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A DORMIÇÃO E A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

 

A minh’alma glorifica o Senhor,
porque olhou para a humildade de sua serva (Lc 1,46-48).

Vinde de todos os confins do universo,
cantemos a bem-aventurada trasladação da Mãe de Deus!
Nas mãos do Filho ela depositou a sua alma sem pecado:
com a sua santa Dormição o mundo é vivificado;
e é com salmos, hinos e cânticos espirituais,
em companhia dos anjos e dos apóstolos,
que ele a celebra na alegria.

Oh, os teus mistérios, ó Pura!
Apareceste, ó Soberana, trono do Altíssimo
e nesse dia te transferiste da terra para o céu.
A tua glória brilha com o resplendor da graça.
Virgens, subi para o alto com a Mãe do Rei.
Ó cheia de graça, salve, o Senhor é contigo:
ele que doa ao mundo, por teu intermédio,
a grande misericórdia.

A comemoração da assunção de Maria ao céu deita raízes no século II e sua festa na Liturgia cristã é fixada no século VII, tanto na Igreja oriental como na ocidental. A festa foi fixada para o 15 de agosto e era precedida de um jejum de 15 dias, recebendo uma liturgia solene, devota e bela, como convinha à Mãe de Deus. Não se economizavam as palavras para o louvor daquela que deu carne ao Filho de Deus.

Tudo o que Deus, desde a eternidade, planejara para o ser humano, pôde realizá-lo em Maria.  Eva, a primeira mulher, optou pelo não à amizade divina e Maria, a nova mulher, disse sim. E nela foi plena a graça de Deus. Bendita entre as mulheres, não conheceu o pecado. Diante do Anjo, aceitou ser serva da vontade divina. E nela o Filho de Deus se fez carne para habitar entre nós.

Maria conservou íntegro o ser imagem e semelhança de Deus. Livre do pecado original foi também livre de suas consequências. Permaneceu virgem e, como virgem, concebeu e deu à luz um filho, o Messias. Nossa fé afirma que Maria, a Mãe do Messias-Cristo, é uma virgem, uma mulher na condição de quem “não conheceu homem”, não se uniu a homem algum: sua maternidade de Jesus procede da sua virgindade. Eis o paradoxo, o extraordinário, o miraculoso do nascimento de Jesus. Este paradoxo quer significar que somente Deus nos podia dar um homem como ele: Jesus não nasceu “do sangue e carne, nem da vontade do homem”, e isso é afirmado pelos evangelhos através da virgindade de Maria, tornada mãe pela potência do Espírito Santo.

São numerosos os lugares dedicados a Maria: santuários e igrejas dedicados a Maria no campo e na cidade, nos montes e nas ilhas menores e solitárias. Nesses locais, quantas orações, quantos cantos elevados a ela. A essa mulher, pintada ou esculpida, um número incalculável de pessoas olhou e olha como se olha a Mãe. Na sua desolação, em suas angústias e em seu pranto, pedem o impossível confiando que ela possa escutá-los, ter misericórdia, porque nela sentem a Mãe: “mostra-te Mãe”, invocam. Quantas vezes temos em nossas igrejas a imagem da “Pietà”, Maria que segura em seus braços o filho morto: diante dessa imagem, quantas mulheres choraram e choram o filho morto; quantos fiéis suplicam para serem acolhidos, ao final de sua vida, em seus braços maternos, braços de Maria mãe! Maria está inseparavelmente inserida no mistério do Verbo encarnado e, dirigindo-se à Mãe de Deus, sabemos estar nos dirigindo àquela que intercede junto a seu Filho.

O ano litúrgico do Oriente tem início com a festa de 8 de setembro, quando celebra o nascimento de Maria, e termina com a festa de 15 de agosto, festa da Dormição de Maria e sua Assunção ao céu.

A liturgia realça Maria como mãe do Verbo encarnado e poderosa intercessora. Há uma estreita relação entre Cristo e Maria, entre o dom feito por ela e a fonte de onde jorra o próprio Cristo: “Infunde paz em minha alma, ó Virgem, com a paz serena de teu Filho e Deus. Cura-me, ó Mãe de Deus, tu que és bondade e deste à luz o Bom”. “Tu que geraste o timoneiro, o Senhor, aplaca o tumulto das minhas paixões e as violentas ondas de minhas quedas”, rezamos no Ofício da Assunção.

Assunção de Maria ao céu

Virgem de Vladimir, século XII

Todo filho oferece o melhor possível à sua mãe. Jesus, o todo-poderoso, nada negaria à Mãe, Maria. Não permitiria que o corpo de Maria sofresse a corrupção, pois seu corpo santo e puro não poderia sofrer as consequências do pecado, de que foi livre por graça divina, pela sua imaculada conceição.

O amor a Maria, os hinos em seu louvor são entoados em toda a história da Igreja: os Santos Padres, os teólogos, os monges, papas e bispos, nenhum poupou o agradecimento a Deus por nos ter dado tão santa Mãe. Orações, cantos e ladainhas testemunham essa devoção e afeto.

A piedade popular narra que todos os Apóstolos, espalhados pelo mundo, foram chamados e transportados pelos anjos até Jerusalém para se despedirem da Mãe. Ela terminou sua jornada na terra contemplada pelos amigos dela e de seu Filho. Foi sepultada no Getsêmani, mas, seu santo corpo não permaneceu no túmulo. O Filho a transportou para a glória celeste, onde reina com o Pai, e é a intercessora dos homens e mulheres, mãe vigilante de toda a história humana.

A Igreja manteve a fé na divina assunção de Maria ao céu e, coroando o caminho de devoção à Mãe do Senhor, no dia 1º de novembro de 1950 o Papa Pio XII, após consultar o episcopado e os teólogos, proclamou o dogma da Assunção com a Constituição apostólica Munificentissimus Deus. Após percorrer pela história da teologia e a fé mariana do povo cristão, definiu:

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

A assunção de Maria ao céu é um sinal das coisas últimas. Em Maria nos é dada uma antecipação da glorificação de todo o universo que acontecerá no final dos tempos, quando Deus será “tudo em todos”, “tudo em toda coisa”. A dormição-assunção antecipa a parusia, e prepara nosso destino comum. A gloriosa Mãe de Deus é nossa mãe, em seu regaço guarda todos os filhos. Cheios de amor e gratidão sabemos que por mais que falemos de Maria, nunca falaremos o suficiente, nunca falaremos demais. Ao invocarmos sua proteção sabemos que nossas preces se dirigem àquela que está junto do Filho: ela é a intercessora celeste, junto do Deus Trindade.


Pe. José Artulino Besen

 

Obs.: a Festa é fixada para o dia 15 de agosto. No Brasil, onde não há o feriado, é no domingo seguinte e, neste ano de 2018, no dia 19 de agosto.

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ZACARIAS E MARIA, JOÃO BATISTA E JESUS

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Maria visita Isabel – afresco românico catalão

No tempo de Advento e de Natal a Palavra proclamada na Liturgia nos apresenta João Batista, o último profeta da Antiga Aliança, e Jesus, aquele que contém em si a Nova Aliança. Dois homens dos quais o evangelista Lucas afirma o parentesco e o encontro: João filho de Isabel, a estéril, Jesus filho de Maria, a virgem de Nazaré. Ainda no ventre de suas mães, os dois se encontram e acontece um pentecostes: João salta de alegria no ventre de sua mãe e Jesus leva Maria a prorromper no canto do Magnificat-A minh’alma engrandece o Senhor, o hino dos humildes (cfr. Lc 1,39-56). Maria, a Mãe do Redentor correu a ajudar Isabel: a presença de Jesus em seu seio arrebata ao serviço, pois o encontro com Jesus torna extrovertida nossa vida introvertida e nos conduz ao próximo.

