MONSENHOR FRANCISCO XAVIER GIESBERTS

Pe Francisco Xavier Giesberts

Francisco Xavier Giesberts nasceu em Straelen (Renânia, Norte da Vestfália), Alemanha, em 18 de novembro de 1873. Ingressou na Sociedade do Verbo Divino (Verbitas), e nela foi ordenado sacerdote em 15 de maio de 1898. Nutrindo vocação missionária veio para o Brasil em 1900.

Foi indicado para Palmeiras, no Paraná, ali sendo pároco de 1903 a 1906.

Sabendo das necessidades da Igreja em Santa Catarina, a convite de Pe. Francisco Topp deixou a vida religiosa verbita, ingressando no clero diocesano em 1906. Pe. Topp era pároco do Desterro e quis tê-lo consigo, de modo que foi nomeado vigário paroquial do Desterro em 30 de março de 1907. Isso significava trabalhar em toda a Ilha de Santa Catarina, nas suas sete paróquias (Desterro, Trindade, Lagoa, Canasvieiras, Ribeirão, Rio Vermelho, Santo Antônio).

Primeira missão no Sul catarinense

Em 16 de novembro de 1908 foi nomeado pároco de Nossa Senhora da Piedade de Tubarão, imensa região do sul catarinense. Dali, em 07 de maio de 1911 foi transferido para pároco de Santo Antônio dos Anjos de Laguna e Interino de Sant’Ana de Mirim e de Vila Nova. Em 29 de junho de 1911 presidiu os funerais do Pe.Manoel João Luís da Silva, que por 58 anos ali trabalhara. Em tocante sermão, antes de morrer Pe. Manoel pediu aos paroquianos perdão de seus pecados, de sua vida irregular, morrendo reconciliado com a Igreja.

Comentando com bom humor esse tempo em Laguna, escreveu (sem data) que o povo no início falava que o “referido” padre não pode ter afeição por Laguna; pouco depois, falava no “Vigário”; mais adiante, “nosso Vigário”; subiu para “o nosso distinto Vigário” e em último grau, “o nosso esforçado Vigário”… Sinal de que esse padre alemão conquistara os corações daquela tradicional comunidade brasileira. Por onde passou, diga-se, Pe. Giesberts deixou a memória da bondade, dedicação, fineza de trato e santidade.

Por seus méritos, em 14 de dezembro de 1912 foi nomeado Cônego Honorário do Cabido Metropolitano de Porto Alegre.

Em 1911 iniciou a comunidade de Magalhães (hoje paróquia), com um centro catequético. Mas, veio a Grande Guerra (1914-1918) e o sofrimento para os padres alemães que trabalhavam nas comunidades “brasileiras”. Nacionalistas que se presumiam guardiões da Pátria sublevaram o povo taxando-o de Quinta Coluna (espião) e saiu de Laguna expulso por populares no final de 1917. Pe. Giesberts deixou tudo, quase em fuga, com muita mágoa no coração, pois há 17 anos servia o Brasil.

Trabalho não faltava, especialmente juntos aos colonos alemães. Assim, em 29 de janeiro de 1918, com o consentimento do Pe. Augusto Schwirling, assumiu como Capelão-Cura das capelas do Alto Capivari, Curato de Teresópolis: São Bonifácio, Santo Antônio, Santa Maria e São José do rio São João.

No ano seguinte, em 18 de maio de 1919, foi provisionado pároco de São Pedro de Alcântara que, nesse período, abarcava os atuais municípios de São Pedro, Antônio Carlos, Biguaçu e Ganchos. Os padres de São Pedro sempre nutriram especial carinho pelas comunidades do então Alto Biguaçu (Antônio Carlos, Rachadel, Louro, Santa Maria), muito dinâmicas e participativas, e que possuíam um teor de vida mais confortável, não se negando a generosamente auxiliar o padre.

Passando pela dificuldade do caminho entre São Pedro e o Alto Biguaçu, traçou e ajudou a construir a estrada que até hoje serve de ligação entre as duas comunidades.

