ATEÍSMO, OU FAZER TEOLOGIA TOMANDO CHÁ

Os pobres - Vincent Van Gogh

Os pobres – Vincent Van Gogh

Foi no ano 2000. Dom Luciano Mendes de Almeida estava tomando um cafezinho e alguém lhe perguntou sobre a Igreja hoje. Sua resposta pronta: o problema é que aumentaram os teólogos e cada vez mais faltam teólogos santos. Essa lembrança me conduz a outra, à afirmação de Evágrio Pôntico, mestre de espiritualidade: “Se és teólogo, rezarás de verdade. Se rezas de verdade, és teólogo”. Um grande teólogo, portanto, é um grande mestre de espiritualidade e, também, a velhinha que passa o dia rezando, percorrendo as contas do rosário, é verdadeira teóloga.

A teologia é luz, a oração é fogo: o fogo gera a luz, a oração gera a teologia. Unindo as duas temos a união da inteligência e do coração.

Numa de suas meditações na Missa matutina em Santa Marta, Francisco se referiu às igrejas que, estando fechadas, não permitem ninguém entrar e o Senhor, que está dentro, não pode sair (17 de outubro de 2013). A inspiração lhe veio da palavra do Senhor: “Ai de vós, doutores da Lei, porque ficastes com a chave da ciência: vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que queriam entrar” (Lc 11, 52). Os fariseus, doutores da Lei e sacerdotes julgavam que a chave do Templo lhes pertencia porque somente eles conheciam o sentido da Lei, da Torá. Achavam Jesus insuportável, pois não tinha passado pela escola rabínica e andava ensinando ao povo o caminho do Senhor. Sempre que podiam, o escorraçavam. A diferença entre eles e Jesus era que eles possuíam, de fato, o conhecimento, mas, em Jesus, o conhecimento do Pai era gerado pela oração, pela intimidade com ele. Jesus tinha o fogo.

De certo modo, as situações podem se repetir, e as vítimas são os pobres e os humildes que vivem uma fé simples como a de Jesus. Temos, sempre mais em abundância, os doutores que fazem teologia tomando chá, que fazem da teologia um meio de aumentar patrimônio, um modo de ganhar a vida. Conseqüência: a teologia se perverte em conhecimento, palavra é transformada em vaidade, passa a ser ideologia e se reduz a um repelente: espanta, afugenta o povo e distancia a Igreja do povo.

Os moralistas e teólogos ideologizados ficam às portas das igrejas para ver quem está preparado, isto é, quem está atualizado, moderno e pode afirmar que é cristão consciente. E ali, os pobres e humildes, os primeiros destinatários da Palavra, não têm vez, porque os doutores e mestres pastoralistas guardam a chave no bolso e cuidam para que a porta esteja fechada aos não entendidos, aos que não receberam “formação”. Agem diferente da ordem de Jesus: ide por todas a ruas, esquinas, trazei para dentro a todos, bons e maus.

Sua palavra forte é “conscientizar”, ensinar a agir, colocando no coração dos pobres e humildes que eles têm apenas superstição, tradição, necessitam de conscientização, isto é, sejam conduzidos a viver não seguindo Jesus, mas dominados por uma leitura da vida de Jesus. Serão salvos pelo conhecimento, pelos estudos.

A oração, causa e sustento da fé e da vida cristã

Numa conferência sobre a religiosidade popular, proferida em janeiro de 1976, Leonardo Boff afirmou que a teologia verdadeira é feita a partir dos devocionários populares da geração anterior, e uma teologia popular é a reflexão da vida de oração dos humildes. Na casa do pobre podemos não encontrar livros de teologia, mas, descobriremos antigos devocionários, com capas ensebadas porque milhares de vezes manuseadas pelas mãos trabalhadoras de mães e pais.