João Batista é o profeta que fala no deserto, preparando os caminhos do Senhor. Jesus é o Senhor e Mestre que no silêncio e na humildade anuncia o Reino. Muito significativos os anúncios feitos pelo arcanjo Gabriel sobre o nascimento dos dois: o anjo anuncia a Zacarias (Lc 1,5-25) e a Maria (Lc 1,26-38). O papa Bento XVI, em seu terceiro volume sobre Jesus intitulado “A infância de Jesus” propõe um belo confronto: de um lado o Sacerdote, o Templo, a liturgia; de outro lado, uma jovem desconhecida, uma pequena cidade, uma casa particular.

O Antigo Testamento leva à solenidade litúrgica do incenso oferecido no Templo de Jerusalém e o Novo Testamento conduz à simplicidade, ao silêncio, ao grão de trigo lançado ao solo. Zacarias simboliza o poder sacerdotal, Maria é o símbolo do não-poder, do serviço humilde. Gabriel dirige-se ao Templo para o anúncio a Zacarias e dirige-se à humilde casa de Nazaré para o anúncio a Maria.

A liturgia do Templo revela o poder da classe sacerdotal; a liturgia da Nova Aliança transforma a liturgia em serviço, em pequenez, onde os poderosos são derrubados, os humildes são elevados. Mas, existe uma unidade intrínseca entre Zacarias e Isabel e Maria: a vida nasce da impossibilidade humana: um casal idoso, estéril, uma virgem que não conhece homem. Deus irrompe na história fazendo brotar a vida nova que é graça e que produz, em quem a aceita, a fecundidade de gerar novas vidas através do serviço aos pobres. A Bíblia narra diversos nascimentos inexplicáveis aos olhos humanos mas que revelam o poder do Deus da vida.

Ao ouvir o anjo, Zacarias duvida, pede uma prova, a certeza de que gerará um filho. Ao ouvir o anjo, Maria pergunta como Deus agirá e logo entra no plano divino, sem medir conseqüências nem pedir provas: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Por ter duvidado, Zacarias ficou mudo até o nascimento de João e Maria foi às montanhas da Judéia servir a Isabel. Ao nascer-lhe o filho, Zacarias prorrompe no hino Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que a seu povo visitou e libertou.

João Batista torna-se profeta de renome, respeitado pelas autoridades, por Herodes, cria um movimento religioso conhecido como dos batistas. E Jesus, o pobrezinho, durante 30 anos mergulha na insignificância de Nazaré, no silêncio da oficina de José e da casa de Maria. Quando fala, riem dele: “Não é esse o filho do carpinteiro?”. Ele, porém, não se impressiona: é o poderoso, o todo-poderoso, mas detém um poder que é amor, acolhida, reconciliação. Humildes e importantes vão ao deserto ouvir João. A Jesus procuram os doentes, aleijados, os famintos, os pecadores, gente sem eira nem beira. Somente quem dá o passo do silêncio, da oferta da vida é capaz de reconhecer quem é Jesus.

Jesus apresenta João como o maior entre os nascidos de mulher; João apresenta Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. João anuncia a salvação, Jesus é a Salvação. O nome “João” significa Deus tem compaixão; o nome “Jesus” quer dizer Deus salva. Ambos nos oferecem o caminho da reconciliação com Deus e nos fazem ouvir o canto dos anjos a anunciar “glória a Deus e paz na terra”. Um encaminha, o outro é a luz sem ocaso.

Pe. José Artulino Besen

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O QUE CRÊEM E VIVEM OS CATÓLICOS

Pedro e Paulo, carisma e instituição – colunas da Igreja de Cristo em Roma

No diálogo ecumênico é fundamental que cada um conheça e viva a fé de sua Igreja ou comunidade religiosa. O diálogo não visa a supressão de artigos da fé, mas sim, cada um se enriquecer a partir do conhecimento do outro. Nasce uma espiritualidade de comunhão, de respeito pela seriedade do outro. “Nós cremos de um modo diverso, mas o que nos une é muito mais forte do que nossas diferenças”.

O diálogo enriquece quem dialoga; se empobrece é dominação, não diálogo.

Quando me perguntaram “o que é ser católico romano?”, resolvi expressar a resposta nesta síntese, ponto de partida para um aprofundamento do tema.

 1 – Origem e desenvolvimento histórico

A Igreja nasce do lado direito do Cristo, donde escorrem Sangue (Eucaristia) e Água (Batismo) – Centro Aletti.

A Igreja nasce do lado direito de Cristo crucificado, donde correm Sangue e Água, o Batismo e a Eucaristia. Gerada aos pés da cruz, se expande pela missão do Espírito Santo no dia de Pentecostes. É o Povo de Deus e o Corpo Místico de Cristo.

O Catolicismo romano, que identifica a Igreja católica apostólica romana, se entende em continuidade com a primitiva comunidade de Jerusalém, desenvolvida pela missão apostólica e tendo como centro a cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo receberam a palma do martírio e estão sepultados.

O Espírito Santo desperta a fé no Senhor ressuscitado e anima a missão cristã.

Com a “reviravolta constantiniana” de 313, quando o imperador romano Constantino concedeu liberdade aos cristãos e pouco a pouco fez do Cristianismo a religião oficial do Império, a Igreja adquiriu uma fisionomia própria, de caráter organizacional e visível à imagem do Império. Quando a sede do Império foi transferida de Roma para Bizâncio/Constantinopla, em 322, esta cidade assumiu o título de Nova Roma e a Igreja católica romana passou a acentuar duas fisionomias bem definidas: a ocidental católica romana e a oriental, católica ortodoxa. Os dois Patriarcados (Roma e Constantinopla) desenvolveram eclesiologias diferentes: a católica romana centralizada na pessoa do Bispo de Roma, o Papa, e a católica oriental, sinodal (o que se refere à Igreja diocesana nela se decide; a comunhão entre as Igrejas não permite a autoridade de uma sobre outra).

Com as invasões bárbaras dos séculos IV-V e a queda de Roma, o Bispo de Roma e os bispos espalhados pela antiga estrutura geográfica e política do Império ocidental tiveram de assumir o processo de reorganização civil e de proteção aos mais fracos, o que fez com que, além da missão religiosa, assumissem funções administrativas e retomassem a evangelização, pois os bárbaros eram em sua maioria pagãos, ou cristãos arianos. Neste trabalho missionário manifestou-se o perigo, depois real, do sincretismo: o cristianismo católico recebeu fortes influências das culturas germânicas e anglo-saxônicas.

Abandonada pelo Imperador, Roma ficou sob a responsabilidade de seu Bispo, o Papa, que passou a governar um território, os Estados Pontifícios, que terminaram em 1870.

A Santa Sé – além de Pastor da Igreja universal, o Papa é chefe do Estado do Vaticano, incrustado na cidade de Roma, com o território atual (de 49 hectares) definido em 1929 e reconhecido pela comunidade internacional. A origem dos Estados Pontifícios (anexados à Itália em 1870) está ligada às doações do rei franco Pepino o Breve e seus sucessores a partir do século VIII. O Vaticano é reconhecido e mantém relações diplomáticas com 180 países e é membro-observador da ONU. Mesmo com o título de Chefe de Estado, o Papa não exerce mais funções administrativas.

2 – Ênfases teológicas centrais

O conteúdo da Fé católica

1)  Crê como divinamente revelada e inspirada a Sagrada Escritura composta de 73 Livros do Antigo e Novo Testamentos, neles incluídos os Deuterocanônicos, isto é, os Livros do AT escritos em grego.

2)  Professa um só Deus em três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

3)  Professa que o Filho, Jesus Cristo, na plenitude dos tempos se encarnou na Virgem Maria e é Deus e Homem verdadeiro.

4)  Professa a Fé definida no Credo apostólico e no Niceno-constantinopolitano (proclamados em cada Liturgia dominical e festiva).

