NOSSA SENHORA DE CARAVAGGIO

vitral

Joanita, diante do imperador de Constantinopla João VIII Paleólogo – vitral em Azambuja

O peregrino ou devoto que entra no Santuário de Azambuja, em Brusque, tem a graça de contemplar, no alto do altar-mor, o belíssimo conjunto com as imagens de Nossa Senhora e Joanita, retratando a aparição ocorrida em 1432 na cidade italiana de Caravaggio. Foi essa a devoção que os primeiros habitantes de Azambuja trouxeram da Itália: a companhia de sua “Madonna” foi o melhor consolo para as peripécias de uma longa viagem e a saudade na nova terra. Nossa Senhora de Caravaggio fazia-os recordar sua terra, suas devoções, os amigos lá deixados.

Transcrevemos, a seguir, a mais antiga narração dessa aparição mariana que é, ao mesmo tempo, a narração oficial:

“Deus, rico de misericórdia e todo-poderoso, que tudo dispõe suavemente com sua providência, com aquela piedade que nunca deixa nenhum fiel realmente privado de seu celeste socorro, num dia aprouve-lhe olhar, socorrer e inclusive honrar o povo de Caravaggio com a aparição da Virgem Mãe de Deus.

No ano de 1432 do nascimento do Senhor, no dia 26 de maio às 5 horas da tarde, aconteceu que uma mulher de nome Joanita, oriunda do povoado de Caravaggio, com 32 anos de idade, filha de um certo Pietro Vacchi e esposa de Francesco Varoli, conhecida de todos por causa de seus costumes virtuosíssimos, sua piedade cristã, sua vida sinceramente honesta, tendo cortado o capim para seus animais fora de Caravaggio ao longo da estrada que dá para Milão, estava totalmente preocupada em como levar para casa aqueles feixes de capim. [Como o marido era muito violento e costumava espancá-la, tinha receio de atrasar-se e, com isso, ser castigada].

Foi então que viu uma Senhora belíssima e admirável, de estatura majestosa, rosto gracioso, aparência veneranda e de indizível e nunca vista beleza física, vestida com hábito azul e tendo a cabeça coberta com um véu branco, vinda do alto e parar exatamente vizinha a ela. Tocada pelo aspecto de tal modo venerável da nobre Senhora, estupefata, Joanita exclamou: Leia o resto deste post »

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O PAPA DA PAZ NO EGITO DA PAZ

Papa Francisco e o Papa Copto Tawados II

O grande Imam de Al Azhar, xeque Muhammad Ahmed al-Tayyeb, convocou a Conferência Internacional pela Paz, no Cairo. Como participantes, convidou os líderes das principais religiões do Oriente Médio: os Islamitas sunitas, cristãos católicos romanos, coptas ortodoxos, coptas católicos e luteranos. Há poucos anos, seria inimaginável que uma autoridade muçulmana promovesse uma conferência com cristãos e também que religiosos fossem convidados para um encontro internacional pela paz.

Mas, os acontecimentos históricos inspiram novos caminhos e, nesse caso, o único caminho possível: a paz. O terrorismo de matriz religiosa hoje se revela em toda a sua crueza e escândalo: como matar em nome de Deus e como querer a paz destruindo pessoas? Matar em nome de Deus é blasfêmia, e nada mais incoerente. Deste modo, está nas mãos dos religiosos, dos crentes, a chave da promoção da paz.

Papa Francisco foi convidado e aceitou estar presente e, mesmo nos recentes atentados contra igrejas no Egito, permaneceu firme e sentiu mais ainda necessária sua presença, sem medo, e rejeitando carros blindados.

Nos dias 28 e 29 de abril, Francisco esteve no Egito, e se encontrou com o Presidente Al Sisi, com  Al Tayyeb, maior autoridade do Islã sunita e reitor da Universidade Al Azhar, com Tawadros II, Papa dos cristãos coptas, Bartolomeu I,  Patriarca de Constantinopla, Ibrahim Isaac, Patriarca dos coptas católicos, Pastor luterano Olaf Tveit, secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas. Uma viagem apostólica sob o signo da unidade, amizade e respeito.

Sua 18ª. viagem internacional foi marcada por alto conteúdo pastoral (para a pequena comunidade católica egípcia), ecumênico (para os ortodoxos coptas e evangélicos), inter-religioso (para os muçulmanos) e também geopolítico (no coração de focos do terrorismo do Isis). Leia o resto deste post »

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MONSENHOR OTÁVIO DE LORENZI

Monsenhor Otávio de Lorenzi

Otávio nasceu em Orleans, Santa Catarina, em 14 de maio de 1931, filho de Antônio de Lorenzi Dinon e Catarina Pilon, numa família de 12 irmãos.

Na década de 1950, os pais se mudaram para a comunidade de Taquaruçu de Cima, Município de Fraiburgo, SC. Com essa migração dos pais, Otávio ingressava na Diocese de Lages, no Planalto catarinense, no novo mundo cultural e religioso do serrano.

Um professor primário despertou nele a vocação sacerdotal e aconselhou-o a ir para o Seminário. E assim, dirigiu-se para o Pré-Seminário de São Ludgero, onde permaneceu em 1946 e 1947. Educado numa família humilde e pobre onde a língua diária era um dialeto italiano, teve dificuldade nos estudos. Em suas primeiras férias trouxe para os pais a grande notícia de que estava estudando a língua portuguesa.