No Vale do Itajaí

Feliz nesse campo de apostolado, no meio de alemães, brasileiros e pescadores, em 08 de agosto de 1922 o Bispo Dom Joaquim ofereceu-lhe novo campo de trabalho: pároco de Santíssimo Sacramento de Itajaí, onde permaneceu até 1938. Era grande e florescente comunidade paroquial, incluindo outras paróquias: Penha, Barra Velha e Camboriú..

Em 1922 deu os passos para a construção da nova igreja matriz, trocando o terreno do cemitério atrás da igreja de Nossa Senhora da Conceição pelo da atual Praça Gov. Irineu Bornhausen. Em Itajaí contou com o auxílio de grandes sacerdotes, cada um com seu estilo, mas todos de imensa dedicação pastoral: Unia-se a fineza de Pe. Giesterts, o coronelato de Pe. José Locks, os lances nervosos de Pe. Nicolau Schaan e, mais tarde, o músico Pe. Paulo Condla. Uma equipe unida e que se desfez em 1924, com a lamentada saída de Pe. José Locks para o Seminário de Azambuja.

Percebendo as condições religiosas, penetrou a alma do catolicismo popular, mas com novo espírito: em 28 de março de 1923, foi criada a Irmandade de Nosso Senhor dos Passos que tinha, entre seus muitos projetos, o plano de construir um Hospital em Itajaí, seguindo o exemplo da Irmandade do Senhor dos Passos de Florianópolis, mantenedora do Hospital de Caridade.

Nesse ano de 1923, escreveu ele no Livro do Tombo, “pela primeira vez a Semana Santa foi celebrada em Itajaí com todas as cerimônias das grandes cidades: Lamentações, Lava-pés, Adoração da Cruz, Procissão do Senhor Morto, Canto da Verônica, Senhor Morto, Calvário, Procissão da Ressurreição às 5h da manhã. Foi adquirido todo o necessário para as Cerimônias se desenvolverem com a pompa devida. Grande incentivador foi o Sr. João Marques Brandão, Provedor da Irmandade de N. S. dos Passos”. Propôs-se a idéia da Festa de Nosso Senhor dos Passos; rapidamente compraram-se no Rio as imagens do Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores. A Festa do Senhor dos Passos foi celebrada pela primeira vez em 1924, Domingo da Paixão, sendo pregador Frei Daniel Hostin OFM, reconhecido orador sacro e em 1929 primeiro bispo diocesano de Lages. Esse padre alemão, Mons. Giesberts, foi o maior responsável pelo desenvolvimento de um catolicismo popular e moderno ao mesmo tempo, pela positiva influência de João Marques Brandão.

Era conhecida de todos a caridade do venerando Monsenhor Francisco Topp, verdadeira alma pastoral da Igreja catarinense. Velhinho, estava atolado em dívidas provocadas pela caridade. Condoído com a situação do amigo, em 24 de julho de 1924 Pe. Giesterts escreveu a Dom Joaquim: estava promovendo uma coleta entre os padres para saldar as dívidas de Mons. Topp, que estava para ser despejado de sua casa, casa essa onde todos os padres se hospedavam na passagem por Florianópolis. Mas, em 08 de setembro escreve a Dom Joaquim, dizendo que sua iniciativa foi um fiasco: apenas oito padres colaboraram. Os religiosos, com 15 paróquias, nenhum. Os padres do sul, idem. Cada um alegou seus motivos. Mons. Topp faleceu santamente em dezembro de 1925.

Pe. Giesberts tinha viajado à Europa em 1908. Novamente segue em 1925, interessando-se para encontrar padres para Florianópolis. Não conseguiu nenhum, pois, comentavam, havia muitos pedidos. E Dom Joaquim exigia que viessem seminaristas para cursarem a Teologia no Brasil.

Sentindo o peso da responsabilidade

Foi homenageado pela Igreja diocesana: em 08 de agosto de 1925 recebeu a honraria de Monsenhor Camareiro Secreto Supranumerário, juntamente com Pe. Frederico Tombrock, de São Ludgero. Para auxiliar no Governo arquidiocesano, em 25 de janeiro de 1931 (até 1949), foi nomeado Dignidade do Cabido Metropolitano de Florianópolis.

Representou a Arquidiocese no Congresso Mariano e no Jubileu da Coroação de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, em 1929.

