O ESPÍRITO SANTO, PAI DOS POBRES

pentecostes

O Batismo e a Eucaristia nos levam ao centro do mistério da vida cristã: o Cristo. A água e a hóstia são geradas na cruz onde está o Senhor e Salvador, de cujo lado aberto correm sangue e água, os dois sacramentos que geram o cristão e a Igreja. A celebração do mistério sempre abre uma janela para a eternidade, permitindo-nos contemplar o que acontece além das condições do espaço e do tempo. Neste primeiro momento queremos abrir essa janela e contemplar o Espírito Santo. Tudo é obra do Espírito: o Pai é o ventre fecundo, o Filho a obra-prima e o Espírito Santo é o artista. Ele é verdadeiramente o artista da criação e da transformação de cada criatura em filho de Deus.

O Espírito Santo está em tudo e em todos

Ele é quase invisível, não lhe conhecemos o rosto: a obra leva a assinatura do artista, mas não lhe mostra a face. O Espírito está em todo o universo e em todos os corações, pois é o artista com o qual o Pai esculpe sua obra. É representado mais por símbolos de sua ação: o fogo que abrasa, que purifica o ouro, o vento impetuoso que tudo transforma por onde passa, a brisa suave indicando a presença do amante. E a pomba. Segundo o biblista Pe. Ney Brasil, assim como o Filho é simbolizado pelo manso cordeiro, de modo análogo o Espírito o é pela silenciosa, graciosa e pacífica pomba. Tudo na Trindade é amor, suavidade, paz, delicadeza.

Ele gera a unidade criando a diversidade: no Pentecostes o fogo era um só, mas se repartiu em doze línguas: cada Apóstolo recebeu a sua e todos se entendiam, pois uma era a fonte da comunicação, o Espírito. De uma Igreja o Espírito gerou doze igrejas: o artista ama a variedade harmoniosa. No mundo, cada igreja expressa uma cultura, um povo, unindo-as na harmonia do amor. Uma Igreja ou comunidade que não aceita a variedade não é espiritual: é obra material de algum artista humano.

O Espírito é a fonte da liturgia

A vida cristã é uma grande liturgia, a criação expressa a liturgia trinitária, a Eucaristia expressa a liturgia pascal da Ceia. Através do Espírito, o amor divino se estende a toda a vida humana, tudo penetrando: o coração, o ser pessoal, os afetos, a cultura, as relações pessoais, a sociedade.

Sem o Espírito Santo não existe liturgia: existem cerimônias vazias, padres bem enfeitados em seus paramentos e comunidades sentindo-se cada vez mais esterilizadas na vida de fé, porque privados do gerador da vida, o Espírito do Senhor.

A Trindade despe-se de sua glória e reúne em seu seio pecadores e santos, porque o Espírito gera misericórdia. Quando contemplamos o imenso afresco de Michelangelo na Capela Sistina, representando o Juízo final, estamos diante de uma obra humana: quem pode garantir que em algum dia acontecerá aquela cena dolorosa e apavorante de pecadores atirados no inferno? Será que o Espírito Santo não tocará todos os corações? A Trindade de André Rublev é mais espiritual: em seu inspirado ícone, coloca as Três Pessoas divinas hospedando toda a humanidade no tesouro eucarístico.

Vinde, Pai dos pobres!

Esta antiqüíssima prece cristã (estrofe do hino “A nós descei, divina luz”) manifesta a pobreza divina: Deus é pobre (Ele nada tem, Ele “é”: Eu sou aquele que é – Ex 3,14); o Filho é pobre, tudo recebe do Pai, que é “maior” do que Ele (Jo 14,28), recebe e nos dá o Espírito, o Pai dos pobres. É pobre porque é amor puro que se doa, com isso tornando possível a liturgia eucarística onde se faz alimento, pão .

E isso é fundamental: na liturgia, o Espírito faz do Filho pão para os pobres em todos os sentidos: espiritual, material, moral. Ele vai além: torna Deus pobre e o pobre Deus: “Tudo o que fizestes a um desses pequeninos é a mim que o fizestes…” (Mt 25,40). No Espírito, Jesus assume todo o sofrimento humano como seu, assume nossa morte e nos dá a ressurreição.

É conhecida a palavra de São João Crisóstomo, querendo unir a liturgia eucarística à liturgia da vida: “o sacramento do altar é o sacramento do irmão; deixamos o altar da eucaristia para ir ao altar do pobre. Os dois altares são inseparáveis, porque a finalidade da liturgia é gerar a Igreja da compaixão, à imagem de Deus. A Igreja se transforma na sarça ardente, da qual ninguém pode se aproximar sem “ver a miséria do povo e ouvir seus gritos” (cf. Ex 3,7). Deus é inacessível a quem não se deixa trabalhar pelo Espírito Pai dos pobres.

O liturgista Jean Corbon (1924-2001) nos lembra que os pobres caminham para debaixo do altar na grande liturgia eterna, conforme lemos no Apocalipse (6,9ss): o altar do holocausto se transforma no altar dos pobres, da compaixão, onde gritarão os injustiçados: “Até quando, Senhor, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?”.

Ele, o Espírito Santo, é chamado de grande Consolador: recria o coração dos pobres na coragem de viver, recria no coração dos ricos a compaixão que leva a se esvaziar, ser eucaristia, pão repartido. Na liturgia, indicando cada pessoa ao nosso lado, o Espírito Santo falará em seu silêncio: “Ele está no meio de nós”.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Ivone Maria Koerich Coelho em 16 de maio de 2015 - 23:26

    Que possamos abrir a janela do nosso coração, para contemplar o Espírito Santo. Assim como o Senhor escreveu com belas e sábias palavras: Ele é verdadeiramente o Artista da criação e da transformação de cada criatura em Filhos de Deus.

  2. #2 por José Artulino Besen em 17 de maio de 2015 - 16:43

    Ivone Maria, somente o Espírito renova a terra e a cada um de nós, porque nos revela Jesus como Senhor e Salvador e nossa condição de filhos de Deus. Aceitando a graça divina da filiação, somos inundados no amor.

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