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NOSSO PAI E A LEMBRANÇA DELE NO DIA DOS PAIS

Artulino Besen

Artulino João Besen

Hoje, dias dos pais, decidi falar do pai para que meus irmãos e eu o recordemos com gratidão e para que meus sobrinhos, um belo ninho de 33 jovens e bebês, possam conhecê-lo e sentir a herança humana e cristã que nos legou. Ele amava crianças. Quando lhe perguntei se aceitava a morte, respondeu que teria muita pena de deixar as crianças.

O pai Artulino João Besen era filho de João Antônio Besen e de Catarina Zimmermann e nasceu no Rachadel de Antônio Carlos em 10 de janeiro de 1920. Era criança quando o pai dele decidiu levar a família para Antônio Carlos, sendo a primeira família que se “arriscou” a ir morar no meio dos “brasileiros” do Alto Biguaçu. Ali, onde hoje está situado o perímetro urbano de Antônio Carlos, nosso avô adquiriu propriedade plana, adaptada à agricultura. Era cortada pelo rio Biguaçu, em cujas margens primeiro construiu casa de madeira para colocar os 10 filhos e, logo depois, uma casa grande de alvenaria, com seis quartos, grande cozinha em cuja parede construiu forno e fogão à lenha. Foi inaugurada em 1929 e, felizmente, ainda está conservada. Nós morávamos “no outro lado do rio”.

Aos 17 anos nosso pai sofreu osteomielite, com chaga dolorosa na tíbia da perna esquerda. Sem outro tratamento que a paciência na dor, por meses ficou acamado com dores atrozes e aprendendo a viver com dor. De fato, nosso pai sabia viver com dor e gostaria que os outros também o soubessem. Como estava ainda em fase de crescimento, esse osso não cresceu e nosso pai mancava. Num dia se levantou, reiniciou a trabalhar na dura lida da roça, da criação de gado e de suínos e ninguém se lembrou mais da doença, nem o pai. Para susto nosso e, especialmente, dele, quando completou 60 anos, adoeceu. Teve de aceitar ir ao médico. Ao revelar que sentia dor na perna, o doutor pediu que levantasse a perna da calça. Para humilhação sua, nosso pai teve que revelar um segredo tão bem guardado que nem a esposa conhecia: lá estava a chaga da osteomielite que tinha propagado a infecção ao seu redor. Ficou internado no Hospital de Caridade e conseguiu recuperar através de cirurgia. Quando perguntamos ao pai por que escondera a ferida, respondeu com simplicidade que não queria incomodar ninguém: se fosse câncer, morreria com o segredo e, se fosse doença incurável, não seria bom deixar a família preocupada. E assim, durante décadas fez diariamente o curativo, pois o trabalho na lavoura, coices de animais machucavam a úlcera. O pai aprendeu a conviver com essa dor até os últimos dias.

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Nosso pai com a família na profissão religiosa de Maria, em 1967. Ao lado dela, Olívia, nova mãe

Artulino e Lúcia e oito filhos

O pai desejou constituir família e encontrou moça de boa família: Lúcia Pauli, nossa mãe. Ele tinha 26 anos, ela 29. Nossa mãe fora interna do Colégio Coração de Jesus, em Florianópolis, pois pensava na vida religiosa e nesse caminho trabalhou no Hospital de Caridade. Num dia, para surpresa de Irmã Bernadete, revelou que não queria mais ser irmã, pois desejava se casar para ter uma filha freira e um filho padre. O casamento foi em 7 de setembro de 1946. E começaram a nascer as crianças: entre 1947 e 1959 nasceram Maria, Nesir Madalena, José, Cecília, Inês, Ivone, Pedro e Sebastião. Todos em casa.

Além desses filhos, o pai e a mãe cuidavam da vovó Catarina, alemã de antiga cepa, a ponto de não falar português para não se rebaixar, mulher forte e rigorosa que exigia o milagre de nosso silêncio. Na pequena igreja do Sagrado Coração de Jesus, o último banco era dela, e somente dela, a majestosa Catarina com seu livrinho de orações. Quando o Pe. Roberto pediu orações para que chovesse, ela foi à sacristia dizer-lhe que para chover não se reza, pois Deus colocou uma lei no tempo. Deus a chamou em 1957. Lembro do padre que foi chamado para o último sacramento: vó Catarina participou das orações e ao responder o Amém final, apagou-se. Como sempre, a última palavra foi dela.

Nosso pai era homem do trabalho, fazia do trabalho, qualquer trabalho, seu divertimento. Seu dia tinha início às 4h da manhã com a moagem da cana e era encerrado pelas 21h., com o último trato para o gado. Ele e mãe ordenhavam as vacas de manhã e à noitinha, num ritual nunca interrompido. Com os anos, Maria, Nesir, Cecília, Inês e Ivone aprenderam o ofício. O pai gostava de ter as coisas no lugar: tinha-se certeza de onde estavam as chaves, enxada, foice, os instrumentos de trabalho. Não nos dava sossego e não adiantava fazer as coisas mais ligeiro, pois haveria novo trabalho. A cada idade, os seus trabalhos. Ele gostava de repetir que trabalho era divertimento, e divertimento, como futebol, era castigo. Assim pensava e nos obrigava a agir assim. Claro que em nossa família nunca se discutiu com os pais e nunca se respondeu às suas palavras. O respeito era natural.

