O BOM JESUS, TRANSFIGURAÇÃO DO AMOR

Em 1476 foi introduzida no Ocidente a antiqüíssima festa oriental da Transfiguração de Nosso Senhor e marcada para o dia 6 de agosto. A piedade popular, contudo, permaneceu celebrando os muitos títulos do Senhor Bom Jesus, pouco vivenciando do extraordinário significado da revelação no Monte Tabor. Mas, podemos ver no Transfigurado a imagem do Bom Jesus que revela a graça e a misericórdia do Bom Deus.

Na Transfiguração, os Apóstolos viram o Senhor da Glória que se escondia no Senhor da Humildade (e após a ressurreição vemos o Senhor da Humildade no Senhor da Glória). Foram proibidos de comentar a visão, pois Jesus queria continuar a ser o Senhor da Humildade. Seu rosto brilhou como o sol e uma voz dizia: “Este é meu Filho amado. Escutai-o” (cf. Mt 17,5). O Pai revela sua infinita ternura pelo Filho e suplica que o escutemos. A mesma ternura Jesus revela diante do paralítico estendido diante dele: “Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados” (cf. Mt 9, 1-8). Está diante de um pecador e o chama de “meu filho”, pedindo que o peso do pecado não o paralise.

O mesmo Bom Jesus pôde ser contemplado na fila dos pecadores que buscavam o batismo de João Batista: ele assume todos os nossos pecados e quer que nele o Pai perdoe a humanidade (cf. Mt 3, 15).

A missão do Bom Jesus

Inclinando a cabeça, Jesus entregou o espírito (cf. Jo 19,30): não terminava aí a missão do Redentor. Ele se ofereceu ao Pai pela salvação de todo o gênero humano. Imediatamente Jesus desce à mansão dos mortos, aos infernos, à procura de Adão e Eva, do Adão total. Repete a mesma saudosa pergunta do Pai no paraíso: “Adão, onde estás?” (Gn 3,9). E Adão o reconheceu imediatamente, como o reconheceram todos os que o aguardavam.

São surpresas do amor divino que, após aprontarmos, sempre recebamos em retorno algo mais revelador ainda de sua bondade. Assim, Adão perdeu o Paraíso e, em troca, Cristo crucificado oferece um paraíso melhor, a Santíssima Trindade. O Precônio pascal canta a “feliz culpa de Adão que nos mereceu tão grande Redentor”.

Uma falsa visão de Deus estende exageradamente o valor do pecado (que não tem valor nenhum) e diminui tragicamente o amor divino depositado em nossa condição humana, templo de Deus. “Os homens se esquecem de que todos os seus pecados são, diante de Deus, como uma gota de água” (Isaac o Sírio, séc. VII), e que estamos mergulhados no oceano da misericórdia do Deus Trindade. Os teólogos contaminados pela filosofia afirmam que Deus nem ganha nem perde com nosso amor, nada lhe sendo acrescentado: desidratam a ternura divina, as lágrimas de Deus por nós, a falta que lhe fazemos. O amor se expande por necessidade e não por luxo: Deus precisa de nós.

Jesus, o novo Moisés

“Percebendo chegada a hora da morte, Moisés pediu a Deus que lhe desse a vida, permitindo entrar na terra prometida. Deus disse: ‘Uma vez eu ia destruir meu povo e, devido a teus pedidos, voltei atrás. Agora queres que eu volte novamente, o que não é possível. Escolhe: ou tu morreres ou teu povo ser salvo’. Moisés não teve dúvida e escolheu: ‘Salva meu povo. Prefiro morrer’” (Midrash Devarîm Rabbâ 7,11). No mesmo espírito, conta Evágrio Pôntico (+399) que Deus disse a Moisés: “Retira-te, porque destruirei esse povo. Mas, de ti, farei um novo povo!”. Então Moisés colocou-se diante de Deus e disse: “Não! Ou tu perdoas esse povo ou então cancela-me do livro que escreveste” (Ex 32,32). E Deus cedeu. Evágrio comenta: “Eis como o humilde, o manso falou, eis como fala o Senhor”. Assim como Moisés se colocou entre Deus e o povo, Cristo se coloca entre Deus e nós. O Pai, ao contemplá-lo, nele sente compaixão por todos os pecadores.

Na hora de nossa opção final, Jesus se interpõe entre nós e Satanás, mostra-nos suas chagas, sua humildade, num extremo gesto para convencer-nos a optarmos por ele. Insiste que nos ama, nos lavou de nossos pecados no seu sangue (Apoc 1, 5b).

O Senhor da Humildade está presente nos infernos da vida humana, assumindo nosso inferno e oferecendo-nos Luz. O amor de Jesus não pode suportar gente no inferno. Nós, se formos possuídos por esse amor, também não conseguiremos admitir que alguém se perca e faremos de nossa vida uma oração contínua pela salvação dos que caminham voluntariamente na condenação.

O Senhor da Humildade e o Espírito Pai dos Pobres

A humanidade repousa no regaço da Santíssima Trindade. As Três Pessoas divinas se entregam pela nossa salvação: o Bom Pai, o Bom Jesus e o Bom Espírito Santo, tão humilde e silencioso que aceita ser contemplado no ícone de uma pomba. Enviando-nos seu Espírito, Jesus lhe entrega a missão de nos redimir e manifestar o amor trinitário. Santo Irineu vê no Espírito Santo o bom samaritano: “Pois o Senhor confiou ao Espírito Santo o cuidado da sua criatura, daquele homem que caíra nas mãos dos ladrões e a quem ele, cheio de compaixão, enfaixou as feridas e deu dois denários reais” (Adv. Haer. 3,17,1-3).

Por que não cantarmos com nossa vida a bondade do Senhor?

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