O CACO DE TELHA EMPRESTADO DE JÓ

Jó ridicularizado por sua mulher - Gioacchino Assereto

Jó ridicularizado por sua mulher – Gioacchino Assereto

Um dos mais perturbadores livros da história humana, assim tem início o Livro de Jó: “Havia na terra de Us uma homem chamado Jó: era íntegro e reto, temia a Deus e mantinha-se afastado do mal. Tinha sete filhos e três filhas. Era o mais rico entre todos os habitantes do Oriente” (Jo 1, 1-3). Satanás não se conformava com a integridade desse homem rico, poderoso, temente a Deus. E tem início o drama de Jó, que é o drama da vida humana. Deus respeita tanto a liberdade do tentador quanto a do santo homem. Primeiramente perde os filhos e seus bens. Em segundo lugar perde a saúde e torna-se um homem repugnante coberto de chagas malignas, desde a ponta dos pés até o alto da cabeça. Sentado no meio do lixo, raspava o pus com um caco de telha. De seus lábios, porém, a palavra da fé: “Seja bendito o nome do Senhor”. Terminado o tempo da provação de sua liberdade, Deus tudo lhe restituiu. Jó, a partir desse momento, não é o homem que teve seus bens de volta, mas o homem que foi fiel ao Senhor.

Naquele corpo chagado, repugnante, permaneceu a chama da fé que, pouco a pouco, tomou conta de toda a sua pessoa e tornou-a luminosa. O caco de telha com que raspava o pus era a força que lhe mantinha a dignidade: se Jó não limpasse o pus teria desistido de ser pessoa e nenhuma transformação seria possível.

Em nossos dias, a Igreja católica é o Jó atirado no meio da praça: é pretexto para o ataque, o ridículo, a rudeza, a ingratidão. Mas, deve-se dizer, ela também guarda carniça em seu ventre, o pus escorre de seu corpo materno, humano e divino. Muitas vezes afirmamos que a Igreja é santa, que não precisa de conversão, o que compete a seus membros. A história, porém, nos revela que o caminho eclesial é diferente: encarnada nas culturas, com facilidade a Igreja pode se deixar seduzir por elas e assim, ao invés de converter o que há de mau nas culturas, por elas é contaminada. O espírito do mundo nunca deixará a Igreja no repouso dos justos: sua missão é o contínuo combater o bom combate, reconhecer os próprios pecados e converter-se.

O drama de nossos dias é a história de Jó: temos todas as bênçãos, toda a riqueza da Palavra e dos Sacramentos, mas não nos submetemos à provação. Achamos que é possível transfiguração sem cruz, salvação sem fidelidade. Cristãos ouvem as palavras dos amigos de Jó convidando à blasfêmia, ao desânimo, a abandonar o ventre da mãe onde convivemos com nossas virtudes, chagas e pus. O caco de telha será o grito de toda a Igreja “Kyrie!”, “Senhor, piedade!” Se o caco de telha for a revolta, a acusação ao mundo que não reconhece a nossa “santidade”, nossos méritos históricos, a ferida se aprofundará. É a hora da conversão, sempre é hora da conversão, da Igreja e dos membros.

É triste que os ataques se dirijam à pessoa de Bento XVI, o Papa que mais agiu e age para a transparência na Igreja, que submeteu os casos de pedofilia diretamente aos tribunais civis, que em nenhum momento teve a pretensão de ocultar a verdade. A assim chamada imprensa laica corre o risco de invadir a esfera própria da Igreja que é sua autonomia de condenar os pecados e redimir os pecadores. Certos tipos de intelectuais querem tirar da Igreja seu conteúdo de caridade cristã. A defesa mais contundente vem de Ross Douthat, um dos mais lidos opinionistas do The New York Times, num artigo com o sugestivo título “O melhor Papa”: defende a intergidade moral de Bento XVI que não se pode colocar em dúvida mesmo nos tempos anteriores ao Pontificado. Persegue-o a fama de “Rotweiler de Deus”, dos tempo da Doutrina da Fé, em confronto com o envolvente e simpático João Paulo II. Talvez a história julgará Bento XVI como um Papa maior.

A graça de Jó nos atinge para que provemos onde está nossa fé, nossa coragem, nosso amor pela Igreja. Foram muitas as crianças e jovens desintegrados na sua intimidade por padres e religiosos, seus naturais protetores na vida e na fé, foram muitos os pastores que preferiram o triunfo eclesiástico à defesa das vítimas. Se nós padres e bispos estamos chagados, não é pela fidelidade e obediência, mas pela omissão e amor próprio.

Um fato leva-nos a refletir com muita seriedade: quem nos chama à conversão não está sendo o Evangelho. O Senhor, não se sentindo escutado, deu voz ao mundo, aos inimigos da fé cristã, da Igreja católica, aos meios de comunicação laicistas, aos advogados ansiosos por dinheiro. Também isso é verdade e, como Jó, devemos dizer, cheios de dor e humilhação, “seja bendito o nome santo do Senhor”. Jó nos empresta o caco de telha para que limpemos o pus que escorre de nosso íntimo. Achávamos que não necessitaríamos desse caco de telha, mas necessitamos da purificação do que não faz parte de nosso ministério de serviço misericordioso e que apenas provoca essas feridas e chagas da cabeça aos pés. “Nós, cristãos, nos últimos tempos evitamos a palavra penitência. Agora, sob os ataques do mundo que nos falam de nossos pecados, percebemos que fazer penitência é graça e vemos como seja necessário fazer penitência”, afirmou o Papa em 15 de abril.

Penitência e conversão são obrigação também do povo de Deus que se omitiu, que por amizade e medo se calou. Quem sabe, a estrutura de poder sacral que montamos e alimentamos tira do povo de Deus a coragem, temendo por ela ser ameaçado.

Abrir-se ao perdão, preparar-se para o perdão, falou Bento XVI. A dor da penitência é graça, pois é renovação, é obra da Misericórdia divina

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  1. #1 por Carlos Pamplona em 4 de maio de 2010 - 19:57

    Enquanto lia o artigo, lembrei-me de uma frase que é cantada durante a Quaresma na Via Sacra: “toda queda é um convite a levantar”. Como não pensar, diante de tão dolorosa e penosa experiência de queda, que precisamos renovar todos os dias o bom propósito de erguer-nos de novo. Hoje fizemos a experiência conjunta de dor, porque “moramos” na grande Casa comum que é nossa Mãe a Igreja. Porém, quando pensamos em nós mesmos, percebemos, ainda, que muito pus precisa ser limpo, muita fraqueza fortalecida e muita miséria enriquecida com o dom da fé e da perseverança. Não temos como negar que estamos passando por um tempo de purificação, de limpar mesmo o pus. Agora é o tempo da redescoberta do sentido e da força transformadora da santidade, que passa unicamente pela “porta estreita”. Eu creio que passando pela experiência do “Gospodi pomilui” um dia todos nós “proclamaremos sobre os telhados”: “Seja bendito o nome do Senhor!”.

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