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ZACARIAS E MARIA, JOÃO BATISTA E JESUS

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Maria visita Isabel – afresco românico catalão

No tempo de Advento e de Natal a Palavra proclamada na Liturgia nos apresenta João Batista, o último profeta da Antiga Aliança, e Jesus, aquele que contém em si a Nova Aliança. Dois homens dos quais o evangelista Lucas afirma o parentesco e o encontro: João filho de Isabel, a estéril, Jesus filho de Maria, a virgem de Nazaré. Ainda no ventre de suas mães, os dois se encontram e acontece um pentecostes: João salta de alegria no ventre de sua mãe e Jesus leva Maria a prorromper no canto do Magnificat-A minh’alma engrandece o Senhor, o hino dos humildes (cfr. Lc 1,39-56). Maria, a Mãe do Redentor correu a ajudar Isabel: a presença de Jesus em seu seio arrebata ao serviço, pois o encontro com Jesus torna extrovertida nossa vida introvertida e nos conduz ao próximo.

João Batista é o profeta que fala no deserto, preparando os caminhos do Senhor. Jesus é o Senhor e Mestre que no silêncio e na humildade anuncia o Reino. Muito significativos os anúncios feitos pelo arcanjo Gabriel sobre o nascimento dos dois: o anjo anuncia a Zacarias (Lc 1,5-25) e a Maria (Lc 1,26-38). O papa Bento XVI, em seu terceiro volume sobre Jesus intitulado “A infância de Jesus” propõe um belo confronto: de um lado o Sacerdote, o Templo, a liturgia; de outro lado, uma jovem desconhecida, uma pequena cidade, uma casa particular.

O Antigo Testamento leva à solenidade litúrgica do incenso oferecido no Templo de Jerusalém e o Novo Testamento conduz à simplicidade, ao silêncio, ao grão de trigo lançado ao solo. Zacarias simboliza o poder sacerdotal, Maria é o símbolo do não-poder, do serviço humilde. Gabriel dirige-se ao Templo para o anúncio a Zacarias e dirige-se à humilde casa de Nazaré para o anúncio a Maria.

A liturgia do Templo revela o poder da classe sacerdotal; a liturgia da Nova Aliança transforma a liturgia em serviço, em pequenez, onde os poderosos são derrubados, os humildes são elevados. Mas, existe uma unidade intrínseca entre Zacarias e Isabel e Maria: a vida nasce da impossibilidade humana: um casal idoso, estéril, uma virgem que não conhece homem. Deus irrompe na história fazendo brotar a vida nova que é graça e que produz, em quem a aceita, a fecundidade de gerar novas vidas através do serviço aos pobres. A Bíblia narra diversos nascimentos inexplicáveis aos olhos humanos mas que revelam o poder do Deus da vida.

Ao ouvir o anjo, Zacarias duvida, pede uma prova, a certeza de que gerará um filho. Ao ouvir o anjo, Maria pergunta como Deus agirá e logo entra no plano divino, sem medir conseqüências nem pedir provas: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Por ter duvidado, Zacarias ficou mudo até o nascimento de João e Maria foi às montanhas da Judéia servir a Isabel. Ao nascer-lhe o filho, Zacarias prorrompe no hino Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que a seu povo visitou e libertou.

João Batista torna-se profeta de renome, respeitado pelas autoridades, por Herodes, cria um movimento religioso conhecido como dos batistas. E Jesus, o pobrezinho, durante 30 anos mergulha na insignificância de Nazaré, no silêncio da oficina de José e da casa de Maria. Quando fala, riem dele: “Não é esse o filho do carpinteiro?”. Ele, porém, não se impressiona: é o poderoso, o todo-poderoso, mas detém um poder que é amor, acolhida, reconciliação. Humildes e importantes vão ao deserto ouvir João. A Jesus procuram os doentes, aleijados, os famintos, os pecadores, gente sem eira nem beira. Somente quem dá o passo do silêncio, da oferta da vida é capaz de reconhecer quem é Jesus.

