SOMOS PEREGRINOS E MENDICANTES

«Um dos Discípulos, aquele a quem Jesus amava». (Jo 13,23)

Ao respondermos ao chamado de Jesus tem início nossa peregrinação de mendicantes: não sabemos aonde ele nos leva, mas sabemos que é o único lugar que vale a pena conhecer, e somos mendicantes do pão da verdade e da alegria. A fome é sempre mais intensa, o caminho é sempre mais longo e pede-nos um passo a mais, a cada passagem da vida.

Somos peregrinos, sempre a caminho. A resposta ao chamado não pode ser “não vou conseguir”. O peregrino levanta-se e anda, como Abraão. Ele sabe que, se quiser ser discípulo, não terá resposta objetiva além de se levantar e pôr-se a caminho porque, diante do peregrino, o que se estende é o caminho. Não se define pelo que consegue fazer, mas por se saber amado pelo Senhor. É porque Jesus me ama que eu me ponho a caminhar e, no caminhar, a vida se transfigura e torno-me íntimo dele.

O quarto Evangelho fala dos Doze, do chamado recebido, mas, o Senhor não chamou somente os Doze. Coloca diante de nós um outro discípulo, o Discípulo amado, que não é João irmão de Tiago, mas um jovem que seguia Jesus e se manifesta apenas na última Ceia (cf. Jo 13, 21-26). O peregrinar com Jesus o transfigurou e ali, nesse momento de extrema intimidade – era a hora do Adeus – manifesta o quanto foi amado e o quanto amou.

Estava com a cabeça inclinada no peito de Jesus. Escuta o coração de Jesus bater e seu coração pulsa com o dele. É seu amigo íntimo, encontra tempo para essa intimidade e oração.

Não está ali por obrigação, o que tiraria todo o sentido: um amor o amou primeiro e a vocação é resposta de amor a quem amou primeiro.

O Discípulo amado não abandona o Mestre, pois não sabe viver sem ele e dele brota o sentido de sua vida. Quando Jesus está suspenso na cruz, abandonado, humilhado, todos os discípulos desapareceram, até Pedro, menos aquele que se sabia amado (Jo 19, 25-27). Não que Jesus o amasse mais do que aos outros, mas, era ele o que mais se sentia amado, num amor que o faz permanecer “em pé” diante da cruz, juntamente com Maria, a Mãe, e Maria, aquela que tinha sido libertada de uma legião de demônios.

Os outros discípulos tinham ouvido a mesma voz, escutado o mesmo chamado, mas não tinham ouvido e sentido o coração de Jesus. E assim acontece no caminho da história cristã: Paulo deixa de viver para viver Cristo, Francisco abraça o leproso, Madre Teresa limpa feridas purulentas, num amor igual ou maior que o sentir de cada mãe ao contemplar a dor de um filho. Cada Discípulo amado tem força e alegria para ficar ao lado de todos os sofredores da história.

Deus é amor

Na ressurreição, o Discípulo amado é o primeiro que chega ao túmulo, mas não entra (Jo 20, 1-8). Ele cede a honra a Pedro que, nessa hora, vê e crê, pois viu o amor. Só o amor faz crer no que fisicamente não se comprova. Há conflito quando acho que devo ser o primeiro ou que os outros devam ser como eu, o que não acontece com o Discípulo: ele vê, mas Pedro entra. Quem é amado ajuda o outro a assumir o seu lugar.

Dias depois, eles estão no barco e percebem um homem às margens do mar da Galiléia (Jo 21, 4-8). A partir do sinal do fogo e do peixe que está sendo preparado ele não tem dúvida, pois o conhece, e diz: “é o Senhor”. O discípulo reconhece a presença do Ressuscitado hoje e, também na cruz, vê sinal de ressurreição. Vê luz onde todos somente vêem a escuridão. Seu amor pela Igreja não disfarça a realidade de pecado que nela existe, mas é capaz de contemplar o luminoso mistério da Igreja que resplandece no amor, na missão, na doação de seus filhos.

O Discípulo amado, e todos os discípulos transfigurados pelo amor, tudo transforma em alegria: faz brilhar o que é bom e torna bom o que estava comprometido pelo mal.

Ao escrever sua Carta às comunidades cristãs, João, o Discípulo amado, exclama: Deus é amor. A prova é que nos amou primeiro. Quem ama permanece nele (cf. 1Jo 4, 7-16).

Nosso amor sempre será tímida resposta a seu amor para conosco, timidez que nos leva a empreender o caminho da peregrinação ao encontro do Amor e da busca do pão. Quando dissemos o sim inicial, uma força maior nos alimentou e movimentou: amar é dar a vida. Porque Jesus deu a vida por nós. Queremos ser discípulos amados, deixar nosso coração pulsar ao ritmo do coração de Jesus.

Pe. José Artulino Besen

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