A terra era a paixão do pai Artulino: gostava de ter tudo limpo, capinado, as cercas conservadas, nada de matagal ou pastagem com erva daninha. Parecia até que o dinheiro que a terra lhe dava era para enfeitá-la, acariciá-la, ter uma propriedade bonita. E repetia que terra se compra, terra não se vende, o que seguiu à risca.

Os filhos se preparam para a vida

No início, o pai achava que mulher que estudava não servia para o casamento, pois iria querer moleza e não obedecer ao marido. Felizmente o passar do tempo fê-lo pensar diferente, e nem sei por que. A verdade é que dos oito filhos, sete cursaram a Universidade. E sem moleza: às 5h., minhas irmãs pegavam o ônibus para Florianópolis, chegavam após o almoço, e iam direto para a roça, pois para o estudo tinha a noite.

Mesmo com tanto serviço e necessidade de mão-de-obra, pai e mãe não se opuseram a que Maria e Nesir fossem para o Convento e eu para o Seminário. No seu tempo, cumpriu-se o desejo de mãe Lúcia: Maria é irmã religiosa e missionária na Bahia e eu sou padre. Quando vínhamos para as férias, o pai ficava contente: pedia que trocássemos de roupa e fôssemos trabalhar. Os assuntos de Seminário e de Convento eram para depois, que mãe tinha tempo para ouvir.

A divisão de competências também se dava no campo religioso: a mãe nos ensinava as orações, um bocado delas para serem memorizadas, era dela o ofício de escutar o sermão e os avisos do padre. Em comum, no fim do dia, de joelhos, a oração do rosário misturada com cansaço e sono. Para a Missa, mãe ia na frente, após o segundo sinal e pai, pontualmente saía após o terceiro sinal, sempre chegando tarde, pois havia algum servicinho a ser feito. Não havia domingo sem Missa. Quando um irmão disse que não iria mais à Missa, pai foi claro: “então deixa de ser meu filho”. Bastou falar uma vez.

Num dia de inverno do ano de 1964, mãe estava acamada. Doença no mundo rural era complicado, pois o colono não tinha direito a nada, a não ser se encontrasse vaga na enfermaria de algum hospital, recebendo um tratamento que, por ser caridade, era descuidado: alguns médicos olhavam por cima e receitavam o possível. Mãe Lúcia foi internada, primeiro no Hospital de Caridade e depois na Casa de Saúde São Sebastião, na área particular (paga). Mãe estava acamada, preocupada com a doença e as despesas. Pai tinha recebido o pagamento de uma safra de mel de cana, aproximou-se e colocou o dinheiro nas mãos de mãe: “olha, Lúcia, é tudo teu, para teu tratamento”. Eram dois pobrezinhos se enganando, porque ambos sabiam que mãe sofria de leucemia e que a morte era questão de tempo. Em 25 de novembro daquele ano, pai chegou em casa ao anoitecer, pediu a minha irmã Maria que arrumasse a roupa de mãe e retornou à Florianópolis para assistir a sua morte. No meio daquela desventura, diante dos oito filhos nosso pai, com 44 anos de idade, não podia desanimar. Após o sepultamento de mãe, nos falou: “vamos para casa, que pai vai fazer o almoço”.

Agora que mãe Lúcia estava no céu, pai Artulino teve de assumir os encargos religiosos dela: rezar, e rezar muito. No primeiro mês da morte de mãe, dormi no quarto dele e pude constatar que após um dia de trabalho, cansado, machucado, se ajoelhava e rezava longamente. Era preciso.

A vida sempre renasce

O pai sempre olhou o que tinha, não o que perdia, e ficava contente: “perdi a esposa, mas ficaram os filhos”. Era sua natureza ver o lado bom de tudo, e irritar-se bastante quando se reclamava da vida. Pai trabalhava na roça, sabia cozinhar, fazer pão, costurar e foi ensinando os ofícios às minhas irmãs.

Mas, ele tinha consciência de que não poderia educar os filhos e tocar os trabalhos. Necessitava de uma companheira. Procurou-a sem pressa, pois os filhos estavam em jogo. Sabendo que em Lages havia uma moça conhecida da juventude, pois era de família de Antônio Carlos, para lá se dirigiu no mês de dezembro de dois anos depois.. Era Olívia Koch, prima de nossa mãe, ex-juvenista e enfermeira. Com pressa, pois tinha passagem de volta marcada, pai perguntou se aceitaria o casamento e ela respondeu que sim. Ato contínuo, marcaram o casamento para o mês de janeiro seguinte. Assustado pelo que tinha feito, o pai rezou muito e foi abençoado: encontrou uma esposa verdadeira, nós ganhamos uma mãe verdadeira e recebemos dois irmãos: Claudemir e Marcos Aurélio.

