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COMUNHÃO ESPIRITUAL – DEVOÇÃO E EUCARISTIA

Esperando a Missa de Páscoa em Kiev

Há intuições do devocionário popular que, confrontadas com a Liturgia, podem ganhar um significado profundo e serem símbolos de uma verdade maior. É o caso da “comunhão espiritual”: era e é recomendada para quem não pode participar da Missa, ou por não haver a Celebração pela ausência do padre ou por impedimento de consciência, como viver situação irregular. Na piedade popular mais estimulada nos seminários, conventos e associações religiosas era a “oração do desejo de comungar”, donde comunhão espiritual, não real, como se o espiritual pudesse ser não real. Por ocasião de aniversários, tempos fortes, se estimulavam os “ramalhetes espirituais” nos quais a comunhão espiritual ganhava destaque e tinha o peso medido pela quantia de vezes.

Os atos devocionais podem ter origem tanto na ausência/desconhecimento da Palavra de Deus e da Liturgia quanto num conhecimento menos eclesial da Palavra, ou então são a cristianização de ritos de outras religiões.

Não se quer negar o mérito ou a qualidade das devoções, apenas dizer que podemos extrair desse poço valores teológicos para elas.

Encontramos no Profeta Malaquias (480/460AC), o último na lista dos profetas bíblicos, uma profecia messiânica que nos insere no caminho da Comunhão espiritual: “De onde nasce o sol até onde ele se põe, o meu nome é glorificado entre as nações, e em todo lugar se oferece a meu nome um sacrifício puro, porque meu nome é glorificado entre as nações – diz o Senhor (Ml 1, 11). Malaquias fala de um sacrifício puro de louvor celebrado ininterruptamente em todas as nações. Não há momento ou lugarem que Deus não esteja recebendo esse sacrifício verdadeiro.

A Liturgia católica, na Oração eucarística III, após o canto do Santo, nos insere nessa profecia messiânica ao iniciar e epíclese: “Na verdade, vós sois santo, ó Deus do universo, e tudo o que criastes proclama o vosso louvor, porque, por Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso, e pela força do Espírito Santo, dais vida e santidade a todas as coisas e não cessais de reunir o vosso povo, para que vos ofereça em toda parte, do nascer ao pôr-do-sol, um sacrifício perfeito”.

A cada momento e em todo lugar, por Cristo, na força do Espírito, o Pai nos reúne para um sacrifício perfeito celebrado ininterruptamente, do nascer ao por do sol. Não podemos imaginar que em algum instante não se esteja unido ao Deus Uno e Trino com o sacrifício eucarístico. A Eucaristia é a celebração da Cruz e Ressurreição do Senhor, celebração do mistério em que, pela força gerada no Amor crucificado, nossos pecados são perdoados.

O drama da redenção pela Cruz é situado historicamente: em Jerusalém, numa sexta-feira da primavera do ano 32. Com isso podemos dizer que nessa data há um antes e um depois da Cruz, mas, no momento da Morte (tempo)-Ressurreição (eternidade) se revela a divindade do Senhor e a Eucaristia sai do tempo histórico e penetra na eternidade divina. Por quê? Deus é eterno, sem passado ou futuro e a Liturgia se realiza fora do tempo. Nossa vida humana transcorre nos fragmentos do tempo histórico, é verdade, mas nossa redenção se situa no eterno de Deus.

Assim, a Liturgia revelada no Apocalipse, em que o Cordeiro imolado desde a fundação do mundo assume o trono donde jorra a água redentora para o perdão dos pecados, permanece até o final da história (cf. Apc 21, 22-25): Cristo, o Cordeiro, é o templo onde se realiza a história. Cristo continua crucificado e ressuscitado, pois disse: “Se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados”; “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que EU SOU” (cf. Jo 8, 24.28). EU SOU é o nome de Deus, é a afirmação da divindade de Jesus o Cristo. Seguindo a palavra de João, Deus está crucificado e é na Cruz que se revela o Filho eterno. Desse modo o sacrifício redentor – a Eucaristia – se estende a todos os tempos e lugares, do nascer ao pôr-do-sol.

Se crermos no Crucificado, temos continuamente o perdão de nossos pecados, continuamente Cristo se oferece ao Pai por nós, na força do Espírito Santo. Esse gesto redentor não comporta datas e tempos, porque é obra divina, eterna. Cada comunidade eucarística intercede por toda a criação.

