A VERDADE VOS LIBERTARÁ

Na Celebração da Missa em Havana (28 de março de 2012), comentando a leitura do dia o Papa Bento XVI falou sobre a verdade e a liberdade: a verdade requer a liberdade e a liberdade conduz à verdade. Um tema muito caro a Paulo que insistia na liberdade dos filhos de Deus. Um tema necessário à família cubana que sofre há tantos anos a privação da liberdade de crer e o jugo da educação marxista.

Vem-me à lembrança um relato de Joaquim Navarro-Valls, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé de 1984 a 2006. Durante 21 anos foi o Porta-voz oficial de João Paulo II, podendo conhecer de perto a interioridade do grande Papa, acompanhando-o no dia a dia do Vaticano e nas viagens apostólicas.

Uma vez se arriscou e perguntou ao Papa: “Santo Padre, se por acaso queimassem o Evangelho, se ele desaparecesse da terra, e o senhor tivesse a possibilidade de salvar só uma frase, que frase seria?”.

Para sua surpresa o Papa não esperou um segundo para responder: “Aquela frase do evangelho de São João que diz que ‘a verdade vos libertará’ (Jo 8,32). E acrescentou: “Faz mais de trinta, quarenta anos que eu penso nessa frase e ainda continuo pensando. A verdade liberta o ser humano”.

“Se permaneceis na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8,31b-32): nessa palavra evangélica o Papa se movia em dois campos: o campo da verdade e o campo “onde encontrarei a verdade?”. A pessoa humana não pode se alimentar da mentira, nem a ciência, nem a criação. A verdade e sua busca são o motor do desenvolvimento humano e científico.

É de fato extraordinário que o grande Pontífice, que pediu ao mundo que não tivesse medo de Cristo, que lhe abrisse as portas, tenha por mais de 30, 40 anos pensado em descobrir a frase mais decisiva do Evangelho e chegado a essa afirmação. Isso nos ajuda a entender as linhas mestras de sua pessoa e obra, de seus documentos e homilias, de seus encontros com os grandes desse mundo. Também ajuda a entender porque fosse intransigente no anúncio da verdade sobre Deus e sobre o homem. Era claro, por isso tido como “conservador”: a verdade não conhece meio termo, não pode ser negociada nem dos simpósios teológicos, nos departamentos diplomáticos das nações, não é objeto de simplificações para agradar o mundo.

Temos muita clareza de que a verdade não tem sido o motor da história e quem pagou o preço da sujeição ao engano foi o pobre, a dignidade humana, a natureza. A sujeição à mentira tira do ser humano o necessário para ter dignidade e faz dos interesses pessoais, políticos e econômicos a verdade definitiva, mesmo que ao preço da morte e da destruição. Diz-se que, numa guerra, a primeira vítima é a verdade. Ou então: a primeira vitoriosa numa guerra é a mentira.

As civilizações que os homens construíram podem ter sido geradas pelo idealismo, mas, em certo momento, prevaleceu o interesse rasteiro dos que detinham o poder. E a vida era e é derrotada pela morte. O próprio Deus é manipulado quando se deixa de lado a verdade. A história nos ensina que os grandes poderosos consideravam-se deuses e, com técnicas de comunicação, faziam-se crer benfeitores de seu povo quando, na realidade, eram benfeitores de grupos e assassinos de povos. Impérios apossaram-se de países, continentes, povos e, com a motivação de querer civilizá-los, destruíram suas culturas, seus povos e saquearam suas riquezas.

Beato João Paulo II

Karol Wojtyla conheceu e vivenciou as três mentiras poderosas que levaram povos inteiros a sofrimentos inauditos: o comunismo (que prometia o paraíso na terra), o nazismo (que via na raça e na força o ideal da humanidade) e o capitalismo (que faz da riqueza individual o sonho hedonista). Por causa delas, centenas de milhões de pessoas conheceram a morte no século XX, século de progresso imenso, século das comunicações, século de morte. Mas, a mentira não triunfa: humilhada, mutilada, a verdade se ergueu das cinzas da violência e oferece à humanidade um caminho de vida, num difícil aprendizado.

O ser humano não é humano na mentira: ele foi criado para a verdade, pois é imagem e semelhança da Verdade. Fora dela, inicia uma trajetória que se sabe onde começa – a ilusão – e onde termina: na indignidade e na violência.

Mas, o Papa não falou em verdades. Falou na “verdade vos libertará”. Sua inteira existência foi testemunho da verdade que liberta, do Redentor do homem: Jesus Cristo, o homem perfeito. A Verdade não é uma teoria, um teorema complicado, a Verdade é uma pessoa, Cristo. Como bom pastor da Igreja, João Paulo II quis abrir todas as portas do mundo àquele único que pode dizer: “Eu sou a Verdade”. Verdade que serve e não domina, verdade que dá e não tira a vida, verdade que perdoa e não toma vingança, Verdade que é Amor.

Santo Agostinho derramou muitas lágrimas por ter, durante anos de sua vida, ignorado a verdade e seguido a mentira, até descobrir que a Verdade é a suprema Beleza, é Deus.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Edinez Silva Souza em 6 de abril de 2012 - 18:28

    Obrigada pela mensagem , que Deus continui nos abençoando….

  2. #2 por Thiago em 16 de abril de 2012 - 14:09

    Olá padre José, registrei na rede social de leitores de livros, chamada Skoob, sua obra “A Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento”. Aos leitores deste blog e ao senhor, se quiserem visitar a rede, o livro está neste link que segue abaixo:

    http://www.skoob.com.br/livro/233231

    Abraço!

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