NOSSA SENHORA DE FÁTIMA – RAINHA DA PAZ

Nossa Senhora aparece aos três Pastorinhos em Fátima.

Nossa Senhora aparece aos três Pastorinhos em Fátima.

Até a década de 1960, aqueles que alimentaram sua fé com as devoções populares, sem dúvida têm ante seus olhos três imagens maternas: Nossa Senhora Aparecida (1717), as grutas de Nossa Senhora de Lourdes (1858) e Nossa Senhora de Fátima falando aos três pastorinhos (1917). Junto com a imagem do Bom Jesus, eram os símbolos de um Catolicismo profundo e ingênuo, ao mesmo tempo que consolador. Foi diante dessas imagens que, ao fim de um dia de trabalho duro, o pai e a mãe reuniam os filhos para a recitação do Rosário. Crianças vencidas pelo sono adormeciam com a invocação de Nossa Senhora. Quando reunidos nas igrejas, capelas e oratórios, o povo humilde cuja fé tocava com as mãos Jesus e Maria, cantava a seu tempo os “Aves de Lourdes”, os “Aves de Fátima” e o “Viva a Mãe de Deus e nossa”. Sem terem muito conhecimento, suas vozes se uniam às distantes vozes que cantavam os mesmo hinos em Lourdes, Fátima e Aparecida.

Outras populações brasileiras, no Nordeste, de memória entoavam o longo Ofício de Nossa Senhora, e que era rezado nove vezes no momento de agonia e morte de alguém: “Agora, lábios meus, dizei e anunciai, os grandes louvores da Virgem Mãe de Deus”. E assim era: no Sudeste e no Sul, o Santo Rosário e no Nordeste e Norte, o Ofício de Nossa Senhora da Conceição. A memória do povo iletrado carregava a memória do mistério da fé cristã. Hoje se poderia perguntar: onde estaria a fé católica se não fosse o devocionário popular que ensinava entoar esses hinos pelos vales e montanhas, nas cidades e nas roças? A Ladainha era cantada em latim, pois no catolicismo popular o entender não importa mais do que ter a certeza de que se está amando e louvando a Mãe do Senhor num ato tão sagrado que nem a língua se conhece.

Vieram outros tempos, também importantes, onde se perguntava se Nossa Senhora tinha mesmo aparecido, se o Bom Jesus de Iguape não passava de uma lenda. Num dia, uma senhora humilde e santa falou-me: “Padre, esse povo moderno não tem é fé. Como é que Nossa Senhora não existiu se temos a fotografia dela?”. O quadro, o santinho, a imagem, o lugar sagrado são a prova mais evidente da verdade professada na fé, oferecem visões fascinantes a homens e mulheres e crianças que diante deles se detém e vivem o privilégio de contemplar sensivelmente a verdade.

Enquanto os estudiosos, padres e leigos, discutem o significado e a veracidade das devoções, em Lourdes se canta “Louvando Maria o povo fiel, a voz repetia de São Gabriel”, em Aparecida se canta “Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida, para a Mãe do Redentor a Senhora Aparecida”, em Fátima se canta “A treze de maio na Cova da Íria no céu aparece a Virgem Maria: Ave, ave, ave Maria! A três pastorinhos, cercada de luz, visita Maria, a mãe de Jesus: Ave, ave, ave Maria”, em Iguape se canta: “Bom Jesus, a vossos pés, chora agora arrependido o pecador mais ingrato que no mundo foi nascido!”.

Lúcia, Francisco e Jacinta, os pastorinhos de Fátima.

Lúcia, Francisco e Jacinta, os pastorinhos de Fátima.