Jesus apresenta João como o maior entre os nascidos de mulher; João apresenta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. João anuncia a salvação, Jesus é a Salvação. O nome “João” significa Deus tem compaixão; o nome “Jesus” quer dizer Deus salva. Ambos nos oferecem o caminho da reconciliação com Deus e nos fazem ouvir o canto dos anjos a anunciar “glória a Deus e paz na terra”. Um encaminha, o outro é a luz sem ocaso.

Pe. José Artulino Besen

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O LAVA-PÉS – FUNDAMENTO DA COMUNIDADE

O evangelista João, diferentemente dos outros três evangelistas – Mateus, Marcos e Lucas – não narra a Instituição da Ceia eucarística. Em lugar dela, deixou-nos a Instituição do Lava-Pés (Jo 13,1-20), instituição do sacramento do serviço humilde e fraterno: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (v.14). Com o Lava-pés, Jesus inicia sua Hora da Glorificação e deixa muito claro a sua não é a glória do mundo, mas a glória fruto do amor que, do Lava-pés, conduz a seu Trono: a Cruz.

Nós, cristãos, temos a tentação de anunciar um Jesus triunfante e glorioso e, desse modo, também imaginamos uma Igreja gloriosa, numerosa, triunfante. Isso leva a uma série de fugas e facilitações, pois gostaríamos da vitória e não de “gloriar-nos da Cruz de Nosso Senhor” (Gl 6,14). Em Atenas, Paulo buscou falar segundo a sabedoria humana, e logo percebeu que deveria anunciar o Evangelho que é loucura e escândalo. Nada mais estranho e escandaloso do que falar de um Salvador que lava os pés dos outros e morre na cruz. Mas, essa é a novidade cristã: servir e dar a vida.

Ser cristão não é para muita gente, é para quem se decide a seguir os passos de Jesus. Por natureza queremos ser servidos e glorificados. Pela fé, a conversão nos leva à doação.

Jesus lava nossos pés, pois somos pecadores

Lavar os pés, no tempo de Jesus, era trabalho de servo ou escravo, nunca de um homem livre. Também no Brasil, eram os escravos que faziam esse serviço. Pedro tinha razão em não querer que lhe lavasse os pés, pois tinha claro que Jesus era o Senhor. Pedro tinha razão em cortar a orelha de Malco, pois não poderia admitir Jesus feito prisioneiro. Somente depois da Páscoa e do Pentecostes seus olhos se abriram para a compreensão de Jesus e de suas palavras “mais tarde compreenderás” (v.6). Somente assumindo o serviço humilde é que se pode ter fé em Cristo. Acima de tudo, compreendeu que seguir a Jesus era seguir uma pessoa e não uma doutrina, uma teoria religiosa. O Evangelho é uma pessoa: Jesus. Crer na pessoa dele é segui-lo na humildade.

Aqui adquire todo o esplendor e beleza o gesto da mulher pecadora que lava os pés de Jesus com as lágrimas, enxuga-os com seus cabelos e perfuma-os com caríssima essência (cf. Lc 7,36-50). Não foram os rabinos, e nem os apóstolos quem primeiro compreendeu que a conversão é obra da misericórdia: foi uma pecadora após viver a graça do perdão e da acolhida.

A Igreja passa por grandes dificuldades, hoje, e a maior causa é porque ficou insignificante. Facilitou tanto a vida cristã que deixou de ser profecia. Uma Igreja adaptada ao mundo não causa preocupação a ninguém. Preocupados com os números, acabamos por esquecer o difícil parto da conversão que não é fácil, pois requer que sejamos servidores humildes, dispostos a lavar os pés da humanidade. Hoje, os pés são os oprimidos, os migrantes, os doentes, os dependentes químicos, os violentos e violentados, todos os que sofrem e fazem sofrer. O lava-pés e a Igreja não são para os puros, mas para os que necessitam da água da misericórdia.

Necessitamos sempre do Lava-pés

Também necessitamos aceitar que nos lavem os pés, que tratem de nossas feridas. Somos carentes, a doença do egoísmo deixa-nos cobertos de feridas, preferimos o brilho do sucesso de nossas comunidades cristãs e rejeitamos que nós somos os primeiros que devemos gritar por socorro. Preocupamo-nos com os que migram para outras Igrejas, e esquecemos o grupo mais numeroso que nada quer ter com a Igreja, os indiferentes.