A Comunhão espiritual eucarística

Não há instante ou lugar em que não seja oferecido o sacrifício perfeito anunciado por Malaquias e proclamado na Liturgia. Isso nos dá uma grande alegria: espiritualmente participarmos da Eucaristia, hino de ação de graças e remissão dos pecados. Todo o cosmos é transformado e santificado pela Eucaristia, pois o Messias crucificado e ressuscitado a tudo consagra, e sempre, e em todo lugar.

Deste modo, a Comunhão espiritual pode ir muito além de um piedoso desejo de receber a Comunhão, de ser ato individual de alguém privado da Missa. A Comunhão espiritual é eucarística, é redentora, pois é participação real do mistério do Cordeiro imolado, cujo fruto é a remissão de nossos pecados. Ao invés de pensarmos numa igreja onde a Eucaristia é celebrada, creiamos que estamos mergulhados na Eucaristia cósmica, participando do sacrifício permanente e perfeito. Os pecados de todos os que crêem entram em contato e perfeitamente em comunhão com aquele que os perdoa. A cada comunhão espiritual eucarística somos o filho pródigo sendo recebido pelo Pai e recriado pela sua misericórdia.

São Francisco de Assis pediu que seus frades, quando passassem diante de uma igreja ou dum crucifixo, ou mesmo avistando de longe uma torre, se ajoelhassem e recitassem a pequena oração: “Nós vos adoramos e bendizemos, Senhor Jesus Cristo, presente aqui e em todas as igrejas do mundo”. Na Comunhão espiritual podemos e devemos rezar: “Nós vos louvamos e glorificamos, Senhor nosso Pai, e estamos unidos à Eucaristia que vossos filhos celebram nesse momento em todos os lugares do mundo”.

Pe. José Artulino Besen


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ANTONIETA – UM MILAGRE DO AMOR DIVINO

Antonieta aos 6 anos

Antonieta, carinhosamente chamada de Nenolina, teve reconhecidas suas virtudes heróicas em 17 de dezembro de 2007: isso significa que viveu em grau de perfeição as virtudes da fé, esperança e caridade. Um passo importante no caminho de sua canonização. O Papa Bento XVI afirmou, na ocasião, que “Nenolina alcançou o cume da perfeição cristã que todos somos chamados a escalar, percorreu velozmente a estrada que leva a Jesus. Sua existência, tão simples e ao mesmo tempo tão importante, demonstra que a santidade é para todas as idades: para as crianças e os jovens, para os adultos e idosos. Cada estação de nossa existência pode ser boa para decidir amar Jesus e para segui-lo fielmente”.

O Dicionário de Mística, que trata dos grandes mestres da vida espiritual e da santidade cristãs, lhe dedica seis colunas (Santo Antão, fundador da vida contemplativa no deserto do Egito, recebe duas colunas!).

Por sua vida se interessou Mons. Giovanni Montini, que em 1963 foi eleito Papa e escolheu o nome de Paulo VI. Foi estudada pelo famoso psicólogo italiano Agostinho Gemelli. E todos tinham uma só palavra: foi uma santa, dotada de equilíbrio incomum, alcançando a plena maturidade espiritual e humana.

Margarida, sua irmã, agora com 87 anos, vive na mesma casa romana em que morou Antonieta. Declara, lembrando a irmã: “A vida santa e bela de Antonieta é um exemplo de santidade nas coisas pequenas: para mim, ser santa é aceitar dia a dia o que Deus quer e amar todos os demais, também as pessoas que parecem que não amam. Com o amor se podem superar todos os obstáculos”.

E então, quem é essa Antonieta tão especial?

Uma criança. Sim, uma criança que morreu com pouco mais de seis anos de idade. Gostava de brincar, de estudar, era menina travessa nas ruas romanas perto das Basílicas de São João de Latrão e da Santa Cruz. Seu pai era funcionário do Reino italiano. Sua mãe, uma esforçada cristã dedicada às filhas Margarida e Antonieta. Viveu entre 15 de dezembro de 1930 e três de julho de 1937.