Nossa Senhora em Fátima escolhe pobres pastorinhos

Aquele que teve a graça de ir a Fátima “visitar Nossa Senhora na casa dela”, ainda hoje fica impressionado pela simplicidade do povo residente: conhecerá a pequena e pobre casa dos irmãos Francisco e Jacinta Marto, e a casa de Lúcia de Jesus. Casas cujos móveis são um baú para guardar a roupa e uma panela de ferro pendurado sobre o fogão. E terá a surpresa de conversar com algum sobrinho dos irmãos Francisco e Jacinta e beberá água do poço servida por primas de Lúcia, o mesmo poço de 1917. Elas se vestem rigorosamente de preto, o traje normal das viúvas que choram até a morte sua viuvez. Esperam uma gorjeta, todos, pois dela necessitam para viver nesse Portugal profundo, onde o tempo não passa, e oferecemos essa esmola com a alegria de colaborar com os parentes dos três Videntes de Fátima.

Conservou-se bem a paisagem, as fileiras de casas de Aljustrel, a 130 quilômetros de Lisboa, o caminho de pedras percorrido por Lúcia, Francisco e Jacinta até a Cova da Íria, onde apascentavam ovelhas. Rodeada por muitas evocações e monumentos sagrados, está o Santuário e a imensa Praça de Fátima, em cujo lado esquerdo se encontrava a azinheira escolhida por Nossa Senhora para aparecer às três crianças a partir de 13 de maio de 1917. Claro que da azinheira somente se tem a notícia, pois foi consumida para chás milagrosos, mas, para recordação, há outras azinheiras plantadas que algum guia apresenta como a legítima. Na Capela das Aparições ali construída se revezam os devotos para a Celebração da Missa, a recitação do Rosário e a participação na Procissão com o Santíssimo Sacramento. Num muro ao fundo, há lugar sempre pequeno para se acenderem as milhares de velas, colocarem belíssimas flores e oferecer esmolas. E quem ali chega tem a fé e o coração emocionados na contemplação de doentes que esperam cura, de pecadores em busca de perdão.

Os pagadores de promessa enfaixam os joelhos com panos e, de joelhos, atravessam a Praça até alcançarem o local da azinheira, cansados e felizes. No muro que delimita a Praça, em forma de grande braço, estão localizadas muitas capelas penitenciais onde sacerdotes atendem às confissões. Todo esse espaço mariano conduz o peregrino ao centro da mensagem-pedido de Nossa Senhora de Fátima: rezai o Terço todos os dias, rezai pela conversão dos pecadores, fazei penitência. Na verdade, Fátima é um centro terreno e cósmico cuja vocação é rezar pelo mundo. Tudo simples, mas com a exigente missão de rezar pela paz e pela salvação do mundo.

Essa vocação universal foi fruto das aparições de Nossa Senhora naquele ano trágico de 1917: ainda estava vertendo sangue e lágrimas a Primeira Grande Guerra (1914-1918), em outubro a Rússia seria dominada por um regime ateu, o Comunismo, que depois se espalharia por países europeus e da Ásia, sempre ao preço de querer destruir a fé cristã. O pior se anunciava para alguns anos depois: a Segunda Grande Guerra (1939-1945), que teve o preço de 70 milhões de mortos entre soldados e civis.

E devemos lembrar dois regimes fascistas que se implantariam ao preço da perda da liberdade: o Salazarismo em Portugal (1928-1974) e o Franquismo espanhol (1939-1975).

Francisco, Lúcia e Jacinta no momento da aparição de Nossa Senhora

Francisco, Lúcia e Jacinta no momento da aparição de Nossa Senhora

O uso político e reacionário da devoção a Nossa Senhora de Fátima

Nossa Senhora revelou que o mundo passaria por uma grande tribulação e, nela, a perseguição aos cristãos, mas que, no final, seu Imaculado Coração triunfaria. A história do comunismo soviético é também a história do sofrimento cristão, pois os regimes marxistas não toleram a presença cristã e católica: a religião distrai o povo do seu compromisso único: o paraíso terrestre. Em vez disso, os religiosos se alimentam de superstições e devem ser destruídos. Descrevendo o Terceiro Segredo, Lúcia revela que contemplaram uma tragédia sem fim, com sacerdotes, bispos e cristãos sendo assassinados, incluindo a grandiosa visão de um homem com batina branca, no qual os videntes reconheceram o Santo Padre (João Paulo II foi vítima do atentado na Praça de São Pedro em 13 de maio de 1981. Ele declarou: uma mão invisível conduziu o projétil de modo de não atingisse um órgão vital).

