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A TRINDADE SANTÍSSIMA – NOSSO DEUS

Domínio Público, via Wikipédia*

“É absurdo e impróprio pintar em ícones a Deus Pai com barba cinza e o Filho Unigênito em seu seio com uma pomba entre ambos, posto que ninguém viu o Pai segundo a Sua Divindade, que o Pai não tem carne […] e que o Espírito Santo não é, em essência, uma pomba, mas, em essência, Deus” (Grande Sínodo de Moscou, 1667).

Esta decisão da Igreja Ortodoxa Russa condenou a tendência de artistas russos que, de certo modo, estavam imitando a arte ocidental, deixando de lado os princípios canônicos que determinavam a forma e o conteúdo dos ícones. E, a Rússia já tinha oferecido à Igreja o ícone da Trindade Santíssima por obra do monge Andrei Rublev (1360-1430), e que se tornou modelo para os outros ícones. Rublev, canonizado pela Igreja russa em 1988, para sua obra prima teve seus dias de pura inspiração e, quando apresentou aos monges o ícone da Trindade, provocou um puro assombro: estavam diante de algo divino, jamais concebido por artista humano, e prorromperam num hino de louvor ao Deus Trindade, cuja beleza ninguém podia imaginar, mas que se revelara ao monge Rublev, na igreja do Mosteiro da Santíssima Trindade de Moscou.

A Trindade é um mistério – e sempre o será nesta terra. Às vezes, porém, nos são concedidos vislumbres da vida divina, e o ícone de Rublev nos permite espreitar brevemente por trás do véu que oculta o mistério.

Após prolongado jejum e oração, encontrou a inspiração no texto sagrado, em Abraão junto ao carvalho de Mambré e recebendo a visita de três homens: Leia o resto deste post »

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TRINDADE SANTA – PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO

A Trindade Santa - ícone de Andrej Rublev - 1425.

A Trindade Santa – ícone de Andrej Rublev – 1425.

No primeiro domingo depois do Pentecostes, a Liturgia nos faz contemplar nosso Deus, a Trindade Una e Santa, nos leva a mergulhar em sua beleza de amor. Há cristãos que acham o Deus Trindade um assunto muito complicado, que quase ninguém sabe explicar menos ainda, entender. Lembro aqui algo fundamental na fé: Deus não se explica, mas é narrado através daquilo que revela na Escritura e na criação, e Deus não se entende, mas se vive no mistério revelado por Jesus. É claro que se pode explicar e entender como analogia, pois a razão está a serviço da fé mas, que não se pode é transformá-lo em teorema, pois ele é amor. Trilhando a narração da história da Salvação chegaremos ao caminho de Jesus.

“Desde o nascimento da Igreja, é ele (o Espírito Santo) quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus” (Prefácio de Pentecostes). Nosso Deus não é somente o Deus do Antigo Testamento, não é o Alá dos muçulmanos, não é Brahman, não é Buda. Nosso Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, três Pessoas divinas pelo amor unidas num só Deus. E, após a Encarnação, nosso Deus é Pai, Filho divino e humano e Espírito Santo. Em Cristo, a humanidade participa da vida trinitária.

Por que podemos falar assim, quase com soberba, com tanta segurança? Porque Deus nos revelou através de seu Filho, que esteve entre nós. É um Mistério tão fascinante que se procura “humanizar”, tornar palatável à inteligência através também de uma teologia avessa à contemplação. Vale a frase do convertido romancista inglês G.K. Chesterton: “os tempos modernos estão infestados de ‘virtudes cristãs tornadas loucas’ para que possamos aceitar o mistério”. Nosso Deus é conhecido por comunhão de amor, por contemplação maravilhada e não por discussões ou pela inteligência. Dele sabemos o que nos revelou, assim como também nós somos conhecidos somente naquilo que revelamos.

Contemplemos nosso Deus, concretamente, agindo em nossas vidas pelo amor sem medida, fiel, misericordioso, excessivo na beleza de criação. É escândalo para judeus, muçulmanos, religiosos de todas as nações, intelectuais, ouvir que nosso Deus morreu na cruz por amor, que ele é frágil, sofre da mais bela das doenças: a doença do amor.

Nosso Deus é comunhão – Tri-Unidade

Nosso Deus é a Tri-Unidade, Deus uno e três vezes santo, comunhão de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão não fechada em si, mas, que se abre a nós, chamados a acolher e a responder a tal amor. Como sempre, no Cristianismo, a meditação sobre Deus parte do homem Jesus Cristo, “o Filho unigênito que narrou Deus” (cf. Jo 1,18), que não traz uma “mensagem”, mas sua própria Pessoa divina e humana.

O Deus Trindade não é intimismo, solidão: é voltado para fora, comunica-se com o homem, seu amor é para o mundo, é “Deus para nós e por nós”. Rémi Brague, filósofo e historiador francês, afirma que “O dogma trinitário é o esforço obstinado de aprofundar a afirmação do apóstolo João de que “Deus é amor” (1Jo 4,8). “Deus é amor” é o nome de nosso Deus, pleno de compaixão e misericórdia, capaz de graça e de perdão, desce para alcançar o homem na escravidão e no pecado, como no caminho do Êxodo do Egito.

Deus ama a tal ponto o mundo, a humanidade, que lhe dá seu Filho para a salvação dele. Um filho único é toda a vida de um pai, é o que ele mais ama: o Deus que doa o Filho único, Jesus, é o todo-poderoso Deus movido por um amor louco. Há um excesso no amor divino e esse excesso é o Filho Jesus Cristo: que consumiu sua vida até à morte na liberdade e por amor de nós e, com o seu passar entre nós, fazendo o bem na potência do Espírito Santo (cf. At 10,38), narrou-nos que “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16).

“Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que quem nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. Com sua vida e com sua auto-doação, Jesus revelou o amor louco de Deus pelos homens. Renascido do alto, Paulo procura fazer da comunidade de Corinto uma morada do “Deus do amor e da paz” (2Cor 13,11). O homem é chamado à semelhança divina.

“Deste modo se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho ao mundo para que nós vivêssemos por meio dele. Assim é o amor de Deus: não fomos nós que amamos Deus, mas é ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados. Desse modo conhecemos que permanecemos em Deus e Deus em nós: pelo Espírito que ele nos deu como prêmio. E nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho como Salvador do mundo (cf. 1Jo 4, 9-14). E, pela potência de Deus, o Espírito Santo, podemos renascer de verdade, do alto.

Assim nos ama Deus

A ação do Deus Uno-Trindade é perdão, amor, comunhão e podemos experimentá-la em nossa vida de . O modo com que Deus nos ama é antes de tudo fidelidade ao homem infiel, incapaz de querer corresponder a esse amor: a fidelidade e o amor de Deus tornam-se sua responsabilidade pelos homens pecadores. Deus se preocupa conosco, sente-se responsável por cada um de nós. E é assim que seu amor, unilateral e incondicionado, não condena, mas salva.