A vida continuou na fé, na alegria, no trabalho. Deus abençoou o pai, sempre. Na manhã de Natal de 2001, o pai sofreu um AVC e foi encaminhado ao Hospital. Pelas 10h levei-lhe a Comunhão, falei que estávamos todos unidos e vi que seus olhos ficaram marejados de lágrimas. A família era seu prazer. Nos dias seguintes, progressivamente sua mente se apagava, teve olhos para ver os filhos que se reuniam ao seu redor, a filha Maria que chegara do Ceará, Sebastião, de Curitiba. Depois, a luz se apagava em sua memória e dentro dele brilhava forte a Luz da eternidade. Era o dia 1º. de janeiro de 2002 quando pai morreu, aos 82 anos. Tudo foi sereno, tudo foi ação de graças. Nosso pai e nossa mãe foram um grande dom que Deus nos tinha concedido e que agora devolvíamos, profundamente agradecidos.

Pe. José Artulino Besen

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HÁ 50 ANOS, DESPEDIDA DE NOSSA MÃE LÚCIA

1964 - 25 de novembro - 2014 - Encomendação e Despedida de nossa mãe

1964 – 25 de novembro – 2014 – Encomendação e Despedida de nossa mãe

Não creio que haja diálogo mais doloroso do que esse, em 29 de novembro de 1964, quando Pe. Osmar Müller me perguntou: – “Então sua mãezinha morreu, não é mesmo?” Só lembro que fiquei muito envergonhado, pois os soluços não me deixaram falar. Senti-me o adolescente mais infeliz do mundo e na pior idade para ouvir essa pergunta afirmativa.

Era verdade: três dias antes, na igreja matriz de Antônio Carlos, ainda sem reboco, estávamos reunidos meu pai, e meus irmãos Maria, Nesir, eu, Cecília, Inês, Ivone, Pedro e Sebastião. Esse último, o caçula, estava com seis anos e Maria, a mais velha, com 17. Imenso e tranqüilo, como a nos envolver num único abraço, meu pai Artulino: 44 anos de idade e 8 filhos para criar e educar. Não era imenso, mas parecia ser, pois era nosso único refúgio humano. Tranquilo, sim, pois não tinha oportunidade para expressar dramas. Lembro o momento mais belo – na extrema dor há muita beleza –, na hora da Consagração, quando o coral cantava o hino “Mais perto do meu Deus, ó Pai do céu, em dura provação, e tentação. Quando em pavor gemer, hei de fiel dizer: mais perto do meu Deus, ó Pai do céu!”. Ouvi-lo foi tão doloroso que cuidei para nem ao menos suspirar, assim prejudicando a beleza pungente desse canto de fé cantado nos últimos momentos do naufrágio do Titanic, em 1912. Tantas vezes o tinha cantado e escutado, mas somente nesse momento ouvi-o de verdade.

No meio de meus irmãos, tios, primos, povo, Pe. Alfredo Junckes, ao lado do cadáver de Lúcia Pauli Besen, minha mãe, senti-me vítima de divina injustiça na provação e na tentação. E me fiz a pergunta idiota que daí para frente escuto, e já são 50 anos: “Por que nós?” Tempos depois penso que faria uma afirmação mais equilibrada, porque a convivência com a dor nos torna misericordiosos: “Felizmente nós, e não os outros”. Missa terminada, o sepultamento, no antigo cemitério, ao lado da igreja. Passava das 11 horas de um dia de muito calor. O povo, generoso com sua presença, olhava-nos com ternura e solidão, porque nada podia fazer, e se retirava. Recordo que Ivone chorava desconsolada e pedi que parasse, pois não ficava bem. Estética das lágrimas num adolescente que guardou-as para derramá-las nas décadas seguintes, aumentadas com a morte de meu pai e do caçula Sebastião, que morreu aos 47 anos, mesma idade daquela que sepultávamos.

Na véspera, 25 de novembro, ao desembarcar em Biguaçu, mal informado, perguntei ao motorista: “E como está a mãe?” A resposta foi seca: “Já morreu nessa madrugada”. Passados 50 anos, acho que foi a melhor resposta, unindo perfeita dor com perfeita verdade, sem encantamentos que eventualmente poderiam postergar a dor, não suprimi-la. E eu tive uma certeza: não temos mais mãe.

Agora já estava sepultada, numa carneira, e nos foi dado o consolo de não escutar a música fúnebre das tradicionais pazadas de barro, cadenciadas ao ritmo do choro. E meu pai falou: “Filhos, vamos para casa, que o pai vai preparar o almoço”. O pai não teve tempo para lamentos, as oito bocas pediam comida.

