A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO

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A volta do filho pródigo – Rembrandt

João Batista anunciou um Messias justo, vingador: o machado já está posto à raiz para cortar e queimar a árvore que não der fruto. O povo judeu, dominado pelos romanos, escandalizado pelas elites que traíram o culto a Deus pelo dos ídolos, tinha a mesma imagem do Messias: era a hora da vingança divina, de recompensar os bons e castigar os maus.

Mas, Jesus ultrapassa João e decepciona os que estavam a se convencer de que ele, sim, era o Messias anunciado e esperado. Estranhamente define sua missão: Não vim para salvar os justos, mas os pecadores. Não vim para os sãos, mas para os doentes.

Desconfiado, João envia discípulos a Jesus para ter uma resposta segura: afinal, era ou não era aquele que devia vir. Serenamente, o Senhor responde: os cegos vêem, os surdos ouvem, os prisioneiros são libertados, a todos é anunciado o tempo da salvação. Seus privilegiados não são os virtuosos, e sim, os doentes, pobres, prostitutas, ladrões, os excluídos. Veio tirar o pecado do mundo.

Jesus é o narrador do Pai, é o cronista de Deus, essa foi e é sua missão. Ele recorda ao povo judeu que os profetas falavam de Deus como mãe compassiva, esposo que ama seu povo como esposa, Deus que desce para escutar os pequeninos, que os Salmos já cantam a misericórdia divina, que todos podem pedir-lhe socorro. Assim falam as Escrituras, mas os doutores da Lei preferiram acentuar o que lhes dava poder, transformando a fé em moral e corrompendo a imagem do homem e de Deus.

Após ter narrado o Pai com sua vida e palavras, Jesus se serve de imagens para que guardassem bem como é o Pai, como é Deus Pai. E isso nós recebemos do Evangelho de Lucas em seu capítulo 15, nas três parábolas que revelam o rosto e o coração de Deus: a ovelha perdida, a dracma, o filho pródigo.

E nós, cristãos, temos clareza de que o rosto de Deus Pai é também o rosto de Jesus. O Pai nos deu seu Filho, e o Filho se nos deu na cruz, expressão máxima do amor.

O Espírito inspira e move os artistas

Os artistas são homens e mulheres inspirados, e a arte verdadeira revela a beleza de Deus. A parábola do Filho Pródigo teve seu melhor retratista em Rembrandt (1606-1669), pintor holandês. Após anos transcorridos na festa e no desperdício, nas despesas sem controle, Rembrandt estava velho e pobre, sofrido pela perda dos filhos, da esposa, dos amigos. Então, descobre que não está abandonado por Deus, o que expressa de modo único na história da arte através da tela A Volta do filho pródigo, composta nos últimos três anos de sua existência.

Exposto no Museu Hermitage de São Petersburgo, na Rússia, o quadro de 262 x 205 cm impressiona quem o contempla: nele, através da parábola de Jesus, o artista revela, na imagem do filho que retorna, seu coração sofrido e a confiança no Pai que não o rejeita.

 O retorno do filho pródigo – o nosso retorno

O pintor holandês, com essa obra, quis responder à pergunta: Por que o filho retornou, ou melhor, teve coragem de retornar? A tela, seguindo o relato de Lucas, dá a resposta: ele conhecia seu pai, ele sabia que poderia tomar o caminho do retorno.

Rembrandt nos coloca frente à frente com os três personagens da parábola: o pai, o filho pródigo e o irmão mais velho. Inspirado por seu caminho de pecado e conversão, o artista nos oferece três retratos situados num ambiente escuro, onde uma luz vinda da esquerda ilumina apenas o necessário de cada um.

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A volta do filho pródigo – Rembrandt
O Pai

O Pai – é um velho, já arcado, um velho cego, frágil. Mas, tem duas mãos imensas: a mão direita é feminina, mão de mulher, de mãe, mão carinhosa; a mão esquerda é masculina, firme, mão espalmada, mão de homem, de pai.