Terminando o curso preliminar, foi encaminhado para o Seminário Menor Metropolitano de Azambuja, em Brusque, onde cursou o Ginásio e o Clássico, dos anos 1948 a 1952. Ao final desse último ano, recebeu a batina. Indo para casa, foi recebido com muita festa e tiros, motivo que foi de orgulho para a pequena comunidade de Taquaruçu de Cima, no município de Fraiburgo.

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MONSENHOR GREGÓRIO LOCKS

Filho de Germano Locks e de Elizabeth Hobold, nasceu em São Ludgero em 17 de novembro de 1914. Seus avós maternos, Henrique Hobold e Maria Ana Schmoller, e paternos, Bernardo Locks e Elizabeth Frankmüller, eram imigrantes da Westfália que se estabeleceram em Teresópolis e, em busca de melhores terras, migraram para São Ludgero.

Gregório teve 11 irmãos, ele sendo o caçula. Cresceu e foi educado na fé, sob a imagem sacerdotal de Mons. Frederico Tombrock. Seu primeiro banco escolar foi na escola paroquial de São Ludgero, tendo como professoras as Irmãs da Divina Providência que ajudaram a nele despertar a vocação sacerdotal.

Onde estudar, se não havia seminários em Santa Catarina? Os primeiros quatro vocacionados se dirigiram a Pareci Novo, no seminário dos jesuítas: Nicolau Gesing, Bernardo Füchter, Huberto Rohden e José Locks. A cavalo, com os pais, enfrentaram 16 dias entre a ida e a volta. Todos foram ordenados padres. Leia o resto deste post »

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OS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – SERÃO CANONIZADOS

Prot – Forte dos Reis Magos, onde se refugiaram os Mártires de Uruaçu

São estes os sentimentos que invadem o nosso coração, ao evocarmos a significativa lembrança da celebração dos 500 Anos da Evangelização do Brasil, que acontece neste ano. Naquele imenso País, não foram poucas as dificuldades de implantação do Evangelho. A presença da Igreja foi-se afirmando lentamente, mediante a obra missionária de várias Ordens e Congregações religiosas e de Sacerdotes do clero diocesano. Os mártires que hoje são beatificados saíram, no fim do século XVII, das comunidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte. André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Presbíteros, e 28 Companheiros leigos pertencem a essa geração de mártires que regou o solo pátrio, tornando-o fértil para a geração dos novos cristãos. Eles são as primícias do trabalho missionário, os Protomártires do Brasil. A um deles, Mateus Moreira, estando ainda vivo, foi-lhe arrancado o coração pelas costas, mas ele ainda teve forças para proclamar a sua fé na Eucaristia, dizendo: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Hoje, uma vez mais, ressoam aquelas palavras de Cristo, evocadas no Evangelho: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10, 28). O sangue de católicos indefesos, muitos deles anônimos crianças, velhos e famílias inteiras servirá de estímulo para fortalecer a fé das novas gerações de brasileiros, lembrando sobretudo o valor da família como autêntica e insubstituível formadora da fé e geradora de valores morais. (HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II – NA MISSA DE BEATIFICAÇÃO DOS PROTOMÁRTIRES DO BRASIL – Domingo, 5 de Março de 2000).

OS MÁRTIRES DE CUNHAÚ E URUAÇU

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QUARESMA – PRIMAVERA DO ESPÍRITO

O fim do inverno oferece um retrato amortecido da natureza, poucas cores, pouca vida. Já a primavera nos surpreende com a natureza viva, alegre, os troncos quase secos brotando. Pouco a pouco as flores se abrem revelando segredos escondidos no inverno. Insetos, aves, carregam o pólen que fecunda as flores. Tudo revela a força e a beleza da vida.

Assim podemos comparar a Quaresma: as rotinas, o amortecimento espiritual, os resíduos do pecado cedem lugar à primavera. O jejum, a esmola e a oração despertam o espírito, fazem a vida brotar e sentimos o crescimento da felicidade, a vida de fé fortalecida pela vitória sobre as tentações. Vamos crescendo até a explosão do Aleluia da Páscoa.

Gostaria de oferecer a você, leitor, três pequenas reflexões, cujo conteúdo é oferecido pelo papa Francisco em suas homilias matinais na Casa Santa Marta. Propõe gestos muito simples, mas importantes. Nossa vida é construída sobre o fundamento da humildade, do silêncio, da oração silenciosa, de encontros simples com pessoas simples. Tudo na mansidão e na humildade.

Com todos, ser o bom pastor             

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A MENINA QUE EXPLICOU A MORTE

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Esperávamos a paz, e construímos uma década de violência, de guerras. Países em guerras fratricidas no mundo árabe da Síria, do Iraque, do Oriente médio. Nações africanas em guerras internas, cujo único objetivo é a garantia do poder e do domínio sobre riquezas e populações. Em nosso mundo latino-americano sofremos a guerra pelo tráfico e pelos pontos de drogas. Nos países ricos assistimos a outra guerra, a da rejeição dos migrantes, dos fugitivos do mundo conflagrado que diariamente tentam encontrar novo chão, nova pátria, e encontram a expulsão, o desprezo a deportação.

