PROCLAMAÇÃO DO JUBILEU DA MISERICÓRDIA

2015-04 - Misericórdia divinaA Misericordiae Vultus (Jesus é o rosto da misericórdia), bula de proclamação do Jubileu da Misericórdia, de 11 de abril de 2015, traz o motivo do Ano Santo extraordinário: num tempo, o nosso, de tantas mudanças, desafios, sinais de vida e de morte, a Igreja é convocada para oferecer com mais força os sinais da presença e da vizinhança de Deus, a viver menos no barulho, e mais concentrada no essencial. Um tempo para a Igreja reencontrar o sentido da missão que o Senhor lhe confiou no dia da Páscoa: ser sinal e instrumento da misericórdia do Pai.

“O mistério da misericórdia: é fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”.

Este é o tempo da misericórdia: curar as feridas, sem nos cansarmos de trazer as pessoas à vizinhança de Deus, oferecer a todos o caminho do perdão e da reconciliação.

O caminho não terá Roma e suas quatro Basílicas como único destino. Francisco quer evitar a espetacularização do Ano Santo, as viagens, o turismo, as portas santas mágicas. Simbolizando o Ano Santo universal, para alcançar todos os Bispos do mundo, maiores responsáveis pelo anúncio e vivência do Jubileu, Francisco entregou cópias da Bula Misericordiae Vultus aos arciprestes das quatro basílicas maiores de Roma e para cardeais e bispos simbolizando a Igreja nos cinco Continentes, no mundo missionário e às Igrejas orientais.

As simbólicas Portas Santas podem ser as catedrais, os santuários, as igrejas indicadas pelo bispo, podem ser as esquinas do mundo, pois a Igreja não quer privar ninguém da alegria do encontro com o Senhor da misericórdia.

E, um gesto bem de Francisco, convida os judeus e muçulmanos para também participar, refletindo e vivendo com os cristãos o Deus da Aliança de Abraão e Moisés, o Clemente e o Misericordioso do Islam.

 O verdadeiro rosto de Deus

Sem misericórdia não há cristianismo, porque toda a história da salvação não é outra coisa do que a manifestação histórica do amor de Deus por suas criaturas humanas. A vitoriosa onipotência de Deus se manifesta com a “misericórdia e o perdão” e não com a força muscular de argumentos doutrinais de algum apologista, como tem ocorrido na história da Igreja.

Não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, que com sua morte e ressurreição traz a salvação com a misericórdia que justifica, e então a justiça de Deus se transforma em libertação para quantos estão oprimidos sob a escravidão do pecado e todas as suas conseqüências. A justiça de Deus é o seu perdão. A misericórdia de Deus “não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta” com a qual “revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem no profundo de suas vísceras pelo próprio filho”.

Francisco escreve que “é a misericórdia a coluna que sustenta a vida da Igreja” e estamos novamente no tempo em que a Igreja deve recuperar o anúncio alegre do perdão. “É o tempo do retorno ao essencial, para assumirmos as fraquezas e as dificuldades de nossos irmãos”.

Ações concretas

Francisco julga que, no Ano Santo, devemos viver o ordinário da vida da Igreja, os tesouros da graça que nos foram concedidos a partir dos Sacramentos, especialmente do tribunal da misericórdia, a Confissão. Espera enviar por todo o mundo Missionários da Misericórdia como sinal vivo de como o Pai acolhe quantos procuram o perdão, com faculdades de absolverem também pecados reservados à Santa Sé. Pede que os confessores sejam magnânimos, e não interrogadores impertinentes. Sejam como o pai do filho pródigo que logo interrompeu a “lista de pecados” do filho que retornava. Não julgar nem condenar, oferecer a alegria do perdão. “Frente à visão de uma justiça como simples observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justos e pecadores, Jesus orienta para revelar o grande dom da misericórdia que procura os pecadores para oferecer-lhes o perdão e a salvação”.

Relembra “a iniciativa 24 horas para o Senhor, que será celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao IV Domingo da Quaresma, e deve ser incrementada nas dioceses. Há muitas pessoas – e, em grande número, jovens – que estão a aproximar-se do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida”.

O Ano Santo será para todos e em todos os lugares, para os “filhos que estão longe” e não especialmente devotos de categorias “empenhadas”, o que seria o retorno à auto-referencialidade.

O Papa também recorda que de certo modo esquecemos as obras de misericórdia corporal e espiritual: redescubramos essas obras de misericórdia para despertar nossa consciência que muitas vezes se sente impotente diante do drama da pobreza. Essas obras, tão pequenas, mas fundamentais, multiplicam pelo mundo a presença amorosa de Deus. As obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos.

