CÔNEGO DR. CÉSAR ROSSI

CÔNEGO DR. CÉSAR ROSSI (arquivo Jair Silveira)

CÔNEGO DR. CÉSAR ROSSI (arquivo Jair Silveira)

O Padre Doutor César Rossi nasceu em Subiaco, Itália em 9 de janeiro de 1879. Oriundo da Abadia Nullius de Subiaco, estava incardinado na Diocese suburbicária de Tívoli, onde foi ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1902. Nas pegadas de outros padres que procuravam campo missionário, chegou ao Brasil em 1908.

Sua missão não foi entre os colonos italianos, atendidos pelos bons padres do Norte da Itália, e que não viam com bons olhos um padre do Sul. Dedicou sua vida sacerdotal ao povo açoriano. Ao chegar, em 1908, foi nomeado vigário paroquial de Nossa Senhora do Desterro de Florianópolis, primeira escola da língua portuguesa. Em 16 de novembro de 1910, assumiu como vigário paroquial de Santo Antônio dos Anjos de Laguna e encarregado de Nossa Senhora das Dores de Jaguaruna.

Fez o exame canônico previsto na Casa Paroquial de Tubarão, no dia 13 de fevereiro de 1911, perante os sacerdotes Frederico Tombrock, Francisco Xavier Giesberts e João Francisco Bertero. Aprovado pelo profundo conhecimento de Teologia Moral.

Em 14 de fevereiro de 1911 foi provisionado pároco de São João Batista do Imaruí e encarregado do Senhor Bom Jesus do Socorro de Pescaria Brava. Pe. Rossi mergulhou no vasto campo das antigas paróquias do litoral Sul, bastante carentes de atendimento sacerdotal e muito vastas.

Em 1º de dezembro de 1917 ficou pároco de Santana do Mirim e encarregado de Santana de Vila Nova, duas paróquias do século XVIII. Com a saída do português e carismático  Pe. João Antônio Fidalgo, Garopaba passou a ser assisti­da por ele, assumindo como vigário Interino em 4 de maio de 1918, dela excluído o 2º. Distrito de Paulo Lopes, que foi anexado à Paróquia de Santo Amaro.

Em 02 de fevereiro de 1922, foi nomeado pároco de São Joaquim de Garopaba, e encarregado de Santana do Mirim e Santana de Vila Nova. A partir de 1925, foi nomeado pároco de Santana do Mirim, sendo Garopaba e Vila Nova anexadas a esta Paróquia. Foi costumeira essa mudança de sede para a residência do vigário, tanto por motivos práticos de estradas e sustento como por alguns atritos com o povo. O trabalho, porém, continuava o mesmo.

Devido à vasta seara que lhe foi confiada, pobreza financeira e de meios de transporte, não se poderia esperar dele uma assistência mais assídua. Seu primeiro traba­lho foi realizar a reforma da igreja matriz de São Joaquim de Garopaba, inaugura­da em dezembro de 1922, com a festa do Sagrado Coração de Jesus.

Mas, seu grande desejo era construir uma torre para a igreja matriz, pois achava a existente, adequada ao estilo colonial, muito pequena e sem beleza. Em 1928 apre­sentou planta da torre ao Arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira: nem foi  aprovada, nem recebeu outra em troca. Depois, com a mesma planta de antes, agora aprovada, em 1930 iniciou a construção da torre. Construiu-se uma olaria para preparar os tijolos necessá­rios e, embora a empresa saísse caro, a igreja teve ajuda considerável. O Engenheiro Álvaro Catão, Gerente da Companhia Docas de Imbituba, doou toda a cal. Depois de ter os materiais necessários completou a obra, que custou diversos contos de réis.

Construiu também a bela escadaria que leva à igreja, a mesma hoje existente, pois o acesso anterior era por trás da igreja. A inauguração da torre e da reforma geral da matriz deu-se no Natal de 1937: novo assoalho, vidraças, porta lateral, nova pintura a óleo da Capela-mor, forro e altares, púl­pito, confessionário e escada de coro.

Do mesmo modo, reformou e deu novo aspecto à igreja matriz de Santana do Mirim. Sempre havia a dificuldade dos recursos humanos e financeiros, mas não lhe faltava a perseverança.

Os trabalhos pastorais em Garopaba

De nenhum modo era fácil para o Pe. César Rossi, italiano de formação monástica, canonística e romana, adaptar-se ao mundo religioso açoriano. Houve conflitos, em Garopaba aqui e em outros lugares. Indo além do catolicismo popular, levou adiante a recomendação da Igreja e instituiu o Apostolado da Oração e a Pia União das Filhas de Maria, movimentos mais aceitos pelas moças e mulheres.

Em 1921 foi projetada a criação da Irmandade de Nossa Se­nhora dos Navegantes, nos moldes tradicionais. Nesse ano, pela primeira vez, realizou-­se a Festa dos Navegantes. Pe. Rossi queixa-se da “desorganização do pessoal do mar”.

Em 6 de novembro de 1932, foi lavrada a Ata de fundação da Devoção a Nossa Senhora dos Navegantes, não como Irmandade, segundo o desejo do povo. Pe. Rossi organizou-a nos moldes das novas devoções, mais dadas à prática dos preceitos religiosos, talvez por isso não prospe­rando espontaneamente nas regiões litorâneas. Para o açoriano, religião não se confundia com obrigações, compromissos se­manais e sim, com devoções, sentimento, festa, imponência, visualidade. As Irmandades ofereciam melhor es­tas características.