E como Deus provou seu amor? Na cruz, assumindo a forma do escândalo, do excesso que quebra todos os parâmetros humanos de reciprocidade, correspondência e retribuição do amor. O dom superabundante demonstrado na cruz é o perdão de Deus, o amor que Deus já predispõe para aquele que peca ou pecará. Nossos pecados já foram contemplados pelo Filho na cruz: o perdão já foi ofertado, aceitá-lo é da nossa responsabilidade.

O Deus que ama é também o Deus que sofre se não aceitarmos seu amor, se rejeitarmos a graça que vem do Filho e da comunhão no Espírito. Sofre se encetamos uma viagem que o torna sempre mais distante do horizonte de nossa vida. O Deus Trindade é o Deus que não vive sem o homem. E o homem, pela fé situando-se em Cristo e deixando-se guiar pelo Espírito, passa a morar no ágape, no amor, e assim, conhece a comunhão com Deus, com o Deus que é amor. O ágape, amor em plenitude, gratuito, é o coração da vida trinitária.

O grande modelo para o anúncio da Beleza que salvará o mundo é a Trindade: harmonia e beleza sem limites, amor que une três Pessoas num Deus, a juventude do Filho, a feminilidade do Espírito, o encanto do Pai. A Trindade se revelou de modo pleno na beleza de Maria, venerada por todos os povos em sua beleza e encanto. Os místicos gostam de falar de Deus como “el Hermoso”,  o Formoso. Deus é formosura.

Nossa resposta ao nosso Deus: acolhendo tal amor somos capazes de exercitá-lo, amando-nos uns aos outros. O Filho nos redime, o Espírito cria a unidade, o Pai acolhe sem condições e passamos a profetizar. Deste modo o amor de Deus pode difundir-se e manifestar-se na história. E com o universo cantaremos o hino: “Onde o amor é verdadeiro, aí Deus está!”.

Pe. José Artulino Besen

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VII – A FÉ – E A PALAVRA SE FEZ CARNE – A EUCARISTIA

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

«O Senhor da Humildade» (ícone russo)

A fé cristã afirma Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, e afirma o Filho como verdadeiro Deus e verdadeiro Homem: Trindade e Encarnação. São esses os mistérios que fundam e fundamentam a fé cristã. O Filho recebe o nome de Jesus (Deus salva) e Cristo (o Ungido de Deus) e é nosso único Senhor.

Em sua Carta aos Filipenses (2, 5-11) São Paulo transcreve um Hino que era memorizado pelos cristãos e que narra dois mistérios do Filho:o mistério da descida (sendo Deus, Jesus renunciou à condição divina, fez-se homem assumindo a condição humana, descendo até o abismo da morte) e o mistério da subida (Deus o ressuscitou e o exaltou, dando-lhe um Nome acima de todo nome, para que todos proclamemos que ele é o Senhor). Tudo isso, para a glória de Deus Pai, no Espírito Santo.

O mistério da descida – a Palavra se fez Carne

Nós proclamamos no Credo: “Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria”.

O Filho eterno, Deus eterno com o Pai, se fez carne, isto é, se fez humano e habitou entre nós (João 1, 1-14). Desde toda a eternidade, antes da criação do mundo e do homem e da mulher, foi esse o projeto de Deus: o Filho vir habitar na natureza humana e no meio de nós. Muito importante: Deus entrou na história, no tempo. Numa época, o ano I de nossa era, e num lugar, a Palestina. A história humana é agora história divina, a vida humana é também vida divina.

O Pai decidiu seguir os meios que estabeleceu para nós: o Filho se encarna em Maria de Nazaré da Galiléia, seu sangue é nosso sangue, sua carne é nossa carne. Podemos afirmar com todo o direito: somos da linhagem divina, e Deus é da linhagem humana (Atos, 17, 29). Concebendo por obra do Espírito Santo, Maria é chamada Mãe de Deus, pois não podemos separar em Jesus o que é divino e o que é humano: Jesus é Deus e homem verdadeiro, em unidade perfeita e sem confusão.

A palavra “carne” significa a pessoa humana em todas as dimensões: física, psicológica, emocional, espiritual. Tudo isso o Filho assumiu ao se encarnar em Maria: Deus decidiu passar pelas experiências humanas em toda a sua riqueza e fraqueza, menos no pecado. Paulo afirma que Jesus assumiu a condição de escravo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

O mistério da subida – ressurreição e Eucaristia

A descida de Jesus está incluída na sua obediência radical e livre ao Pai, que não o deixa abandonado ao poder da morte. Pelo contrário: Deus o exaltou e deu-lhe um Nome pelo qual podemos ser salvos. E a exaltação se conclui: em Nome de Jesus todo joelho se dobre e toda língua proclame “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai. Na obediência, o Senhor desceu o máximo e, na subida, o Pai lhe dá o título máximo de Senhor. Devemos recordar, contudo, que o Senhor que subiu na glória se encontra presente em nossa humildade, pois Deus decidiu estar conosco para sempre.

Em cada Eucaristia celebramos a vida do Filho, sua encarnação, nascimento, morte, ressurreição e ascensão ao Pai. A Eucaristia é a presença plena do Senhor em nós e de nós nele. Assim como pela digestão o pão e o vinho são transformados, do mesmo modo, na Eucaristia são transformados porque digeridos e, desse modo, nós somos transformados em Corpo de Cristo. São João Crisóstomo assim fala: uma vez que como o pão e o vinho, Corpo e Sangue de Cristo, sou transformado no Corpo e no Sangue de Cristo a tal ponto que “não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). E Santo Agostinho: se quisermos ver a Eucaristia e compreendê-la, olhemos o que está no altar: nós estamos no altar onde está Cristo e na união com ele nós nos tornamos Corpo e Sangue de Cristo.

A Liturgia russa nos comove com um belo título para Jesus: o Senhor da Humildade. Tão cheio de poder e glória, e tão cheio de simplicidade e bondade. Na língua grega do Novo Testamento, o Filho é denominado “Kyrios”, o “Senhor”, nome que indica não somente respeito, mas, em Jesus, significa que não há nenhum poder fora dele, tudo está submetido à sua autoridade. Nele, Deus Pai quer ser glorificado. O nome “Senhor” era de tal modo profundo que a Liturgia romana manteve no grego a prece “Kyrie eleison”, Senhor, tende piedade de nós, no ato penitencial, que era repetida três vezes. Somente mais tarde incluiu outro nome, o “Christe eleison”. Isso porque somente ele tem direito ao nome Senhor, somente ele merece a nossa humilde submissão, sempre confortadora. E somente ele, o Senhor, tem a autoridade de nos reconciliar com o Pai, o mundo, a humanidade. E, na sua humildade, pela Eucaristia nos torna seu Corpo e Sangue.