Antonieta foi apenas uma criança, morta antes de completar os sete anos. Mas, é considerada mestra de vida espiritual, verdadeira teóloga da Santíssima Trindade, profunda conhecedora da vida divina. Viveu, como poucos santos, o mistério da Cruz, as dores de Jesus no Calvário.

Estudou? Tudo isso a partir dos quatro anos, quando nem havia entrado na escola. Primeiro ditou bilhetes que sua mamãe guardava. Mais tarde, ao saber escrever, os bilhetes enviados a Deus, a Nossa Senhora eram escritos por ela.

Antonieta é um milagre do amor divino que infundiu-lhe a sabedoria cristã quando ela tinha completado quatro anos. Dali em diante, a Sabedoria divina tomou conta dessa pequena e graciosa menina que aceitou fazer companhia a Jesus no Monte Calvário. Primeiro veio o câncer, depois a amputação de uma perninha, em seguida cruel metástase que a fez passar por todas as dores, silenciosamente, com um sorriso nos lábio, nenhuma queixa, nenhum gemido. Feliz por fazer companhia a Jesus no Calvário.

A pequena Nenolina oferecia cada dor pela conversão dos pecadores, pelas missões, pela família, pela Igreja, pelo Papa. Fez-se vítima de expiação.

Quando Antonieta for canonizada, será a mais jovem santa não mártir da Igreja. Uma santa atual, um testemunho para nossos dias.

Seu sagrado corpo está sepultado na Basílica de Santa Cruz, em Roma, perto das relíquias da Paixão de Cristo. Seu corpo também é relíquia de uma paixão por Cristo e pelo mundo.

Apresentando Antonieta para nós, certamente Jesus dirá: “Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos!” (Mt 11, 25).

Pe. José Artulino Besen

(Se você estiver interessado em conhecer a vida dessa pequena teóloga, publiquei um livrinho pela Editora Missão Jovem – fone 48 3222-9572).

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SANTIDADE E INTIMIDADE

Comunhão de Vida (pintura a óleo de Margherita Pavesi-Bose)

Comunhão de Vida (pintura a óleo de Margherita Pavesi-Bose)

A vida cristã é caminho de santidade, pedagogia de santidade, é busca feliz de Deus  (Lev 11, 44). Santo é quem está consagrado a Deus.  Santificar é tornar íntegro, inviolável, o contrário de mundanizar, isto é, ser possuído pelo espírito do mundo, do espetáculo, perder a intimidade.

O santificado revela somente a Deus sua intimidade pessoal; o mundanizado, por sua vez, tudo revela em busca de apoio, complacência, dinheiro, sucesso.

A Igreja antiga tinha muito pudor com as coisas santas. São nossos conhecidos os Sermões mistagógicos (Sermões sobre os Mistérios), pronunciados após a administração de um Sacramento. Quem não era batizado permanecia na igreja até o final da Liturgia da Palavra, pois a Liturgia eucarística estava reservada aos batizados, aos que tinham sido iniciados nos Mistérios. Ao catecúmeno (o que se preparava para o Batismo) quase tudo era ensinado, menos a revelação final do mistério batismal: essa era feita na catequese mistagógica pós-batismal.

A publicidade faz perder a santidade do sagrado, expondo tudo ao público. Madre Teresa não conseguia explicar a Inspiração que a fizera consagrar-se aos pobres mais pobres. Respondia: “Eu disse a Jesus que levasse tudo, para que eu não tivesse que explicar. Quando tornamos algo público, ele perde a santidade”.

Alguns não conseguem adorar o Santíssimo sem ter aberta a porta do sacrário. Mas, é exatamente a porta fechada que leva à adoração daquele que ama escondido, que aceita ser adorado em sua intimidade. Quanta Beleza num sacrário fechado, mas totalmente aberto aos amantes que o contemplam.

A cultura da publicidade a qualquer preço destrói a intimidade e com isso torna as pessoas manipuláveis. Há algo mais constrangedor que afixar cartazes e faixas com a face do Senhor sofredor convidando para a Procissão dos Passos? A Paixão de Cristo deixa de ser ato redentor para ser fato cultural. Os que o amam no Caminho da dor querem contemplá-lo em silêncio, quase em segredo. Com recato, um dá a notícia ao outro e se reúnem na Procissão dos que sofrem vendo o Amor que não é amado.