Quem nos lavará os pés? Sem dúvida, o mesmo Senhor e Servo que lavou os de Pedro, agora não com a água mas, com o sangue derramado. O Sangue da Palavra de Deus e da Eucaristia. A anemia que nos deixa fracos na fé e na caridade dele recebe cura com a transfusão da graça.

Jesus continua cingido com a toalha e segura o jarro de água, propondo-nos dois caminhos inseparáveis: que deixemos que ele nos lave os pés e que nos lavemos os pés uns aos outros.

Pe. José Artulino Besen

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A CONVIVÊNCIA SUPÕE A PACIÊNCIA

Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo
que nos amou e por nós se entregou a Deus
 (Ef 5,2).

Li em algum lugar que um frio terrível se abatera sobre o reino dos animais. Frio tão intenso que, se alguém ficasse sozinho, acabaria congelando. Por isso os animais se agrupavam, um encostado no outro, para que se aquecessem. O porco espinho fez o mesmo, mas logo desistiu: ficou incomodado com as pequenas espetadas de seu colega porco-espinho. Preferiu dormir sozinho. Resultado: morreu congelado. E assim, a cada dia morria um porco-espinho no reino dos animais. Nenhum suportava as espinhadas do outro. Prevendo um fim trágico para todos, entraram num acordo: ficar todos bem juntinhos, se aquecendo, apesar dos espinhos, para não morrerem.

Essa historinha traz uma lição importante: ninguém consegue viver sozinho e ninguém consegue conviver sem algum tipo de sacrifício. Cada pessoa tem “espinhos” que incomodam outros, e os outros têm alguns espinhos que a irritam. Os espinhos são os defeitos pessoais, as limitações, manias. São o modo de falar, de agir, a aparência externa, limites emocionais, cacoetes, pequenas coisas que nos irritam. Percebo os defeitos do outro e ele percebe os meus. Fica a escolha: viver sem incômodos e morrer, ou conviver com eles para viver.

Essas coisas dependem muito de nosso olhar, de nossos sentimentos: atrás de um espinho podemos ver uma roseira ou um espinheiro. Se vemos uma roseira, vale a pena suportar os espinhos devido à beleza da rosa. Se vemos um espinheiro, tomamos distância. No romantismo do namoro e do noivado, os defeitos parecem pequenos encantos, porque o amor é muito forte, é ainda paixão. Depois, no casamento, se entra na rotina, e os defeitos “encantadores” viram motivo de confusão…

A convivência tem por objetivo ajudarmos as pessoas a se aperfeiçoarem. Pelo afeto, compreensão e diálogo ajudá-las a superarem seus limites. Se exijo que o outro não tenha nenhum defeito, tudo bem, somente que o outro também exigirá isso de mim e acabaremos morrendo de solidão, de tédio.

A moça que procura um jovem perfeito para o casamento, acaba ficando sozinha. O marido que sonha com uma rainha dentro do lar, vai perceber que a esposa também quer um rei e lá se vai água abaixo o amor familiar. Há gente sem amigo porque procura o impossível: um amigo perfeito. Muita coisa boa não é construída porque, de tanto enxergar defeito nas pessoas, não temos mais colaboradores.

Atingimos a arte de conviver suportando as pequenas “espetadas” de cada dia, sabendo que nossa paciência ajudará o outro a ser melhor. Vale a pena conviver com pequenas limitações, pois a alegria do estarmos juntos com os outros é muito maior. Se nos isolamos para não nos incomodarmos com os defeitos alheios, acabaremos aumentando o tamanho de nossos defeitos pessoais. O isolamento nos torna incapazes de nos enxergarmos a nós mesmos e nos torna amargos frente à vida.

O outro é meu espelho e eu sou o espelho dele. Às vezes, o que mais me irrita nas pessoas é aquilo que eu tenho e também as irrita. Dizem que vemos nos outros os defeitos que não enxergamos em nós!

