O ESPÍRITO SANTO – PENTECOSTES SEM FIM

pentecostes2A Igreja Católica, e as Igrejas originadas das Reformas do século XVI, viveram a missão e a vida eclesial mais centradas na pessoa de Cristo, salientando os aspectos visíveis e a organização. Já a Ortodoxia, tendo encerrado o grande ciclo das proclamações do Deus criador (séculos II e III), da Trindade (século IV) e, sobretudo, dos séculos V ao VIII, as proclamações cristológicas e modalidades da encarnação (VII Concílio Ecumênico – a.787), iniciou um grande ciclo pneumatológico, a contemplação do Espírito Santo que nos transfigura e nos diviniza pelas energias divinas.

Após o Concílio do Vaticano II (1962-1965), sob o influxo do Oriente cristão e da Renovação Carismática Católica, pode-se dizer que foi “redescoberto” o Espírito Santo, sua pessoa, seus carismas, dons e frutos, sua ação na vida espiritual. Não mais como teologia dos dons, da teologia clássica, mas como experiência dos carismas, inspirada na teologia paulina e nos Atos. São valorizadas as expressões de sua presença e de sua ação no cristão e na comunidade cristã. Isso não só em nível de Movimento Carismático, mas também na realidade dos pobres, da transformação da Igreja e do mundo. Importante lembrar o forte reavivamento cristão realizado pelo pentecostalismo evangélico e católico nas periferias da América latina e, de modo especial, no Brasil.

Nas décadas de 60 e 70, com as grandes crises religiosas trazidas no bojo da secularização, emerge o Espírito em vários cenários da história. Esta redescoberta do Espírito adquiriu penetrante caráter ecumênico, nele coincidindo ortodoxos,  católicos, protestantes e reformados. Um acontecimento marcante foi a IV Assembléia do Conselho Ecumênico das Igrejas no ano de 1968, em Upsala, Suécia, cujo tema foi exatamente: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apc 21,5). Ignatius IV Hazim, então Metropolita de Laodicéia na Síria e depois Patriarca ortodoxo de Antioquia, falecido em 2012, proferiu inspirada Alocução sobre o tema da Assembléia. Por um equívoco que se transmite de autor em autor, atribui-se o texto ao Patriarca de Constantinopla, Atenágoras I. (Creio que o equívoco se deve ao Missal Dominical publicado pela Paulus, que transcreve parte do texto no comentário ao Pentecostes).

Ignatius Hazim iniciou partindo do mistério pascal, acontecido de uma vez para sempre, mas que se torna presente hoje mediante o Espírito Santo. Ele é a presença de Deus conosco, “unido ao nosso Espírito” (Rm 8,16).

Em seguida, suas palavras buscam mostrar-nos o que é a vida e a Igreja sem e com o Espírito Santo, em palavras realmente inspiradas e que continuam servindo de alimento para a ação da Igreja, Carne de Cristo e não esqueleto de pastoral burocrática.

Sem o Espírito – com o Espírito

Seguindo o tema da Alocução de I. Hazim,, podemos comparar a vida da Igreja sem e com o Espírito Santo e, ao mesmo tempo, confrontar e analisar nossa vida e trabalho cristãos:

– Sem o Espírito Santo, Cristo é um exemplar mestre religioso do passado: com o Espírito Santo, é o Senhor Ressuscitado presente na vida da Igreja e do mundo. – Sem o Espírito Santo, o Evangelho é letra morta, edificante, inspiradora de comportamento: com o Espírito Santo, o Evangelho é Palavra de Deus, potência de vida. – Sem o Espírito Santo, a Igreja é uma simples organização, diríamos ONG, prestadora de serviços, entidade filantrópica: com o Espírito Santo, a Igreja é comunhão trinitária, corpo místico de Cristo, povo de Deus. – Sem o Espírito Santo, a autoridade é dominação, busca de poder, concorrência com os grandes da terra: com o Espírito Santo, a autoridade é serviço humilde, diaconia, a exemplo do Senhor que veio para servir, continuando o rito o Lava-pés.

– Sem o Espírito Santo, a missão cristã é propaganda, concorrência religiosa e estatística, busca de influência: com o Espírito Santo, a missão é Pentecostes, revelação do Senhor Morto e Ressuscitado, Salvador do mundo, Palavra de vida. – Sem o Espírito Santo, o culto, a liturgia é evocação histórica, cerimônia bem ou mal produzida onde a teatralidade torna o ministro centro das atenções: com o Espírito Santo, a Liturgia é memorial do Mistério pascal, celebração da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão do Senhor, antecipação da vinda final de Cristo, a Parusia.

– Sem o Espírito Santo, o agir cristão é uma moral de escravos, obrigação sob ameaça de castigos divinos: com o Espírito Santo, o agir cristão é libertador e transfigurado, recupera nossa semelhança com Deus, nos torna cristãos. – Sem o Espírito Santo, vivemos o tempo presente na insegurança frente o futuro: no Espírito Santo, o tempo é espera feliz do segundo Advento do Senhor, desperta os cristãos para que aguardem a vinda do Senhor quando julgará os vivos e os mortos e abrirá as portas de sua cidade a todo o seu povo.

O Espírito Santo é o Senhor que dá a vida”. É a vida eterna que Deus Pai condivide com todos aqueles que estão em comunhão com seu Filho (1Jo 1,1-4). Ele edifica a Igreja em todo lugar com a proclamação da Palavra e a celebração da Eucaristia. Mediante ele a Igreja e o mundo gritam com todo o seu ser: “Vem, Senhor Jesus!” (Apc  22,17-20).

Ontem, foi Pentecostes. Hoje, é Pentecostes. Vinde, Espírito Santo!

Pe. José Artulino Besen

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