O século XX foi marcado por impressionante perseguição à Igreja católica e à Igreja ortodoxa, de modo especial, e continua sendo pelo capitalismo consumista e pelo fundamentalismo religioso.

Surgiram dois usos instrumentalizadores da imagem de Nossa Senhora de Fátima, do Imaculado Coração de Maria: um político e outro religioso. A Ditadura portuguesa necessitava de legitimação e encontrou-a nas aparições em Fátima: assim como Nossa Senhora alertara para o comunismo ateu na Rússia, o Salazarismo se apresentou como protetor de Portugal contra o comunismo. Isso fez com que se intensificasse o anticlericalismo português que via em Fátima a perda da liberdade política e o triunfo da ignorância. De certo modo, a Igreja católica portuguesa caiu nesse engodo colaborando no apoio moral e religioso à Ditadura de Oliveira Salazar, que rezava o Terço com o Cardeal Cerejeira, e paga até hoje o preço no mundo político e acadêmico português. Também a Ditadura brasileira de 1964 serviu-se de Nossa Senhora de Fátima, e são lembradas as manifestações das Ligas de Mulheres (da elite) na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, publicamente rezando o Terço para o Brasil ficar livre do Comunismo e pela queda de João Goulart.

A instrumentalização religiosa foi acentuada pela interpretação do Segredo de Fátima como anúncio da grande apostasia católica causada pelo Concílio do Vaticano II e da Liturgia de Paulo VI, manipuladas pela maçonaria: a crise de vocações, as desistências de padres, a diminuição da freqüência aos sacramentos são prova disso. No Brasil, o fenômeno é simpático aos monarquistas. Frente a todas as crises, o triunfo do Imaculado Coração de Maria revelado em Fátima. Frente a essa leitura ideologizada, nem mesmo a publicação do Terceiro Segredo por João Paulo II resolve. Continua-se a dizer que parte do segredo foi escondida.

Jacinta, Lúcia e Francisco, com o Rosário nas mãos.

Jacinta, Lúcia e Francisco, com o Rosário nas mãos.

Os três pastorinhos de Fátima e a Mensagem de Nossa Senhora

Como sofreram essas crianças a quem Nossa Senhora apareceu em 13 de maio de 1917. Quanta humilhação, ameaças, castigos, calúnias suportaram os três pastorinhos de Fátima! Mas, nunca desdisseram o que tinham afirmado desde aquele dia: Nossa Senhora lhes tinha aparecido para pedir muita oração e penitência pela conversão do mundo.

LÚCIA DE JESUS nasceu em 22 de março de 1907, em Aljustrel, paróquia de Fátima, e faleceu no dia 13 de fevereiro de 2005 no Convento Santa Teresa de Coimbra. No mesmo ano morreram dois devotos de Fátima: Lúcia e Papa João Paulo II.

FRANCISCO MARTO nasceu em 11 de junho de 1908, em Aljustrel. Faleceu santamente no dia 4 de abril de 1919, na casa de seus pais. Muito sensível e contemplativo, orientou toda a sua oração e penitência para “consolar a Nosso Senhor”.

JACINTA MARTO nasceu em Aljustrel, no dia 11 de março de 1910. Morreu santamente em 20 de fevereiro de 1920, no Hospital de D. Estefânia, em Lisboa, depois de uma longa e dolorosa doença, oferecendo todos os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores, pela paz no mundo e pelo Santo Padre. Consumida pelas dores físicas e pela solidão inimagináveis numa criança de 10 anos, sozinha num hospital de Lisboa, longe dos familiares, fechou os olhos em paz.

Francisco e Jacinta foram declarados Bem-aventurados em 13 de maio de 2000, por ocasião da 3ª visita do Papa João Paulo II a Fátima.