Mas não é só por isso, por interesse pessoal, que aceitamos os pequenos sacrifícios impostos pela convivência. Nosso objetivo é maior vai além: existimos para que o outro possa existir. Fomos criados para multiplicar a solidariedade e não a solidão. Ninguém é uma ilha.

Precisamos de humildade, se não quisermos acabar sozinhos. Apesar de alguma “espetada“, a convivência enche nossa vida de calor humano. E então, vale a pena viver!

Pe. José Artulino Besen

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BEM-AVENTURADA IRMÃ DULCE DOS POBRES

Bem-Aventura Irmã Dulce dos pobres – a Missionária da Misericórdia

Maria Rita Pontes – Irmã Dulce – nasceu em Salvador da Bahia em 26 de maio de 1914 e foi ao encontro de Deus em 13 de março de 1992 após 16 meses de sofrimento pacientemente suportado e ofertado. O Anjo Bom da Bahia que andava pelas ruas de Salvador recolhendo pobres e donativos é a Bem-aventurada Irmã Dulce. Ouvindo o povo que a amou e com ela aprendeu a misericórdia, a Igreja a proclamou Bem-aventurada em 22 de maio de 2011, em liturgia celebrada em Salvador. Seunome de Santa é Bem-aventurada Dulce dos Pobres, Bem-aventurada Irmã Dulce dos Pobres.

Em 1932, com 18 anos, Irmã Dulce entrou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em Sergipe. Dois anos depois, retornou à Bahia, onde dedicou toda a sua vida às obras de caridade.

Sentindo o chamado a trabalhar com os pobres e doentes, serviu como enfermeira no Sanatório Espanhol. Quis preparar-se melhor e fez curso de Prática de Farmácia, aprendendo a manipular receitas. Um ano depois prestou exame na Secretaria de Educação e Saúde do Estado e foi aprovada na dissertação sobre o tema “Cápsulas e Comprimidos”.

Nomeada para lecionar Geografia no Colégio Santa Bernardete, foi mestra querida mas, as Irmãs notavam que alguma coisa não ia bem com Irmã Dulce: seus olhos contemplavam a paisagem da cidade e se comentava “Irmã Dulce só pensa nos pobres”.

Recebeu licença para abrir um curso noturno para os operários. A Madre Provincial liberou-a das obrigações no Colégio e deixou-a abrir as portas do convento para ganhar as ruas e dar-se aos pobres. Agora dedicava-se a ensinar letras e religião aos operários e seus filhos perto das fábricas e, na tarde dos domingos, visitar os moradores de uma invasão nos mangues do Caminho de Areia. Seus olhos transfigurados pelo Amor contemplavam a miséria geral, a imundície, as crianças famintas e desnutridas atrás de cada janela. Levava remédios que conseguia nas farmácias, providenciava consultas, procurava postos de emprego. A invasão crescia, era agora a favela dos Alagados, depósito do lixo urbano onde os famintos competiam com os urubus por algum alimento. Irmã Dulce teve clara sua vocação: estar com os pobres.

Bem-Aventura Irmã Dulce dos pobres – a Missionária da Misericórdia

A missionária da misericórdia

Em 1935, além da assistência aos pobres dos Alagados, visitava fábricas, oferecendo aos operários o Posto Médico instalado numa velha oficina. Em junho, com seu grande animador Frei Hildebrando, formou a União Operária de São Francisco, com posto médico, farmácia e cooperativa de consumo. Em 1937 nascia o Círculo Operário da Bahia. Dali em diante as obras foram surgindo, sempre a partir do olhar misericordioso dirigido aos pobres, aos operários, oferecendo atendimento médico, odontológico, cursos de primeiras letras, profissionais, corte e costura, culinária, oficinas, salas de recreação.

Mas, no decorrer de 1939 um fato reorientou sua vida: um pequeno jornaleiro veio a seu encontro pedindo um pouco de amparo, de amor. Irmã Dulce não podia ficar indiferente. Recolheu o menino e o abrigou num galinheiro vizinho ao Convento. Pronto: de um galinheiro nasce um hospital. Limpou o ambiente, procurou lençóis, camas, colchões. Irmã Dulce não esperava os doentes e aflitos: ia procurá-los nas ruas e tocas de Salvador. Em buraco feito quarto encontrou um homem esperando a morte. Recolheu-o.