A noite que antecedeu o enterro e a tarde que seguiu foram os tempos mais longos de minha vida. Tinha o sentimento de que o tempo voava, mas é porque estava parado. Aproveitei e escrevi carta para Mons. Valentim Loch, reitor do seminário de Azambuja, onde estava internado. Ignoro os caminhos, mas parou com minha irmã Nesir que a guardou, mostrou-me, mas não li. É um cofre que vela os sentimentos daquela tarde há 50 anos, e acho que não fica bem violá-los.

Antigas recordações que não envelhecem

Lúcia Pauli Besen - nossa mãe

Lúcia Pauli Besen – nossa mãe

Lúcia, nossa mãe, nasceu em Antônio Carlos em 12 de setembro de 1917. Bárbara, sua irmã, ingressou no convento das Irmãs da Divina Providência em Florianópolis. Pouco depois, ela também teve autorização para segui-la, o que lhe deu o privilégio de estudar no Colégio Coração de Jesus, assim aprendendo a falar em português. Era postulante devota quando se dirigiu à Irmã Bernadete: “Irmã, quero deixar o convento”. Diante do susto da formadora, afirmou com segurança: “Quero me casar para ter uma filha freira e um filho padre”. Saiu, e conseguiu trabalho no Hospital de Caridade onde, pela competência e dedicação, mereceu ir para o centro cirúrgico como instrumentadora do Dr. Richard Gottsmann, que nela apreciava a atenção, a rapidez e o falar alemão. Não engane o nome “Gottsmann” – homem de Deus, porque era ateu devoto. Minha mãe, ingênua, queria convertê-lo para salvar-lhe a alma e Herr Doktor sempre repetia: “Já viu alma na barriga de alguém?” Em sua ânsia missionária teve de se haver com três alemães: Moellmann, Gottsmann, Freusberg.

O tempo passou, e lembrou a promessa de ter uma filha freira e um filho padre. Retornou à família e, em 7 de setembro de 1946, contraiu matrimônio com Artulino Besen. Os filhos foram aparecendo até o oitavo, em 1959. Hoje ainda recordo como nossa mãe dava conta do serviço: o lar, os filhos, nossa avó Catarina sempre doente, o quintal, as galinhas, tirar leite, cozinhar, fazer pão, aplicar injeções nos vizinhos, costurar toda a roupa da família, remendar as usadas, rezar e cantar. Rezar. E como minha mãe rezava. As Irmãs tinham-lhe ensinado o medo do pecado, mas não lhe lembraram a alegria de não pecar. Escrupulosa, num dia confessou-se duas vezes, para ter certeza, e sempre em alemão, para ter mais certeza ainda. Grande prazer de minha mãe era escutar notícias de outros países e depois conferi-las num Atlas geográfico, pois a palavra “estrangeiro” nela despertava emoções revividas olhando mapas.

Os filhos foram a alegria que o Senhor lhe concedeu nessa vida. E cuidou de nossa vida espiritual com zelo. Ao anoitecer, tirava-nos da cama para “tomar” nossas orações, primeiro para decorarmos e depois para rezarmos: Pai-nosso, Ave-Maria, Creio, Salve Rainha, as duas Consagrações e um bocado de Jaculatórias. Mesmo com tanto trabalho, permitiu aos três mais velhos estudarem fora, buscando a vida religiosa. E cumpriu a promessa: Maria, a primeira filha, tornou-se religiosa e missionária, hoje na Bahia. E ao mais velho, competia ser padre.

Lembro com muita nitidez da imagem que se formou em minha mente na hora em que o motorista disse: “Já morreu de madrugada”. À beira da BR 101, abandonado até pela solidão, a imagem que se formou em minha mente foi um flash: eu estava rezando a Primeira Missa sem a presença de minha mãe. E, daí em diante, tive que tomar a decisão vocacional sem o anteparo de alegrá-la.

No dia de Finados de 1964, quem conta é minha irmã Maria, nossa mãe falou, da porta da cozinha, olhando para o cemitério: “Este Mês estarei lá”. Foi a profecia. Meio século passado, neste 2 de novembro lembro tudo isso e pela primeira vez compartilho, por causa dela e de meu pai e meus irmãos. Nenhum de nós duvida de sua ressurreição.

Pe. José Artulino Besen

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SÍNODO DOS BISPOS – MATRIMÔNIO E MISERICÓRDIA

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Na Festa da Exaltação da Santa Cruz, 14 de setembro, papa Francisco presidiu a Missa na Basílica de São Pedro e abençoou o casamento de 20 casais, alguns jovens, outros mais vividos, alguns já acompanhados de filhos. Esses últimos são o lado vistoso de nossa vida paroquial, cuja celebração chamamos de “legalização do matrimônio”. Papa Francisco, que deve ter presidido a centenas dessas “legalizações” nas periferias de Buenos Aires, festejou a todos. Mais um sinal de que o Papa quer a Igreja católica mais aberta e inclusiva.

Podemos ligar essa Celebração à 3ª. Assembléia Geral Extraordinária dos Bispos sobre a Família, a realizar-se no Vaticano de 5 a 19 de outubro. O 253 participantes, provenientes dos cinco Continentes, incluindo cardeais, bispos, casais, especialistas, religiosos refletirão sobre “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”.