Pe. José Artulino Besen

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VI – A FÉ – DEUS É AMOR, O AMOR É DIVINO

O amor que vem de Deus penetra a vida humana

O amor que vem de Deus penetra a vida humana

A fé cristã tem como fundamento a revelação de que nosso Deus é Trindade, Uno e Trino, e que o Filho se encarnou, morreu e ressuscitou por nós e por nossa salvação.

Não nos é dado  entender o mistério trinitário, mas podemos nos achegar de modo muito mais belo e profundo: contemplar e adorar o Deus Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Quando entendemos, a realidade diminui, empobrece e, quando contemplamos e adoramos, Deus vem ao nosso encontro e nos fala como a filhos.

Sirvo-me da palavra de Bento XVI na festa da Santíssima Trindade de 2009: “Três Pessoas que são um só Deus porque o Pai é amor, o Filho é amor, o Espírito Santo é amor. Deus é totalmente e somente amor, amor puríssimo, infinito e eterno. Não vive numa esplêndida solidão, mas é antes de tudo fonte inesgotável de vida que se doa e se comunica incessantemente” (Bento XVI, Angelus de 7 de junho de 2009).

Bento XVI iniciou o pontificado com a Encíclica Deus caritas est, Deus é amor, publicada no Natal de 2005, marcando a força de seu ministério no anúncio do amor divino. Poucos nos apercebemos, mas seu último documento doutrinal e disciplinar foi sobre o amor, a Carta apostólica Sobre o serviço da Caridade, de 11 de novembro de 2012.

Cristo veio ao mundo para que tivéssemos acesso ao amor de Deus e para que esse amor seja aceso como fogo em nossos corações: “Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lucas 12, 49). Do mesmo modo que a essência de Deus é o amor, a natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros. Com uma palavra densa, Bento XVI sintetiza o programa da evangelização e da vida cristã: anúncio, liturgia, caridade.

Somos o centro da Trindade

Três Pessoas que são um só Deus, porque Deus é amor, isto é, a essência da divindade é o amor, a caridade. À medida que formos mais capazes de amar verdadeiramente, mais seremos capazes de penetrar o mistério de nosso Deus. Quando Lucas afirma que “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (Atos 4, 32) estava retratando o fruto do amor divino nos primeiros cristãos: eram muitos, mas uma só alma, pois mergulhados no amor trinitário. Enquanto nós, humanidade, estivermos divididos em tribos, nações inimigas, em pobres e ricos, comprovamos como ainda é distante a vivência do amor cristão.

É da natureza do amor expandir-se, ir ao encontro: assim, Deus Pai cria o mundo, cria a vida, cria o homem e a mulher para poder amar. Deus Filho vem ao mundo para renovar a criação e a humanidade decaída, fazendo novas todas as coisas (Apocalipse 21, 5). Deus Espírito Santo é fogo de amor, paz, santidade e renova tudo e todos.

Quanta dignidade há em cada um de nós, sem nenhum merecimento: somos o centro aonde converge o amor divino e recebemos o dom inestimável de poder amar, de sermos divinos pelo ato de amar.

Deus é amor, o amor é divino: nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus e recuperamos nossa semelhança pela conversão ao amor. E isso não é pesado, não é um mandamento duro: somos amados primeiro. Nosso amor é somente resposta.

Não necessitamos de ficar abismados pelos santos que deram a vida pelo próximo, pelos jovens que se consagram à missão, por aqueles que empenham toda a vida no serviço ao próximo: sentem-se amados e não conseguem se fechar em si, também se dilatam no amor. Tudo se faz amor quando meditamos no amor pessoal de Deus por cada uma de nós: “Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura”, afirmava Santa Catarina de Siena.

José Artulino Besen

 

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III – A FÉ – O ENCONTRO COM DEUS E INÍCIO DA MISSÃO

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Nós conhecemos a Deus não porque somos mais ou menos inteligentes, porque estudamos pouco ou muito. Conhecemos a Deus porque ele se nos revela, toma a iniciativa de vir ao nosso encontro. E só podemos conhecê-lo na medida em que se deixa conhecer. Toda a Bíblia é história de encontros de Deus com pessoas, com comunidades, com um povo. Noé, Abraão, Jacó, Moisés, os profetas, João Batista, os judeus, os apóstolos iniciaram a missão junto ao povo após terem sentido a presença viva e real de Deus em suas vidas. Tudo foi conseqüência de um encontro, do amor primeiro de Deus. É desse encontro que nasce a fé que gera o amor e se prolonga na missão.

A primeira reação da pessoa que sente Deus em sua vida é a consciência de ser pecador. Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros! (Is 6,4). Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um homem pecador! (Lc 5,8). O ser humano percebe a distância entre ele e Deus mas, ao mesmo tempo, percebe que é Deus quem lhe vem ao encontro. Sem estardalhaço, o Senhor se manifesta pela Palavra, sacramentos, pela comunidade, pelos rostos sofredores, pelos pequenos acontecimentos diários. Muita gente diz que tem visões, conversas com Deus, Nossa Senhora e os Santos e por isso se sente santa, digna, privilegiada. É um sinal de que apenas se encontrou com sua vaidade pessoal ou com seus desequilíbrios.

Ninguém se aproxima de Deus sem ter a dolorosa consciência de sua condição pecadora. O pecado, porém, não afasta Deus de nós. Certa catequese nos criou uma imagem de Deus semelhante a um quarto de hospital, esterilizado, onde só entra quem está desinfetado. Então, há pessoas que se acham indignas de rezar, de entrar numa igreja, porque Deus as rejeitará, são pecadoras, perderam a fé. Não é assim: Deus vem ao encontro do pecador para tirar-lhe o pecado. Deus ama os que erram, para que sejam libertos do erro. Deus busca os fracos, para torná-los fortes. Muitos judeus se escandalizaram que Jesus vivesse com pecadores como Zaqueu, a adúltera. Achavam que a verdadeira fé criava distância com relação aos mau-comportados. Tinham-se esquecido de que Deus sempre viera ao seu encontro nos momentos de derrota, de pecado, de idolatria, para que retornasse à Aliança. O amor de Deus por nós é o início e o alimento da fé bíblica e cristã, e não nossa suposta dignidade.

A fé conduz à missão

Após o encontro com Deus, na consciência de ser pecador amado por Deus, a pessoa se torna anunciadora do Evangelho. Quem foi amado, luta para que mais pessoas tenham a mesma alegria. Quem foi salvo, quer que todos se salvem. Torna-se propagandista, anunciador, missionário da Salvação. São Paulo, Santo Agostinho, São Francisco consagraram-se à missão após terem sentido em sua vida as maravilhas operadas pelo amor divino.

