CRISTO GLORIOSO NO POBRE SEM TETO

Jesus, o pobre sem-teto - Escultura de Timothy Schmalz

Jesus, o pobre sem-teto – Escultura de Timothy Schmalz

Timothy Schmalz, escultor católico canadense contemporâneo busca, com sua arte, continuar a grande tradição cristã de expressar o mistério da fé cristã através da beleza da arte. Descreve suas esculturas como traduções visuais dos Evangelhos e fica muito feliz quando as vê expostas em ruas e praças. Pela sua resistência e duração, aprecia o bronze como matéria de transfiguração a perpetuar a beleza e a experiência do Belo.

Não é necessário ser conhecedor dos Evangelhos ou dos dogmas cristãos para mergulhar no mistério cristão, como não é necessário ser musicista para sentir o mistério oculto numa Sonata de Beethoven ou numa Antífona gregoriana. Ao contemplar a obra artística se é levado à contemplação do mistério e da verdade porque, pela encarnação do Filho, a matéria tornou-se apta para ser transfigurada no divino: da mesma forma que o Senhor glorioso é o Jesus despojado de glória, também o Jesus pobre de Nazaré é o Senhor da glória.

Ao abençoar obras de arte, a Igreja nos ensina que a matéria transfigurada em beleza tornou-se fonte de bênção, é bênção. Pena que “benzemos” imagens, rosários, velas sem a consciência do mistério que a matéria passa a comunicar.

Inspirada em Mateus 25, 31-46 (Eu tive fome e me destes de comer, …), a imagem de Tim Schmalz na abertura desta reflexão é uma representação a sugerir que Cristo está com os mais marginalizados em nossa sociedade. A figura de Cristo está envolta em um cobertor e a única indicação de que é Jesus são as chagas visíveis nos pés.

Colocada diante de uma igreja canadense, a escultura foi feita em tamanho real e, deitada num banco de jardim, deixa espaço suficiente para que alguém possa nele sentar-se. As atitudes dos que transitam pelo caminho revelam o que se passa no coração de cada um: há quem prefira olhar de longe, fingindo que não viu; quem olha com cuidado, mas logo segue adiante, preferindo demonstrar que não entende o sentido da imagem; quem julga estar diante de uma blasfêmia dessacralizadora, pois lugar de Cristo é na igreja e não na rua. Enfim, existem aqueles que tomam assento aos pés da imagem, com carinho massageiam os pés feridos, primeiro pela compaixão diante do pobre e depois, ao perceberem que o pobre é o Senhor.

Alguns insistiram com o padre para que retirasse essa escultura e a colocasse dentro da igreja, aparentando a sugestão um sinal de respeito, mas, na verdade, era apenas constrangimento: a imagem do Cristo sem-teto se fixa na mente e não se consegue mais deixar de contemplá-la em todos os sem-teto, agora de carne e osso. Isso é muito desagradável e agride a paz espiritual, dizem. Dar esmola dentro da igreja é fácil, emocionalmente é mais difícil contemplar em carne e osso quem a recebe.

Muito significativa foi a reação de alguns moradores ao verem o inusitado Sem-teto: chamaram a polícia para retirá-lo, mas porque pensavam que era um pobre de verdade… Esse Cristo pobre, sem elegância desafia as igrejas a buscarem sua elegância no acolhimento aos pobres, sinal autentificador da fé cristã.

Os gestos de amor, gestos de beleza

A sabedoria e a espiritualidade dos pobres imediatamente levaria a contemplar no sem-teto o Bom Jesus. Nosso povo não divaga sobre distinções entre o Cristo da fé e o Jesus da história, o Jesus de Nazaré e o Cristo do Concílio de Calcedônia. Acha essas complicações até divertidas, pois tem clareza que são dois nomes para o Bom Jesus e que são muitos os nomes de Jesus dados a partir dos locais onde foi contemplado: Iguape, Lapa, Matozinhos, ou situações que viveu: dos Passos, da Coluna, do Bom fim.

No 6 de agosto, a Liturgia celebra a Transfiguração de Nosso Senhor e o povo, junto com ela e até contraditoriamente, celebra o Bom Jesus. Se pode estabelecer um belo diálogo: a Liturgia nos revela que o Senhor encarnado é o Cristo transfigurado, e o povo ensina que o Cristo transfigurado é o Senhor encarnado, o Bom Jesus. Um está coroado de espinhos, o outro coroado de glória, em duas faces do mesmo amor por nós. O povo pobre e humilde revela todo seu carinho ao contemplar o Bom Jesus, pois sabe por experiência o que é sofrer o abandono, o desprezo.

Voltemos ao Cristo sem-teto deitado no banco da praça e façamos a pergunta verdadeira: quem estou olhando ao contemplar esse homem? Sou capaz de contemplar o Cristo sem-teto em cada morador de rua? Então poderei declarar no tribunal de minha consciência: tudo o que faço a um desses mais pequeninos, que são meus irmãos, é ao Senhor que estou fazendo (cf. Mt 25, 45). “Quem ajuda os doentes e necessitados toca a carne de Cristo, vivo e presente no meio de nós” (Twitt de Francisco em 23/07/2015).

Contemplando essa imagem, assim escreveu o compositor e biblista Pe. Ney Brasil Pereira: “Que dizer mais? Como o Evangelho nos amarra, não nos deixa escapar: perdoai-nos assim como perdoamos… Aquele mendigo era Eu, sou Eu… O que quiserdes que os outros (Deus) vos façam, fazei-o vós a eles (a Ele)…”

Para descobrirmos a beleza de Jesus em todas as periferias existenciais, nossa cátedra será o banco da praça ou a esquina da rua. Ao nos aproximarmos de um desses desconhecidos, pediremos que nos fale e, abrindo nossos ouvidos, dele escutaremos palavras belas, palavras de verdade e de vida. Então, seremos cristãos de verdade, capazes da fé.

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Cecília Besen em 27 de julho de 2015 - 22:00

    Abrindo o nosso coração para escutá-los, iremos aprender muito!

  2. #2 por juventudeitaporanga em 4 de agosto de 2015 - 08:02

    Republicou isso em Juventude de Itaporanga.

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