4. A perseverança

Os sábios devem continuamente recordar-se de que se nós, homens, suportamos continuamente nessa vida pequenos sofrimentos passageiros, depois da morte gozaremos de uma imensa felicidade e das delícias eternas. Quem combate as paixões e quer ser coroado por Deus, se cai, não deve perder a coragem, nem permanecer caído, mas deve erguer-se, retomar o combate e pensar em ser coroado; até o último respiro deve reerguer-se da queda que o atingiu. De fato, as fadigas do corpo são as armas das virtudes e tornam-se portadoras de salvação para a alma.

Antônio o Grande,
Exortações 76

Se estiveres fazendo oposição aos inimigos e os vês em retirada, enfraquecidos, não se alegre teu coração, porque depois deles se encontra a malícia dos pensamentos. Eles preparam uma guerra pior do que antes, deixam-na em formação fora da cidade e ordenam-lhe de não mover-se. Se tu te opões e os assaltas, fogem diante de ti por fraqueza. Se então teu coração se orgulha porque os seguiste e abandonas a cidade, alguns se erguem por detrás, outros pela frente e deixam a pobre alma no meio deles, sem possibilidade de fuga. A cidade é a oração. A resistência é a oposição em Cristo Jesus. O fundamento é a indignação.

Isaías Anacoreta,
A vigilância da mente 2

Os demônios se lançam ao assalto no momento oportuno; talvez o homem afrouxe a vigilância de seu coração pensando estar em repouso e, de improviso, eles se jogam sobre a alma infeliz e a capturam como um pássaro (cf. Lam 3,52) e, se conseguem vencê-la, a humilham sem misericórdia com todo tipo de pecado mais gravemente do que no início, com aqueles pecados pelos quais rezava para ser libertado. Permaneçamos firmes, portanto, no temor de Deus e guardemos o coração, cumprindo nossa atividade prática e conservando as virtudes que obstaculam a maldade dos inimigos.

Isaías Anacoreta,
A vigilância da mente 11

Permanece na reflexão e não te cansarás nas tentações. Mas, se te retiras, suporta o que vier.

Marcos o Asceta,
A lei espiritual 163

Afasta-te do mal e faz o bem (Sl 33,15), isto é, combate os inimigos para moderar as paixões; depois, sê vigilante, para que não aumentem. E novamente, luta para conquistar as virtudes; depois, sê sóbrio, para guardá-las. Isso seria o trabalhar e guardar (cf. Gn 2,15).

Máximo o Confessor,
Sobre a caridade 2,11

Faz tudo para não cair, porque cair não é digno do forte que luta. Se te acontece cair, ergue-te logo e retoma a bela luta; mesmo se te acontecesse cair numerosas vezes por causa de te afastares da graça, ergue-te inumeráveis vezes, até a tua morte. Pois está escrito: “Se o justo cai sete vezes, isto é, a vida inteira, sete vezes se levantará” (cf. Pr 24,16). Enquanto tiveres a arma do santo hábito, com lágrimas e súplicas a Deus serás contado entre aqueles que estão em pé mesmo se tiveres caído muitas vezes. Enquanto permaneceres entre os monges, como um soldado valoroso receberás os ferimentos na face e por causa deles serás ainda mais louvado, porque nem mesmo quando foste atingido aceitaste ceder ou retirar-te. Mas, se deixas os monges, serás golpeado nas costas como um fugitivo, um covarde, um que deserta e não tem o direito de dizer nada.

João Carpácio,
Aos monges da Índia 84

Não aceites contar os muitos anos da tua vida solitária e não te deixes apegar-te à vanglória pela tua perseverança no deserto e dureza das lutas, mas tem sempre em mente a palavra do Senhor a respeito de ser servo inútil (cf. Lc 17,10) e o fato de que ainda não cumpriste o mandamento. Na realidade, enquanto estivermos na vida presente, não fomos ainda chamados do exílio, mas habitamos ainda perto do rio da Babilônia (cf. Sl 136,1), ainda penamos no trabalho da argamassa no Egito (cf. Ex 5, 7-14), ainda não contemplamos a terra prometida. Pois ainda não despimos o homem velho, corrompido pelos desejos enganosos (Ef 4,22), ainda não carregamos a imagem celeste porque carregamos sempre a imagem terrestre (cf. 1Cor 15,49). Por isso, não temos porque nos gloriarmos de nós mesmos, mas devemos chorar, invocar aquele que pode salvar-nos da dura escravidão sob o crudelíssimo faraó, livrar-nos da terrível tirania e fazer-nos entrar na terra boa da promessa onde repousaremos no santuário de Deus e nos encontraremos à direita da grandeza do Altíssimo. Alcançar esses bens que ultrapassam o pensamento não depende das nossas obras, que nós acreditamos fazer como justiça, mas da ilimitada misericórdia de Deus. Não deixaremos de derramar lágrimas dia e noite, como aquele que diz: eu me esgoto gemendo; todas as noites banho de pranto minha cama, com lágrimas inundo o meu leito (Sl 6,7); os que semeiam entre lágrimas, recolherão com alegria (Sl 125,5).

Teodoro, bispo de Edessa,
Capítulos 78

É um bem não cair, ou então, cair e levantar-se; se acontecer cair, é bom não se desesperar e não julgar-se afastado do amor do Senhor. Se quiser, pode conceder-nos misericórdia além da nossa fraqueza. Somente não nos afastemos dele. Não nos atormentemos se os mandamentos nos fazem violência, não nos desencorajemos se não alcançarmos nada. Antes, aprendamos que mil anos diante do Senhor são como um dia e um dia como mil anos (cf. Sl 89,4). Não devemos ter pressa, nem desanimarmos, mas recomeçarmos sempre. Se caíres, levanta-te e, se cais de novo, de novo levanta-te! Somente não abandones o médico, pois serias condenado pela desesperança pior do que um suicida. Permanece perto dele e te fará misericórdia, quer com a conversão, quer com as tentações, quer com algum outro caminho da providência que tu ignoras.

Pedro Damasceno,
Livro II, vol. III, p. 131

A especificidade da coragem não está no vencer e oprimir o próximo: isso é arrogância e está além da coragem. Não está nem mesmo no fugir por medo das tentações longe das obras de Deus e das virtudes: isso é vileza e está abaixo da coragem. A especificidade da coragem está no perseverar em toda obra boa e no vencer as paixões da alma e do corpo. A guerra para nós não é contra sangue e carne, contra homens, como um tempo o era para os judeus, de modo que quem vencia a guerra contra os inimigos realizava obra divina, mas a nossa guerra é contra os principados, contra as potências (cf. Ef 6,12), isto é, contra os demônios invisíveis que se vencem espiritualmente, ou então se é vencido pelas paixões. Aquela guerra era figura da nossa guerra. Essas duas paixões – a arrogância e a vileza – mesmo que se pareçam opostas uma à outra, são as duas fruto da impotência. A arrogância arrasta para o alto e incute medo desanimando, como um urso impotente; a vileza foge como um cão enxotado; nenhum daqueles que tem uma destas duas paixões espera no Senhor. Por isso nem o arrogante nem o vil podem combater a guerra. Mas o justo é como um leão (cf. Pr 28,1); confiou em Cristo Jesus, nosso Senhor; a ele glória e potência nos séculos. Amém!

Pedro Damasceno,
Livro II, vol. III, pp. 150-15

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