Cristão envergonhado, acomodado é cristão que não experimentou concretamente a graça em sua existência. Quem, nos caminhos de sua vida, teve a experiência do amor de Cristo, assume para si o chamado feito a Simão Pedro: Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens! (Lc 5,11). Antes, o mesmo Pedro declarara ao Senhor que perguntava aos discípulos se não queriam abandoná-lo: A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! (Jo 6,68).

Como evangelizar? Em primeiro lugar pelo nosso testemunho de vida alegre, fraterna e santa. Não se pode evangelizar vivendo no pessimismo, na amargura, na falta de união. Em segundo lugar, pela palavra propriamente dita: não perder oportunidades de levar Jesus e o Evangelho àqueles com os quais nos encontramos. Viver e anunciar o Evangelho, essa é a grande missão. Ser missionário é necessidade de todos aqueles que amam a Jesus, pois foram tocados pela graça. Fé, conversão, testemunho, anúncio, obras de justiça e caridade, são esses os mais belos frutos do amor de Deus em nós.

Pe. José Artulino Besen

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II – A FÉ – DOM OFERECIDO AO DISCÍPULO

A FÉ - 2 - DOM OFERECIDO AO DISCÍPULO (imagem)

O pecado dos primeiros pais foi a negação da presença e da autoridade de Deus. Quiseram ser “como Deus” e caíram na solidão e na vergonha. Decidido a não perdê-los, Deus foi-lhes ao encontro: “Adão, onde estás?” (Gênesis 3,9). Essa mesma pergunta é feita a cada um de nós a cada dia. Deus nos procura para nos falar e oferecer-nos a salvação, a vida plena. Ao escutarmos a voz de Deus e ao acolhê-la permitimos que nasça e crie espaço em nós o dom da fé. Sim, a fé é sempre dom, graça, nunca merecimento. E a fé se alimenta da fé, da voz de Deus por todo o arco da existência. Ninguém pode dizer “já tenho fé que chega”, pois isso significaria que não tem mais fé, não escuta mais Deus.

Para reforçar a maior importância do escutar do que do falar, o povo diz que Deus nos deu duas orelhas e uma boca. Isso é verdade humanamente, pois amamos quando nos dispomos a escutar nosso próximo. No nascimento e crescimento da fé, porém, podemos dizer que os dois ouvidos são fundamentais, cada um com uma finalidade: um ouvido escuta a voz de Deus em nossa consciência, em sua Palavra revelada, a Sagrada Escritura e o outro, escuta a voz da vida, do mundo, da realidade. As duas vozes crescem juntas e juntas produzem frutos: Deus me fala para que eu ouça a voz do mundo e a vida me fala para que eu a transforme escutando a voz divina.

A fé nasce da audição, diz São Paulo aos Romanos (10,17). Quem não sabe ouvir é incapaz de captar a voz de Deus. A grande crise de fé é, em parte, produto de um mundo e vida egoístas onde temos ouvidos apenas para nós. O mundo do egoísmo é também mundo de descrença. Muitas pessoas até parecem estar buscando a Deus mas, na verdade, estão apenas buscando a si próprias. A fé nos leva à abertura a Deus e à vida e mata em nós todo o egoísmo que herdamos de Adão e Eva.

O Antigo e o Novo Testamentos são um contínuo falar divino: Deus chama Noé, chama Abraão, chama Moisés, chama os reis, chama os profetas. Deus chama o povo continuamente e o chama com infinito amor: Deus fala ao povo como o marido fala à esposa, como o amado chama a amada (veja e beleza amorosa do Cântico dos Cânticos, onde um Deus apaixonado procura o motivo de sua paixão, cada um de nós), Deus chama mesmo que estejamos na prostituição, trocando-o por outros amores, como na história de Oséias. Deus nos chama para falar-nos.

Jesus, Palavra que releva o Pai

E, por fim e para sempre, Deus nos fala por seu próprio Filho, Jesus Cristo. Lemos no Catecismo Católico: “Podemos crer em Jesus Cristo, porque Ele próprio é Deus, o Verbo feito carne: «A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer» (João1, 18). Porque «viu o Pai» (João6, 46), Ele é o único que O conhece e O pode revelar” (CIC 151). Jesus é a Palavra de Deus, o narrador de Deus. Quem o escuta e contempla nos Evangelhos escuta e contempla o próprio Deus, o Pai.

Quando o povo está admirado com a sabedoria de Jesus, alguém grita: “feliz aquela que te gerou” e Jesus corrige: “Antes feliz quem escuta a Palavra de Deus e a põe em prática” (Lucas 8,21), porque esse recebeu e acolheu o dom da fé. Podemos, aqui, lembrar Isabel falando com Maria: “Bem-aventurada és tu, Maria, porque acreditaste” (Lucas 1,45). Quem tem a capacidade de ouvir e crer herdará uma bem-aventurança.

Tendo cumprido sua missão de nos revelar o Pai e de nos oferecer o dom da salvação, Jesus volta ao Pai, confiando-nos a missão de continuar o anúncio e a vivência do Evangelho. Mas, não nos deixa sós, como órfãos, e nos envia o seu Espírito: “O Espírito penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus […]. Ninguém conhece o que há em Deus senão o Espírito de Deus” (1 Coríntios 2, 10-11; CIC 152). E o Espírito nos revela todas as coisas.

Crer é fruto de um encontro, crer é fruto da escuta, do discipulado. Somos discípulos ouvindo nosso Mestre, necessitamos continuamente de invocar a graça de termos o ouvido de um discípulo.

Pe. José Artulino Besen

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I – A FÉ – ATITUDE HUMANA E DIVINA

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Às vezes, nós complicamos a palavra , achamos que ter fé é difícil, ter fé é para quem não estuda, estamos sempre em crise de fé. Colocamos em contraposição as duas palavras: fé e razão, ter fé e compreender, como se elas fossem inimigas. Isso se explica porque preferimos complicar as coisas, pois, ter fé é uma atitude extremamente freqüente em nossa vida. Sem fé nem podemos viver em comunidade. É porque tenho fé que consigo estabelecer relações de amizade, de trabalho e de lazer com as pessoas.

O que é a fé? É crer na palavra de quem me falou porque creio nessa pessoa, digna de minha confiança. Ter fé é ter confiança em alguém e em sua mensagem. Creio no que meus pais me falam porque creio neles, são dignos de meu crédito. Creio numa notícia que meu amigo me transmite porque tenho certeza de que ele me fala a verdade.

A fé tem a ver com confiança, pois a história de quem me falou é uma história verdadeira. Não creio no mentiroso porque sua história tem-se revelado inimiga da verdade.