5)  Crê que a Tradição expressa a fidelidade ao conteúdo da Escritura através das decisões dogmáticas dos Concílios Ecumênicos (os sete primeiros, da Igreja Una) e Gerais do Ocidente.

6)  Aceita um Magistério (da Igreja local e da Igreja universal) como garantes da reta compreensão do texto revelado e que, nas decisões dogmáticas, possui a assistência que o Senhor prometeu à Igreja através do Espírito Santo.

7)  A Igreja católica romana crê como divinamente revelados Sete Sacramentos: o Batismo e a Eucaristia/Ceia/Missa criados diretamente pelo Senhor e constitutivos da Igreja e os outros cinco derivados de palavras ou gestos dele: Confirmação/Crisma, Penitência/Confissão, Ordem/Sacerdócio, Unção dos Enfermos e Matrimônio (A não se constatar nulidade, o Matrimônio é indissolúvel). A Celebração eucarística, constituída pela Liturgia da Palavra e Liturgia eucarística, é a Celebração do Mistério Pascal, isto é, da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa do Senhor, sob a presidência de um bispo ou presbítero.

 3 – Poder e Serviço na Igreja

Todo cristão participa do sacerdócio universal dado pelo Batismo: sacerdócio real (santificar o mundo), profético (anunciar o Evangelho) e ministerial (assumir serviços e carismas eclesiais).

Dentre os cristãos, alguns exercem o sacerdócio sacramental, hierárquico, recebido no sacramento da Ordem e constituído pelos três graus do diaconato, presbiterato e episcopado. O episcopado inclui a sucessão apostólica, pela qual o bispo é ordenado pela imposição das mãos de três outros bispos, como garantia da unidade na Igreja. A Igreja católica reconhece como bispos aqueles que foram ordenados por outro bispo com a imposição das mãos significando a comunicação da graça do Episcopado. Os presbíteros são diocesanos ou religiosos (de uma Ordem ou Congregação).

A Igreja particular (dioceses e arquidioceses) tem como pastor um bispo validamente ordenado e com mandato apostólico (jurisdição conferida pelo Papa). Para o atendimento pastoral, as dioceses se dividem em paróquias e comunidades, confiadas a um padre. Nelas se dá a vivência quotidiana da fé.

A Igreja universal se constitui pela unidade em torno do Papa, Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro (assim o Catolicismo entende o mandado do Senhor em Mateus (16, 15-19: Tu és Pedro) em união com todos os bispos, o colégio episcopal. O Papa tem jurisdição direta e imediata sobre todas as Igrejas particulares e sobre todos e cada um dos fiéis e, no exercício de seu ministério, goza pessoalmente de infalibilidade (isto é, inerrância) quando define matéria de fé e de moral e declara explicitamente que pronuncia uma sentença infalível.

Quando ocorre o falecimento de um papa, reúne-se o Conclave – assembléia na qual o novo Papa é eleito por um Colégio atualmente fixado em 120 eleitores, constituído por Cardeais com idade abaixo de 80 anos. Na verdade, o Conclave elege um novo bispo de Roma que, como tal, é o Papa, sucessor de Pedro e Paulo.

Acontecimento decisivo na vida católica do século XX foi o Concílio do Vaticano II (1962-1965), que significou um novo Pentecostes para a Igreja. Convocado e inaugurado por João XXIII (1958-1963), o “Papa Bom”, continuado por Paulo VI (1963-1978), animou a vida eclesial impulsionando a renovação litúrgica, os estudos bíblico-teológicos e o uso da Escritura. O acento colocado na Eclesiologia do Povo de Deus foi ocasião para o rejuvenescimento da participação dos cristãos-leigos na Igreja, desclericalização da pastoral e da evangelização, novo lance missionário. Igreja como comunhão a participação. Outro fruto, de alcance ainda não mensurável, foi a abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

 4 – Meios de santificação

Os sete Sacramentos

Os Sacramentais: incluem as bênçãos especiais e outras celebrações.

Culto: a Deus uno e trino unicamente se presta o culto de adoração.

Culto ao Santíssimo Sacramento: a Igreja católica afirma que o Pão consagrado, Corpo do Senhor, assim permanece mesmo após a Celebração da Eucaristia, tanto para ser levado aos doentes e idosos como para ser adorado. A adoração ao Santíssimo está intimamente ligada ao Mistério do Altar, a Eucaristia.

Culto aos Santos: chamado de “veneração”, diferente da adoração: é um respeito oferecido aos homens e mulheres que de modo mais pleno se transfiguraram em Cristo. Os santos são apresentados ao povo cristão como modelos de vida cristã e como intercessores. Entre todos os Santos sobressai a figura da Virgem Maria, de quem a Igreja católica afirma a imaculada conceição (concepção sem pecado), a maternidade divina, a virgindade perpétua e a assunção ao céus em corpo e alma.

Como não mais se vive numa cultura onde a imagem se identifica com ídolo (como acontecia nos tempos bíblicos), a Igreja católica aceita que os fiéis contemplem os fatos e pessoas da história da salvação, os Santos e suas vidas, através de imagens, vitrais e ícones. Também são veneradas as relíquias dos Santos.

É característica forte do catolicismo romano a oração dos vivos pelos falecidos, fruto da fé na comunhão dos Santos: há uma união misteriosa entre os vivos e os mortos, entre os que já estão na glória, os que militam na terra e os que são purificados para a posse da vida eterna (aqui se inclui a doutrina do Purgatório, fundamentada em 2Macabeus 12, 43-46). No mesmo contexto entra a doutrina das Indulgências – aplicação aos mortos das boas obras dos vivos e que deram ocasião a abusos, superstições e corrupção religiosa, contribuindo como causa imediata da Reforma protestante do século XVI.

4 – Práticas sócio-eclesiais características.

Para a santificação de seus membros, além da Palavra e dos Sacramentos, que são essenciais e levam à vida transformada pelo Amor e pela oração, a Igreja católica faculta:

Vida religiosa consagrada contemplativa e ativa: a partir do século III surgiu a vida monacal (eremitas e cenobitas) e, mais tarde, as Ordens e Congregações religiosas. Os contemplativos (como monges e monjas beneditinos, cistercienses, trapistas, carmelitas, eremitas camaldulenses, servitas, clarissas) que se retiram para a experiência da vida cenobítica (vida em comum) onde fazem a experiência da oração e do trabalho comunitário. Seu ministério é o da intercessão pela Igreja e pelo mundo. As Ordens e Congregações de vida ativa, masculinas e femininas (jesuítas, salesianos, franciscanos, capuchinhos, …), destinam-se à vida comunitária e ao trabalho evangélico junto às paróquias, aos pobres, órfãos, idosos, doentes, presidiários, missões e escolas.

Movimentos de espiritualidade leiga – Apostolado da Oração, Legião de Maria, Opus Dei, Focolarinos, Movimento Familiar Cristão, Ordem Franciscana Secular, Equipes de Nossa Senhora, Neocatecumenato, Schönstadt…, são característicos do Catolicismo romano e se orientam para a santificação conjugal, familiar, comunitária, pessoal. No século XX surgiu a Renovação Carismática católica, ou Renovação no Espírito, que tem atraído verdadeiras multidões: caracteriza-se pelo cultivo dos dons e frutos do Espírito Santo, assumindo uma veste forte de alegria, espontaneidade, celebrações vibrantes, impulso evangelizador.

Peregrinações – constitutivas de todas as religiões, as peregrinações significam o deslocamento penitencial e devocional a locais marcados pela história bíblica (a Terra Santa) ou pela presença de santos ou manifestações extraordinárias da graça divina (Roma, Cantuária, Compostela, Guadalupe, Lourdes, Fátima, Aparecida, estes últimos locais de devoção mariana). Não são isentas do aspecto lúdico, turístico e até comercial.