O tema família é central na vida humana, na vida da Igreja, e a família cristã é uma das mais atingidas pela revolução de costumes das últimas três décadas. Hoje, a família é desafiada por outras vivências humanas, como casais sem filhos, casais separados, casais em segunda, terceira união, crianças somente com pai, ou somente com mãe, casais homossexuais, alguns adotando filhos, casamentos provisórios etc., numa diversidade que pode nos assustar, mas nos obriga ao acolhimento misericordioso. Vetos e condenações facilitam a ação pastoral e nos deixam com a consciência do dever comprido, mesmo ao preço de afastar muita gente da Igreja. Lembro de um padre, zeloso, bem intencionado, que declarou a uma senhora em segunda união: “A senhora está em pecado mortal, porque vive em situação de prostituição”. O padre apenas esqueceu de olhar a criança que ela carregava no colo, e outro já andando: ela era mãe!

Voltemos ao Sínodo: está sendo a oportunidade de revelar uma realidade desagradável: a oposição ao Papa Francisco e à sua vivência como Bispo de Roma desde que fixou residência na Casa Santa Marta, símbolo da Igreja acessível, pobre, que sai dos seus palácios, dos âmbitos psicológicos tradicionais: para católicos e bispos tradicionais, isso foge do mundo eclesiástico europeu e italiano, arquivado pela eleição de um bispo argentino. Francisco não é eurocêntrico, e nenhuma doutrina coloca a Europa como modelo para a Igreja. Em particular, algum cardeal já afirma que “o modelo latino-americano não funciona aqui na Europa”, esquecendo que a recíproca é justa: “o modelo europeu também não funciona no Terceiro Mundo”. Não é esse o problema verdadeiro, e sim, a palavra que Francisco propõe: uma Igreja pobre, com os pobres, acolhedora, misericordiosa. Esse é o caminho pastoral dele: lavar os pés de todos, acolher os migrantes, ter cheiro de pobre. Suas viagens não foram para a Europa rica, e sim, para os que estão longe: América latina-Brasil, Lampedusa-migrantes, Ásia-Coréia do Sul, Europa-Albânia.

É compreensível que haja descontentamento com as escolhas de Francisco, pois o fato de morar na Casa Santa Marta permite que tenha contato direto com pessoas sem a intermediação da poderosa Cúria no Palácio Apostólico; atacando o carreirismo como câncer da Igreja, rejeita uma elite que passa a vida em Roma; abandonando os rituais principescos, estimula que padres e bispos façam o mesmo; a bela e despojada Liturgia dele contrasta com os enfeites e suntuosidades de certos padres e bispos; tratando cada diocese como Igreja apostólica, desconsidera as tradicionais sedes cardinalícias que envenenaram a vida pastoral de bispos em busca de sedes “importantes”. A reforma corajosa das finanças do Vaticano dá credibilidade à Santa Sé, o rigor no tratamento dos casos de abuso de menores revela a face de uma Igreja que pede perdão, e a reforma da Cúria romana, em andamento, significará um novo tempo na condução da vida da Igreja. Enfim, Bergoglio foi eleito pelos cardeais porque nele enxergaram a pessoa para orientar uma Igreja voltada para si mesma numa Igreja missionária, voltada para o serviço do mundo, conforme pediu o Vaticano II.

Permanecer na verdade e na misericórdia

Causou espécie no mundo católico a publicação do livro “Permanecer na verdade de Cristo: Matrimônio e comunhão na Igreja católica”, assinado por 5 cardeais e claramente dirigido a atacar o cardeal Walter Kasper, cujas posições sobre o Matrimônio são bem consideradas pelo Papa. É um muro conservador que se ergue, claramente atingindo o Papa através do Cardeal, e se situa na hostilidade às propostas de renovação pastoral a serem discutidas no Sínodo. Como compreender a atitude de purpurados opondo-se a um caminho que Francisco iniciou consultando todos os bispos do mundo, que será proposto na Assembléia sinodal de outubro e, depois de um ano, em novo Sínodo em outubro de 2015? A convite do Papa, o cardeal Kasper falou sobre a família no Consistório de fevereiro último e, na última parte de sua colocação, elogiada pelo Papa que a definiu “teologia de joelhos” que revela o “amor pela Igreja”, sugeriu como hipótese – caso por caso, em determinadas condições e depois de um caminho penitencial – a possibilidade de readmitir os divorciados recasados à comunhão.

A publicação do livro não foi elegante, nem eclesial, pois os cardeais signatários primeiro o apresentaram à imprensa e não a W. Kasper, e bem sabem da posição de Francisco e de seu respeito pelo cardeal alemão. O confronto está definido: de um lado, uma visão pastoral que não admite adequar a doutrina aos sinais dos tempos, como sempre foi feito e, de outro, Francisco: sem negar a doutrina da indissolubilidade matrimonial, considera decisiva a mensagem da misericórdia e continua a convidar a Igreja a sair de si mesma e ir ao encontro dos homens e mulheres nas condições em que vivem. Os 5 veneráveis cardeais estão receosos de que Francisco caia no erro, pois ouvindo todos os bispos pode ser “enrolado” na doutrina. O livro, assim, é uma espécie de convite a que o Papa tenha cuidado.