O trabalho era por demais exigente, com tanta gente e distância. Em 1930 atendia a 35.000 católicos, tendo a Liga Jesus, Maria e José 340 membros, o Colégio paroquial 400 alunos, 200 crianças na cidade para a Primeira Comunhão. Sente o cansaço. Escreve a Dom Joaquim pedindo mais um coadjutor e recebeu a perda do Pe. Nicolau Schaan que foi para São Pedro de Alcântara.

Por absoluta necessidade e atento a seus méritos, foi transferido para a Catedral em 24 de janeiro de 1931. Em 05 de março de 1931 foi nomeado Diretor da Comissão Pro Propaganda Fide, cargo que exerceu até 1943 e no qual se encarregava da grande Coleta missionária. Ainda no ano de 1931 adoeceu gravemente e foi diagnosticada arteriosclerose incipiente, com manifestações acentuadas no lado do cérebro, que lhe causava algumas vertigens (essa doença levou-o à sepultura 22 anos depois), segundo laudo do Dr. Sizenando Teixeira, de Florianópolis. Com esse laudo médico, em 27 de julho de 1931 pediu a remoção da Catedral, pois sentia-se doente, despreparado e infeliz. Sugere Vargem do Cedro, onde havia poucas capelas e pouco distantes. Já o tinha pedido em 15 de abril.

Como “atendimento”, é novamente pároco de Itajaí (Penha e Barra Velha), tomando posse em 21 de setembro de 1931. Incansável, em outubro de 1931 publicou o livro de Cânticos Orações OREMOS, há mais tempo em preparação.

Dom Joaquim nutria grande confiança e afeto por Mons. Giesberts e não se cansava de confiar-lhe responsabilidades. Em 11 de fevereiro de 1932 foi nomeado Deputado Pro Disciplina do Seminário de Azambuja, em junho assumiu a Comissão para junto aos vigários conseguir auxílio para os flagelados do Nordeste. Em 3 de julho, foi nomeado Delegado Diocesano para angariar recursos para o Pio Brasileiro em Roma, que iniciou as atividades em 1934. Dom Joaquim sempre observou o compromisso assumido na sua nomeação: ter estudantes em Roma, no Pio Latino. O saldo de 1932 foi animador: 2:194$000.

Em 1933, cheio de serviço, a pedido de Dom Joaquim aceita o sacrifício de permitir ao Pe. Paulo Condla de trabalhar em Lages, no Colégio Diocesano, socorrendo Dom Daniel. Infeliz, Pe. Paulo foi, olhou e retornou a Itajaí, onde regia dois corais e um Jazz Band.

O bom pastor em Armazém

Verdadeiramente cansado, em 15 de maio de 1937 Mons. Giesberts pede sua demissão de pároco de Itajaí, agora em caráter irrevogável. Há necessidade de um padre jovem para a construção inadiável de nova Matriz, organização do operariado, catequese com 2.500 crianças no total. Para si, sugere ser coadjutor de Braço do Norte, residindo em Armazém para atender as capelas próximas (Coração de Jesus, Sangão e Macacos). Dom Joaquim responde sugerindo Cocal, com Pe. João Dominoni vindo para Itajaí. Mons. Giesberts responde não ter condições para Cocal, pois é preciso saber italiano e polaco. Dom Joaquim responde que italiano não é necessário e Pe. Dominoni não sabe polaco e é pároco (por 42 anos!). Dom Joaquim nutre preocupação com a diminutio capitis, isso é, o “rebaixamento”: como um padre que trabalhou na Catedral e em Itajaí pode ser vigário paroquial? Para Monsenhor, isso nada significava. Então Dom Joaquim sugeriu o Pe. Paulo Condla que, infelizmente, faleceu em janeiro de 1938.

Finalmente, em 14 de abril de 1938 saiu a provisão de vigário paroquial de Braço do Norte com residência em Armazém, para atendimento às Capelas de Gravatá, Travessão do Gravatá, São Miguel, São João, São Bm Jesus e Sanga Morta. Por questão prática, em 31 de julho de 1940 foi deslocado para vigário paroquial de São Ludgero, continuando em Armazém.