Papa Francisco, na Vigília de Pentecostes de 2014, no Encontro com os Movimentos, comentou sua palavra de que gostaria de uma “Igreja pobre e para os pobres”, e explicou que basta “sair para encontrar a pobreza”. Lamentou que hoje em dia encontrar um mendigo morto de frio ou fome pela rua já não seja uma notícia … Criticou aqueles que permanecem indiferentes a esta realidade, especialmente aqueles cristãos “que falam sobre teologia, enquanto tomam chá”. E completou: não precisamos de “cristãos de salão” neste momento na Igreja.

Esse tipo de cristãos iluministas, adeptos da higienização da fé, é fruto de um processo mental: transformar a fé cristã numa ideologia: não se é levado a ser discípulo de Jesus, mas ser um estudioso de Jesus. Não lhes interessa o Jesus encarnado de Nazaré, sua ternura, sua mansidão. É um caminho para o ateísmo, porque transforma a fé num modo de pensar, o anúncio em argumento.

Já no início do Cristianismo a Igreja sentiu o perigo do gnosticismo, das pessoas que preferiam o conhecimento à fé e se tornavam rígidos moralistas, sem a ternura tão característica de Jesus. A eles o apóstolo João ensinou: “o que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam da Palavra da Vida,… nós vimos, testemunhamos e anunciamos” (cf. 1Jo 1, 1-4).

Por que tantas lideranças cristãs, bispos, padres, líderes e teólogos foram tomados por essa fixação na organização?  Francisco afirma, com muita simplicidade que, hoje, a causa disso é que o cristão não reza: “A chave que abre a porta da fé é sempre a oração e, quando não há a oração, sempre fechamos a porta”.

Podemos repetir que a teologia é luz, a oração é fogo. É o fogo que gera a luz, é o fogo da oração que torna o teólogo lâmpada a iluminar os passos dos crentes. Sem a oração, morre em nós a humildade, sentimo-nos mestres e doutores, superiores ao povo, nosso testemunho se torna testemunho soberbo e orgulhoso. Passamos a buscar a glória pessoal, nossa promoção.

Quem reza não se afasta da fé. O Senhor pediu que nunca parássemos de orar a fim de não perdermos a fé. Permanecendo humildes, teremos consciência de que a porta é o Senhor. Se somos evangelizadores, agentes de pastoral sem oração intensa, seremos apenas profissionais do Evangelho distraindo do caminho do Senhor em vez de sermos testemunhas do Senhor. O mundo necessita de testemunhas da fé, não especialistas em fé. Há tanta teologia na vida dos humildes quanto nos teólogos que dobram os joelhos.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Alexandre Borges em 23 de fevereiro de 2015 - 10:00

    Obrigado pelo texto, amigo! “Ou seremos místicos, ou seremos nada!”

    • #2 por José Artulino Besen em 23 de fevereiro de 2015 - 11:05

      Caro Alexandre: seu estímulo é importante. Se não cultivarmos a intimidade com o Senhor, seremos apenas profissionais da religião, e não testemunhas da fé. Esse é um dos problemas atuais com a multiplicação de cursos, mas não acompanhados da humildade da adoração.
      Paz para você e família.

  2. #3 por Carlos Martendal em 23 de fevereiro de 2015 - 17:27

    Muito obrigado, caríssimo Pe. José, pela excelente reflexão sobre Ateísmo, ou fazer teologia tomando chá.

    Peço-lhe a bênção e envio cordial e fraterno abraço.

    Carlos Martendal

  3. #4 por fredfelix em 23 de fevereiro de 2015 - 19:18

    Maravilhoso texto! Como diversos teólogos e ministros ordenados deveriam ter esta noção!

    • #5 por José Artulino Besen em 24 de fevereiro de 2015 - 14:28

      Fredfelix, nossa fé amadurece com a experiência da fé, do mesmo modo que amamos a Jesus à medida em que aceitamos seu amor e sabemos proclamar “Meu Deus e meu tudo!”.

%d blogueiros gostam disto: