MISERICORDIA ET MÍSERA

Abraço de Francisco

Abraço de Francisco

No dia 13 de março de 2015, segundo aniversário de seu Pontificado, numa liturgia penitencial Francisco anunciou a celebração de “Um Jubileu extraordinário que tenha como centro a misericórdia de Deus. Será um Ano Santo da Misericórdia, para que vivamos à luz da palavra do Senhor: ‘Sede misericordiosos como o Pai’ (cfr. Lc 6, 36)”. Nesta celebração foi proclamado o Evangelho da mulher pecadora (Lc 7, 36-50), que colocou-nos diante da misericórdia e do julgamento. Uma mulher perdoada porque muito amou.

Mulheres, ícones da misericórdia

008-misericordiaHoje, 20 de novembro de 2016, papa Francisco fechou a Porta Santa da basílica de São Pedro, encerrando o Jubileu extraordinário do 29º Ano Santo da Misericórdia. No dia 21, Francisco publicou a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, e coloca-nos diante de outra mulher, perdoada porque muito amou (cf. 8, 1-11). “MISERICÓRDIA E MÍSERA (misericordia et misera) são as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11). Não podia encontrar expressão mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mistério do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador:  ´Ficaram apenas eles dois: a mísera e a misericórdia’”.

Objetivo do Jubileu foi agradecer a Deus Pai por sua eterna misericórdia e avivar sempre mais intensamente nossa fé/confiança na misericórdia divina. Francisco mergulhou o Ano Santo no despertar para o Concílio do Vaticano II (1962-1965) e sua mensagem de abertura eclesial para o mundo dos pobres, a Igreja servidora, Igreja missionária em saída, hospital de campanha, o diálogo ecumênico e inter-religioso.

 A partir da bula “Misericordiae Vultus” foi tocante e desafiador o compromisso papal com as obras da misericórdia corporal e espiritual, já um pouco esquecidas e agora reavivadas com a força do Espírito que impele a Igreja à misericórdia divina e à misericórdia com o próximo. A misericórdia foi orientada para os pobres, as vítimas da “guerra mundial em pedaços”, os 65 milhões de migrantes forçados, rejeitados como lixo pelas potências, a paz entre as nações, nela incluída a participação efetiva na pacificação interna da Venezuela, da Colômbia, de Cuba, de nações africanas em conflito. E, deve ser sempre mais recordado, o cuidado com a Casa Comum, o meio-ambiente, que mereceu a rica encíclica “Laudato si”. Francisco tornou-se a voz incômoda ao defender os pobres e a paz, defender a natureza violentada e que gera mais pobres. Com a “Amoris Laetitia” entoa um hino de louvor à família cristã e um hino de compreensão com os casais cuja primeira união fracassou. Ninguém está excluído do amor divino e do amor eclesial. Àqueles que preferem as certezas jurídicas admoesta: “certos rigorismos nascem de uma carência, de querer esconder dentro de uma armadura sua triste insatisfação pessoal”.

Peregrino da misericórdia

007-misericordiaNas Sextas-feiras da Misericórdia, Francisco realizou uma obra de misericórdia, dentro e fora de Roma, e podemos citar: o encontro amigo com prostitutas, travestis, transformers e gays, a visita às prisões, visita a doentes terminais, a jovens resgatadas da exploração sexual, aos tóxico-dependentes, recém-nascidos doentes, a favelas, celebração com presidiários e seus familiares na Basílica vaticana, a visita aos migrantes alojados na ilha grega de Lesbos que funciona como depósito de migrantes e cemitério de esperanças; visitou de improviso sete ex-padres e suas famílias, encontrou-se com os sem-teto, em outras palavras, colocou os excluídos e as periferias do mundo e da Igreja no centro da Igreja; e a canonização de Santa Teresa de Calcutá.

Viajou, e muito para um homem de 79 anos, para países das periferias geo-políticas, visitando católicos, ortodoxos, protestantes, judeus e muçulmanos, a ninguém rotulando de fieis ou hereges, revelando um coração completamente dominado pelo amor sem medida para os filhos de Deus. Não é dominado pelo instinto de conquista para as estatísticas católicas, inclusive rotulando de pecado o proselitismo, a pescaria de almas: “O proselitismo entre cristãos é um pecado grave. A Igreja não é um time de futebol à procura de torcedores” (Avvenire, 18/11/2016). Revelou profundo e respeitoso afeto e veneração por todas as autoridades religiosas que visitou ou recebeu em Roma.

Sem receio das críticas, foi a Lund, na Suécia, participar da inauguração do 5º Centenário da Reforma luterana. Francisco fala do caminho da Igreja para viver e testemunhar o Evangelho como caminho de misericórdia e não como ideologia. “A viagem foi mais um passo para fazer compreender o escândalo da divisão, e que deve ser superado com gestos de unidade e de fraternidade” (no no avião, de retorno de Lund, 01/11).

Foram muitos os passos dados no Ano Santo no caminho da reconciliação entre cristãos, mas os tempos da plena unidade são estabelecidos pelo Espírito Santo: “Para o ecumenismo é decisivo juntos servir os pobres, ‘a carne de Cristo’, sem contrapor doutrina e caridade pastoral’ (idem).

O Papa, além da caridade, inclui no ecumenismo os encontros e as viagens, que muito ajudam a fraternidade e fazem-na crescer. Entabular processos ao invés de ocupar espaços é a chave do caminho ecumênico. Para os que julgam o caminho ecumênico muito lento, iniciado há 50 anos, Francisco diz que “não podemos ser impacientes, desencorajados, ansiosos. O caminho exige paciência no preservar e melhorar o que já existe, que é muito mais do que o que divide”: a unidade não acontece porque nos colocamos de acordo entre nós, mas porque caminhamos seguindo Jesus (Avvenire 19-11). Para pedir a unidade entre nós cristãos somente basta contemplar Jesus e suplicar que o Espírito Santo opere em nós.

Francisco julga que a unidade dos cristãos é feita em três estradas: caminhando juntos, com as obras de caridade; rezando juntos e reconhecendo a confissão de fé comum que se expressa no martírio comum recebido no nome de Cristo, e no ecumenismo de sangue.

Cantar, sempre, a divina Misericórdia

O Jubileu foi um hino à misericórdia do Pai, ao Senhor, rosto da misericórdia. Foi o confronto entre o “amor louco” de Deus por seu povo e a nossa infidelidade. O amor de Deus “sem medidas” de um lado e, do outro, “a resposta do povo egoísta, duvidosa, adúltera, idolátrica”.

“O que faz sofrer o coração de Jesus Cristo é essa história de infidelidade, de não reconhecer as carícias de Deus, o amor de Deus, de um Deus enamorado que te procura, que deseja que também tu sejas feliz” (Santa Marta, 17/11/2016).

Francisco está convencido de que o câncer da Igreja é o dar-se glória um ao outro, buscar o prestígio, lógica da ambição do poder. A Igreja é o Evangelho, a autorreferencialidade é o câncer. É obra de Jesus Cristo, que cresce por atração. Quando prevalece a tentação de construir uma Igreja “autorreferencial” que em vez de olhar a Cristo olha a si mesma, surgem as contraposições e divisões: o câncer é um glorificar o outro. A Igreja não tem luz própria, somente “existe” como instrumento para comunicar aos homens o plano misericordioso de Deus.

Ser cristão é viver e anunciar a misericórdia

Conversa amiga com dois Cardeais

Conversa amiga com dois Cardeais

Com seu Consistório de 19 de novembro, o Papa ampliou as fronteiras do mundo, incluindo no Colégio cardinalício nações nunca representadas, com isso deslocando o eixo católico dos velhos centros europeus para as periferias onde moram os pobres. Os três Consistórios de Francisco premiaram pastores com “cheiro das ovelhas”, dioceses periféricas, continentes pouco representados. São 17 novos cardeais que na Igreja devem ser bem mais do que príncipes: são missionários nos pontos mais distantes e muitas vezes mais atribulados do mundo.

A coragem de ser pobre é outro tema em que Francisco insiste nos encontros jubilares com bispos, padres, religiosos, diplomatas: o povo de Deus tem imensa capacidade de perdoar as fraquezas e pecados dos padres, mas não consegue perdoar dois: o apego ao dinheiro e quando o padre maltrata os fieis (Santa Marta, 18/11/2016).

Como fruto principal do Ano Santo da Misericórdia o Papa espera que muitas pessoas tenham descoberto que são muito amadas pelo Senhor, recordando que o amor de Deus e do próximo são “inseparáveis”: servir os pobres significa servir Cristo, porque os pobres são a carne de Cristo (Avvenire, 19/11/2016).

Para encerrar, essas palavras de Francisco no Consistório (19/11/2016):

“O inimigo é alguém que devo amar. No coração de Deus não há inimigos, Deus tem somente filhos. Nós erguemos muros, construímos barreiras e classificamos as pessoas. Deus tem filhos, e não para afastá-los de sua companhia”.

“O nosso Pai não espera para amar o mundo quando formos bons, não espera para amar-nos quando seremos menos injustos ou perfeitos; ama-nos porque decidiu amar-nos, ama-nos porque nos deu o estatuto de filhos. Amou-nos quando éramos seus inimigos. O amor incondicionado do Pai por todos foi, e é, verdadeira exigência de conversão para o nosso pobre coração que tende a julgar, dividir, opor e condenar. Saber que Deus continua a amar também quem o rejeita é uma fonte ilimitada de confiança e estimulo para a missão”.


Pe. José Artulino Besen 

 

  1. #1 por Ademar Arcângelo Cirimbelli em 23 de novembro de 2016 - 00:42

    Obrigado, Padre José, por mais este belo artigo. Tomamos a liberdade de compartilhá-lo com os amigos de “facebook”.

  2. #2 por Diác. João Flávio Vendruscolo em 23 de novembro de 2016 - 07:03

    Sem dúvidas, um grande Ano da manifestação da Misericórdia de Deus ao mundo, a partir da figura ímpar do Papa Francisco! Levou a todos a fazer o mesmo e com coragem, mostrando com simplicidade que as Obras de Misericórdia são possíveis e realizáveis. Não podemos parar no ano 2016 e sim, levar em frente, com alegria este novo jeito das relações humanas, a partir da Misericórdia do Pai! Diác. João Flávio Vendruscolo

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