OS GESTOS DE JESUS – BELEZA E BONDADE

A última Ceia – Fazei isto em memória de mim (Giotto)

Toda Liturgia é celebração da Paixão, Morte-Ressurreição e Ascensão do Senhor, do mistério pascal gerado no Espírito Santo. A Palavra de Deus e cada Sacramento narram a ação divina e, por isso mesmo, transmitem-nos a simplicidade bela do divino e dos gestos do Senhor: é ele quem fala, batiza, unge, alimenta, une, ordena, perdoa, cura.

A vida de um cristão é bela e verdadeira quando manifesta, no quotidiano, esses gestos, sendo continuamente um liturgo. O ser humano, sacerdote da criação é, sacramentalmente, criador de beleza: plantando flores, amassando o pão, acalentando uma criança, criando arte e ciência, consolando os tristes, perdoando ofensas, erguendo as mãos em oração é instrumento da Beleza que vem de Deus.

Os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João oferecem-nos quatro retratos do Senhor em suas palavras e atos. Não há, em Jesus, nenhum gesto ou palavra que não esteja envolvido pelo belo. Marcos, em seu breve e biográfico Evangelho, presta-se muito bem à contemplação da beleza litúrgica dos gestos de Jesus. Procuraremos senti-lo evocando algumas passagens, cujos gestos do Senhor preparam o ato final da Cruz. 

Jesus, um mestre da beleza e da bondade

Ao contrário de tantos pregadores que se servem de gritos, gestos espetaculares, exorcismos dramáticos, sermões longos e empolados, em Jesus percebemos apenas o carinho pelo doente e a cura silenciosa e respeitosa. Ele viveu a existência diária como obra-prima de bondade e beleza. Podemos contemplar a cura do homem com espírito impuro (Mc 1,21-28), sofrido pela presença do Mal e sentir o retorno da harmonia com o “Cala-te, sai dele!”, do Senhor.

Aproxima-se da sogra de Pedro e, tomando-a pela mão, levanta-a; a febre a deixou, e ela se pôs a servi-los: ele a serve e ela, põe-se a servi-lo (1,29-31). Um leproso aproxima-se dele e, de joelhos, suplica: “Se queres, tens o poder de purificar-me”. Jesus enche-se de compaixão e, estendendo a mão sobre ele, toca-o, sem nenhuma repugnância: “Eu quero, fica purificado” (Mc 1,40-45).

Homens rudes, pobres trazem, numa maca, um paralítico; como a entrada da casa está impedida pela multidão, abrem o teto, exato no lugar onde estava o Senhor e, pelo buraco, descem a maca com o paralítico. Vendo a fé desses homens, Jesus diz ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2,1-12). Num dia de sábado, enfrentando doutores legalistas e insensíveis, Jesus, entristecido pela dureza de seus corações, diz ao homem: “Estende a mão”. Ele estendeu a mão, que ficou curada” (Mc 3,1-6).

Quando um possesso libertado quis segui-lo Jesus não o permitiu, pois tinha missão maior a confiar-lhe: “Vai para casa, para junto dos teus, e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti” (Mc 5,1-20). Timidamente, a mulher com hemorragias toca em suas vestes, esperando ser curada. Jesus pergunta, no meio da multidão: “Quem tocou na minha roupa?” A mulher, com medo, cai-lhe aos pés e conta toda a verdade, e Jesus a consola: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e fica livre da tua doença” (Mc 5,21-34).

Afastando a multidão, levou consigo os discípulos, o pai Jairo e a mãe da menina e entrou no lugar onde estava a menina morta. Não montou cenários, nem declarações. Apenas pegou a menina pela mão e disse-lhe: “Menina, eu te digo, levanta-te”. E a menina logo se levantou (Mc 5,35-42). Reafirmando a aliança de Deus com o povo judeu, também nela inclui toda a humanidade, numa conversa com a mulher siro-fenícia, pagã, que pedia a cura de sua filha. Jesus: “Deixa que os filhos se saciem primeiro; pois não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”. Ela: “Senhor, também os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas que os filhos deixam cair”. E Jesus, aceitando o argumento: “Por causa do que acabas de dizer, podes voltar para casa. O demônio já saiu de tu filha” (Mc 7,24-30).

Em Betsaida, segurou o cego pela mão, levou-o para fora do povoado, cuspiu nos olhos dele, impôs-lhe as mãos e perguntou: “Estás vendo alguma coisa?”. Não enxergando bem, Jesus novamente impõe as mãos sobre os olhos e ele começou a enxergar perfeitamente (Mc 8,22-26). Outro cego, Bartimeu, escutando que Jesus passava. jogou o manto fora, deu um pulo e se aproximou de Jesus. Respeitando-o, o Senhor pergunta-lhe o que quer, e ele: “Rabuni, que eu veja”. E Jesus: “Vai, tua fé te salvou”. (Mc 10,46-52).