Devoções – fazem parte da vida religiosa pessoal. Podem ser a consagração dos meses de maio e outubro à Virgem Maria, a visita a igrejas significativas para sua vida, o culto a determinado santo ou a suas relíquias, a recitação do Rosário (durante o qual se meditam os mistérios da encarnação, paixão e glória do Senhor) e muitos outros modos. Podem ser ambíguas: levar a uma vida iluminada pela Palavra ou se deter em aspectos visíveis, emotivos e até supersticiosos.

 5 – Cisões e correntes

Já nos tempos do Novo Testamento surgiram divisões na comunidade cristã. Isso é compreensível, pois ainda não estava definida a doutrina e o mundo greco-romano era rico em correntes de pensamento. Grande ameaça à unidade foi o Gnosticismo, que identificava a fé com o conhecimento. No século V, surgiu a Igreja nestoriana (que nega a Maria o título de Mãe de Deus) e a monofisita, que não aceitou a definição do Concílio de Calcedônia (451) que definiu em Cristo uma pessoa divina e duas naturezas, divina e humana. Hoje se tem claro que essas divisões foram fruto mais da dificuldade lingüística de distinguir entre pessoa e natureza, do que problemas dogmáticos.

Duas grandes rupturas, porém, marcaram a história do cristianismo e da Igreja católica romana em particular: o Cisma grego de 1054 (entre a Igreja católica romana e a católica ortodoxa oriental) e as Reformas a partir de 1517, a que seguiu-se a organização das Igrejas evangélica, anglicana e reformada (calvinista). A Igreja católica romana inclui as Igrejas do ocidente romano, latino e as Igrejas católicas orientais que permaneceram unidas ou retornaram à comunhão com Roma, as “uniatas”.

Pelo Censo da Igreja católica romana de 2011, há um bilhão e 200 milhões de fiéis católicos.

 6 – Convicção e respeito

Às vezes se faz a pergunta: quem é católico se salva? Quem é protestante se salva? Essa pergunta nós não podemos responder, pois a salvação é dom, graça de Deus. Nós, católicos, podemos dizer: “Eu posso responder apenas isso: se vivo a minha fé na comunidade, com a consciência iluminada pelo Espírito, se vivo o Mandamento do Amor, se creio que Jesus é meu Senhor e Salvador, Deus Pai me dará a salvação”.

Pe. José Artulino Besen

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MARIA, MÃE DE DEUS E NOSSA, NA FÉ CRISTÃ

Maria com o Menino - Mosteiro de São Bento de Aniane - França - século IX

Tudo o que se afirma de Maria tem como causa única Jesus Cristo, nela encarnado por obra do Espírito Santo. As afirmações da fé cristã sobre Maria não são invenções da piedade cristã, mas conseqüência do mistério da Encarnação, donde elas brotam. Seu início é a resposta dada ao Arcanjo Gabriel “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38) e, depois, se prolonga nas Bodas de Caná, “Façam tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Maria acolhe a salvação pela obediência, pela fidelidade e pelo contínuo indicar onde está o Caminho. Nosso amor por ela segue o mesmo espírito.

Podemos dizer que, em Maria, repousou por nove meses todo o projeto divino em relação à humanidade: é a Arca da Aliança, a Escada, a Porta do Céu. Dando carne e sangue ao Filho eterno de Deus, ela uniu indissoluvelmente as naturezas humana e a divina no Cristo Senhor. Maria é o mais belo hino de ação de graças que a criação consegue oferecer a Deus: nela, humilde criatura, se oculta o mistério trinitário do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Se os textos dos Evangelhos nos descrevem, talvez, menos de três anos da vida do Senhor, Maria contemplou-o mais de 30 anos, desde o berço até a Ascensão. Abraçando-o com ternura, seu coração pulsava no ritmo do coração do Filho. O que para nós é graça que vem da fé, para Maria foi contemplação real. Seu coração guardou cada passo do Homem-Deus, a infância, a adolescência, o ingresso na vida adulta, os gestos e as palavras. É divino mistério o mistério de sua vida em Nazaré, nas festas em Jerusalém, nas visitas aos povoados à beira do lago de Tiberíades. A humilde serva do Senhor contemplou com os olhos e o coração a ação de Deus Pai em seu Filho. A casa de Maria e José era a Casa de Deus.

Os dogmas marianos

A palavra dogma significa conteúdo de fé, mas não expressa toda a realidade, pois os mistérios são insondáveis: quanto mais conhecemos, mais falta conhecer. A verdade é uma fonte que nunca se esgota: quanto mais bebemos, mais aumenta a sede e maior é a água que dela jorra. Não é porque a Igreja formula um dogma que ele expressa a verdade e sim, porque é verdade, a Igreja o proclama como dogma de fé. Podemos dizer que o dogma afirma o máximo que a inteligência e a fé humanas, iluminadas pelo Espírito Santo, podem dizer a respeito de uma verdade e, ao mesmo tempo, expressa o mínimo que se deve afirmar.

Com essa introdução queremos falar dos quatro dogmas marianos: sua Imaculada Conceição, a Maternidade divina de Maria, a Virgindade perpétua e sua Assunção ao céu.

Imaculada conceição de Maria: a primeira Eva, no Paraíso, foi criada sem pecado, mas não resistiu à tentação e rejeitou a Deus. Maria é a Nova Eva, com ela Deus restaura a criação por obra de seu Filho Jesus. Em previsão de sua Maternidade divina, quis Deus que Maria fosse preservada do pecado desde o ventre de sua mãe, Ana. E Maria respondeu a essa graça nunca pecando, sendo a vontade de Deus a sua vontade, como respondeu ao Arcanjo Gabriel, na Anunciação. O mais importante não é que Maria tenha nascido sem pecado, mas que tenha vivido sem pecado, razão pela qual o Anjo a chama de “cheia de Graça”.

Maternidade divina de Maria: Maria recebe o título de Mãe de Deus porque o Filho eterno de Deus dela recebeu a natureza humana. Jesus é Deus e Homem verdadeiro, não se podendo separar a divindade da humanidade. Por isso, cabe a Maria o título de Mãe de Deus. Negando-lhe esse título, estaríamos negando a divindade de Jesus, o Filho de Deus, ou o estaríamos dividindo em duas partes, uma divina e outra, humana.

Virgindade perpétua de Maria: ao contemplarmos o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e tantos outros, percebemos na imagem de Maria três estrelas: uma na fronte e uma em cada ombro. Com esse símbolo a Igreja afirma que Maria é Virgem antes, durante e depois do parto. Maria não concebe de José, mas por obra do Espírito. O significado mais profundo desse dogma é que Maria teve o coração unido a Deus, sem divisões. Seu amor foi virgem na fidelidade contínua e perpétua a Deus nosso Senhor. Nenhuma infidelidade ao amor divino tocou seu coração imaculado.

Assunção de Maria aos céus: terminados os dias de sua vida terrena, Maria foi levada (assunta) aos céus. Aquela que foi preservada do pecado, sempre virgem, Mãe de Deus, teve o privilégio de ser glorificada após a vida terrena. Seu corpo, do qual se formou a natureza humana de Cristo, ficou incorruptível e logo foi transfigurado na glória da Santíssima Trindade.

Maria, nosso caminho de fé

Os dogmas são alimento de espiritualidade, e não afirmações para nosso deleite intelectual. Eles agem em nossa vida cristã.

Os dogmas marianos propõem-nos um caminho mariano: o que Deus realizou em sua pobre serva, realizará também em nós, pobres servos. Tudo por graça.

Imaculados pelo batismo – Nós nascemos no pecado, mas, pelo batismo, nos tornamos imaculados, recriados pela graça divina. Quando pecamos, peçamos logo o perdão e nosso coração se torna imaculado. Através da Eucaristia somos continuamente divinizados pelo alimento divino recebido.