E a blasfêmia de anunciar a Procissão de Corpus Christi como “espetáculo” da tradição religiosa? O Senhor da Humildade, reduzido a um pedaço de Pão, quer ser contemplado por amigos que o adoram em sua pobreza e não olhado por curiosos.

Vivemos um período de teologia fraca, a la carte, o que representa um enorme perigo para a integridade da mensagem cristã. Em busca de fiéis fala-se muito em Santo poderoso, cada um com sua especialidade, vendem-se Medalhas milagrosas de São Bento, Novenas fortes e poderosas, traficante não se expõe sem um forte escapulário. Onde fica o Senhor?

A superficialidade teológica se traduz em superficialidade mistagógica: ministro acha que seus paramentos dourados são evangelizadores, as equipes enfeitam a Missa. Mas, o Senhor crucificado não está nu? Quer-se tudo exposto em veste popular e assim perde a santidade.

Num dia, a anestesia da publicidade religiosa a qualquer preço e a instrumentalização do sagrado despertará. O que teremos? Multidões aflitas em busca de milagres, multidões que não conhecem a Palavra de Deus, mas acreditam em poderes mágicos, multidões que confundem fé com prazer, com o “agradável”, multidões que fogem do Cristo crucificado trocando-o por produtos religiosos que geram prosperidade. Uma pena, depois de todo o esforço do Vaticano II colocando como fonte da santidade a Palavra e o Sacramento. E corremos o perigo de retornar a buscá-la no devocional.

Profunda a palavra de um teólogo que anunciava uma Igreja confessante, corajosa, mártir: “Que outro é o preço que hoje pagamos… se não uma necessária conseqüência da graça alcançada a baixo preço? Por baixo preço se proclamava o anúncio, se administravam os sacramentos, se batizava, se dava a crisma, se absolvia o povo inteiro, sem que fossem postas perguntas ou condições” (D. Bonhoeffer: Discipulado). Para ele, o preço foi o martírio no campo de concentração. A santidade tem alto preço: a própria vida.

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SOMENTE EM DEUS TEREMOS A PAZ

“A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo.” (Sl 41,3)

Assim como o sedento busca desesperadamente uma fonte onde saciar sua sede, assim nossa alma busca a Deus.

A sede prolongada amortece os sentidos, enlouquece, mata. A alma impedida de buscar o Deus da Vida perde sua vitalidade essencial e loucamente sai em busca de qualquer coisa que a sacie. Vai se iludir no barulho, nas distrações sem sentido, nas intrigas, na vaidade, acaba se afundando no egoísmo e, daí para a frente, busca a vida morrendo nas drogas do ter, do prazer e do poder. Torna se perigosa. Sem limites em sua busca de vida que gera a morte lenta da própria dignidade humana.

Somos feitos para Deus. É nele que encontraremos a paz, afirmou Santo Agostinho, após procurá-la, em vão, no prazer, na inteligência, no sucesso pessoal. Quando se encontrou com Deus, teve paz, teve vida. E soube abrir se para os irmãos, para uma vida de consagração e realização.

Deus colocou a sede dele em cada um de nós. É impossível ficarmos indiferentes diante dele: não procurá-lo é frustrante, pois continuaremos sempre sedentos. Querendo ou não, toda a existência é uma busca de comunhão com ele. Se dele fugirmos, acabaremos nos procurando somente a nós mesmos, e não encontraremos nada que nos realize. Pior: pensamos tudo ter encontrado, buscamos o nada com mais força ainda, e mergulhamos no precipício que nos afasta da vida.

Só em Deus encontraremos repouso. Ele é o ponto de partida para nossa viagem ao encontro dos irmãos. Nele está a força para uma existência feliz, apesar dos problemas, dos sofrimentos. Dele vem a energia vital que nos faz vencedores, apesar das derrotas.

Um homem que não descobriu que seu ser procura a Deus, continua com sede, e irá aplacá-la aumentando a mais ainda. Estará satisfeito no mundo das ilusões, onde só se encontra consigo mesmo.

É vital que saibamos que o afastamento de Deus em nossa vida não é progresso. Teremos, é verdade, uma sensação de liberdade sem limites, acharemos que, enfim, estamos livres de qualquer amarra para realizarmos nossos desejos. No final, veremos que a liberdade foi escravidão. Pensávamos estar livres de tudo, mas estávamos amarrados na pior das escravidões: de nós mesmos, de nosso egoísmo, vaidade, rancor.