Igreja de São Joaquim de Garopaba, com a torre e escadaria construídas pelo Pe. César Rossi

Igreja de São Joaquim de Garopaba, com a torre e escadaria construídas pelo Pe. César Rossi

Era esse o compromisso da Devoção dos Navegantes: – Todo pescador devo­to de Nossa Senhora dos Navegantes será obrigado a se confes­sar e comungar pelo menos duas vezes por ano.

Seria demais exigir estas obrigações de um homem do mar, pois era uma devoção para levar a Mãe de Deus ao alto mar para protegê-lo e a seu barco, e não para prendê-lo a deso­brigas. A Devoção não prosperou, e a festa, sim. Atualmente é celebrada a 2 de fevereiro mas, no início, a festa estava ligada à pesca da tainha. O pescador saía para o mar e pescava a tainha. Na volta, dava o seu “quinhão” a Nossa Senhora. A cada ano uma pessoa ficava encarregada de recolher o “Quinhão de Nossa Senhora dos Navegantes”: cada barco dava uma percentagem da pesca da tainha a Nossa Senhora dos Navegantes. Esta percentagem de peixe depois era vendida e o dinheiro aplicado na realização da festa. O dinheiro que sobrava era usado na compra de “bens para a Santa”. Devoção combinava com festa, não com obediência ao vigário.

Pe. César Rossi e seu temperamento

Ponto importante, não esquecido por aqueles que o conheceram: Côn. Dr. César Rossi era defensor dos pobres em ques­tões de terra. O Confessionário era um verdadeiro consultório para questões judiciais. Chegou a aconselhar os pobres a que ocupassem terras ociosas. Em tempos tão remotos, usou sua formação jurídica para a defesa do povo sofrido e maltratado pelos chefetes políticos.

Bem é verdade que o Pe. Rossi viveu continuamente em atritos com alguém das três paróquias a que atendia (Mirim, Garopaba, Vila Nova). Em Garopaba, brigas com o Delegado, iniciada na Sexta-feira Santa de 1927, quan­do, à meia-noite, um grupo de rapazes repicou festivamente os sinos. Entre eles, parentes do Delegado. Do púlpito, o padre chamou. todos ao cumprimento dos deveres! O Delegado desgostou-se, e vieram os atritos.

Abundam os abaixo-assinados pedindo sua retirada de alguma de suas Paróquias. Parecia ser um pouco destemperado nas atitudes e palavras: entrou na igreja de Vila Nova brandin­do um chicote, em Garopaba chamou a população de “canibais da África”, disse que “a autoridade policial leu telegrama vira­do”, “não entende português…”; em Araçatuba foi insultado por J. B., que, à porta da igreja, o esperou armado de faca; chamou as mulheres de Vila Nova de “galinhas chocas, caipi­ras, calças largas, bombachas”; gerou sindicância policial em 1931… Além de italiano, Pe. Rossi tinha sangue meio napolitano.

Natural que, a um abaixo-assinado pedindo a retirada, se­guia-se outro pedindo a permanência. O Arcebispo equilibra­va-se o melhor possível entre um e outro. O povo, em geral, reconhecia a dedicação do padre, e perdoava seus nervosismos e “malcriações” e uma fala com forte sotaque italiano, nem sempre bem entendida.

O longo sofrimento de um padre dedicado

Pe. Rossi visitou a Itália em 1921 e 1938. Em 21 de dezem­bro de 1940, foi nomeado Cônego honorário do Cabido Metropo­litano de Florianópolis.

Sua saúde entrou em declínio a partir de 1940. Surgiram sintomas de arteriosclerose, doen­ça que o levou a uma velhice triste e deprimente, acompanhando-o até o túmulo. Em 25 de junho de 1945, apenas para consolá-lo, foi nomeado pároco de São Joaquim de Garopaba, e encarregado de Santana do Mirim e Santa de Vila Nova. O titular era Pe. Paulo Hobold, homem zeloso, talvez não disponível para cuidar de um pobre padre estrangeiro e doente.

A partir de 1946 a doença é sempre mais tirânica. Em certa época foi proibido de celebrar a Eucaristia. Em 20 de outubro de 1946, em Garopaba, batizou 6 crianças sem usar água: são rebatizadas pelo Pe. Paulo Hobold em 2 de no­vembro. Foi aconselhado a retirar-se para Azambuja ou Urussanga, sob ameaça de lhe serem retiradas as honrarias eclesiásticas de que estava revestido. Não aceitou, pois seu coração estava junto daquele povo há quase 40 anos.

Nem sempre pôde contar com a caridade cristã para ampará-lo, pois, preocupações curiais fizeram desse velho doente um perigo para a integridade da fé católica. Chora naquele seu telegrama: “Rogo Vossência se digne informar-me posso rezar Missa minha querida Paróquia de Mirim”, expedi­do a 24 de novembro de 1947. Na frieza dos Arqui­vos também se percebe a frieza dos corações… a exemplo da Carta da Cúria torcendo para que voltasse de uma vez para a Itália, e não causasse mais transtornos por aqui… Estava nos seus últimos anos de vida…

Não tendo para onde ir, passou os 4 derradeiros anos da existência terrena internado no Hospital de Laguna, pagando as despesas com a entrega de seus bens pessoais. Ali, pobre e solitário, faleceu em 11 de março de 1953. Na véspera, Pe. Gregório Locks ministrara-lhe a Unção dos Enfermos. Pouco antes havia completado 74 anos de idade e 51 de sacerdócio e 45 de missão no Brasil. Foi sepultado no cemitério da Igreja de Sant’Ana de Mirim.

Assim se expressou um velhinho da Encantada, in­terior de Garopaba: “Ele morreu pobre, abandonado, com sau­dade de alguém para conversar!”

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por João Pacheco de Souza em 31 de outubro de 2014 - 20:54

    Precioso trabalho!

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