Construir a maternidade – Nossa natureza humana foi santificada na natureza humana de Jesus. Por isso é sagrada. Na glória eterna da Santíssima Trindade estamos incluídos na natureza glorificada do Senhor. Na Eucaristia recebemos o Cristo Deus e Homem. Maria gerou o Senhor. Nossa vida, nossa palavra e testemunho podem gerar filhos para Deus, reconciliar os que estão dispersos: temos a graça de ser pai/mãe de novos filhos de Deus.

Virgindade renovada – Deus é fiel a nós, sempre, e nós somos infiéis a seu amor. Estamos divididos pelo pecado, pela fragilidade, pela tentação, por falsos amores, pelo medo da morte. Busquemos a virgindade espiritual, a fidelidade contínua ao Senhor. Pelo Batismo, pelo perdão e pela Eucaristia Deus nos oferece também o dom da virgindade. A cada dia podemos readquiri-la. Mesmo prostituídos, a graça recupera nossa virgindade, tira de nosso coração as divisões.

Nossa assunção aos céus – Maria foi a primeira criatura glorificada em corpo e alma. Igualmente, nós temos a graça de podermos ser glorificados no céu, junto de Deus. Deus nos dará um novo corpo, transfigurado, pois nossa primeira natureza retorna ao pó. Desejemos ardentemente o encontro final com Deus. E Maria intercede continuamente por nós para que sejamos de Deus. Como as primeiras comunidades, peçamos sempre: Vem, Senhor Jesus!

Pe. José Artulino Besen

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NÓS PRECISAMOS DO AMOR DE DEUS

Daniel Lifschitz – «O Pobre»

Caríssimos, se Deus assim nos amou,
também nós nos devemos amar uns aos outros (1Jo 4,11)

O apóstolo João fora viver em Éfeso, levando consigo Maria, a mãe de Jesus. Uma tradição conta que ela morrera, tendo sido ali sepultada mas, em seguida foi glorificada no céu em corpo e alma. Outra tradição, talvez melhor fundamentada, afirma que ela retornou a Jerusalém e ali recebeu o prêmio eterno.

Velhinho, João não se cansava de repetir os ensinamentos do Mestre, de quem tinha sido o discípulo predileto. Desde a adolescência acompanhara o Senhor e na velhice compreendia sempre melhor que o centro da mensagem dele tinha sido o amor. É da tradição que o velhinho João, quase não mais conseguindo falar, repetia o tempo todo: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros”.

Chama a atenção seu ensinamento: Caríssimos, se Deus assim nos amou, também nós nos devemos amar uns aos outros (1Jo 4,11). A ordem lógica seria: “Se Deus nos amou tanto, devemos amá-lo também”. Mas não: para São João, a resposta ao amor de Deus é o amor ao próximo. Deus é Amor, portanto não sente necessidade de ser amado. Ele quer, isso sim, que nós nos deixemos amar por ele, e só! Porque, sem seu amor, somos incapazes de amar e de viver.

Amor e vida são inseparáveis. O primeiro amor é voltado para nós mesmos. Diz a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mc 12,31). Quem não se ama, não ama. Quem não se aceita, não aceita os outros. Quem só vê defeito em si, acaba vendo nos outros apenas defeitos. Quem não crê em si, não crê nos outros. Quem não aceita o próprio corpo, se acha feio, não vê beleza nos amigos. As pessoas que não se amam são pessimistas: enxergam tudo pelo lado negativo. A jovem que não se ama reclama que não acha namorado. Mas, como um jovem vai gostar dela, se nem ela se suporta!?

Quanta gente definha na vida por não se amar! Arruína a sua existência, faz os outros sofrerem, perde a beleza interior e exterior, porque não se sente amada, valorizada. É um tesouro e julga ser um lixo. Não consegue amar e, por essa razão, não é amada. Pior ainda: quem não se ama, não percebe que os outros a amam e rejeita qualquer amor. Torna-se uma companhia chata, desmancha prazeres, solitária e doente. Dizem que 70% das doenças têm origem em nossa mente, nas mágoas que acumulamos, no sentimento de sermos inúteis, incompetentes, feios.

Os que se amam são seguros, otimistas, alegres, semeiam alegria, coragem. São como o mel que atrai as abelhas: onde elas estão mais gente quer se reunir. A mãe que se ama tem filhos felizes, seguros de si. O jovem que se valoriza não sente solidão. O idoso que se ama vive feliz no seu silêncio, na sabedoria que a vida lhe deu.

Para evitar esses males, o desperdício da vida, Deus quer nos comunicar seu amor. Quando o aceitamos, sentimos a beleza que nós somos, nosso próprio valor e tornamo-nos capazes de amar os outros e por eles ser amados.

Posso ter uma imagem negativa de mim, se Deus nada poupa para me amar?

Como posso não me valorizar se Deus me chama de filho?

Pe. José Artulino Besen

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DUAS MULHERES, DOIS CAMINHOS

"Arbe de vie et mort" - de um manuscrito alemão medieval datado aproximadamente de 1481 e autoria de Berthold Furtmeyr. Nele vemos a Árvore da Vida e da Morte. A Virgem e Eva encontram-se em lados opostos à árvore e, nas folhas acima de Maria, um crucifixo e acima de Eva, um crânio que simboliza a morte. A serpente está enrolada em volta do tronco da árvore. Tem aparência elegante e, ao mesmo tempo, sinistra.

«Eis aqui a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).

Com sua decisão, duas mulheres marcaram o destino da humanidade: Eva e Maria. Duas mulheres, dois caminhos. Sua decisão continua a ser proposta ao ser humano no momento de definir seu destino pessoal.

Uma, Eva, foi criada sem pecado. Outra, Maria, concebida sem pecado. A primeira simbolizou o sonho do Criador para seus filhos. A segunda, recuperou este sonho. Ambas foram colocadas diante de Deus. Eva respondeu: Eu quero ser como Deus! (cf. Gn 1,1-6). E Maria: Eis aqui a serva do Senhor! (cf. Lc 1,26-31) A primeira inaugurou a história da morte. A segunda, recuperou a história da vida.

O caminho que Eva escolheu trouxe a morte, o fratricídio, as divisões, a guerra, a fome. O caminho de Maria conduz à vida, à santidade, à fraternidade, à união, à paz, à alegria.

Eva caiu na ilusão de que a criatura pode viver sem o Criador. Maria descobriu que somente em Deus podemos ser verdadeiramente humanos.

Querendo ser como Deus para nunca morrer, Eva trouxe a morte.

Querendo servir a Deus para viver em Deus, Maria venceu a morte.

A história dessas duas mulheres é exemplar para todos. A cada dia também nós somos colocados diante de Deus para darmos nossa resposta pessoal ao encaminhamento que daremos à nossa existência. Às vezes criticamos Eva por seu egoísmo, e nos esquecemos que com freqüência fazemos a mesma coisa: também queremos ser como Deus, viver como se Deus não existisse.

Não podemos prosseguir sem essa resposta, nem há uma terceira resposta possível. Podemos responder eu quero viver como se eu fosse Deus, ou sou servo do Senhor, luz do meu caminho. Está à nossa frente a história de Eva e a história de Maria. A morte ou a vida. A guerra ou a paz. A esperança ou o desespero. Luz ou trevas. A história de Adão e Eva ou a história de Maria e de Jesus.

Nem sempre damos esta resposta conscientemente, mas nossas atitudes são indicativas. Ou nosso estilo de vida a revela nossas opções fundamentais.

Cada pessoa vive do jeito que gosta, mas depois reclama dos efeitos de seu gosto. Há daqueles cuja vida é uma sucessão de tristezas, vinganças, intrigas, egoísmo. E caem na depressão, não vendo mais gosto na vida. Parece-lhes que todos os caminhos estão fechados quando, na verdade, eles os fecharam.

Há casais que se dão o direito das discussões gratuitas, das palavras ofensivas, e depois lamentam dolorosamente a separação não esperada, mas preparada ao longo do tempo.

