2. O desejo de Deus

Aquele que, através do divino desejo, venceu a inclinação da alma para o corpo, está livre de qualquer limite, mesmo que ainda esteja no corpo. Deus, que atrai o lance daquele que deseja, é incomparavelmente mais elevado que qualquer outra coisa, e não permite que aquele que deseja crucifique o seu lance nas coisas que vêm depois de Deus. Desejamos Deus com todas as forças da nossa natureza e impedimos que as coisas do corpo dominem a nossa escolha. Com a nossa disposição de ânimo elevemo-nos acima de todos os seres sensíveis e espirituais, e os limites naturais não corromperão em nada nossa vontade de estar com Deus que, por sua natureza, é privo de limites.

Máximo o Confessor,
Sobre a teologia 3,15

 

Quem presume ter alcançado o fim (cf. Fl 3,12) não procurará aquela causa que é fonte de todo bem; ele reduzirá a potência do desejo apenas em si e, por si mesmo, priva-se da condição da salvação, isto é, Deus. Mas, quem tem a percepção da própria carência natural de bens, não deixa de correr com todas as forças rumo àquele que pode preencher sua pobreza.

Máximo o Confessor,
Sobre a teologia 5,14

Deus, que estabeleceu com sabedoria toda a natureza e que, na potência de cada um dos seres dotados de razão pôs secretamente seu conhecimento, deu também a nós, homens, ele, Soberano generoso, o desejo e uma fome natural voltados para ele após ter naturalmente unido a ele a força da razão. Por isso nós lutamos para poder conhecer de forma satisfatória os modos de realização do desejo e não nos perdermos nos erros que possamos cometer. Movidos por esse desejo somos levados a procurar aquilo que se refere à própria verdade, a sabedoria que aparece bem ordenada em cada coisa e a administração de tudo; através dessas coisas aspiramos alcançar aquele graças a quem recebemos o desejo.

Máximo o Confessor,
Sobre a teologia 7,100

Quando não estás perturbado por alguma paixão e o desejo divino cresce dentro de teu coração, e quando não temes a morte porque a julgas como um sono e, pelo contrário, desejas soltar as velas (cf. 2Tm 4,6) então, sim, adquiriste também a garantia da salvação e dentro de ti carregas o reino dos céus (cf. Lc 17,21), gozando de uma alegria indizível.

Teognosto,
Sobre a práxis 12

Faz bem meditar como a visão de um rei terreno é tão desejada e tão procurada pelos homens e, quem quer que se dirige à cidade onde reside o rei deseja ver, ainda que seja apenas suas esplêndidas e preciosas vestes, a não ser que seja um homem espiritual que menospreza essas coisas e as despreza, pois foi ferido por uma outra beleza e deseja outra glória. Portanto, se a visão de um rei mortal é tão desejada pelos homens carnais, como não o será muito mais a visão amantíssima do rei imortal para aqueles nos quais foi vertida uma gota do Espírito bom, e cujo coração foi golpeado pela divina paixão? Por isso, eles se livram de toda amizade com o mundo para poder ter continuamente no coração aquele desejo, e nenhum outro em lugar dele. Mas, são poucos os que acrescentam a bom início igual realização e não erram sempre, até o fim. Muitos padecem da aflição espiritual e muitos se tornam participantes da graça celeste e são feridos pela paixão divina mas, como não suportaram as fadigas e as tentações do maligno, que nos assalta com suas múltiplas e multiformes ciladas, ficaram no mundo e foram engolidos em seu precipício por causa da inconstância e da fraqueza de sua vontade ou, ainda, porque se deixam aprisionar por algum apego às coisas terrestres. Os que querem correr com segurança até o fim não suportam misturar outra paixão e outro amor com o amor celeste.

Macário o Egípcio,
Paráfrases 53

Na oração pura nascem, para quem recorda sempre o Senhor Jesus Cristo, o desejo, a paixão divina e a caridade, conforme está escrito: “As jovens me amaram, me atraíram” (cf. Ct 1,3-4); e: Eu fui ferida pelo amor (Ct 2,5). Também São Máximo diz: “Todas as virtudes colaboram com a mente para nela gerar a paixão divina, porém, mais do que todas, a oração pura; graças a ela a mente voa para junto de Deus e deixa toda a realidade existente” (Sobre a caridade 1,11).

Calixto e Inácio Xantopoulos,
Método 57

De um coração [habitado pela oração pura] brotam com abundância lágrimas que purificam e lágrimas que inundam aquele que, pelo amor, recebeu tais riquezas, mas não o consomem nem o ressecam. As lágrimas que purificam provêm do temor divino, as que inundam, da paixão divina pelo Senhor Jesus Cristo. E o coração tomado pelo êxtase divino grita: “Cristo, tu me atraíste mediante o desejo e me transformaste com tua divina paixão” (Tropário da Transfiguração); e: “Salvador, tu és doçura, tu és desejo e atração, desejo insaciável, és beleza irresistível” (Tropário antes da comunhão); e com Paulo, arauto de Cristo, grita: O amor de Cristo nos impele (Cor 5,14); e: Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a nudez, o perigo, a espada? (Rm 8,35). E ainda: Estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem principados, nem potências, nem o presente, nem o futuro, nem as alturas, nem as profundezas, nenhuma  outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus em Cristo Jesus, Nosso Senhor (Rm 8,38-39).

Calixto e Inácio Xantopoulos,
Método 58

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