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A volta do filho pródigo – Rembrandt
O filho mais novo

O filho – está ajoelhado apoiando-se no ventre do pai. Tem a cabeça raspada, como um feto que deseja renascer retornando ao ventre do Pai/Mãe. Os pés estão calçados, calçados velhos, é verdade, mas calçados, a demonstrar que não perdeu a dignidade apesar de tanto ter aprontado. Pendurado à cintura vemos um cilindro com os documentos: pobre, roupas aos trapos, mas o filho não perdeu a identidade.

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A volta do filho pródigo – Rembrandt
O irmão mais velho

O irmão mais velho – alto, o mais alto da cena, frio, ausente, incapaz de mover-se ao encontro, olhar de reprovação diante do Pai.

Lição de retorno confiante

Contemplemos o significado da imagem em seu mistério de compaixão e redenção.

O filho jogou-se aos pés do pai para repetir a frase decorada e encenada: “Meu pai, pequei contra Deus e contra ti, já não sou digno de ser chamado de teu filho”. O velho pai o interrompe para ordenar aos empregados: “Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho, colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés”.

Aconteceu o emocionante encontro do “meu pai” com o “meu filho”. Não houve interrogatório, reprimenda, considerações de prazos. O pai não deu nenhuma importância à declaração do filho, porque lhe interessava apenas o “meu filho” que tinha retornado.

Naquele momento acabara o sofrimento e a espera do pai: o filho tinha retornado. Rembrandt retratou o pai sinalizando sua total fragilidade: velho e cego, pai e mãe ao mesmo tempo, totalidade de amor. Num movimento de confiança, o filho retorna ao ventre paterno/materno para renascer. Entra no ventre da misericórdia e vem à luz com identidade e dignidade renovadas. O pai mesmo declara que o filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi reencontrado. Alegria geral.

Chega o filho mais velho, atrasado, e se espanta com tanta alegria: o que estaria acontecendo? Ao lhe explicarem o motivo da algazarra não se contém: trabalho para esse velho há tantos anos, e nenhuma festa. Vem esse desertor e deserdado e recupera a herança. Não contém o mau humor, e não se refere a ele como pai. O pai lhe explica o porquê da alegria e o chama de “filho” e declara que “o que é meu é teu”: por que não festejarmos?

Qual a diferença fundamental entre esses dois irmãos? O mais velho era o bem comportado, não tinha defeitos, mas, não tinha coração. Não vivia a identidade de filho: “eu trabalho para ti”, e em nenhum momento fala do pai. Estava feliz sozinho, a chegada do irmão o irritou: tinha que reaprender a repartir, conviver, compartilhar.

O filho mais novo foi cruel: quando percebeu que o pai não morria, pediu o adiantamento da herança. Foi mau, esbanjador, iludiu-se com os amigos da riqueza, esqueceu a educação recebida, mas … mas não esquecera que era filho e que tinha pai. Não esqueceu como era “meu pai”, que ele o estava esperando, razão que lhe deu a coragem do retorno.

Coragem, não desanimeis!

Cada um de nós vive a experiência do esbanjamento da herança paterna e do esbanjamento da herança espiritual, mas não sente o esbanjamento de Deus em nosso favor. Tantas vezes parece que necessitamos experimentar o lodo do pecado para retornar às pastagens eternas. O filho perdido e reencontrado é cada um de nós, é cada um de nossos semelhantes.

Podemos retornar ao “meu Pai” para renovar a graça da filiação, e devemos ser pai para o irmão que errou e nos procura.

A Igreja não é comunidade de santos e justos, mas de pecadores que querem voltar para o Pai. Fora disso, é uma coletividade de gente bem comportada, preocupada apenas com sua salvação, indiferente frente às multidões abatidas como ovelhas sem pastor.

Pe. José Artulino Besen

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