Milhares de famílias abandonam sua terra e seus bens e atravessam fronteiras esperando alguma acolhida, mas são acolhidas pela ordem de retorno ao lugar nenhum, pela deportação. São consideradas peso morto, ameaça ao conforto dos países ricos. As famílias deixam de ser famílias: são mães abandonadas, crianças fugindo pelas estradas e ruínas, homens tentando salvar algum coisa, jovens deserdados da esperança. As imagens geradas por esses dramas quase não comovem, pois  a violência continua e as ruínas aumentam com destruições sempre maiores.

Mas, sem dúvida, o que mais nos fere são as imagens das crianças, das quais se rouba a infância e que são marcadas a ferro pelo vírus da violência, a ponto de não conhecer outro tipo de vida. Apesar disso, as crianças brincam, jogam bola, as meninas se fazem de professoras, realizando o milagre da  vida mas injetando no coração o sentimento da violência, pois foi isso que sempre viram e sentiram. Leia o resto deste post »

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PADRE NEY BRASIL PEREIRA (1930-2017)

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Padre, professor, músico e biblista

Tempo atrás, Pe. Ney me perguntou quando escreveria sobre ele. Respondi: quando o senhor morrer!

Infelizmente esse dia chegou, em 04 de janeiro de 2017, às 8:30, no Hospital de Caridade. Tinha completado 86 anos em 4 de dezembro passado. Uma vida longa, sem dúvida, mas que ainda poderia oferecer muito. Neste ano, convidou-me a fazer a homilia de seus 60 anos de Sacerdócio, o que entendi como honra e como retribuição ao convite que lhe fizera para pregar em minha Primeira Missa, há 40 anos. Devo muito ao Pe. Ney: ele perpassou minha formação humana, intelectual e sacerdotal. Foi sempre a presença positiva e compreensiva em que me espelhava. Hoje, como despedida, ofereço esse breve e pobre texto para que mais pessoas possam conhecer o Pe. Ney Brasil Pereira e agradecer a Deus por esse sacerdote que honrou o clero brasileiro e, especialmente, o clero da Arquidiocese de Florianópolis. Leia o resto deste post »

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MISERICORDIA ET MÍSERA

Abraço de Francisco

Abraço de Francisco

No dia 13 de março de 2015, segundo aniversário de seu Pontificado, numa liturgia penitencial Francisco anunciou a celebração de “Um Jubileu extraordinário que tenha como centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia, para que vivamos à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36)”. Nesta celebração foi proclamado o Evangelho da mulher pecadora (Lc 7, 36-50), que colocou-nos diante da misericórdia e do julgamento. Uma mulher perdoada porque muito amou.

Mulheres, ícones da misericórdia

008-misericordiaHoje, 20 de novembro de 2016, papa Francisco fechou a Porta Santa da basílica de São Pedro, encerrando o Jubileu extraordinário do 29º Ano Santo da Misericórdia. No dia 21, Francisco publicou a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, e coloca-nos diante de outra mulher, perdoada porque muito amou (cf. 8, 1-11). “MISERICÓRDIA E MÍSERA (misericordia et misera) são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador:  ´Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia’”.

Objetivo do Jubileu foi agradecer a Deus Pai por sua eterna misericórdia e avivar sempre mais intensamente nossa fé/confiança na misericórdia divina. Francisco mergulhou o Ano Santo no despertar para o Concílio do Vaticano II (1962-1965) e sua mensagem de abertura eclesial para o mundo dos pobres, a Igreja servidora, Igreja missionária em saída, hospital de campanha, o diálogo ecumênico e inter-religioso.

 A partir da bula “Misericordiae Vultus” foi tocante e desafiador o compromisso papal com as obras da misericórdia corporal e espiritual, já um pouco esquecidas e agora reavivadas com a força do Espírito que impele a Igreja à misericórdia divina e à misericórdia com o próximo. A misericórdia foi orientada para os pobres, as vítimas da “guerra mundial em pedaços”, os 65 milhões de migrantes forçados, rejeitados como lixo pelas potências, a paz entre as nações, nela incluída a participação efetiva na pacificação interna da Venezuela, da Colômbia, de Cuba, de nações africanas em conflito. E, deve ser sempre mais recordado, o cuidado com a Casa Comum, o meio-ambiente, que mereceu a rica encíclica “Laudato si”. Francisco tornou-se a voz incômoda ao defender os pobres e a paz, defender a natureza violentada e que gera mais pobres. Com a “Amoris Laetitia” entoa um hino de louvor à família cristã e um hino de compreensão com os casais cuja primeira união fracassou. Ninguém está excluído do amor divino e do amor eclesial. Àqueles que preferem as certezas jurídicas admoesta: “certos rigorismos nascem de uma carência, de querer esconder dentro de uma armadura sua triste insatisfação pessoal”.

Peregrino da misericórdia

007-misericordiaNas Sextas-feiras da Misericórdia, Francisco realizou uma obra de misericórdia, dentro e fora de Roma, e podemos citar: o encontro amigo com prostitutas, travestis, transformers e gays, a visita às prisões, visita a doentes terminais, a jovens resgatadas da exploração sexual, aos tóxico-dependentes, recém-nascidos doentes, a favelas, celebração com presidiários e seus familiares na Basílica vaticana, a visita aos migrantes alojados na ilha grega de Lesbos que funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças; visitou de improviso sete ex-padres e suas famílias, encontrou-se com os sem-teto, em outras palavras, colocou os excluídos e as periferias do mundo e da Igreja no centro da Igreja; e a canonização de Santa Teresa de Calcutá.