Nossa alma tem sede de Deus. Ele é a fonte cristalina a jorrar água que sacia.

Na existência terrena, a sede sempre continuará, pois Deus nunca será totalmente possuído por nós. Na eternidade, enfim, contemplando o face a face, teremos a paz perfeita.

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BENTO XVI – «A FÉ E A RAZÃO»

Quando os nervos estão à flor da pele, qualquer palavra serve de gatilho e dispara a bala. Foi assim com as palavras do Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg (12-09). O tema tratava de um assunto necessário e atual: a relação entre fé e razão. Quando se tira a razão da fé, cai-se na violência, pois torna-se incapaz de compreender a razão do outro. Sempre que se tira uma afirmação de seu contexto se age ou por má fé ou por maldade mesmo. Foi o que aconteceu nestes dias com as explosões anti-papais por multidões manipuladas por líderes violentos, que aproveitaram da ocasião para destilar todo o veneno anti-ocidental, misturando Bento XVI com Bush e o império americano com o cristianismo. Alguns católicos acharam que o Papa não devia ter mexido com isso, como se o Papa fosse um adolescente improvisando afirmações.

Bento XVI buscou um exemplo no século XV, numa citação do imperador bizantino Manuel II Paleólogo (1350-1425), que acabara de sair de uma prisão muçulmana. A declaração do imperador de que a religião de Maomé na sua difusão estava ligada à violência foi até profética: menos de 30 anos após sua morte, em 1453 a cidade de Constantinopla caía nas mãos dos turcos muçulmanos, as igrejas cristãs foram transformadas em mesquitas e a cidade mudou o nome para Istambul.

O Papa poderia ter citado exemplos da própria Igreja nos tempos da Inquisição, do fanatismo de hindus perseguindo católicos e suas obras na Índia, mas citou um exemplo atual: a dificuldade que o Ocidente tem de compreender o complexo mundo muçulmano e a dificuldade que o mundo muçulmano tem de compreender o liberal Ocidente. Bento XVI, teólogo e filósofo refinado, com muitos anos de estrada no diálogo religioso e ecumênico, não foi ingênuo: foi sábio. Contrapôs a Fé-Razão à Fé-Violência. Pouco antes tinha afirmado a impossibilidade de se usar Deus para matar, coagir, perseguir. Ou se crê no Deus da paz e da fraternidade ou se está crendo num ídolo e mergulhando no fanatismo.

O Papa pediu desculpas por ter sido mal interpretado. Evidente que não poderia pedir desculpas pelo que não fez: ofender o profeta Maomé. Homem espiritual, o Papa não alimenta ódio pela diferença religiosa, mas respeito pela consciência de cada um e exigindo que também se respeite a consciência dele.

Respeito não quer dizer aceitação. Um cristão não admite que Deus ditou o Alcorão a Maomé e que ele é o único profeta. Do mesmo modo, um muçulmano não admite que Deus enviou seu Filho Jesus Cristo ao mundo; diz que “o que afirma que Deus tem um Filho deve ser destruído e sepultado no inferno”. Um cristão aceita que um muçulmano pode tornar-se cristão e vice-versa; já o muçulmano afirma que se alguém deixa o Islã,deve ser morto. Nós afirmamos que a pessoa nasce à imagem e semelhança de Deus e que no decorrer da existência forma sua consciência religiosa; para os seguidores de Maomé, toda pessoa nasce muçulmana e, se não o é mais, é por culpa. O islamismo é totalizante: a apostasia da fé destrói a união da família, da comunidade e da nação. No campo religioso, portanto, subtraindo o comum monoteísmo, não há diálogo possível, a não ser o diálogo do respeito, do trabalho pela paz e pela justiça.

Nós, ocidentais, distinguimos entre a esfera política e a religiosa: um país de maioria cristã não pode impor a fé cristã; para os muçulmanos, o Estado tem que ser religioso e governado pelo Alcorão e pela Sharia (código penal muçulmano).