Também creio na natureza, em seus efeitos, creio num medicamento porque confio no médico, creio no vendedor porque é honesto. Com isso percebemos que toda a nossa existência, para ser pacífica e feliz, necessita de um contínuo crer. Se desconfiar de tudo e de todos, acabo me isolando e ninguém terá fé em mim. Isso é importante: os outros têm fé em mim porque mereço sua confiança, sou leal, tenho sido verdadeiro nas palavras e atitudes. Mão e contramão: creio no outro, o outro crê em mim. Entre nós há uma ligação anterior chamada confiança. É uma atitude humana que brota de nossa vida interior. O ser humano ou é verdadeiro e quer ser verdadeiro, ou não é humano. O diabo é o pai da mentira.

Ter fé, atitude divino-humana

Você poderá dizer: mas, crer em alguém é evidente, pois eu o conheço e o vejo. Fé religiosa é outra coisa, pois entramos no mundo do invisível, daquilo que não se pode comprovar, é um mistério! Mistério é claro que sim, pois tudo o que se refere a Deus é mistério, sai do mundo das coisas e pessoas e entra no mundo da eternidade, mais verdadeiro ainda.

Eu creio em Deus porque Deus é digno de fé. Deus é não só verdadeiro, ele é a Verdade. O Catecismo da Igreja Católica (n. 142) nos oferece uma palavra iluminadora: “Pela sua revelação, ‘Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele’. A resposta adequada a este convite é a fé”. Deus nos falou primeiro, foi dele a iniciativa de vir ao nosso encontro como amigo a amigos. Ele veio nos dizer quem ele é, quem nós somos e o que quer nos oferecer para termos vida verdadeira. Isso é a revelação, tirar o véu, tornar clara uma notícia que somente Deus poderia nos dar.

Mas, por que termos fé em Deus se não podemos comprovar nem sua existência nem a veracidade de suas palavras? Aqui entramos na confortadora linguagem da fé: eu creio em Deus porque quem me falou dele é digno de fé. De pessoa a pessoa, a Palavra de Deus chegou até mim. E indo de pessoa a pessoa, chego até Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele falou de Deus, ele me fala de Deus porque o conhece face a face, desde toda a eternidade. De Jesus nos falaram os Apóstolos, de Jesus nos falam as Escrituras.

É Jesus é verdadeiro por uma razão clara: ele morreu e ressuscitou. Foi pela fé na sua vitória sobre a morte que os discípulos passaram a anunciá-lo. Foi porque o tocaram, viram suas chagas gloriosas, com ele comeram e falaram após a ressurreição que acreditaram nele e em suas palavras sobre Deus. Após a ressurreição os discípulos de Emaús caminharam com ele, ouviram-no explicando as Escrituras e creram nele.

E assim, Jesus é digno de confiança e quem nos fala dele também o é. Cremos nele em sua palavra.

Pe. José Artulino Besen

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VENHA E VEJA – O DISCIPULADO

«Ser discípulo» (G. Cordiano)

«Ser discípulo» (G. Cordiano)

Confessa o profeta Isaías, em sua intimidade com o Senhor: «De noite meu coração te deseja, de manhã ansioso te procuro, Senhor» (Is 26,9). É o suspiro do amante que, ao anoitecer, deseja a presença amada e, ao amanhecer, continua a procura, com ânsia, e até com receio de não encontrar. O Antigo Testamento é rico na linguagem do amor esponsal entre o homem e a mulher aplicado ao nosso amor por Deus: de um lado, Deus sente as vísceras se revolverem ao pensar em nós, e nós corremos ao seu encontro, um encontro que não se realiza e que aumenta ainda mais o desejo dele por nós e nosso por ele. A inclusão do Cântico dos Cânticos entre os livros inspirados é o sinal mais belo de que o amor divino e humano vivido em plenitude gera a experiência mística dos santos.

É a presença do amor-amigo que nos faz discípulos com os ouvidos abertos, à espreita de alguma palavra que indique a presença, e é nossa procura atenta que torna possível o amigo falar, no silêncio. Comprova-se a verdade do poema de F. Thomson: «Eu sou aquele a quem tu procuras, e foges de mim enquanto me procurares».

O encontro se dá no silêncio. Jesus não nos chamou para sermos agitadores, fazedores de coisas, eficientes, mas para sermos seus amigos. Os barulhos do dia-a-dia impedem-nos de ouvir, e somente a noite dos sentidos, dos desejos humanos, do desapego, da abertura do coração leva nosso coração à procura do Senhor que nos procura.

Seguir a Jesus Mestre – ser Discípulo

A iniciativa de buscá-lo é de Jesus, que nos busca sempre, até descobrirmos que fomos seduzidos, não por uma promessa, honraria, sucesso, mas por uma pessoa. Olhando nossa vida, os passos a serem dados, não desanimamos, porque temos diante de nós o olhar amoroso do Senhor, e as dificuldades nunca serão tão grandes a ponto de nos desviarem da face que buscamos contemplar.

O olhar fixo em Jesus nos ajuda a superar os tropeços no caminho da fé que se concretiza na caridade. Colocamos o Senhor à frente, e desse modo, as dificuldades não enfraquecem nosso ânimo porque, tudo, é por causa de Jesus e o caminho será na normalidade e na perseverança da vida cristã.

Buscamos o Mestre porque ele nos chamou, despertou nossas energias vitais, mas, chamou-nos através de outras pessoas: ninguém encontra Jesus sozinho, alguém nos encaminhou na fé (cf. Jo 1, 35-39). Houve, ao nosso lado, alguém que, como João Batista, nos indicou: «Eis o Cordeiro de Deus». Quem nos indicou já o descobriu e com ele passamos a buscar o Senhor na comunhão, na Igreja. É sinal de gratidão recordar as pessoas que nos encaminharam a Jesus no caminho da fé, os nossos João Batista.

Para cada um que busca o Senhor, se repetirá o mesmo diálogo: «o que procurais?», pergunta Jesus ao perceber nossa busca, e logo respondemos tocados no coração: «Jesus, onde moras?». Nesse momento a resposta do Senhor no introduz no grande caminho: «Venham e vejam». Convida a caminhar com ele, a peregrinar, a ingressar em seu convívio, entre seus amigos. O «venham e vejam» mostra como ele vive, e onde vive e, perseverando sempre, nossa figura humana se transforma em imagem divina e nossa vida, em diálogo contínuo com a vida de Jesus.

Para nossa surpresa, Jesus não nos diz o que fazer – pois basta contemplá-lo, mas como viver. Ele é nosso evangelho e nós passamos a ser evangelhos vivos na história do mundo. Nas horas de dúvida, cansaço, o Espírito Santo dirá palavras de conforto, será força em nossa fraqueza, segundo a promessa do Mestre.