Viajou, e muito para um homem de 79 anos, para países das periferias geo-políticas, visitando católicos, ortodoxos, protestantes, judeus e muçulmanos, a ninguém rotulando de fieis ou hereges, revelando um coração completamente dominado pelo amor sem medida para os filhos de Deus. Não é dominado pelo instinto de conquista para as estatísticas católicas, inclusive rotulando de pecado o proselitismo, a pescaria de almas: “O proselitismo entre cristãos é um pecado grave. A Igreja não é um time de futebol à procura de torcedores” (Avvenire, 18/11/2016). Revelou profundo e respeitoso afeto e veneração por todas as autoridades religiosas que visitou ou recebeu em Roma.

Sem receio das críticas, foi a Lund, na Suécia, participar da inauguração do 5º Centenário da Reforma luterana. Francisco fala do caminho da Igreja para viver e testemunhar o Evangelho como caminho de misericórdia e não como ideologia. “A viagem foi mais um passo para fazer compreender o escândalo da divisão, e que deve ser superado com gestos de unidade e de fraternidade” (no no avião, de retorno de Lund, 01/11).

Foram muitos os passos dados no Ano Santo no caminho da reconciliação entre cristãos, mas os tempos da plena unidade são estabelecidos pelo Espírito Santo: “Para o ecumenismo é decisivo juntos servir os pobres, ‘a carne de Cristo’, sem contrapor doutrina e caridade pastoral’ (idem).

O Papa, além da caridade, inclui no ecumenismo os encontros e as viagens, que muito ajudam a fraternidade e fazem-na crescer. Entabular processos ao invés de ocupar espaços é a chave do caminho ecumênico. Para os que julgam o caminho ecumênico muito lento, iniciado há 50 anos, Francisco diz que “não podemos ser impacientes, desencorajados, ansiosos. O caminho exige paciência no preservar e melhorar o que já existe, que é muito mais do que o que divide”: a unidade não acontece porque nos colocamos de acordo entre nós, mas porque caminhamos seguindo Jesus (Avvenire 19-11). Para pedir a unidade entre nós cristãos somente basta contemplar Jesus e suplicar que o Espírito Santo opere em nós.

Francisco julga que a unidade dos cristãos é feita em três estradas: caminhando juntos, com as obras de caridade; rezando juntos e reconhecendo a confissão de fé comum que se expressa no martírio comum recebido no nome de Cristo, e no ecumenismo de sangue.

Cantar, sempre, a divina Misericórdia

O Jubileu foi um hino à misericórdia do Pai, ao Senhor, rosto da misericórdia. Foi o confronto entre o “amor louco” de Deus por seu povo e a nossa infidelidade. O amor de Deus “sem medidas” de um lado e, do outro, “a resposta do povo egoísta, duvidosa, adúltera, idolátrica”.

“O que faz sofrer o coração de Jesus Cristo é essa história de infidelidade, de não reconhecer as carícias de Deus, o amor de Deus, de um Deus enamorado que te procura, que deseja que também tu sejas feliz” (Santa Marta, 17/11/2016).

Francisco está convencido de que o câncer da Igreja é o dar-se glória um ao outro, buscar o prestígio, lógica da ambição do poder. A Igreja é o Evangelho, a autorreferencialidade é o câncer. É obra de Jesus Cristo, que cresce por atração. Quando prevalece a tentação de construir uma Igreja “autorreferencial” que em vez de olhar a Cristo olha a si mesma, surgem as contraposições e divisões: o câncer é um glorificar o outro. A Igreja não tem luz própria, somente “existe” como instrumento para comunicar aos homens o plano misericordioso de Deus.

Ser cristão é viver e anunciar a misericórdia

Conversa amiga com dois Cardeais

Conversa amiga com dois Cardeais

Com seu Consistório de 19 de novembro, o Papa ampliou as fronteiras do mundo, incluindo no Colégio cardinalício nações nunca representadas, com isso deslocando o eixo católico dos velhos centros europeus para as periferias onde moram os pobres. Os três Consistórios de Francisco premiaram pastores com “cheiro das ovelhas”, dioceses periféricas, continentes pouco representados. São 17 novos cardeais que na Igreja devem ser bem mais do que príncipes: são missionários nos pontos mais distantes e muitas vezes mais atribulados do mundo.

A coragem de ser pobre é outro tema em que Francisco insiste nos encontros jubilares com bispos, padres, religiosos, diplomatas: o povo de Deus tem imensa capacidade de perdoar as fraquezas e pecados dos padres, mas não consegue perdoar dois: o apego ao dinheiro e quando o padre maltrata os fieis (Santa Marta, 18/11/2016).

Como fruto principal do Ano Santo da Misericórdia o Papa espera que muitas pessoas tenham descoberto que são muito amadas pelo Senhor, recordando que o amor de Deus e do próximo são “inseparáveis”: servir os pobres significa servir Cristo, porque os pobres são a carne de Cristo (Avvenire, 19/11/2016).