E então? Não há saída possível? Evidente que sim! Mesmo que estejamos convencidos de que a religião pode dividir, que muitos fundamentalistas suprimam o uso da razão na vivência religiosa, há algo de muito profundo que nos une: somos humanos. Apesar de todas as diferenças, e enriquecidos por elas, pertencemos à família humana, à família de um único Deus. “O mundo, nas palavras do Patriarca de Antioquia Inácio IV, nada mais é do que o banquete ao qual Deus convida todos os seus filhos, sem nenhuma exclusão […] e nós somos chamados a enxugar as lágrimas de todos aqueles que choram”.

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O CRISTÃO, IMAGEM DA BELEZA

A beleza de Cristo crucificado está na sua bondade, na sua justiça. Sua beleza é a do amor divino que se rebaixa para elevar a humanidade, e a cruz é uma de suas expressões máximas. Uma pessoa boa tem o mesmo efeito de uma obra de arte: dela nos aproximamos em invejosa contemplação.

Um velhinho, vergado pelos anos, enrugado pelos trabalhos é belo quando acarinha uma criança, desfia o rosário. Bela é a mãe que contempla o filho morto e reúne forças para dizer “Meu filho!”. A consolação e a compaixão são as mais fortes expressões do belo. A dor inefável torna-se consolação através de mãos que acarinham, protegem, partilham. Os pobres que conservam a fé não perdem a alegria da beleza sem limite.

O belo é também consolação na dor: a paisagem, as crianças irrequietas, as flores, o canto dos pássaros permanecem enquanto sofremos, e podem nos consolar.

A própria criação espera o momento de se libertar do vazio que a oprime, para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus (cf. Rom 8, 18-25).

Tudo é missão, tudo é anúncio de uma realidade que ultrapassará toda a realidade sentida e contemplada agora. Nunca podemos esquecer: o fruto final da missão cristã é o anúncio da ressurreição, da libertação final, da gloriosa e feliz contemplação da Beleza eterna, o nosso Deus e todos os que aceitaram participar de seu Banquete.

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A MISSÃO CRISTÃ E A PLANTAÇÃO DA IGREJA

“Enquanto os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas, para os eleitos, força de Deus e sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1, 22-24).

Ide por todo o mundo...

Ide por todo o mundo…

A história da missão cristã tem uma companheira inseparável: a cruz do Senhor. Se produziu mártires, o anúncio da fé cristã foi fecundo; se não os produziu, restou estéril. Quando Pedro quis afastar da cruz e da morte o Senhor, a reação foi imediata: “Vai para longe, Satanás! Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” (cf. Mt 16, 23). Um Messias milagreiro, poderoso, sonho da humanidade, seria estéril, pois reproduziria a tentação diabólica do prestígio e do poder. Não bastava ressuscitar Lázaro: era necessária atravessar o caminho do amor total, dando a vida pela vida do mundo.

A glória da Igreja são seus mártires: seu sangue derramado fecundou a terra onde ela foi plantada. A videira/Jesus somente deu fruto com o Pai/agricultor que escolheu adubar a terra esterilizada pelo pecado com o sangue de seu Filho. A plantação da Igreja segue o mesmo caminho: cada missionário é a videira que dá frutos aceitando que o Pai seja o agricultor, fertilizando a terra com seu sangue, que pode ser a humilhação, o cansaço, o fracasso, a fome, a doença, a perseguição, a morte. Tanto a terra como o semeador e a semente passam por um processo de morte e vida: a terra é limpa, cavada, revolvida; na sua semente o semeador semeia-se também; e a semente, se não morre, não germina.

Pavel Florenskij (1882-1937), grande teólogo e cientista russo, após anos de trabalhos forçados nos campos de concentração soviéticos, escreveu, às vésperas de ser fuzilado a mando de Stálin: “O destino de grandeza é o sofrimento, causado pelo mundo exterior e pelo sofrimento interior. Assim foi, assim é, e assim será”.

O cristão não ama a vida?

Mas, seria uma pergunta justa: teriam razão os pagãos quando acusavam os cristãos de misantropia, pessoas com raiva da vida e que procuram o sofrimento? Seria o Cristianismo a fé dos fracassados? Do mesmo modo que o santo homem Jó permanece a figura símbolo do Antigo Testamento, o Cristo crucificado é a realização e o símbolo da Nova Aliança. A única resposta possível é o silêncio dos que crêem, o silêncio feliz dos missionários e dos cristãos em terras de missão: “A cruz de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa glória: nele está nossa vida e ressurreição; foi ele que nos salvou e ressuscitou” (cf. Gl 6,14). É esse o segredo guardado como pedra preciosa pelos cristãos e anunciado aos povos: na cruz de Cristo está nossa vida e ressurreição. A cruz que fecunda a terra liberta da morte e faz viver a vida em plenitude.