O pequeno hospital crescia, também as necessidades. Pela manhã Irmã Dulce saía pelo comércio pedindo pão, leite, remédio, roupa e dinheiro. Alguns reclamavam: “Dar dinheiro para essa freira é como colocar água em balaio! Eta freira pidona!”.

Irmã Dulce necessitava também de um amigo no céu. Encontrou-o na pessoa de Santo Antônio. Que amizade surgiu entre os dois! Santo Antônio gostava também de brincar: numa noite fria e chuvosa, pobres pediam cobertores. Irmã Dulce pede socorro ao amigo. Pouco depois chega um Jeep carregado de cobertores. Mal acabam de descarregá-lo, desaparecem carro e motorista. Só podia ser Santo Antônio.

O Hospital dele recebeu o nome. As obras cresciam. Irmã Dulce batia em todas as portas. Movimentava empresários, banqueiros, políticos, o povo, mercados, feiras, em busca de auxílio. Suas Obras Sociais englobavam hospital, ambulatório, abrigo de idosos, centro de recuperação de dependentes químicos, casa para abrigar e profissionalizar jovens em Simões Filho. Médicos, enfermeiros, voluntários apareciam para ajudá-la. Seu Banco era a Divina Providência, o gerente Santo Antônio.

Em 1983, na alegria de seus 50 anos de vida religiosa realizou o grande sonho: inaugurar o novo Hospital Santo Antônio, com 800 leitos, conforto, o maior Hospital da Bahia, onde o doente nada paga: basta ser pobre. Um Hospital com conforto: Irmã Dulce dizia que o pobre deve receber o melhor, pois é o preferido de Deus e é bom não ofender a Nosso Senhor! E quem pagou construção e equipamentos? A Divina Providência.

Irmã Dulce, agora famosa e reconhecida, continuava pelas ruas, buscando pobres e socorro. Seu ser era inseparável do Pobre/Cristo e do Cristo/Pobre. A força dessa Irmã era sua fragilidade: somente 40% de um pulmão oxigenava seu corpo frágil e forte, sua magreza quase transparente. À noite, sentava-se uma ou duas horas, e esse era seu descanso. Tudo era urgente, pois o pobre é Jesus e deve receber a melhor atenção.

Aquela mulher de hábito branco e azul, cabeça coberta com véu azul andando pelas ruas, era a grande missionária vivendo e anunciando as Bem-aventuranças. Nela, Deus tornou-se visível ao povo baiano e brasileiro. Missionária da palavra transfigurada em vida.

Como é bom poder invocá-la, agora: Bem-aventurada Dulce dos Pobres, rogai por nós!

Pe. José Artulino Besen

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O ROSÁRIO, ORAÇÃO DOS POBRES

O Rosário - A Oração dos Pobres

O Rosário se insere nas múltiplas formas de oração com que os féis renovam permanentemente seu encontro com Cristo. É uma oração cristológica, não mariana: com Maria contempla a vida de Cristo. Ensina-nos a olhar Cristo com o olhar de Maria. É a oração dos pobres, dos anciãos, dos analfabetos, dos doentes, de todos.

O Rosário é uma oração dos pobres e uma oração “pobre”: nem sempre temos ocasião ou possibilidade de acesso à Palavra e à Eucaristia, mas podemos, com profunda fé, expressar nossa pobreza com uma dezena, um Terço, um Rosário. Quem sabe, outros se servem do mesmo Terço do Rosário com todo o proveito e unção repetindo muitas vezes o Nome “Jesus” ou, como fazem os orientais com a Oração do Coração, repetindo noite e dia o Kyrie eleison, Senhor Jesus, piedade. Também nesta pequena fórmula há profissão de fé e louvor (Jesus é o Senhor), o Nome (Jesus), a invocação (piedade).