Para encerrar, essas palavras de Francisco no Consistório (19/11/2016):

“O inimigo é alguém que devo amar. No coração de Deus não há inimigos, Deus tem somente filhos. Nós erguemos muros, construímos barreiras e classificamos as pessoas. Deus tem filhos, e não para afastá-los de sua companhia”.

“O nosso Pai não espera para amar o mundo quando formos bons, não espera para amar-nos quando seremos menos injustos ou perfeitos; ama-nos porque decidiu amar-nos, ama-nos porque nos deu o estatuto de filhos. Amou-nos quando éramos seus inimigos. O amor incondicionado do Pai por todos foi, e é, verdadeira exigência de conversão para o nosso pobre coração que tende a julgar, dividir, opor e condenar. Saber que Deus continua a amar também quem o rejeita é uma fonte ilimitada de confiança e estimulo para a missão”.


Pe. José Artulino Besen 

 

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PADRE PEDRO LUIZ AZEVEDO

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Fiquei feliz ao receber do Pe. Flávio Feler um exemplar do livro “Homilias do Pe. Pedro Luiz Azevedo”, publicado em 2013. Foi um gesto de gratidão de Pe. Flávio, ao sacerdote que era seu pároco em Canelinha à época de sua ordenação presbiteral. O livro contém homilias breves, bem preparadas e destinadas a celebrações de jubileus, casamentos, sepultamentos. Entre as muitas que algum distraído jogou no lixo, foram as poucas que sobraram, felizmente, e permitem penetrar na alma sacerdotal de Pe. Pedro.

Somos gratos ao Pe. Flávio por esse gesto amigo e que nos dá acesso à alma pastoral do Pe. Pedro.

O chamado de Deus

Padre Pedro Luiz Azevedo nasceu em Brusque em 5 de fevereiro de 1955, último filho de Marcelino Azevedo e de Guilhermina Ramos Azevedo. Era morador da Rua Nova Trento, que liga Azambuja à Rua 1º de Maio. Pela vizinhança com o Seminário Menor, conhecia quase todos os seminaristas, especialmente os estudantes de filosofia. Foi sempre amigo humilde de todos.

Importante para sua formação cristã foi o casal Hilário e Raquel Bernardo, que muito o incentivaram a participar do grupo jovem do Santuário, o COJA – Companhia de Jovens de Azambuja, que frequentou de 1973 a 1978. Foi atuante na pastoral litúrgica e da juventude brusquense.

Como operário, trabalhou no setor de recursos humanos do SENAI e, ao mesmo tempo, cursou a faculdade de Estudos Sociais na Fundação Educacional de Brusque – FEBE. Pe. Alvino Milani, formador no seminário menor, foi importante no seu encaminhamento cristão e vocacional. Nesse período eu era assistente dos estudantes de filosofia residentes no Seminário de Azambuja e escutei que Pedro pensava em ser padre, mas não queria entrar no Seminário porque precisava trabalhar e gostava da liberdade. De certa forma isso era um problema, pois a norma previa o ingresso no Seminário para aprofundamento da fé e da vida comunitária.Teimoso, decidiu arriscar para ver. Lembro que num dia lhe falei que o caminho não era esse e que se o arcebispo me pedisse recomendação, não daria.

Mas, a vida é melhor do que as normas e no final de 1978, Pedro pediu para falar comigo e veio exatamente para solicitar a Carta de recomendação. Ele sentiu-se grato, porque logo o atendi e escrevi a Dom Afonso Niehues recomendando-o e falando de suas qualidades para o ministério. Eram palavras verdadeiras.

Os próximos quatro anos Pedro estudou Teologia no Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC em Florianópolis. Os finais de semana de 1979-1980 fez estágio pastoral em Canelinha, acompanhado pelo Pe. Sérgio Giacomelli e nos anos de 1981-1982 trabalhou em Tijucas, com Monsenhor Augusto Zucco, homem enérgico e afamado por disciplinar quem trabalhasse com ele. Por onde passava, Pedro Azevedo se empenhava nos grupos jovens, de coroinhas e nas equipes de Liturgia. Seu espírito alegre, bem humorado, conquistou muitos amigos. Mesmo irritado, às vezes desbocado, era incapaz de ofender alguém. Era seu dom.

A alegria do ministério sacerdotal

Padre Pedro Luiz Azevedo

Padre Pedro Luiz Azevedo

Concluídos os estudos, em 31 de julho de 1982 foi ordenado Diácono na igreja matriz de Tijucas. Seu lema, muito verdadeiro: “Tu me amas? Senhor, tu sabes que eu te amo” (Jo 21, 17). E, no dia 05 de dezembro de 1982, a ordenação Sacerdotal no Santuário de Azambuja, onde iniciou e alimentou sua fé. Bispo ordenante, Dom Afonso Niehues. Juntamente com ele outro brusquense foi ordenado padre, Gilberto Mafra (+ 1996). Seu lema: “Chamei-te pelo nome: és meu. És caro aos meus olhos, digno de estima, te amo” (Is 43, 1-5).