O missionário anuncia o amor de Deus, e este é o princípio, o meio e o fim da cruz: todo e somente o amor de Deus Pai que crucifica, o amor do Filho que é crucificado e o amor do Espírito Santo que triunfa pelo poder da cruz (cf. Filarete de Moscou, 1873). Quando o missionário anuncia esse amor total de Deus, tem a consciência de estar encarnando parte desse amor, sente que está sendo digno de ajudar a salvar o mundo derramando também seu sangue. O sangue dos mártires é sangue solidário. Os sofredores do mundo que oferecem a dor pela salvação dos homens estão intimamente possuídos pela felicidade de serem também cordeiros mansos e humildes sacrificados no altar da redenção.

Contemplam verdadeiramente Jesus os pobres do mundo, restos dos mesmos pobres que o contemplaram na Galiléia e na Judéia. Em si, o sofrimento não tem sentido, pois é fruto do pecado do mundo: mas, na contemplação do Cristo crucificado ele se une à potência vivificadora da cruz e gera a libertação do mundo. A fertilidade da missão é conseqüência da fertilidade da cruz, plantada no mais profundo dos infernos e alcançando o mais alto dos céus como potência vivificadora do Ressuscitado, nas palavras fortes de O. Clément.

A Igreja não vende facilidades, mas proposta de fidelidade à Cruz

Uma tragédia pervade certos ambientes eclesiásticos: confundir o anúncio do Evangelho com o sucesso estatístico. Caiu-se na moda do mundo e limpa-se o Crucificado de todas as chagas, enxuga-se no chão da Igreja qualquer vestígio de sangue. Prega-se o sucesso, não o martírio: vendem-se facilidades ao preço da esterilização cristã. Afugenta-se o martírio para que não sejam amedrontados os fregueses desse grande mercado em que ser quer transformar o solo eclesial. Quer-se tirar da vida cristã a dor que é compaixão, doação total, transformação interior, combate da fé.

O Cristo crucificado, marcado por feridas, pó e pus, é belo: seu rosto tem a beleza infinita do mais generoso dos corações, é expressão total da bondade. É esse o Cristo do missionário, é essa a beleza do seu rosto, reflexo de sua compaixão. A Igreja não pode fazer da missão uma empresa com metas seguras de sucesso: estaria escondendo o rosto solitário de seu Senhor crucificado para dar vida ao mundo. Sua glória é a cruz de Nosso Senhor, pois nele está nossa vida e ressurreição.

O Cristianismo está começando

Por que tantos mártires na história da missão? Por que Deus não livra seus mensageiros da passagem pela dor? A resposta é dada por aqueles que sofreram a perseguição e se prepararam para o martírio: quem participa do sofrimento de Cristo participa, já agora, de sua glória e somente deste modo pode ser considerado digno da ressurreição.

O caminho da cruz é sofrimento e sacrifício, mas é igualmente sinal da salvação e manifestação da glória de Deus. Aqueles a quem Deus permitiu o martírio deu-lhes a dignidade de viver a mesma paixão de Cristo, a mesma agonia e o mesmo abandono na cruz.

O comunismo e o nazismo, grandes tragédias do século XX, não enfraqueceram os cristãos, sobre quem recaiu sua fúria: tanto nos gulags russos como nos campos de concentração nazistas ecoava continuamente o grito de júbilo: Aleluia! Cristo ressuscitou!

O que debilita a Igreja não é a perseguição e sim, sua transformação em sinal frouxo de uma graça comprada a baixo preço, em sucesso à moda do mundo. No caminho da fé a juventude não busca facilidade, abundante em outras paragens. Ela busca o desafio da cruz redentora.

Desde o início e até o final da história ecoou e ecoará a mesma palavra feliz do Pe. russo Alexander Men’, às vésperas de seu martírio em 1990: “O Cristianismo está começando!”. Começando a cada vez que gera um mártir.

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