Uma vida sem Deus é uma vida nas trevas, pois Deus é luz. Inicialmente pode-se ter a ilusão do bem-estar, como o dependente de alguma droga: tudo parece claro, tudo traz prazer. Depois, porém, vem a angústia, a destruição da personalidade, a morte.

Há aqueles que encontraram a paz. Não ficaram livres dos problemas que são vistos como desafios e não como destruição da felicidade. Deus é sempre a luz no seu caminho. E conseguem ser luz para quem cruza seu caminho.

Essas duas mulheres, Eva e Maria, estarão colocadas diante de cada ser humano até o fim dos tempos. Suas respostas serão as duas únicas possíveis para a história humana, que não poderá mais dizer como Eva: A serpente me enganou!, pois já lhes conhece os frutos. Eva era inexperiente, não conhecia a história da morte, o que não é o nosso caso após o Filho de Deus ter-nos revelado o Caminho, a Verdade e a Vida.

No 8 de dezembro a Liturgia celebra a Imaculada Conceição, a concebida sem pecado. E celebra, de modo intenso, aquela que foi concebida sem pecado, mas livremente escolheu nunca pecar. Sua vida foi SIM a Deus.

Com Maria de Nazaré, façamos nossa escolha pela vida plena: a escolha por Deus.

Pe. José Artulino Besen

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NATAL – ENCARNAÇÃO E GEOGRAFIA

Natal (Antonio Poteiro)

A Revelação bíblica é transmitida num território que, mesmo invadido por diversos povos e culturas, se renovava pela tradição religiosa e cultural. Para o povo de Israel, a fé, a terra e tradições formavam um conjunto indivisível. Quando exilados na Babilônia, os judeus cantavam, escondidos, os cantos de Sião. Alguns que puderam ouvi-los pediam-lhes que cantassem esses cantos. A resposta: “Como cantar os cânticos do Senhor em terra estrangeira? Se eu te esquecer, Jerusalém, fique paralisada a minha mão direita… (cf. Sl 136, 3-6). A Babilônia não era a terra dos cantares divinos.

A Palavra de Deus se fez carne – natureza humana – num lugar determinado, Nazaré, em uma jovem judia, Maria. O Filho de Deus assumiu a condição humana em tudo, menos o pecado: o chão, a história, a cultura. Toda a vida de Jesus se desenvolveu na normalidade cultural dos pequenos povoados da Palestina: viveu a língua aramaica, as peregrinações festivas, o pastoreio, o cultivo da terra, a pescaria. O lago de Genesaré/Tiberíades e as localidades circunvizinhas revelam como Jesus viveu, o sentido do que falou, os problemas enfrentados. Jesus não foi um ser estranho a seu meio.

Após a ressurreição do Senhor, a missão cristã difundiu-se por toda a terra, em cada território assumindo características próprias. O Cristianismo, especialmente com a missão universalizante de Paulo, assumiu o árduo trabalho da inculturação do Evangelho, trabalho que prossegue em nossos dias. Paulo não se dirige às Igrejas em geral, mas à Igreja que está em Colossos, Filipos, Galácia, Roma… Cada uma vive uma realidade específica e cuja manifestação mística é a Eucaristia..

A fé cristã inculturou-se no mundo romano, grego, sírio, armeno, árabe, indu, depois eslavo, anglo-saxão, germânico aonde iam os missionários. A teologia foi o fruto desse trabalho, com sua função de expressar a Palavra encarnada em Israel e agora vivenciada em outras terras.

A Liturgia, que é a expressão orante da fé, conheceu riquíssima variedade: cada povo tinha seu rito, orações eucarísticas e santos. A Europa antiga e medieval elaborou as Liturgias romana, galicana, galofranca, anglicana, ambrosiana, mosarábica, visigótica etc.. Com a idéia de Império (século VIII-IX), que incluiu a uniformização dos ritos cristãos, perdeu-se essa variedade em favor do rito e santoral romano, tornados praticamente únicos. Em Toledo pode-se ainda usar o rito visigótico, em Milão o ambrosiano, na Índia o siro-malabar e quase se fica nisso, predominando o rito romano.

Como contrapeso, nas Igrejas orientais foi conservada a diversidade brotada do solo e da cultura. Elas testemunham o antiqüíssimo esforço cristão de falar em chãos históricos. Ligando a fé ao chão, sobrevivem a séculos de dominação persa, árabe, turca.

Eucaristia e território

A Encarnação de Jesus supõe, sempre, a encarnação num território: ela se faz visível no povo, na comunidade, na Igreja diocesana. Esta, a diocese, era representada pela comunidade com bispo, presbíteros e diáconos. Com a penetração da fé católica no mundo rural e com o aumento territorial das dioceses, criou-se uma outra unidade pastoral, a paróquia. Essa instituição foi a tal ponto funcional que, hoje, o católico se define pela paróquia onde vive.

Paróquia, de etimologia grega, significa casa no estrangeiro, viver entre estrangeiros e por isso mesmo, grupo de pessoas com interesses comuns, e evoca intimidade de um ninho, lar, proteção. Somos estrangeiros buscando a morada definitiva. Enquanto isso, nossa casa é plantada no mundo, num território determinado onde a Palavra se faz carne e habita entre nós. Constituindo unidade menor, a paróquia com suas comunidades representam um chão de cultura, vizinhança, costumes e solidariedades.

A encarnação supõe a geografia, pois Cristo assumiu uma geografia. A Eucaristia, centro da paróquia, santifica o chão onde é celebrada e o oferece ao Pai que o devolve transfigurado. Na Apresentação das Oferendas, o Presidente bendiz a Deus pelo “fruto da terra”: a expressão provém da Mishná judaica e significa “desta nossa terra”, e do “trabalho do homem” (inclui-se o produzir frutos do Evangelho nessa terra).

Peregrinar de paróquia em paróquia pode significar optar por ser estrangeiro desencarnado, sem a intimidade de um ninho, um lar. Em nossos tempos, grupos e pessoas tendem a se desenraizar da paróquia, separando o chão onde vivem do lugar onde celebram. É mais fácil, pois livra da casa comum, a paróquia. Desaparece o compromisso com o chão sagrado, trocado por reuniões e encontros onde se cultiva a espiritualidade pessoal, mas sem encarnação, freqüentemente transformada em clubismo religioso.

É Natal. É tempo de Cristo encarnar-se em nós e em nossa história, é tempo de nos encarnarmos em nosso chão para nele edificarmos a casa cristã.

Pe. José Artulino Besen

 

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O ROSÁRIO, ORAÇÃO DOS POBRES

O Rosário - A Oração dos Pobres

O Rosário se insere nas múltiplas formas de oração com que os féis renovam permanentemente seu encontro com Cristo. É uma oração cristológica, não mariana: com Maria contempla a vida de Cristo. Ensina-nos a olhar Cristo com o olhar de Maria. É a oração dos pobres, dos anciãos, dos analfabetos, dos doentes, de todos.

O Rosário é uma oração dos pobres e uma oração “pobre”: nem sempre temos ocasião ou possibilidade de acesso à Palavra e à Eucaristia, mas podemos, com profunda fé, expressar nossa pobreza com uma dezena, um Terço, um Rosário. Quem sabe, outros se servem do mesmo Terço do Rosário com todo o proveito e unção repetindo muitas vezes o Nome “Jesus” ou, como fazem os orientais com a Oração do Coração, repetindo noite e dia o Kyrie eleison, Senhor Jesus, piedade. Também nesta pequena fórmula há profissão de fé e louvor (Jesus é o Senhor), o Nome (Jesus), a invocação (piedade).

É a oração dos velhinhos, dos doentes que, dia após dia, desfiando as contas do rosário lembram com afeto a Virgem Maria, passam em recordação os dias de sua vida. Uma oração humilde, silenciosa, que traz a paz. Quantos cristãos, na sua pobreza, seguram um rosário tão velhinho como sua idade. Emociona vê-los, no dia do sepultamento, com o rosário unindo suas mãos. Quantos segredos, quantas graças estão ali simbolizados.