Seu primeiro campo de apostolado foi em Tijucas mesmo, até fevereiro de 1983, nas férias de Mons. Zucco. Em 11 de fevereiro de 1983 recebeu a provisão de vigário paroquial da paróquia Senhor Bom Jesus de Nazaré, em Palhoça. Ali, muito trabalhou e aprendeu com o zeloso Pe. Alvino Introvini Milani, numa grande paróquia hoje dividida em seis comunidades paroquiais. Sua alegria e bom humor contagiavam a todos e até estimulou a construção de uma capela na localidade de Pachecos, cujo padroeiro ficou sendo São Pedro, em homenagem ao Pe. Pedro e aos muitos Pedros do lugar.

Com a morte repentina de Monsenhor Augusto Zucco, em 1987, foi provisionado pároco de Tijucas em 28 de maio. Já amava e muito amou essa Paróquia onde trabalhara como estudante e neo-sacerdote e onde tinha grande número de amigos. Pe. Pedro gostaria de permanecer muitos anos em Tijucas mas, em 28 de dezembro de 1994 o novo arcebispo Dom Eusébio Oscar Scheid, SCJ, o transferiu para Anitápolis, grande paróquia, mas na serra, isolada do mundo onde vivera. Eram 15 capelas, com poucos habitantes, a 85 km. de Florianópolis.

Obediente, Pe. Pedro assumiu o trabalho. Sofreu muito a solidão, a distância dos amigos. Quem o conhecia percebeu que a melancolia tomava conta de sua vida, ia perdendo o ânimo, o bom humor. E, talvez isso fosse mais grave, espantava a tristeza com a crescente dependência do álcool. Às vezes,  a vida da Igreja, em nome da presumida sabedoria das autoridades, se impõem serviços cujo maior serviço é afugentar o gosto pela vida. Nós sentíamos o isolamento de Pe. Pedro, o silêncio que o rodeava. Ali viveu e trabalhou até 20 de dezembro de 2002, data de sua nomeação para pároco de Sant’Ana de Canelinha, onde trabalhara e aprendera como seminarista, e perto de Tijucas. Conseguiu reanimar a paróquia, cujo pároco tinha saído da casa paroquial para o casamento.

O leito de dor é o altar de Pe. Pedro

Pe. Pedro Luiz Azevedo estava doente, tomado por crescente tristeza e pela doença que se insinuava em seu corpo. Mesmo sofrendo, marcava seu apostolado com a bondade, dedicação, seriedade e cultivando amizades. Em 07 de dezembro de 1993 sentiu o baque da perda da mãe Guilhermina, a quem estava muito ligado. Doente, de certo modo impondo-se o isolamento, não partilhava suas dores, e posso pensar o quanto foi valente e generoso em meio a tantos trabalhos, compromissos, capelas, enterros, casamentos, celebrações.

Não aceitou festejar seu jubileu de prata sacerdotal em 2007. Era avesso a qualquer tipo de festa, e escreveu: “todos os dias são dias de festa, basta saber vivê-los. Agradeço a Deus por esses 25 anos de ministério e a todos os que me ajudaram ao longo dessa caminhada”. Também não quis celebrar o cinquentenário da criação da paróquia de Sant’Ana, em 17 de janeiro de 2009.

Pe. Pedro não aceitava submeter-se a um tratamento mais prolongado, que lhe foi oferecido, e assim o câncer no fígado foi dominando seu organismo. Quem o via sozinho, sentado na calçada da casa paroquial, em silêncio, não percebia que Pe. Pedro se preparava para morrer e, o que é mais doloroso, Pe. Pedro queria morrer.

Finalmente, em 10 de agosto de 2010 foi internado no Hospital de Tijucas, depois no Caridade de Florianópolis e, em busca de especialização, no Hospital Evangélico de Brusque. Foi longo e doloroso seu calvário de 47 dias. O arcebispo Dom Murilo Krieger assim falou na homilia exequial: “A morte de nosso irmão sacerdote Pe. Pedro Luiz Azevedo não foi uma surpresa para nós: surpresa foi sua resistência e a longa duração de seu Calvário. Como pude lhe dizer por ocasião da última visita que lhe fiz, na UTI do Hospital Evangélico, em Brusque: Hoje, sua cama é seu altar; seus sofrimentos se unem aos sofrimentos de Cristo; mais do que nunca, você está vivendo seu sacerdócio”.

Na última visita que Dom Murilo lhe fez, ele não podia mais falar mas, ao chegar perto de sua cama, viu que uma lágrima descia pelo canto de seus olhos: “Aquela lágrima era uma palavra, uma grande palavra, ainda mais partindo dele, que sempre procurava disfarçar seus sentimentos. Que esta sua lágrima, expressão de tudo o que viveu nas últimas semanas de sua vida, seja fonte de vida para muitos e de novas vocações sacerdotais para a Igreja”.

Após 57 anos de existência e 28 dedicados ao sacerdócio, às 21 horas de 07 de outubro de 2010, Pe. Pedro nos deixou. No dia seguinte, dia 08, seu corpo foi velado na igreja matriz de Sant’Ana de Canelinha, com a sentida presença do povo. Às 15 horas, Dom Murilo presidiu a Missa de Exéquias e, em seguida, seus restos mortais foram sepultados no cemitério Parque da Saudade em Brusque, na área reservada aos padres diocesanos de Florianópolis.

Pe. Pedro, na sua simplicidade pessoal e seriedade no trabalho,  deixou-nos a recordação um homem digno do nome sacerdotal.