É a oração dos velhinhos, dos doentes que, dia após dia, desfiando as contas do rosário lembram com afeto a Virgem Maria, passam em recordação os dias de sua vida. Uma oração humilde, silenciosa, que traz a paz. Quantos cristãos, na sua pobreza, seguram um rosário tão velhinho como sua idade. Emociona vê-los, no dia do sepultamento, com o rosário unindo suas mãos. Quantos segredos, quantas graças estão ali simbolizados.

Fruto da ternura gerada pela devoção à Mãe de Jesus, essa forma de oração traz ternura e paz a uma vida cansada, onde não houve muito lugar para meditações teológicas, leituras bíblicas, mas houve sempre lugar para a humilde meditação da vida do Senhor.

João Paulo II escreveu, em 2003, uma Carta Apostólica com o título “O Rosário da Virgem Maria”. Pedia – e pede – a toda a Igreja que contemple a Cristo com os olhos de Maria, que veja o mundo com o olhar da Mãe de Deus. Podemos olhar Cristo e o mundo com muitos olhares: o olhar de Maria, de João, de Paulo, de Pedro, da pecadora, do filho pródigo, de Zaqueu. No Rosário contemplamos Jesus com os olhos de Maria: a Mãe contemplando a infância de Jesus, a vida pública, seu caminho de dor, sua vitória final sobre a morte, o nascimento da Igreja no Pentecostes. E, no final, contemplamos Maria com os olhos de Jesus que eleva sua Mãe ao céu e a coroa de glória.

Não se quer retornar a um marianismo piedoso, água-com-açúcar, mas retornar a Maria para acompanhar, com ela, os passos do Senhor por nossa salvação. João Paulo II, que tinha como lema TOTUS TUUS (Sou todo teu, Maria) afirma: “a escuta da Palavra de Deus torne-se um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da lectio divina, que faz tirar das Santas Escrituras a Palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência”. O Rosário nasce das Sagradas Escrituras, pois, através dos mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos contemplamos a vida de Jesus narrada nos Evangelhos.

O Rosário – uma oração e muitas orações

Toda oração cristã tem dois tempos essenciais, louvor e invocação. Assim também no Rosário que é a repetição da oração da Ave-Maria: na primeira parte da Ave-Maria repete-se a alegria da Encarnação, com a saudação do Anjo (Lc 1,28) e de Isabel (Lc 1,42). No centro, a invocação terna e confiante do Nome Jesus, único Nome pelo qual podemos recebemos salvação. Segue-se, na segunda parte, a invocação para que Maria interceda por nós agora (nosso presente de pobres pecadores) e na hora da morte (a hora do êxodo para o Pai). A oração da Ave-Maria convida-nos a contemplar, com ela, os mistérios da Salvação operada em nossa existência.

O fundamental é que toda a nossa vida espiritual, nossos exercícios de piedade, tenham um único objetivo: o louvor e a súplica Àquele que pode e quer salvar-nos, o Filho de Deus.

A Igreja oferece hoje 20 Mistérios para acompanhar as 20 dezenas. Mas, podemos também recitar o Terço meditando um texto bíblico, uma parábola, meditando nossa vida cristã, contemplando as pessoas que passaram por nossa vida, nos reconciliando com passagens que deixaram marcas dolorosas, e nos alegrando com tantas recordações felizes que a graça de Deus nos proporciona.

Contemplando Jesus em sua vida terrena, Maria meditava continuamente a Palavra de Deus feito Carne. E hoje, com o Rosário, pedimos a Maria que nos empreste seu olhar para contemplarmos, também nós, a vida de seu Filho e meditarmos suas palavras.

Pe. José Artulino Besen

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O NATAL, OU A HUMILDADE DE DEUS

«O povo que andava na escuridão,
viu uma grande luz;
para os que habitavam nas sombras da morte,
uma luz resplandeceu».

(Isaías 9, 1)

O tema de luz perpassa o tempo de Natal e o da Páscoa e é celebrado a cada Batismo. Também nos é lembrado a cada vez que escutamos o próprio Jesus afirmando: «Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8,12). O tema da luz explica a importância das curas de cegos no Evangelho.