A vida do discípulo se faz no caminho

Jesus alimentava sua intimidade com o Pai retirando-se para o silêncio da oração. As multidões o procuravam, mas, à tarde ou à noite, ele sentia a necessidade do silêncio para conversar com o Pai.

Ser discípulo de Jesus é cultivar a oração pessoal. O trabalho não aplaca a sede de Deus, pois ansiamos pelo encontro com o Deus vivo que não se dá no barulho, mas necessita do silêncio onde se escuta e se fala, onde é possível a contemplação. Os grandes evangelizadores e agentes de transformação cristã foram também místicos como Moisés, Abraão, os Profetas e os Santos que passaram pela experiência do deserto. Movidos ao trabalho pelo amor que não se apaga, alimentam-no no encontro possibilitado na profundidade da oração.

As decisões de Jesus foram tomadas após uma noite de oração. Antes de querer apóstolos, ele quis ter discípulos, antes de enviá-los ao anúncio do Reino, conviveu com eles. Com a melhor das intenções, tantas vezes somos apóstolos dedicados, mas não somos discípulos. Somos impelidos pelo ardor apostólico, mas nosso rosto não mostra ainda o rosto de Jesus, porque não demos tempo ao discipulado. Criamos comunidades ativas e que depois nem sabem o por quê da própria existência. Privamo-las de conhecerem a Jesus e de conhecerem o Pai.

O caminho nunca termina. A peregrinação não tem fim, o importante é o caminho onde Deus está, o importante é caminhar. Necessitamos do retorno diário ao primeiro encontro com Jesus, ao primeiro chamado. Seguiremos com ele pelo caminho, ouvindo as Escrituras, entendendo-as porque ele nos explica, e nosso coração arderá como o dos discípulos de Emaús. E firmaremos nossos passos na casa de Jesus e ouviremos a resposta, após uma vida toda a perguntar: «Onde moras?» E escutaremos com o coração palpitando: «Minha casa é o Pai».

Pe. José Artulino Besen

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A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO

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A volta do filho pródigo – Rembrandt

João Batista anunciou um Messias justo, vingador: o machado já está posto à raiz para cortar e queimar a árvore que não der fruto. O povo judeu, dominado pelos romanos, escandalizado pelas elites que traíram o culto a Deus pelo dos ídolos, tinha a mesma imagem do Messias: era a hora da vingança divina, de recompensar os bons e castigar os maus.

Mas, Jesus ultrapassa João e decepciona os que estavam a se convencer de que ele, sim, era o Messias anunciado e esperado. Estranhamente define sua missão: Não vim para salvar os justos, mas os pecadores. Não vim para os sãos, mas para os doentes.

Desconfiado, João envia discípulos a Jesus para ter uma resposta segura: afinal, era ou não era aquele que devia vir. Serenamente, o Senhor responde: os cegos vêem, os surdos ouvem, os prisioneiros são libertados, a todos é anunciado o tempo da salvação. Seus privilegiados não são os virtuosos, e sim, os doentes, pobres, prostitutas, ladrões, os excluídos. Veio tirar o pecado do mundo.

Jesus é o narrador do Pai, é o cronista de Deus, essa foi e é sua missão. Ele recorda ao povo judeu que os profetas falavam de Deus como mãe compassiva, esposo que ama seu povo como esposa, Deus que desce para escutar os pequeninos, que os Salmos já cantam a misericórdia divina, que todos podem pedir-lhe socorro. Assim falam as Escrituras, mas os doutores da Lei preferiram acentuar o que lhes dava poder, transformando a fé em moral e corrompendo a imagem do homem e de Deus.

Após ter narrado o Pai com sua vida e palavras, Jesus se serve de imagens para que guardassem bem como é o Pai, como é Deus Pai. E isso nós recebemos do Evangelho de Lucas em seu capítulo 15, nas três parábolas que revelam o rosto e o coração de Deus: a ovelha perdida, a dracma, o filho pródigo.

E nós, cristãos, temos clareza de que o rosto de Deus Pai é também o rosto de Jesus. O Pai nos deu seu Filho, e o Filho se nos deu na cruz, expressão máxima do amor.

O Espírito inspira e move os artistas

Os artistas são homens e mulheres inspirados, e a arte verdadeira revela a beleza de Deus. A parábola do Filho Pródigo teve seu melhor retratista em Rembrandt (1606-1669), pintor holandês. Após anos transcorridos na festa e no desperdício, nas despesas sem controle, Rembrandt estava velho e pobre, sofrido pela perda dos filhos, da esposa, dos amigos. Então, descobre que não está abandonado por Deus, o que expressa de modo único na história da arte através da tela A Volta do filho pródigo, composta nos últimos três anos de sua existência.

Exposto no Museu Hermitage de São Petersburgo, na Rússia, o quadro de 262 x 205 cm impressiona quem o contempla: nele, através da parábola de Jesus, o artista revela, na imagem do filho que retorna, seu coração sofrido e a confiança no Pai que não o rejeita.

 O retorno do filho pródigo – o nosso retorno

O pintor holandês, com essa obra, quis responder à pergunta: Por que o filho retornou, ou melhor, teve coragem de retornar? A tela, seguindo o relato de Lucas, dá a resposta: ele conhecia seu pai, ele sabia que poderia tomar o caminho do retorno.

Rembrandt nos coloca frente à frente com os três personagens da parábola: o pai, o filho pródigo e o irmão mais velho. Inspirado por seu caminho de pecado e conversão, o artista nos oferece três retratos situados num ambiente escuro, onde uma luz vinda da esquerda ilumina apenas o necessário de cada um.

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A volta do filho pródigo – Rembrandt
O Pai

O Pai – é um velho, já arcado, um velho cego, frágil. Mas, tem duas mãos imensas: a mão direita é feminina, mão de mulher, de mãe, mão carinhosa; a mão esquerda é masculina, firme, mão espalmada, mão de homem, de pai.

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A volta do filho pródigo – Rembrandt
O filho mais novo

O filho – está ajoelhado apoiando-se no ventre do pai. Tem a cabeça raspada, como um feto que deseja renascer retornando ao ventre do Pai/Mãe. Os pés estão calçados, calçados velhos, é verdade, mas calçados, a demonstrar que não perdeu a dignidade apesar de tanto ter aprontado. Pendurado à cintura vemos um cilindro com os documentos: pobre, roupas aos trapos, mas o filho não perdeu a identidade.

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A volta do filho pródigo – Rembrandt
O irmão mais velho

O irmão mais velho – alto, o mais alto da cena, frio, ausente, incapaz de mover-se ao encontro, olhar de reprovação diante do Pai.

Lição de retorno confiante

Contemplemos o significado da imagem em seu mistério de compaixão e redenção.