Pe. José Artulino Besen

 

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PAPA FRANCISCO NOS 500 ANOS DA REFORMA

Francisco visita os luteranos na Suécia

Francisco visita os luteranos na Suécia

No dia 31 de outubro de 1517 Frei Martinho Lutero afixou suas 95 teses sobre as Indulgências na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg. Foi o início não planejado da Reforma que levou à divisão da Igreja entre Católica e Luterana, levou às guerras religiosas, à fragmentação da Alemanha, à divisão da unidade européia que tinha como fundamento histórico a fé católica. Somente a Itália, Espanha e Portugal permaneceram católicos.

No dia 31 de outubro de 2016, o Papa Francisco e Igrejas luteranas celebrarão um Culto ecumênico pela passagem dos 500 anos do início da Reforma, com o tema da ação de graças, da penitência e do compromisso no testemunho comum. O objetivo é expressar os dons da Reforma e pedir perdão pela divisão perpetuada pelos cristãos das duas tradições. E, pela primeira vez, a celebração não será marcada pelos ataques teológicos, pela culpabilização, pela busca de quem estava/está certo ou errado. Afinal, quando se processa uma divisão entre irmãos na fé, com o ódio pelo outro, há culpa e acerto nos dois lados. Ecclesia semper reformanda é um mandamento que vale para o século XVI e o século XXI. Do mesmo modo que Francisco busca renovar a Igreja católica a partir da fidelidade ao Evangelho, os evangélicos também necessitam de uma renovação interior no confronto com as Sagradas Escrituras.

O encontro celebrativo dos 500 anos da Reforma será em Lund, cidade sueca onde em 1947 foi fundada a Federação Luterana Mundial, que hoje congrega 147 Igrejas protestantes.

Alguns dados biográficos do reformador alemão

Martinho Lutero (Martin Luther) nasceu em 1483 em Eisleben, de pais camponeses. Vencendo as limitações econômicas da família, entre 1501-1505 estudou na Universidade de Erfurt. Em 18 de julho de 1505, após muitas dúvidas e reflexões, entrou no Convento dos Eremitas Agostinianos de Erfurt, onde foi ordenado padre em 1507.

Em 1512, Lutero é superior do Convento Agostiniano de Wittenberg, doutor em teologia e em exegese bíblica, lecionando as Cartas paulinas aos Gálatas e ao Romanos.

Por uma formação religiosa deficiente, onde contava muito o peso e o medo da condenação eterna, Lutero sofria o pavor do inferno, e era escrupuloso. Alcançou a paz interior entre 1512-1513, na famosa Experiência da Torre (Turmerlebnis): após muita oração, Deus lhe permitiu descobrir que a salvação é dada ao homem somente pela fé em Cristo, como puro dom, e não como recompensa pelas obras: “O justo vive pela fé”  (Rm 1,17). Sentiu paz interior e nunca mais a perdeu, mesmo no ardor dos embates em que esteve envolvido.

Frei Martinho Lutero, um homem religioso

Martinho Lutero não era um monge corrupto, degenerado, psicopata, mentiroso, como durante séculos quis ensinar a apologética católica. Foi monge, viveu como monge e morreu casado; não foi anjo, nem demônio, mas testemunha de Cristo. O século XVI, século da Reforma, mostrou com clareza as deficiências da organização eclesiástica e, o que era mais grave, as deficiências na condução da espiritualidade e piedade cristãs.

Hoje, todos reconhecem em Lutero uma autêntica religiosidade. Teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nulidade, que vencia por uma entrega total a Cristo e uma confiança cega nele e em sua redenção. Possuía um sentido trágico da miséria humana, da qual deriva a escassa ou quase nula utilidade das muitas práticas religiosas. Grande apego à oração e uma imensa confiança na graça. A tudo isso, unia um grande amor pelos pobres.

Pela sua índole, pelos seus dotes de pregador, de chefe, de guia, pela vivíssima fantasia, rica em imagens, demonstrava estar convencido de ser enviado por Deus para anunciar uma experiência íntima e transformadora, único caminho de paz e salvação. Lutero tinha sido feito para inflamar as massas populares e convencer e agitar os ouvintes. O dom de comando, nele, se unia a uma irradiação interior e grande sensibilidade pelos outros.

Era dotado de caráter forte, unilateral, impulsivo, forte subjetivismo, com pouca disposição para aceitar mediadores entre Deus e os homens. Autêntica e profunda religiosidade, mas tendência ao autoritarismo e violência. Mesmo reconhecendo nele toda a seriedade religiosa, pode-se afirmar que faltou-lhe uma autêntica humildade, a capacidade de ouvir os outros, a Igreja.

O jesuíta alemão Ludwig Hertling, historiador da Igreja católica, reconhecendo a aventura espiritual de Lutero, afirma que por sua personalidade, força de comando, acentuou no caráter alemão algumas características que se impuseram nos séculos seguintes, até de modo trágico: a autossuficiência, arrogância, orgulho nacional, o sentido dos deveres cívicos.

É fácil e confortável apontar as deficiências de um homem, mas não se pode ignorar que Lutero foi um homem religioso, homem de oração. Sua vida não pode ser confundida com as turbulências da Reforma, onde o desejo de uma fé pura misturou-se com a ambição de príncipes ansiosos para tirar proveito das divisões e apossar-se dos bens da Igreja.