O sacramento do matrimônio é uma graça de Deus, falou o cardeal Kasper, e faz dos esposos um sinal de sua graça e de seu amor definitivo. Mas, também um cristão pode fracassar e, infelizmente, muitos matrimônios fracassam. Na sua fidelidade, Deus não deixa ninguém caído e, na sua misericórdia, oferece a cada um que deseja converter-se, uma nova chance. Por isso, a Igreja que é o sacramento, o sinal e instrumento da misericórdia divina, deve estar próxima, ajudar, aconselhar, encorajar. Não se podem conceder segundas núpcias, mas, segundo os Pais da Igreja, depois do naufrágio, se lança um bote salva-vidas. Não um segundo matrimônio sacramental, mas os meios sacramentais necessários na sua situação. Assim como não duvidamos que a Igreja católica é a realização mais completa do plano de Jesus, mas enxergamos nas outras Igrejas sinais de salvação, não poderíamos ver o mesmo no casamento civil em que, na fidelidade e na piedade o casal vive sua fé?

Podemos continuar com os vetos do passado, ignorando as novas situações, ficando insensíveis à realidade concreta de tantos que sofrem. Certamente, a atitude misericordiosa de tantos padres e bispos aproxima-os do sofrimento do rebanho e do exemplo de Jesus, o Bom Pastor. Importante expor a doutrina com fidelidade, mas não esquecer que a misericórdia triunfa no julgamento.

 Pe. José Artulino Besen

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O CIÚME, NEGAÇÃO DO AMOR

 “O amor tudo desculpa,
tudo crê, tudo espera,
tudo suporta” (1Cor 13,7).

Existem casais de namorados que vêem charme no ciúme: cobram onde cada um esteve, com quem falou, por que se vestiu assim, por que não apareceu ontem. E assim por diante, num controle total da vida alheia. “A gente se ama, por isso quer saber direitinho o que o outro anda fazendo...”

O ciúme não pode ser confundido com o amor. O amor pode andar acompanhado do ciúme, mas, infelizmente, um morrerá. Quem ama deve perder o ciúme. Quem quer continuar ciumento, acabará matando o amor.

São Paulo, na Carta aos Coríntios, citada acima, nos apresenta predicados inseparáveis do amor verdadeiro e duradouro. Quem ama, crê na pessoa amada. Quem ama, desculpa todos os erros e imprevistos. Quem ama, jamais deixará de esperar que o outro seja melhor. Quem ama, tudo suporta, pois sabe que o amor é um caminho para ajudar o outro a ser perfeito.

O ciumento não crê na pessoa amada; não sabe desculpar; não espera; não suporta os limites humanos da pessoa amada. Numa palavra, o ciumento é incapaz de um amor sadio, equilibrado, duradouro.

O homem ciumento afirma que ama sua esposa: na prática pensa as piores coisas dela! A mulher ciumenta faz juras de amor, mas, realmente, o retrato que pinta do seu marido é o pior possível. O ciúme faz a mulher controlar os passos do marido, o que significa absolutamente não confiar na sua honestidade. Ambos se julgam prostitutos, traiçoeiros. Quando se passa a vigiar os passos de alguém, quebrou-se o clima de confiança recíproca, espatifou-se o amor.

Grande causa do ciúme é a insegurança pessoal. O ciumento não confia em si mesmo; por isso tem que sentir que é dono da pessoa amada. Tem medo de perdê-la. O jovem ciumento é tão inseguro a ponto de recear que qualquer outro jovem tenha mais encantos, e acabará por roubar sua amada… O ciumento se acha feio, incompetente. Vive amedrontado. É inseguro a respeito de si mesmo.

No início do relacionamento amoroso, os ciumezinhos podem parecer charmosos. Após certo tempo, transformam a vida num inferno. Os carinhos são substituídos por tapas e arranhões. Os beijinhos, por beliscões. Quanta louça já foi espatifada pelas ridículas brigas de amor, isto é, de ciúme…

Em sua fase mais doentia, o amor ciumento não passa de ódio camuflado. Há quem mate por amor: na verdade matar é sempre o gesto extremo do ódio. O ciumento acaba por odiar a pessoa amada, porque não tem a certeza de possuí-la. Quando queremos possuir alguém, deixamos de amá-la, pois não admitimos mais a sua independência, mas não desistimos de possuí-la como um objeto.

Jesus nos pede que amemos o próximo como a nós mesmos. O ciumento não se ama de verdade: por isso não é capaz de amar.

Quem ama confia, sempre. Nada poderá abalar este amor.