As crianças são um capítulo à parte, para irritação dos discípulos, incomodados com as mães que traziam crianças para que Jesus as tocasse, – “barulho e perda de tempo”, ruminavam. Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: “Deixai as crianças virem a mim. E abraçava as crianças e, impondo as mãos sobre elas, as abençoava” (Mc 10,13-16).

Um dia, Jesus estava sentado em frente do cofre das ofertas e observava como a multidão depositava dinheiro no cofre. Muitos ricos depositavam muito. Chegou uma viúva pobre e deu duas moedinhas. Discretamente, Jesus chama os discípulos e comenta: “Em verdade vos digo: esta viúva pobre deu mais do que todos os outros que depositaram no cofre. Pois todos eles deram do que tinham de sobra, ao passo que ela, da sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha para viver” (Mc 12,41-44).

A beleza dos gestos sacerdotais na Ceia da caridade e do adeus

Na Antiga Aliança, Moisés, com dois sinais, anuncia a Nova Aliança: toma o Livro da Aliança, lê em voz alta e o povo manifesta a obediência; em seguida, com o sangue separado, asperge o povo, dizendo: “Este é o sangue da Aliança que o Senhor fez conosco” (cf. Ex 24, 7-8).

Levando a Aliança à plenitude, Jesus é o Livro é o Sangue, o que é prefigurado na multiplicação dos pães quando fala e depois alimenta. A multidão faminta de salvação passou o dia com ele, e anoitecia. Os discípulos acham que era hora de mandá-los embora, pois estariam com fome. Jesus anuncia o banquete do Reino pedindo que a alimentem. Trazem-lhe cinco pães e dois peixes.

Jesus não quis que a distribuição fosse feita com tumulto, desordem. A mesa da caridade supõe beleza, mesa arrumada. Assim, todos se sentam em grupos de cem e de cinqüenta. E, nesse momento, com gestos belos de extrema simplicidade litúrgica, Jesus toma os cinco pães e os dois peixes, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte os pães e dá-os aos discípulos, para que os distribuam. Seis gestos, seis verbos que indicam ação, seis atitudes: toma-ergue-pronuncia a bênção-parte-dá-distribuam (Mc 6,30-44).

Os gestos da Ceia dos Pobres preanunciam a Ceia Pascal: Jesus não quer que seja celebrada de qualquer jeito, mesmo tendo como convidados homens humildes. Ele quer celebrá-la com dignidade e beleza: envia dois deles a procurarem o lugar para comerem a Páscoa. Foi escolhida, no andar de cima, uma grande sala, arrumada, onde foram feitos os preparativos.

No meio da ceia, Jesus celebra a Ceia da Nova Aliança. Enquanto estavam comendo, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo”. Novamente os verbos que denotam a simplicidade e a beleza desse momento que inaugura a eternidade: toma-abençoa-parte-dá-diz-tomai (Mc 14,12-16.22-25). Os gestos do sacramento do Irmão são os mesmos do sacramento do Altar. A Nova Aliança é bela porque une as mesas na beleza do amor.

Todos os gestos de sua vida, palavras proferidas, as mãos que tocam, a acolhida, os olhos para os doentes e pobres, Jesus realiza nessa Ceia de Adeus, numa sala arrumada e preparada, reunido com os amigos onde se oferece como Caminho, Verdade e Vida. O Belo é revelado na simplicidade e realizado com gestos solenes, no silêncio onde se escuta apenas uma voz: a de quem é Mestre e Senhor. Toda Liturgia cristã é uma arte da comunhão e uma ação cujo fim é ordenar o amor. Sem estardalhaço nem desordem.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Ebrael Shaddai em 10 de setembro de 2012 - 09:54

    Faltou o terceiro atributo do Centro (além da Beleza e da Misericórdia), que o Filho de Deus representa: a JUSTIÇA!
    “Eu não vim para abolir a Lei e os Profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento”. O Amor que não tem ao que mitigar é falácia!
    Um abraço!

    • #2 por Pe. José Artulino Besen em 13 de setembro de 2012 - 15:43

      Ebrael,
      o texto é litúrgico e sobre as palavras Bondade e Beleza. São inumeráveis as riquezas do Evangelho, esse imenso jardim do Senhor.
      Agradeço suas palavras.

      • #3 por Ebrael Shaddai em 2 de outubro de 2012 - 00:22

        Eu que agradeço, Padre! Sim, o Evangelho é pleno e rico! Fiquemos na Paz de Cristo!

  2. #4 por osnildo maçaneiro em 10 de setembro de 2012 - 15:37

    Gostei , exelente material, liturgia no meu caso.

  3. #5 por maria besen em 7 de novembro de 2012 - 18:30

    Achei muito profundo este artigo, sobretudo no que se diz sobre as 6 atitudes de Jesus na multiplicação dos pães. vou usar este artigo numa reunião com os ministros da eucaristia. Maria Besen

  4. #6 por Pe. José Artulino Besen em 8 de novembro de 2012 - 10:31

    Maria, é bom que os ministros da Comunhão conheçam a delicadeza dos gestos do Senhor. São todos gestos de amor, e os pobres são os que melhor entendem seu significado.

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