O papa João Paulo II [1], escreveu em 31 de outubro de 1983 : “Os esforços dos evangélicos e católicos que, em grande medida, coincidem nos resultados, permitiram delinear um quadro mais complexo e articulado da personalidade de Lutero e do complexo entrelaçamento das circunstâncias históricas, da sociedade, da vida política e da Igreja na primeira metade do século XVI. Resplandeceu evidente a profunda religiosidade de Lutero, com a sua problemática da salvação eterna vivida com ardente paixão”.

Os estudos do século XX revelaram com clareza a profunda religiosidade de Lutero, homem cujo impulso e paixão era a pergunta sobre a salvação eterna.

Tudo requer uma pesquisa sem preconceitos para se revelar uma imagem justa do reformador, e não somente dele, mas do período da Reforma e das pessoas nela envolvidas, reconhecendo a culpa de uma e de outra parte. Uma atitude de purificação através da verdade permite-nos encontrar uma comum interpretação do passado e, ao mesmo tempo, construir um novo ponto de partida para o diálogo hoje obtido pela clareza histórica.

O estudo dos escritos confessionais evangélico-luteranos encontram sua base sólida naquilo que nos une também depois da separação: a Palavra da Escritura, as Profissões de Fé e os Concílios da Igreja antiga.

João Paulo II, conclui: “Na humilde contemplação do Mistério da divina Providência e na devota escuta daquilo que o Espírito de Deus hoje nos ensina na recordação dos acontecimentos da época da Reforma, a Igreja tende a dilatar os limites de seu amor, para ir ao encontro da unidade de todos aqueles que, através do Batismo, carregam no nome de Jesus Cristo”.

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O drama de Martinho Lutero: como posso me salvar?

Lutero saiu da Igreja após séria luta e sem ter intenção de fazê-lo. Tornou-se reformador na luta contra uma interpretação do catolicismo que de fato era cheia de deficiências. Deixou a Igreja para descobrir aquilo que é o centro da própria Igreja: o primado da graça.

Por que houve a Reforma? Hoje podemos afirmar que ela foi provocada pelos católicos, pois Lutero era católico, monge sério e sincero, que nunca quis deixar de ser católico. Séculos de aversão a Roma, envolvida na política internacional, mergulhada no Humanismo renascentista, a decadência da própria vida católica alemã, com uma hierarquia não livre de máculas morais e corrupções (houve bispos que não celebraram três missas em longo episcopado!), mosteiros decadentes, fizeram com que boa parte da população alemã visse na pregação de Martinho Lutero o renascer do verdadeiro Cristianismo. Isso ajuda a entender porque tantos alemães, desde Carlos Magno fiéis e dóceis ao Papa, tenham aceitado romper a unidade católica.

Bento XVI analisou com empatia a questão central de Frei Lutero[2]: O que não lhe dava paz era a questão sobre Deus, que foi a paixão profunda e a mola mestra de sua vida e de seu caminho. “Como posso ter um Deus misericordioso?”: esta pergunta lhe penetrava no coração e estava por trás de toda sua pesquisa teológica e de toda a luta interior. Para Lutero, a teologia não era uma questão acadêmica, mas a luta interior consigo mesmo, na luta a respeito de Deus e com Deus. “Como posso ter um Deus misericordioso?”. Escreve Bento XVI: “que esta pergunta tenha sido a força motora de todo o seu caminho me toca sempre novamente o coração. De fato, quem hoje ainda se preocupa com isso, mesmo entre os cristãos? O que significa a questão sobre Deus em nossa vida?”.

 A pergunta “qual é a posição de Deus em relação a mim? Como eu me encontro diante de Deus?”, esta palpitante pergunta de Lutero deve novamente, e em forma nova, ser a nossa pergunta, não acadêmica, mas concreta.

O pensamento de Lutero, toda a sua espiritualidade era de todo cristocêntrica: “O que promove a causa de Cristo” era, para Lutero, o critério hermenêutico decisivo na interpretação da Sagrada Escritura. Isto pressupõe que Cristo seja o centro de nossa espiritualidade e que o amor por ele, o viver junto com ele oriente a nossa vida.

A coisa mais necessária para o ecumenismo é, antes de tudo que, sob a pressão da secularização, inadvertidamente não percamos as
grandes coisas que temos em comum, que nos tornam cristãos. O erro da época confessional foi ter visto mais o que separa, e não ter percebido em modo existencial aquilo que temos em comum nas grandes diretrizes da Sagrada Escritura e nas Profissões de fé do cristianismo antigo.

Em sua passagem por Lund, casa mundial do Luteranismo, Francisco nos ensinará a levar adiante, com decisão, o caminho do ecumenismo, da busca da unidade na diversidade.

Pe. José Artulino Besen


[1] Mensagem de João Paulo II ao Cardeal J. Willebrands, Presidente do Secretariado para a unidade dos Cristãos, em 31 de outubro de 1983, por ocasião do 5o centenário de nascimento de Lutero.

[2] Discurso de Bento XVI no encontro com representantes da Igreja Evangélica na Alemanha, em 23 de setembro d 2011, na Sala do Capítulo do ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt.

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