Fruto da ternura gerada pela devoção à Mãe de Jesus, essa forma de oração traz ternura e paz a uma vida cansada, onde não houve muito lugar para meditações teológicas, leituras bíblicas, mas houve sempre lugar para a humilde meditação da vida do Senhor.

João Paulo II escreveu, em 2003, uma Carta Apostólica com o título “O Rosário da Virgem Maria”. Pedia – e pede – a toda a Igreja que contemple a Cristo com os olhos de Maria, que veja o mundo com o olhar da Mãe de Deus. Podemos olhar Cristo e o mundo com muitos olhares: o olhar de Maria, de João, de Paulo, de Pedro, da pecadora, do filho pródigo, de Zaqueu. No Rosário contemplamos Jesus com os olhos de Maria: a Mãe contemplando a infância de Jesus, a vida pública, seu caminho de dor, sua vitória final sobre a morte, o nascimento da Igreja no Pentecostes. E, no final, contemplamos Maria com os olhos de Jesus que eleva sua Mãe ao céu e a coroa de glória.

Não se quer retornar a um marianismo piedoso, água-com-açúcar, mas retornar a Maria para acompanhar, com ela, os passos do Senhor por nossa salvação. João Paulo II, que tinha como lema TOTUS TUUS (Sou todo teu, Maria) afirma: “a escuta da Palavra de Deus torne-se um encontro vital, na antiga e sempre válida tradição da lectio divina, que faz tirar das Santas Escrituras a Palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência”. O Rosário nasce das Sagradas Escrituras, pois, através dos mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos contemplamos a vida de Jesus narrada nos Evangelhos.

O Rosário – uma oração e muitas orações

Toda oração cristã tem dois tempos essenciais, louvor e invocação. Assim também no Rosário que é a repetição da oração da Ave-Maria: na primeira parte da Ave-Maria repete-se a alegria da Encarnação, com a saudação do Anjo (Lc 1,28) e de Isabel (Lc 1,42). No centro, a invocação terna e confiante do Nome Jesus, único Nome pelo qual podemos recebemos salvação. Segue-se, na segunda parte, a invocação para que Maria interceda por nós agora (nosso presente de pobres pecadores) e na hora da morte (a hora do êxodo para o Pai). A oração da Ave-Maria convida-nos a contemplar, com ela, os mistérios da Salvação operada em nossa existência.

O fundamental é que toda a nossa vida espiritual, nossos exercícios de piedade, tenham um único objetivo: o louvor e a súplica Àquele que pode e quer salvar-nos, o Filho de Deus.

A Igreja oferece hoje 20 Mistérios para acompanhar as 20 dezenas. Mas, podemos também recitar o Terço meditando um texto bíblico, uma parábola, meditando nossa vida cristã, contemplando as pessoas que passaram por nossa vida, nos reconciliando com passagens que deixaram marcas dolorosas, e nos alegrando com tantas recordações felizes que a graça de Deus nos proporciona.

Contemplando Jesus em sua vida terrena, Maria meditava continuamente a Palavra de Deus feito Carne. E hoje, com o Rosário, pedimos a Maria que nos empreste seu olhar para contemplarmos, também nós, a vida de seu Filho e meditarmos suas palavras.

Pe. José Artulino Besen

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MISSÃO – ANUNCIAR A CRUZ DO SENHOR

Santo Hilário de Poitiers (315-368) foi batizado aos 30 anos e, oito anos depois, em 353, foi eleito bispo de Poitiers, atual França. Ali se deparou com o sucesso da heresia dos arianos, que afirmavam que Jesus foi um homem que Deus escolheu para ser seu Filho, deste modo não sendo eterno. Uma heresia agradável, pois não incluía a eternidade de Cristo e sua encarnação. Agradável, mas destruía o fundamento da fé cristã pela qual cremos que o Filho eterno entrou na história assumindo a natureza humana no seio virginal de Maria. O ensinamento de Ario foi condenado no Concílio de Nicéia (325), mas dividiu a Igreja.

O imperador Constâncio II queria tudo, menos uma Igreja dividida que mexeria com a paz no Império. Pendeu para o arianismo, condenando a verdadeira doutrina. Afinal, com seu pai Constantino a Igreja ganhara liberdade e deveria ser reconhecida e obediente, pensava.

Entra em campo o Bispo Hilário, que receberá o título de “martelo dos arianos”. Escreve ao imperador lamentando o fim da perseguição que trouxe a falta de liberdade de crer na verdade. Suas palavras são contundentes: (O Imperador) “é traiçoeiro e bajulador, não nos açoita as costas, mas nos acaricia o ventre; não nos confisca os bens (assim dando-nos a vida), mas nos enriquece para dar-nos a morte; nos impele não para a liberdade aprisionando-nos, mas para a escravidão convidando-nos e honrando-nos no palácio; não açoita nosso corpo, mas se apodera de nosso coração; não corta nossa cabeça com a espada, mas mata nossa alma com o dinheiro “ (Liber contra Constantium 5).

Para o santo bispo, não vale a pensa a liberdade se priva o cristão da verdade. Continua sua defesa intransigente do mistério da Encarnação. Em 364 foi exilado por outro imperador, Valentiniano I, defensor da heresia e que gostava de atirar o corpo dos adversários como comida para suas duas ursas favoritas, Migalha de Ouro e Inocência.

A exemplo de Hilário, nós também conhecemos a terrível e sedutora tentação de facilitar a fé e a vida cristãs. Assim como havia teólogos em Constantinopla dando razão ao Imperador, teólogos em Coimbra e Salamanca que justificavam a escravidão negra, não nos faltam teólogos envolvidos no heróico esforço de tornar o mistério cristão palatável aos humores atuais.

Pregadores transformam as exigências cristãs em esforço de mudança sujeita às desculpas psicológicas (a lei é assim, mas sou uma exceção, pois tenho minhas carências). Quantos de nós, cristãos, apreciamos o circo dos milagres que reduzem o Senhor a um curandeiro, esquecendo-nos o quanto Jesus repudiava ser procurado por causa de milagres: querem meus milagres, mas não querem minha pessoa!, afirmava. Há um pregador televisivo, autodenominado “apóstolo”, afirmando que não inicia uma pregação sem ao menos dez milagres. É dono de algum deus…

Sendo constitutivamente missionária, a Igreja não pode ingressar no mercado competitivo das facilidades. Não assim nos ensinaram os Apóstolos, os Mártires, não assim nos ensinam os missionários que se embrenham pelas selvas humanas do mundo das culturas. Servem-se de recursos que possibilitem a inculturação mas, no momento principal, gritarão: “O Senhor que vos anunciamos é o Filho de Deus, o Cristo crucificado! Ele ressuscitou!”. Não faltará serem acusados de loucura, escândalo, fraqueza. Não há, porém, outro caminho. Na sua viagem à Inglaterra (17/09/2010), Bento XVI afirmou que hoje “o preço a ser pago pelo Evangelho não é sermos enforcados, afogados ou esquartejados, mas, sermos ridicularizados”.

A medida do Deus amor é a cruz. Deus sofre e morre na carne para vencer a morte. Toda a conversão se orienta para o combate que leva da morte à ressurreição. A glória do cristianismo é a Cruz, árvore da vida. A árvore do Paraíso trouxe a morte, a árvore da Cruz traz a vida, pois o Senhor da Vida dela é inseparável. A facilitada negação do pecado esconde a negação da cruz: seguir o Senhor, renunciar, tomar a cruz.

No dia do batismo através dos pais e padrinhos, no dia da Crisma em nome pessoal, na Vigília pascal com a comunidade, somos convidados a proferir três vezes o “Renuncio!” ao pecado, à injustiça, às seduções satânicas. Não há “Renuncio” sem amor à cruz, à luta constante pela fidelidade ao Senhor e aos irmãos. E sem o “Renuncio” autêntico, consciente não há vida pascal, nem alegria pascal.