O filho jogou-se aos pés do pai para repetir a frase decorada e encenada: “Meu pai, pequei contra Deus e contra ti, já não sou digno de ser chamado de teu filho”. O velho pai o interrompe para ordenar aos empregados: “Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho, colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés”.

Aconteceu o emocionante encontro do “meu pai” com o “meu filho”. Não houve interrogatório, reprimenda, considerações de prazos. O pai não deu nenhuma importância à declaração do filho, porque lhe interessava apenas o “meu filho” que tinha retornado.

Naquele momento acabara o sofrimento e a espera do pai: o filho tinha retornado. Rembrandt retratou o pai sinalizando sua total fragilidade: velho e cego, pai e mãe ao mesmo tempo, totalidade de amor. Num movimento de confiança, o filho retorna ao ventre paterno/materno para renascer. Entra no ventre da misericórdia e vem à luz com identidade e dignidade renovadas. O pai mesmo declara que o filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi reencontrado. Alegria geral.

Chega o filho mais velho, atrasado, e se espanta com tanta alegria: o que estaria acontecendo? Ao lhe explicarem o motivo da algazarra não se contém: trabalho para esse velho há tantos anos, e nenhuma festa. Vem esse desertor e deserdado e recupera a herança. Não contém o mau humor, e não se refere a ele como pai. O pai lhe explica o porquê da alegria e o chama de “filho” e declara que “o que é meu é teu”: por que não festejarmos?

Qual a diferença fundamental entre esses dois irmãos? O mais velho era o bem comportado, não tinha defeitos, mas, não tinha coração. Não vivia a identidade de filho: “eu trabalho para ti”, e em nenhum momento fala do pai. Estava feliz sozinho, a chegada do irmão o irritou: tinha que reaprender a repartir, conviver, compartilhar.

O filho mais novo foi cruel: quando percebeu que o pai não morria, pediu o adiantamento da herança. Foi mau, esbanjador, iludiu-se com os amigos da riqueza, esqueceu a educação recebida, mas … mas não esquecera que era filho e que tinha pai. Não esqueceu como era “meu pai”, que ele o estava esperando, razão que lhe deu a coragem do retorno.

Coragem, não desanimeis!

Cada um de nós vive a experiência do esbanjamento da herança paterna e do esbanjamento da herança espiritual, mas não sente o esbanjamento de Deus em nosso favor. Tantas vezes parece que necessitamos experimentar o lodo do pecado para retornar às pastagens eternas. O filho perdido e reencontrado é cada um de nós, é cada um de nossos semelhantes.

Podemos retornar ao “meu Pai” para renovar a graça da filiação, e devemos ser pai para o irmão que errou e nos procura.

A Igreja não é comunidade de santos e justos, mas de pecadores que querem voltar para o Pai. Fora disso, é uma coletividade de gente bem comportada, preocupada apenas com sua salvação, indiferente frente às multidões abatidas como ovelhas sem pastor.

Pe. José Artulino Besen

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NOSSO DEUS SE ABAIXA E NÃO NOS REBAIXA

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JOÃO ESCUTA O CORAÇÃO DE JESUS – Ruberval – OSB

Jesus tomou de tal maneira o último lugar que ninguém jamais pode tirá-lo de lá. Essa frase do Pe. Huvelin ficou gravada indelevelmente no coração de Charles de Foucauld e o levou a uma conversão progressiva, até o retiro final e martírio no deserto argelino de Tamanrasset.

A autêntica fé bíblica e cristã não pode se esquivar do verbo “abaixar-se”: a história da salvação tem início com Deus se abaixando para enviar Moisés e a história da nova aliança, com o Filho se abaixando e assumindo a condição humana. Deus se abaixa a fim de que não nos sintamos diminuídos, amedrontados frente à sua grandeza e onipotência.

No Antigo Testamento, encontramos melhor o Deus abaixado nas Teofanias (manifestações divinas), únicas no universo religioso: Deus vai ao encontro de Abraão nos três forasteiros, coisa que ele nunca esperava, pois o caminho seria encontrar Deus, mas é Deus que vai-lhe ao encontro, se abaixa (Gn 18, 1-15).

Nós esperamos que ele manifeste o seu poder, mas Deus nunca faz assim. Deste modo, para encontrarmos o Deus que se abaixa temos que também nos abaixar. No monte Horeb, Deus não se revela a Elias no terremoto, no fogo, mas na brisa suave. No profeta Isaías, temos a revelação de que Deus escolhe um resto de Israel, o escolhido é o Servo sofredor.

Quando o tempo estava maduro, a Palavra se fez Carne e habitou entre nós (Jo 1, 14).

Deus se faz homem, assume a condição humana. Jesus é um Deus abaixado que se abaixa mais ainda: ele se esvaziou, desceu até a morte (Fl 2, 5). Em seu Magnificat, Maria canta a bondade divina que a escolheu, a ela que se fez serva, para fazê-la Mãe dos povos.

O Centurião viu isso quando contemplou Jesus morto na cruz e proclamou: Tu és o Messias! (Mc 8, 29-31). Na extrema miséria contemplou a extrema glória.

 O ministério de Jesus, ministério de abaixamento

Jesus se abaixava, descia e somente desse modo encontrava o pobre que podia se erguer. Levanta-te, toma teu leito e anda, ordenou ao paralítico em Jerusalém (Jo 5, 1-9); Levanta-te e fica de pé no meio de todos, falou ao homem de mão atrofiada (Lc 6, 6-11). Ele desce até o leproso que lhe diz “se queres, podes me curar”; e Jesus, movido de compaixão, estende a mão e tocando-o, diz: Eu quero, sê purificado (Mt 8, 1-4). Se compadece do filho da viúva de Naim: Eu te ordeno, levanta-te! (Lc 7, 11-17). Olha o pecador Zaqueu e não o humilha: Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa (Lc 19, 1-10. Gesto único, ele pede água à Samaritana: Dá-me de beber! (Jo 4, 4-27).

Inicia seu reinado declarando ao Bom Ladrão: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso (Lc 23, 39-43). É considerado o patrono dos teólogos, pois foi o primeiro a proclamar iniciada a realeza do Messias.

Os Discípulos aprendem a lição e dizem ao cego de Jericó: Coragem! Ele te chama. Levanta-te (Mc 10, 46-52).

Permanecer junto dos pequenos e simples, foi esse o caminho escolhido por Jesus, não como tática de atração, mas como atitude brotada de seu coração divino. O segredo de sua missão era acolher a ovelha ferida: acolher, e sempre.

Seu Testamento não deixa dúvidas (Jo 13, 1-20): O que eu fiz, façam uns aos outros. Jesus se colocou no lugar do escravo, do servo: o gesto do Lava-pés era gesto de abaixar-se, e Pedro quis rejeitá-lo, mas teve de aprender: Se não te lavo os pés, não terás parte comigo.