Em uma cena do drama «O pai humilhado», de Paul Claudel, uma moça judia, linda, cega, aludindo ao duplo significado da luz, pergunta a seu amigo cristão: «Vós que vedes, que uso fizestes da luz?» É uma pergunta dirigida a todos nós que nos confessamos cristãos. Temos a Luz: o que dela fazemos? O que queremos enxergar com ela?

A nossa dificuldade em dar resposta coerente à judia cega é que usamos mal ou desconhecemos a atitude necessária para fazer bom uso da luz, da Luz. Tentamos o critério do poder, da majestade, do milagre, e a fé se deforma. Optamos pelo critério do julgamento, do medo da justiça divina, e a fé torna-se risível.

O Natal nos aponta uma palavra iluminadora: a HUMILDADE. A humildade de Deus. Nosso Deus é humilde. Se tivermos dificuldade em admitir essa verdade contida em todas as Escrituras, o Cristianismo perde o sentido e até a razão de ser. Os maiores críticos da revelação cristã apontam exatamente a incoerência de um Deus todo-poderoso mas que é frágil, impotente. Nessa fragilidade, porém, é que reside a força e a potência do Deus Trindade. A manjedoura de Belém e a Cruz do Calvário são os sinais mais poderosos da humildade divina.

Deus pede hospedagem a Abraão, suplica a Moisés que liberte seu povo – um povo de escravos no Egito, pede a profetas frágeis que desarmados falem a reis, sofre por ser traído em seu amor esponsal, quer ter uma mãe, escolhida entre jovens da insignificante Nazaré. Os anjos cantam Glórias, mas o Filho tem de fugir para o Egito e, no retorno, a vida silenciosa de 30 anos.

A humildade de nosso Deus se revela na figura do Pai sofrido que espera o filho pródigo, do Filho que aceita ser manifestado como manso Cordeiro, pequeno Pão consagrado, do Espírito Santo simbolizado na carinhosa pombinha.

O Deus humilde chega até nós, mas não nos substitui, pois não quer que nos sintamos incapazes. Refuta o milagre triunfal que nos deixaria amorfos, submetidos ao fatalismo da história.

Deus pede licença para nos perdoar: é o Espírito que geme em nós para que reconheçamos nossa condição e o faz tão delicadamente que na distração da vida não o percebemos.

A humildade de Deus é tão clara que somente podemos vê-lo (sim, ele pode ser contemplado) no faminto, no doente, preso, desabrigado, sedento, doente, nu. O Deus humilde não nos julga pelo que lhe tenhamos feito, mas pelo que fizemos ou não a seus filhos e, dentre esses, os mais insignificantes.

O verdadeiro povo do Deus verdadeiro é o povo humilde, que invoca o Bom Jesus, o Bom Deus. É o povo nunca culpando o pobre Deus por nada. Eles, que são pobres, reconhecem a pobreza de Deus e, por isso, ao pedirem uma graça, até lhe oferecem algum voto ou retribuição. Para eles a Bíblia é Palavra de Deus que lhes é dirigida, não um problema intelectual. Os sábios dizem: isso é fundamentalismo!

Na cena memorável do romance Os Irmãos Karamazov, Dostoievski coloca Jesus sendo julgado e condenado pelo Inquisidor de Sevilha porque rejeitou o poder, a fama, o milagre. Por que rejeitar o milagre tendo poder para fazê-lo?  E o humilde Jesus nada responde, porque Deus Pai não quer ser temido e ter o mundo facilitado pelo poder dos milagres. Ele quer agir e deixar agir pela única força que os humildes possuem e que é a única força divina: o amor. O amor é o ato perfeito dos humildes, que nada pedem em troca, que agem silenciosamente, que não pensam em si.

Nosso Deus é humilde porque é Amor. Sempre será desprezado pelos soberbos e pelos cristãos ciosos de um lugar de prestígio no mundo religioso.

Os pastores acreditaram no anúncio de anjos e adoraram o Menino. Os Reis vieram do Oriente e adoraram o Deus Menino no menino Deus. Aceitemos a fragilidade de Deus para sermos fortes no amor.

Pe. José Artulino Besen

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