O conhecimento de Deus se dá pela adoração que leva ao amor, pelos joelhos dobrados que expressam humildade frente ao mistério, pelo fascínio diante da beleza oferecida a quem testemunha a beleza da Cruz por uma vida de combate em busca da transfiguração pascal.

Pe. José Artulino Besen

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A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

Assunção de Maria aos Céus (Rubens)

A Virgem Maria recebe tem duas celebrações no calendário católico: em 8 de dezembro, a Imaculada Conceição (Maria foi concebida sem pecado no ventre de sua mãe Ana) e, em 15 de agosto, a sua assunção ao céu.

A assunção de Maria significa que, ao terminar sua existência terrena, Maria foi levada ao céu em corpo e alma. Não há sepultura com os restos mortais da Mãe de Jesus: imediatamente após a morte ela foi glorificada. Certamente os Apóstolos que naquele dia estavam em Jerusalém ficaram desolados ao ver morta a Mãe amada do Senhor e que na cruz lhes fora entregue como mãe. Podemos meditar o carinho que os discípulos tinham por essa mulher cheia de graça, de bondade, exemplo de fé total. A tristeza, porém, converteu-se em festa quando viram Maria ser glorificada e ressuscitada.

A morte é conseqüência do pecado e inclui o retorno ao pó donde viemos. Com Maria isso não aconteceu porque ela foi concebida sem pecado e, em toda a sua vida, jamais pecou. Por isso não poderia pagar o preço por algo que não cometera.

Quando o arcanjo Gabriel a visitou para anunciar-lhe que fora escolhida para ser a mãe do Salvador, saudou-a como “cheia de graça”, “bendita entre as mulheres”. Maria era pura graça, pura obediência a Deus, nascera e vivera na total fidelidade à vontade de Deus: “eu sou a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a sua vontade”, respondeu ela a Gabriel. Maria entregara a Deus sua vontade: a vontade de Deus era a vontade dela.

Por causa dessa sua obediência total e por ter gerado o Salvador do mundo, Maria foi a primeira criatura a receber de seu Filho a vida eterna em plenitude, em corpo e alma.

Nossa esperança é a ressurreição

Ao contemplarmos a glória de Maria, devemos nos encher de alegria: também nós queremos e podemos ser glorificados; basta que declaremos a vontade de Deus como nossa vontade, basta que aceitemos ser tocados pela graça do Espírito Santo, ser lavados pela Água viva que jorra do trono de Deus.

Nosso destino não é a tragédia de uma sepultura onde se diz: aqui descansa fulano de tal. Nosso destino é a Casa de Deus na eternidade, nossa casa paterna. O que Maria recebeu logo após a morte, nós também receberemos se seguirmos o mesmo caminho de fidelidade.

A sociedade consumista nos faz pensar que é impossível haver coisa melhor do que a vida terrena e, deste modo, muitos duvidam da eternidade, julgando que nosso endereço final é a sepultura. Chegamos a duvidar da criatividade de Deus, pensando que a vida eterna não pode ser melhor do que essa vidinha que levamos. Deus nos oferece muito mais: oferece a vida divina, a posse dos bens celestes, a libertação dos desejos, do egoísmo, da angústia.

Não é difícil o caminho de Deus: ele mesmo vai à nossa frente. Basta segui-lo com generosidade, e sabendo que não podemos ir sozinhos: nossos irmãos devem ter nossas mãos para conduzi-los. A fraternidade terrestre é condição para a fraternidade celeste.

Festejemos a assunção da Mãe de Deus. E, com Maria, sigamos o caminho de Jesus, aceitemos sua verdade e teremos sua vida.

Pe. José Artulino Besen

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MARIA, A MÃE DE JESUS

 

A Anunciação – Michel Ciry

Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.
Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus.
Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo
e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi! (Lc 1,26-38)

Maria tinha 14 anos, alguns achando que 13, pois as meninas judias ingressavam na puberdade muito cedo. Vivia em Nazaré, com seus pais Joaquim e Ana. Vida simples de gente simples. Seu sonho era casar, ter filhos, continuar a descendência de Abraão, dar filhos a seu povo. Gostara do jovem José, descendente de Davi. Já tinham contraído noivado.

Num dia, um encontro mudou radicalmente seus planos. Um Anjo lhe aparece e a saúda como cheia de graça, predileta de Deus. Para ter certeza de que não estava sonhando, ficou pensando no significado de tão estranha saudação. O Arcanjo Gabriel pede que não tenha receio de nada, pois seria mãe de um menino que receberia o nome de Jesus, isto é, Salvador, e que seria grande, e rei de um reino eterno.

Maria se lembrou de que era apenas noiva e que ainda não convivia com José. Como seria isso? Gabriel lhe responde que o menino que ela geraria não seria filho de homem, mas Filho de Deus, concebido por obra do Espírito Santo. Jovem de fé, iluminada pelo Espírito, não teve mais dúvidas e aceitou o que não podia ainda entender: Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (cf. Lc 1,26-38).

Maria estava de posse de um segredo guardado entre ela, o Anjo e Deus. Dera um “sim” ao plano de Deus. Quem a compreenderia?

Dotada de um equilíbrio e maturidade surpreendentes, guarda tudo no silêncio de seu coração. Se fosse vaidosa, sairia às ruas, anunciando que um Anjo lhe tinha aparecido, falado com ela pessoalmente, que estava grávida sem ter dormido com o noivo, coisa do Espírito Santo, que seria mãe de um rei poderoso e eterno, e assim por diante. Mas nada de fofoca, nada de vaidades e competições com as moças de Nazaré.

Arruma suas trouxas e apressadamente vai às montanhas, a uma pequena cidade de Judá. O Anjo lhe dissera que a prima Isabel estava no sexto mês. Já de idade avançada, esperando o primeiro filho, precisava de sua ajuda. Sobe às montanhas e lá permanece três meses, até o nascimento de João Batista (cf. Lc 1,39-56).

É hora de voltar para casa. Começam a surgir, discretamente, os primeiros sinais de gravidez. Com profunda dor no coração, Maria pensa em seus pais: como encarariam a filha grávida? Sente a dor de uma espada atravessando o peito quando pensa no querido noivo José, que tinha quase pronta a casa onde a recolheria como esposa.

Pobre do bom José, o mais belo e sério jovem de Nazaré, que a escolhera para ser mãe de seus filhos exatamente por ser bela, séria e madura. E o Filho que ela gerava não era filho de seu noivo. Imaginou o sofrimento de José quando a notícia lhe chegasse aos ouvidos.

Se pudesse esquecer a conversa com o Anjo, dizer-lhe não em vez de sim, sentir a satisfação de que tudo não passara de um engano… Não era mais possível. Um serzinho se formava em seu ventre. Escutava conversas maliciosas. Todos sabiam que era apenas noiva. Um que outro a chamava de adúltera… Conhecia a lei: seria difamada e condenada à morte por apedrejamento. Pobre Maria, tão jovem e diante do drama de explicar o que humanamente não tinha explicação.

Sofria, mas não tinha dúvidas de uma verdade: Deus não vem ao encontro do ser humano para destruí-lo. Conhecia as Escrituras: as promessas que Deus faz sempre serão cumpridas, apesar da demora por vezes angustiante, os prazos dilatados da fidelidade do Deus de seus pais.

A fé não permitia que alimentasse dúvidas sobre o amor de Deus. Oferecera, com seu a sim ao Arcanjo, o caminho de sua existência. Não mais se pertencia. Era toda de Deus, do Senhor fiel às promessas. Ela sabia, e nós sabemos, quando Deus traça os caminhos, o traçado é dele. De nossa parte, basta a confiança, o ato de fé corajoso e generoso.

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