Mons. Giesberts teve a felicidade de festejar, em 07 de fevereiro de 1941, a criação da paróquia de São Pedro Apóstolo de Armazém, sendo dela pároco até os últimos dias. Foi conhecido e reconhecido como o Apóstolo de Armazém.

Prepara-se para o adeus final

Em 1944 surge nova crise de saúde: pediu ou a renúncia ou um coadjutor. Mas, ficando bom, continua. Em 1946 esteve três semanas internado em Tubarão. Teve como coadjutor Pe. Carlos Emmendoerfer. Devido ao jejum a partir da meia-noite, Mons. sofria pela falta de líquidos e Pe. Carlos por males estomacais. Escrevem a Dom Joaquim, 13 de fevereiro de 1946, pedindo licença para tomar água entre uma Missa e outra. Dom Joaquim concede, em 16 de fevereiro: ao Pe. Carlos até que volte a saúde, e ao Mons. Giesberts até quando “ficar jovem”.

Grandes festejos no Sul catarinense em 15 de maio de 1948: Mons. Francisco Xavier Giesberts festejava o de Jubileu de Ouro sacerdotal. Todos, arcebispo, padres e povo, reconheciam seus méritos.

Em 21 de abril de 1952 adoeceu gravemente, dando poucas esperanças de cura. Recebeu alta em 9 de maio mas, em 8 de junho teve uma vertigem, ficando 15 minutos desacordado. Internado em Tubarão, não prometia sobrevivência. Em 17 de julho escreveu a Dom Joaquim dizendo estar melhor e desejando voltar a Armazém para ao menos celebrar a Missa, graça que alcançou em 02 de outubro.

Verdadeiro pastor, em 6 de outubro escreveu a Dom Joaquim dizendo estar melhor, preocupado com Armazém, mas “Estou me preparando para a morte e não tenho medo”. Disse que os remédios novos têm-no ajudado. Dom Joaquim acha, em carta de 12 de outubro, que entre os remédios que têm tomado, novos ou velhos, “acredito que o mais eficaz tenha sido a extrema-unção. Como sabe, ele tem também essa eficácia. O caso de excitarmos mais e sempre mais a nossa fé”.

Em 27 de fevereiro de 1953 novamente está em Armazém e escreve que está completamente curado, para poder trabalhar na cura de almas. Dom Joaquim responde em 4 de março de 1953: “A sua cura parece oferecer algo que faz refletir. Mas não espantar aos homens que temos fé, e que já passamos de setenta, e contamos com a experiência própria e alheia. … Enfim, dadas as graças, o que se quer é, de fato, que esteja melhor, ou, por outra, como afirma e lhe garante pessoa autorizada (o médico), que esteja completamente curado. De certo, ainda por mais quinze anos, como aconteceu com o rei Ezequias”. Muito característica a relação de afeto entre esses dois homens, Dom Joaquim e Monsenhor. Poucos padres tiveram com o Arcebispo um relacionamento tão fraterno.

A “cura” não foi tão duradoura: era muito mais fruto do desejo que Monsenhor tinha de retornar a Armazém e trabalhar. No mês seguinte, extremamente enfraquecido, foi residir em São Ludgero com Mons. Frederico Tombrock. Ali passou seus últimos meses de vida, cercado de atenção e carinho. Internado no Hospital de Caridade de Tubarão, no dia 10 de outubro de 1953 Mons. Giesberts foi chamado por Deus.

Todos choraram a perda desse homem doce, nobre, caridoso e de inexcedível dedicação ao povo e à Igreja. Foram 55 anos de padre, 53 deles consagrados ao Brasil.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Remaclo Fischer em 2 de setembro de 2010 - 15:56

    Assim que recebi seu cartaõ agradecendo a foto de Monsenhor Giesberts, li seu Blog até o fim e fiquei muito emocionado lendo, linha por linha, sobre a vida do Monsenhor que conheci desde minha infância. Presenciei a vida dele, e toda minha família o admirava, pois ele frequentava nossa casa e todos nós o considerávamos um santo sacerdote. Linda a sua homenagem a um Vigário, que com sua vida exemplar, por onde passou deixou um rastro luminoso de seu trabalho e sua bondade, enaltecendo nossa Igreja Católica. Com certeza Deus lhe terá dado a merecida recompensa eterna . Remaclo Fischer

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