Pe. José Artulino Besen

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A CONVIVÊNCIA SUPÕE A PACIÊNCIA

Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo
que nos amou e por nós se entregou a Deus
 (Ef 5,2).

Li em algum lugar que um frio terrível se abatera sobre o reino dos animais. Frio tão intenso que, se alguém ficasse sozinho, acabaria congelando. Por isso os animais se agrupavam, um encostado no outro, para que se aquecessem. O porco espinho fez o mesmo, mas logo desistiu: ficou incomodado com as pequenas espetadas de seu colega porco-espinho. Preferiu dormir sozinho. Resultado: morreu congelado. E assim, a cada dia morria um porco-espinho no reino dos animais. Nenhum suportava as espinhadas do outro. Prevendo um fim trágico para todos, entraram num acordo: ficar todos bem juntinhos, se aquecendo, apesar dos espinhos, para não morrerem.

Essa historinha traz uma lição importante: ninguém consegue viver sozinho e ninguém consegue conviver sem algum tipo de sacrifício. Cada pessoa tem “espinhos” que incomodam outros, e os outros têm alguns espinhos que a irritam. Os espinhos são os defeitos pessoais, as limitações, manias. São o modo de falar, de agir, a aparência externa, limites emocionais, cacoetes, pequenas coisas que nos irritam. Percebo os defeitos do outro e ele percebe os meus. Fica a escolha: viver sem incômodos e morrer, ou conviver com eles para viver.

Essas coisas dependem muito de nosso olhar, de nossos sentimentos: atrás de um espinho podemos ver uma roseira ou um espinheiro. Se vemos uma roseira, vale a pena suportar os espinhos devido à beleza da rosa. Se vemos um espinheiro, tomamos distância. No romantismo do namoro e do noivado, os defeitos parecem pequenos encantos, porque o amor é muito forte, é ainda paixão. Depois, no casamento, se entra na rotina, e os defeitos “encantadores” viram motivo de confusão…

A convivência tem por objetivo ajudarmos as pessoas a se aperfeiçoarem. Pelo afeto, compreensão e diálogo ajudá-las a superarem seus limites. Se exijo que o outro não tenha nenhum defeito, tudo bem, somente que o outro também exigirá isso de mim e acabaremos morrendo de solidão, de tédio.

A moça que procura um jovem perfeito para o casamento, acaba ficando sozinha. O marido que sonha com uma rainha dentro do lar, vai perceber que a esposa também quer um rei e lá se vai água abaixo o amor familiar. Há gente sem amigo porque procura o impossível: um amigo perfeito. Muita coisa boa não é construída porque, de tanto enxergar defeito nas pessoas, não temos mais colaboradores.

Atingimos a arte de conviver suportando as pequenas “espetadas” de cada dia, sabendo que nossa paciência ajudará o outro a ser melhor. Vale a pena conviver com pequenas limitações, pois a alegria do estarmos juntos com os outros é muito maior. Se nos isolamos para não nos incomodarmos com os defeitos alheios, acabaremos aumentando o tamanho de nossos defeitos pessoais. O isolamento nos torna incapazes de nos enxergarmos a nós mesmos e nos torna amargos frente à vida.

O outro é meu espelho e eu sou o espelho dele. Às vezes, o que mais me irrita nas pessoas é aquilo que eu tenho e também as irrita. Dizem que vemos nos outros os defeitos que não enxergamos em nós!

Mas não é só por isso, por interesse pessoal, que aceitamos os pequenos sacrifícios impostos pela convivência. Nosso objetivo é maior vai além: existimos para que o outro possa existir. Fomos criados para multiplicar a solidariedade e não a solidão. Ninguém é uma ilha.

Precisamos de humildade, se não quisermos acabar sozinhos. Apesar de alguma “espetada“, a convivência enche nossa vida de calor humano. E então, vale a pena viver!

Pe. José Artulino Besen

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Nossa Família é Maior do que a Família

“Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?
Minha mãe e meus irmãos são os que fazem a vontade
de meu Pai que está nos céus!”
(Mt 12, 50)

Esta foi a resposta de Jesus aos que o interromperam, para dizer-lhe que se preocupasse também com sua família de sangue: sua mãe, seus parentes.

A resposta de Jesus até parece indelicada: «Quem é minha mãe, quem são meus irmãos?» Certamente Maria recordou, até com aflição, o que o Filho lhe dissera quando foi encontrado no Templo, após três dias de angustiante procura. Achava que Jesus, menino de 12 anos, se jogaria, agradecido, nos seus braços. Mas não! A resposta foi dura: «Por que vocês me procuravam? Não sabem que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?» (Lc 2,49). Quantos pais, como Maria, também sofrem ao constatar que as escolhas dos filhos não são as suas escolhas!

