«TENHO SEDE!» – A VOCAÇÃO CRISTÃ

Tenho sede! (Jo 18,28).

As grandes santos, que privaram da amizade divina, não viram na sede de Jesus Cristo sede física, mas outra sede, mais profunda e dolorosa: a sede de almas. Todo o mistério da encarnação está centrado na doação do Filho para aplacar a sede do Pai pelas almas. A multidão perdida no pecado, na desesperança, aumenta a sede do Senhor.

Os santos e os cristãos que entenderam sua vocação como intercessão pelos pecadores assumiram para si essa mesma sede: também eles gemem, em suas orações e em seu ministério, ardendo em sede de almas, na decisão insaciável de oferecer almas para saciar a sede de Cristo. Os algozes ofereceram vinagre ao Crucificado: os cristãos oferecem almas, a preocupação missionária, a oferta da oração.

Em junho de 1897 Santa Teresinha, após sofrer a experiência das “almas que não têm fé”, tomou a decisão de sentar-se à mesa dos “pobres pecadores”, para com eles comer “o pão da dor” e de não querer, de jeito nenhum, “levantar-se dessa mesa de amargura até que o Senhor os acolha a todos na sua misericórdia”. O amor e a compaixão por toda a humanidade, dos quais nasce o desejo de que todos se salvem, é um dom de Deus, uma graça. Não são sentimentos humanos, mas despertados e forjados no coração pelo Espírito Santo, afirma São Silvano do Monte Atos.

O Espírito suscita muitas vocações para a vida da Igreja, e todas elas têm como causa final a salvação do mundo, das pessoas, das almas. O fogo do Espírito Santo, envolvendo-nos em suas chamas, aumenta nos que o aceitam essa sede dolorosa dos que compartilham a sede de Jesus.

Constituímos um povo sacerdotal: e o que faz o sacerdote se não interceder pela salvação do mundo? É essa a missão é todos os que foram batizados e participam do sacerdócio de Cristo. São João Crisóstomo, comentando a parábola dos talentos (cf. Mt 25,24-25), afirma: “Aquele que enterrou o talento era irrepreensível, mas inútil. Nada há de mais insignificante, frio, do que um cristão que não salva os irmãos” (Hom. sobre os Atos 20,4). Quem cuida só de sua salvação, em livrar a própria pele é como o soldado que no campo de batalha pensa apenas em si: acaba provocando a morte dos outros e a sua.

Um grande Pai da Igreja, Isaac o sírio (séc. VII), anima os que se preocupam ativamente com a salvação do próximo: “No dia em que te afligires pelo fato de alguém estar doente no corpo ou na alma, tenhas certeza de que naquele dia és um mártir, pois sofreste por Cristo e foste digno de confessá-lo” (Disc. I,58). O mártir é o que derrama o sangue pelo Cristo: podemos ser mártires derramando nosso suor/sangue pelos que são de Cristo, por toda a humanidade.

A crise vocacional, sempre se diz, é uma crise de generosidade, de misericórdia, de compaixão. É a ausência da preocupação pela “sede” de Cristo, julgando-se que a vida cristã comprometida se reduz a uns 10% de oração e outros 50% de “compromisso”. Por esse motivo, muitos ricos e países ricos entram em crise de fé: tornam-na inútil por terem reduzido o crer a não fazer o mal.

A Cruz de Cristo é o “sinal” dos cristãos: contemplando-a na profundidade da fé sentiremos o abismo de compaixão daquele que foi crucificado pelo mundo. E, casados ou solteiros, crianças ou jovens, leigos ou consagrados nos ofereceremos, como Santa Teresinha, para aplacar a sede de almas estampada nos lábios e na face do Senhor.

Nossa grande vocação é sentarmo-nos à mesa dos pecadores, como fez Jesus, e transformá-la em mesa de salvação: um cristão não consegue viver sem proclamar a misericórdia de Deus.

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