E também recorda, sem citar, o dom das lágrimas, chorar por nós e pelos outros: “Este é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido, mesmo crimes graves, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afetos, da própria vida. Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa”. Para os criminosos e corruptos, a admoestação: “mudai de vida”, pois Deus não se cansa de estender a mão.

As Indulgências

...

Foram as indulgências o detonador da reforma luterana de 1517, e hoje agradecemos a Deus que permitiu que sofrêssemos a divisão eclesial por causa do blasfemo comércio permitido pelos papas renascentistas para financiarem suas obras de arte e o luxo de sua corte. Mediante pagamento, era garantido ao pecador o perdão e a salvação das almas do purgatório.

Com a reforma tridentina, a Igreja manteve a práxis das Indulgências pelos vivos e defuntos mediante práticas penitenciais, não isentas de desvios, pois supunham remissão de dias ou anos de purgatório. Paulo VI, no Ano Santo de 1975, explicitou a doutrina: para obtermos a indulgência requer-se o caminho da conversão e da renovação de vida.

O fundamento da doutrina das Indulgências reside na infinita graça que nos mereceu Cristo, acrescida das obras de santidade da Comunhão dos Santos e de que podemos nos servir para obter o perdão para os vivos e os mortos.

Papa Francisco, graças a Deus, repropõe a doutrina das Indulgências libertando-as das “penas devidas pelos pecados já perdoados”, das condições de tempo e de espaço, das portas santas e da doutrina do mérito: faço isso, mereço tal.

Francisco prefere referir-se à indulgência, não indulgências: o perdão de Deus para nossos pecados não tem limites. Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. É possível deixar-se reconciliar com Deus através do mistério pascal e da mediação da Igreja. Deus está sempre disponível para o perdão, não Se cansando de oferecê-lo de maneira sempre nova e inesperada. No entanto, todos nós fazemos experiência do pecado. Sabemos que somos chamados à perfeição (cf.Mt 5, 48), mas sentimos fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo em que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados.

No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas permanece o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado.

Em vez de “penas dos pecados já perdoados”, Francisco nos lembra que o pecado deixa conseqüências em nós, do mesmo modo que um doente curado ainda necessita de cuidados. Um exemplo: se me entreguei a um vício, depois de libertado e perdoado ainda sinto em meu organismo suas feridas. A Indulgência é um socorro à nossa fragilidade especialmente pela Eucaristia, que oferece a comunhão, que é dom de Deus, e faz realizar união espiritual que nos une, a nós crentes, com os Santos e Beatos cujo número é incalculável (Ap 7, 4).

“Viver a indulgência no Ano Santo significa aproximar-se da misericórdia do Pai, experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até as últimas consequências aonde chega o amor de Deus. Vivamos intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perdão dos pecados e a indulgência misericordiosa em toda a sua extensão”.

O caminho luminoso do Concílio do Vaticano II

Francisco é homem de gestos e de símbolos, e isso fica claro na data de abertura do Ano Santo: 8 de dezembro, festa da Mãe da Misericórdia e 50 anos do encerramento do Concílio. Lembra palavras da abertura em 1962 e do encerramento: “Voltam à mente aquelas palavras, cheias de significado, que São João XXIII pronunciou na abertura do Concílio para indicar a senda a seguir: ‘Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. (…) A Igreja Católica, … deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados”.  E, no mesmo horizonte, havia de colocar-se o Beato Paulo VI, que assim falou na conclusão do Concílio: ‘Desejamos notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais, a caridade. (…) Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. (…) Rejeitaram-se os erros, como a própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que, em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios cheios de esperança; para que o Concílio falasse ao mundo atual não com presságios funestos, mas com mensagens de esperança e palavras de confiança. Não só respeitou, mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas e, depois de purificá-los, aprovou todos os seus esforços. (…) Uma outra coisa, julgamos digna de consideração. Toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades”.

Assim, o Ano Santo é também viver, traduzida para nosso tempo, a graça da maior assembléia católica, o Vaticano II. Abatendo as muralhas em que se tinha fortificado, a Igreja abriu-se o mundo para anunciar o Evangelho em modo novo.

Assim conclui Francisco a Misericordiae Vultus: “neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e perdoar. Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar: Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre” (Sl 25/24, 6)”.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Dumas Gabriel em 19 de abril de 2015 - 13:09

    Obrigado por enviar seu e-mail. abraço. Deus abençoe

    Date: Sun, 19 Apr 2015 02:59:05 +0000 To: dumas.gabriel@hotmail.com

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