É no se rebaixar que se constrói o espaço de encontro. Enquanto sou autoridade, não tenho esse espaço. Ao abaixar-me, permito que a pessoa exista à minha frente, de igual para igual. Abaixar-me provoca a felicidade de encontrar a pessoa como ela é, sem condições. Decido, gratuitamente, oferecer-lhe meu tempo, meu afeto, partilhar a existência. Não o faço para ter proveito, mas porque quero acolhê-la. Como Jesus encontrou e acolheu a Samaritana, a Adúltera, o Bom Ladrão, o Centurião com o filho doente.

Se o gesto de Jesus não for o nosso gesto, isto é, abaixar-nos, não conseguiremos encontrar Deus, pois ele está abaixado. Somente quem se abaixa mergulha no coração da Trindade e pode rezar com toda a confiança: Senhor, presta atenção, responde-me, porque sou pobre e infeliz. Piedade de mim, Senhor, a ti eu clamo o dia todo (Sl 85, 1-3). Fala como a um amigo.

Santa Catarina de Siena entendeu-o plenamente e não se intimidou em revelar o afeto divino: Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura. Tão pobres nós somos, mas Deus se encanta conosco.

Pe. José Artulino Besen,
a partir de reflexão de Ir. Henrique da Trindade

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DEUS É AMOR, O AMOR É DIVINO

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Santíssima Trindade com São Jerônimo e duas Santas – Andrea Del Castagno – ca. 1453 – Florença

A fé cristã tem como fundamento a revelação de que nosso Deus é Trindade, Uno e Trino, e que o Filho se encarnou, morreu e ressuscitou por nós e por nossa salvação.

Não nos é dado entender o mistério trinitário, do mesmo modo que não entendemos o mistério de uma pessoa, mas, podemos nos achegar de modo muito mais belo e profundo: contemplar e adorar o Deus Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo a partir da Palavra. Quando entendemos, a realidade diminui porque é dominada, empobrece e, quando contemplamos e adoramos, Deus vem ao nosso encontro e nos fala como a amigos, mas, permanece o mistério até o dia quando o que “os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e nem suspeitou a mente humana, o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Coríntios 2, 9).

Sirvo-me da palavra de Bento XVI na festa da Santíssima Trindade de 2009[1]: “Três Pessoas que são um só Deus porque o Pai é amor, o Filho é amor, o Espírito Santo é amor. Deus é totalmente e somente amor, amor puríssimo, infinito e eterno. Não vive numa esplêndida solidão, mas é antes de tudo fonte inesgotável de vida que se doa e se comunica incessantemente” (Angelus de 7 de junho de 2009).

Cristo veio ao mundo para que tivéssemos acesso ao amor de Deus e para que esse amor seja aceso como fogo em nossos corações: “Eu vim lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lucas 12, 49). Do mesmo modo que a essência de Deus é o amor, a natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da Caridade (diakonia). Com uma palavra densa, Bento XVI sintetizou o programa da evangelização e da vida cristã: anúncio, liturgia, caridade. São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros, e que nos conduzem no caminho do amor divino. Pela continuidade temática de seu ministério, no tempo certo, ele será recordado como o Papa do amor divino.

A presença de Cristo, Deus e Homem, é a força que movimenta todo o universo até que Deus seja tudo em todos na potência da ressurreição (1 Coríntios 15, 28). A Encarnação trouxe o Filho para o centro da criação e a Ressurreição conduz a criação ao centro do Deus Trindade.

“É o amor divino, encarnado em Cristo, a lei fundamental e universal da criação”. (Bento XVI, 10 de janeiro de 2009). “A força da caridade é irresistível: é o amor que, verdadeiramente, faz progredir o mundo” (Bento XVI, em Pompei, 19 de outubro de 2008).

Somos o centro da Trindade

Três Pessoas que são um só Deus, porque Deus é amor, isto é, a essência da divindade é o amor, a caridade que une sem negar as diferenças. À medida que formos mais capazes de amar verdadeiramente, mais seremos capazes de penetrar o mistério de nosso Deus. Quando Lucas afirma que “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (Atos 4, 32) estava retratando o fruto do amor divino nos primeiros cristãos: eram muitos, mas um só coração e uma só alma, pois mergulhados no amor trinitário. Enquanto nós, humanidade, estivermos divididos em tribos, nações inimigas, em pobres e ricos, comprovamos como ainda é distante a vivência do amor cristão.

Com perseverança, o exemplo pessoal e a palavra, Papa Francisco retoma o tema da Igreja dos pobres e da Igreja pobre, comunidade de amor. Não é necessário muito discurso para reconhecer os pobres: são as pessoas que sofrem, os doentes, os idosos sozinhos, os jovens em dificuldade, os dependentes químicos, os violentos, os prisioneiros, os desabrigados, aqueles que vivem em graves condições de pobreza e de dificuldade social e econômica.

É da natureza do amor expandir-se, ir ao encontro: assim, Deus Pai cria o mundo, cria a vida, cria o homem e a mulher para poder amar. Deus Filho vem ao mundo para renovar a criação e a humanidade decaída, fazendo novas todas as coisas (Apocalipse 21, 5). Deus Espírito Santo é fogo de amor, paz, santidade e renova tudo e todos.

Há imensa dignidade em cada um de nós, sem nenhum merecimento: somos o centro aonde converge o amor divino e recebemos o dom inestimável de poder amar, de sermos divinos pelo ato de amar.

Deus é amor, o amor é divino: nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus e recuperamos nossa semelhança pela conversão ao amor. E isso não é pesado, não é um mandamento duro: somos amados primeiro. Nosso amor é somente resposta.

Não necessitamos ficar abismados pelos santos que deram a vida pelo próximo, pelos jovens que se consagram à missão, por aqueles que empenham toda a vida no serviço ao próximo, à família: sentem-se amados e não conseguem se fechar em si, também se dilatam no amor. Tudo se faz amor quando meditamos no amor pessoal de Deus por cada um de nós: “Tu és Trindade criadora e eu sou tua criatura. Tu estás enamorado de tua criatura”, declarava, cheia de encanto e maravilha, Santa Catarina de Siena (1347-1380). Ela, a analfabeta doutora da Igreja, sentia que Deus estava apaixonado por ela, caso contrário, não a procuraria sem lhe dar sossego.

Pe. José Artulino Besen


[1] Bento XVI iniciou o pontificado com a Encíclica Deus caritas est, Deus é amor, publicada no Natal de 2005, marcando a força de seu ministério no anúncio do amor divino. Poucos nos apercebemos, mas seu último documento doutrinal e disciplinar foi sobre o amor, a Carta apostólica Sobre o serviço da Caridade, de 11 de novembro de 2012.

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