Jesus pede que nós ultrapassemos, em nossa vida, os limites da carne e do sangue. Não esgotam toda a riqueza da convivência humana. E nos propõe um outro modelo de família: aquela constituída pelos que fazem a vontade de Deus. Vontade divina que os tornará irmãos e irmãs legítimos, pela fé, vivendo com intensidade familiar, afetiva, um novo relacionamento, mais abrangente. E sua mãe Maria está incluída nessa família, pois disse: «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua vontade» (Lc1,38). Com isso Maria participa da família carnal e espiritual de Jesus.

É muito importante, para nós, dilatarmos o espaço da vivência familiar. Sermos capazes de ter prazer em estar com nossos colegas de trabalho, novos irmãos. Ter prazer em nos reunirmos com os irmãos na fé, nova família.

Muitas vezes acontece que nossos amigos de um Movimento religioso, de uma comunidade de vida consagrada, de um trabalho comunitário, são verdadeiramente mais fraternos que nossos próprios irmãos de sangue!

Sem dúvida, a vida nos ensina que num momento de tristeza, de desamparo, de crise, quem estará ao nosso lado, segurando-nos as mãos, oferecendo os ombros para escondermos nosso rosto sofrido, normalmente será este irmão de fé, de trabalho, de comunidade, e não nosso parente! Nosso amigo íntimo geralmente não é nosso parente, mas aquele que é o depositário fiel de nossas alegrias, tristezas, aquele em quem mais confiamos.

E tem mais: quanto maior for nossa família fora das portas de nossa casa, mais aumentará nosso compromisso com os que moram dentro de nosso lar. Se tivermos sensibilidade, o amor que oferecermos e recebermos na rua, saberemos oferecer aos que estão mais perto de nós: nossos familiares.

Quanto mais os pais indicarem aos filhos que todo ser humano é nosso irmão, mais eles sentirão alegria de estarem com os pais. Família comprometida, filhos realizados e orgulhosos de seus pais.

Dilatemos, o mais possível, as fronteiras do amor familiar e fraterno.

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O ciúme, negação do amor

“O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. (1Cor 13,7).

Existem casais de namorados que vêem charme no ciúme: cobram onde cada um esteve, com quem falou, por que se vestiu assim, por que não apareceu ontem. E assim por diante, num controle total da vida alheia, agravado hoje pelo poder rastreador do celular. “A gente se ama, por isso quer saber direitinho o que o outro andou fazendo…”.

O ciúme não pode ser confundido com o amor. O amor pode andar acompanhado do ciúme, mas, infelizmente, um terá de morrer. Quem ama deve perder o ciúme. Quem quer continuar ciumento, acabará traindo o amor.

São Paulo, na Carta aos Coríntios, citada acima, nos apresenta predicados inseparáveis do amor verdadeiro e duradouro. Quem ama, crê na pessoa amada. Quem ama, desculpa todos os erros e imprevistos. Quem ama, jamais deixará de esperar que o outro seja melhor. Quem ama tudo suporta, pois sabe que somente Deus é perfeito.

O ciumento não crê na pessoa amada; não sabe desculpar; não espera; não suporta os limites humanos da pessoa amada. Numa palavra, o ciumento é incapaz de um amor sadio, equilibrado, duradouro.

O homem ciumento afirma que ama sua esposa: na prática pensa as piores coisas dela! A mulher ciumenta faz cobranças por amor, mas realmente o retrato que pinta do seu marido é o pior possível. O ciúme faz a mulher controlar os passos do marido, o que significa absolutamente não confiar na sua honestidade. Ambos se julgam prostitutos. Quando se passa a vigiar os passos de alguém, quebrou se o clima de confiança recíproco, espatifou se o amor.

Grande causa do ciúme é a insegurança pessoal. O ciumento não confia em si mesmo; por isso tem que sentir que é dono da pessoa amada. Tem medo de perdê la. O jovem ciumento é tão inseguro que tem medo que qualquer outro jovem tenha mais encantos, e acabará por roubar sua amada… O ciumento se acha feio, incompetente. Vive amedrontado. É inseguro a respeito de si mesmo.

No início do relacionamento amoroso, os ciumezinhos podem parecer charmosos. Após certo tempo, transformam a vida num inferno. Os carinhos são substituídos por tapas e arranhões. Os beijinhos, por beliscões. Quanta louça já foi espatifada pelas ridículas brigas de amor, isto é, de ciúme.

Em sua fase mais doentia, o amor ciumento não passa de ódio camuflado. Há quem mate por amor: na verdade matar é sempre o gesto extremo do ódio. O ciumento odeia a pessoa amada, porque não tem a certeza de possuí la, dominá-la totalmente. Quando queremos possuir alguém, deixamos de amá la, pois não admitimos mais a sua independência.

Jesus nos pede que amemos o próximo como a nós mesmos. O ciumento não se ama de verdade: por isso não é capaz de amar.

E qual o melhor remédio para o ciúme: valorizar-se, conhecer o seu valor pessoal, nunca se comparar com ninguém, reconhecer as diferenças que sempre enriquecem o relacionamento, pois cada um é obra única saída das mãos de Deus.

Quem ama confia no outro, sempre, porque confia em si mesmo. Nada poderá abalar este amor.

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