os injustiçados: “Até quando, Senhor, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?”.

Ele, o Espírito Santo, é chamado de grande Consolador: recria o coração dos pobres na coragem de viver, recria no coração dos ricos a compaixão que leva a se esvaziar, ser eucaristia, pão repartido. Na liturgia, indicando cada pessoa ao nosso lado, o Espírito Santo falará em seu silêncio: “Ele está no meio de nós”.

Pe. José Artulino Besen

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III – A LITURGIA – PALAVRA E SACRAMENTO

Palavra e Sacramento

Por mais bela que seja a celebração eucarística, por mais simbólicos que sejam os sinais realizados na sucessão dos ritos, permanecemos numa celebração religiosa sim, mas não ainda cristã. É o grande perigo do ritualismo, da crença mágica de que uma cerimônia comunica a graça por ser bem feita.

Para iluminarmos os sinais e atingirmos o mistério há um só caminho: a fé. A fé é o encontro de duas liberdades: a de Deus que se revela com a do homem que, por obra do Espírito Santo, crê na revelação de Cristo. O Pai se entrega a nós através do Filho, no Espírito: é esse o sentido da Palavra de Deus proclamada em cada Liturgia.

O Sacramento se alimenta da Palavra

O encontro entre Deus e o ser humano, na Eucaristia, pode ser expresso por duas Palavras reveladoras do conteúdo e da eficácia do mistério: “Vinde e vede!” e “Ele está no meio de nós!”. Por obra do Espírito, o revelador-realizador dos mistérios, a Liturgia da Palavra dá eficácia à Liturgia eucarística.

A Liturgia cristã, deste modo, ultrapassa o culto do Antigo Testamento e todos os outros cultos religiosos. Seria arrogante esta afirmação? A resposta está na Encarnação do Filho que se despojou em dois momentos decisivos da história: no Natal, deixando a condição divina para assumir a condição humana de servo; na Cruz-Ressurreição despojando-se da própria vida para dar-nos a Vida. O culto cristão é a memória atual desta verdade, novo absoluto na história humana.

A salvação operada por Cristo tem um objetivo: a divinização do homem e a humanização de Deus. O corpo sofrido-glorioso de Cristo torna-se o sacramento da glória de Deus e da salvação da humanidade, segundo a afirmação de Santo Irineu de Lião: “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a contemplação de Deus” .

No primeiro momento, aceitamos isso movidos por nossa liberdade de crer, pela liberdade da fé que nos leva a receber a revelação de Cristo, pelo Espírito Santo, na Palavra. No momento seguinte, o Espírito transforma em Cristo o que ofertamos e, momento último, comungamos o que foi consagrado, o Corpo glorioso do Senhor: a vida divina penetra todo o nosso ser e o nosso ser penetra a vida divina. É a comunhão sacramental.

Uma só Liturgia – a celeste e a terrestre

O Livro do Apocalipse nos ilumina a respeito do mistério sacramental: rasgam-se as cortinas dos céus e a assembléia terrena contempla a liturgia celeste: “Eram milhares de milhares, milhões de milhões e proclamavam em alta voz: ‘O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor’. Ouvi também todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo o que neles existe, e diziam: ‘Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre’” (Ap 5,11-30).

O Espírito nos ensina que, nos Sacramentos, participamos da Liturgia celeste e ela participa da Liturgia terrestre, no diálogo fecundo entre o céu e a terra, entre o divino e o humano, entre o Pai e nós, seus filhos, divinizados por seu Filho. Caem as muralhas que nos separam de Deus e a cidade terrestre saboreia a cidade celeste. Não há nenhum exagero em afirmarmos que participar da Liturgia é já viver a vida celeste.

Negar essa realidade seria tirar do Sacramento sua essência e transformá-lo em estéril cerimônia que pode, emocionalmente bem conduzida, levar a um encontro estético-sentimental consigo mesmo, mas nunca com o Senhor da Vida. A Eucaristia é louvor e glória da graça divina, e deificação do homem (cf. Ef 1,1-10).

Deste modo, adquire toda a verdade de sentido a Trindade que nos fala: “Vinde e vede, o homem está no meio de nós!”, e nós falamos: “Vinde e vede: Deus está no meio de nós!”. Pela Encarnação, Deus vem morar no meio de nós; na Liturgia, nós vamos morar no seio da Trindade. O mistério da descida divina inclui o mistério da subida humana: “Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu… . Deus veio morar no meio deles. Eis que faço novas todas as coisas” (cf. Ap 21,1-5a).

Pe. José Artulino Besen

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