A TRINDADE SANTÍSSIMA – NOSSO DEUS

Domínio Público, via Wikipédia*

“É absurdo e impróprio pintar em ícones a Deus Pai com barba cinza e o Filho Unigênito em seu seio com uma pomba entre ambos, posto que ninguém viu o Pai segundo a Sua Divindade, que o Pai não tem carne […] e que o Espírito Santo não é, em essência, uma pomba, mas, em essência, Deus” (Grande Sínodo de Moscou, 1667).

Esta decisão da Igreja Ortodoxa Russa condenou a tendência de artistas russos que, de certo modo, estavam imitando a arte ocidental, deixando de lado os princípios canônicos que determinavam a forma e o conteúdo dos ícones. E, a Rússia já tinha oferecido à Igreja o ícone da Trindade Santíssima por obra do monge Andrei Rublev (1360-1430), e que se tornou modelo para os outros ícones. Rublev, canonizado pela Igreja russa em 1988, para sua obra prima teve seus dias de pura inspiração e, quando apresentou aos monges o ícone da Trindade, provocou um puro assombro: estavam diante de algo divino, jamais concebido por artista humano, e prorromperam num hino de louvor ao Deus Trindade, cuja beleza ninguém podia imaginar, mas que se revelara ao monge Rublev, na igreja do Mosteiro da Santíssima Trindade de Moscou.

A Trindade é um mistério – e sempre o será nesta terra. Às vezes, porém, nos são concedidos vislumbres da vida divina, e o ícone de Rublev nos permite espreitar brevemente por trás do véu que oculta o mistério.

Após prolongado jejum e oração, encontrou a inspiração no texto sagrado, em Abraão junto ao carvalho de Mambré e recebendo a visita de três homens:

Depois apareceu-lhe o Senhor nos carvalhais de Mambré, estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia. E levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele. E vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra, e disse: Meu Senhor, se agora tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que não passes de teu servo. Que se traga já um pouco de água, e lavai os vossos pés, e recostai-vos debaixo desta árvore” (Gn 18, 2-4ss).

Foi preparada a mesa com pães e um bezerro. Os três homens agradeceram a hospitalidade e abençoaram o velho Abraão com a promessa de um filho.

Com esse texto vétero-testamentário, Andrei Rublev encontrou a inspiração para o cenário do ícone: a casa de Abraão, o carvalho, os três homens/anjos. Abraão viu três anjos e saudou-os como um só – “meu Senhor”. Nosso Deus é um Deus, em três Pessoas. Quando o Senhor ensinou aos Apóstolos as palavras do Batismo, disse “batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19): em nome, e não nos nomes, pois as três Pessoas são um Deus.

Iniciando o ícone, Rublev pintou, entre 1422-1427, os três anjos sentados ao redor duma mesa, na qual está a travessa com o bezerro oferecido aos visitantes.

A figura no centro é o Pai…

A partir desse conjunto, o iconógrafo revela o mistério de um único Deus em três Pessoas, e o faz numa maneira de perfeita beleza e infinita riqueza teológica. Como reconhecer, no ícone, a identidade de cada Pessoa da Trindade? A resposta vem do Novo Testamento. Contemplemos cada uma: a figura no centro é o Pai, que gera o Filho e o Espírito Santo. Atrás dele, contemplamos uma árvore, o carvalho: é a Árvore da Vida, que brota aos pés do Pai e também é a árvore da cruz pela qual fomos redimidos. A figura à esquerda é o Filho: atrás dele ergue-se uma construção, a Igreja, da qual ele é e cabeça. O Espírito Santo está à direita, não sentado, mas na posição de quem se dá impulso ao movimento, e revela a fonte da Vida.

Foi bíblica a inspiração para o rosto dos anjos. Quanto ao Pai e o Filho, Rublev parte do apóstolo Filipe que pede “Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. E disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14, 8-9). E para o Espírito Santo, a promessa de Jesus: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14, 16). O Filho e o Espírito Santo são os dois Consoladores, a mesma face da misericórdia do Pai.

As cores tornam presente o divino

A figura à esquerda é o Filho…

O mistério se aprofunda: os três anjos são idênticos em aparência, correspondendo à fé na unicidade de Deus em três Pessoas. No entanto, cada anjo veste uma roupa diferente, trazendo à mente que cada pessoa da Trindade é distinta. O fato de Rublev recorrer aos anjos para retratar a Trindade é também um lembrete da natureza de Deus, que é espírito puro. As cores das vestes dos anjos indicam a unidade e a diversidade: unidade na cor azul, símbolo da natureza divina, e a diversidade: o Pai é revestido de púrpura, a indicar sua realeza. O Filho está revestido da cor azul e coberto com manto carmezim, símbolo da humanidade, do Verbo que se fez carne: o azul da divindade atravessa o carmesim da humanidade, revelando a divinização do homem pela encarnação do Filho. O Espírito Santo é revelado em sua divindade pela túnica azul e o verde do manto aponta para a vida e para a missão da renovação do Espírito Santo: ele é Senhor e Fonte da Vida e, na tradição ortodoxa, o verde é a cor litúrgica em Pentecostes. Atrás do Espírito vê-se uma elevação rochosa, árida, à qual o Espírito dá vida, faz brotar a natureza. E cada anjo tem um cetro, símbolo do poder e da realeza.

Rublev colocou ao centro do ícone uma mesa, que se assemelha ao altar encima do qual está a travessa com o alimento preparado por Abraão para seus hóspedes. O anjo ao centro e à esquerda indicam pela posição das mãos que estão abençoando a oferta. Contemplamos nesses elementos o sacramento da Eucaristia: o Pai, pelo Espírito Santo santifica os alimentos. E, no sentido mais profundo: a Eucaristia é o centro do mistério trinitário: por Cristo, no Espírito, o Pai recebe toda honra e toda glória. A comunidade reunida para a Ceia é o centro da vida trinitária.

O Espírito Santo, figura à direita…

Mas, a mesa não é apenas mesa: é um cofre, um tesouro fechado por uma tranca. O conteúdo desse tesouro é a Sagrada Escritura na qual se encerra o mistério do Filho amado, a quem o Pai ordena que escutemos (Mt 17,5), pois no Filho estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (cf. Col 2,3) dos quais participamos pela comunhão. O Pai nos revela o Filho, o Filho nos revela o Pai que derrama em nós o Espírito Santo.

Andrei Rublev teve a graça de revelar parte do mistério trinitário, e sua obra, guardada em Moscou, reproduzida de tantas formas, mas com o mesmo conteúdo simbólico, é escola de contemplação, de santificação e de catequese. Há 600 anos a beleza divina que jorra do ícone é fonte de fé cristã, pois nos ajuda a penetrar de algum modo no mistério do Deus três vezes santo a quem clamamos: Deus santo, Deus forte, Deus imortal, tende piedade de nós.

Dois teólogos russos oferecem-nos chave de leitura: “O ícone é uma janela da eternidade” (Pavel Evdokimov). E Pavel Florenskij, ao contemplar o ícone de Rublev, exclamou: “O ícone de Andrei Rublev existe, logo, Deus existe”. Aquilo que o evangelho exprime com a palavra, o ícone proclama com as cores e o faz presente.


Pe. José Artulino Besen

 

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  1. #1 por João Flávio Vendruscolo em 11 de junho de 2017 - 12:11

    Bons e profundos textos! Sempre nos enriquecem! Agradeço mais esta gentileza em me repassar tais reflexões! Diác. João Flávio

  2. #2 por Rodrigo José Hoffmann em 20 de junho de 2017 - 19:27

    Boa noite Padre José

    Obrigado mais uma vez por este belo artigo. Cada vez mais nos catequisando e educando na fé.
    Um grande abraço de seu conterrâneo de Antônio Carlos.
    Vielen Dank.
    Rodrigo

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