Nossa Senhora apareceu-lhes na Cova da Iria nos dias 13 dos meses de maio, junho, julho, setembro e outubro; em agosto, no dia 19, nos Valinhos. Prometido por Nossa Senhora, no dia 13 de outubro aconteceu o prodígio presenciado por 70 mil pessoas: o sol começou a girar, como se estivesse a ponto de se destacar do firmamento. Sinal miraculoso e de despedida de Nossa Senhora.

A MENSAGEM de Fátima é um convite e uma escola de salvação. Foi completada por Nossa Senhora e vivida de maneira heróica pelos Três Pastorinhos – Lúcia, Francisco e Jacinta. A mensagem de Fátima sublinha os seguintes pontos:

– a conversão permanente,

– a oração, especialmente o rosário,

– o sentido da responsabilidade coletiva pela salvação do mundo e a prática da reparação pela penitência.

A aceitação desta mensagem traz consigo a Consagração ao Coração Imaculado de Maria, que é símbolo de um compromisso de fidelidade e de apostolado. As orações ensinadas em Fátima pelo Anjo e Nossa Senhora ajudam a viver a Mensagem, que, como disse João Paulo II, em Fátima em 1982, é a conversão e a vivência na graça de Deus.

As crianças aprenderam a rezar com Nossa Senhora

Nossa Senhora é encantadora: tanto apareceu aos pastorinhos e pediu-lhes que rezassem e fizessem muitos sacrifícios como lhes ensinou a memorizar algumas orações.

Irmã Lúcia conta que Nossa Senhora recomendou em 13 de julho de 1917: “Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: Ó

Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria!”.

Na mesma aparição, Nossa Senhora acrescentou: “Quando rezais o terço, dizei depois de cada mistério: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as almas todas para o Céu, e socorrei principalmente as que mais precisarem”.

Depois, aprenderam essa oração, a Consagração a Nossa Senhora: “Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo(a) a Vós, e em prova da minha devoção para convosco, Vos consagro neste dia e para sempre, os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser. E porque assim sou Vosso(a), ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como coisa e propriedade vossa”.

É característica dos devotos de Nossa Senhora a oração do Rosário e da Consagração que se aprende ainda em criança pelos lábios de nossos pais.

Irmã Lúcia com São João Paulo II em Fátima - ano 2000.

Irmã Lúcia com São João Paulo II em Fátima – ano 2000.

A legitimidade das Aparições em Fátima

Desde os primeiros anos, por causa das críticas dos laicistas portugueses que acusavam a Igreja de fomentar superstições e fábulas, houve a preocupação de estudar os videntes e o contexto as aparições. As maiores críticas tinham como base a pobreza endêmica do local e das crianças, sua subnutrição e pouca formação, que as conduziam às fantasias e visões. Em outras palavras: o que aconteceu em Fátima tem a ver com miséria e engodo.

É também fantasia seguir esse caminho, pois os sinais milagrosos de Fátima foram presenciados por dezenas de milhares de pessoas. Em 13 de outubro de 1921 foi permitida a celebração da Missa, pela primeira vez, junto à Capelinha das Aparições. Em 6 de março de 1922 a Capelinha das Aparições foi parcialmente destruída num atentado, sendo restaurada um ano depois. E, importante: em 3 de maio de 1922 aconteceu a Abertura do processo canônico sobre os acontecimentos de Fátima, que chegou à conclusão de que os fatos de Fátima não têm a ver com engano ou doença de crianças.

Os dois maiores argumentos, porém, são esses: por que a cada ano, e já são quase 100, mais e mais devotos se dirigem a Fátima? A Igreja é cuidadosa em definir aparições, mas um sinal é muito indicativo: com o peso de sua autoridade e responsabilidade, Pio XII e São João XXIII invocaram Fátima, e três Papas estiveram em Fátima como peregrinos: o Bem-aventurado Paulo VI, São João Paulo II e o Papa Bento XVI.

Cito aqui a palavra de Francisco: o magistério ensina o que crer, e o povo de Deus é infalível no crer. Ele sabe o modo como venerar a Mãe de Jesus com o título de Nossa Senhora de Fátima.

Pe. José Artulino Besen

  1. #1 por Vera Lucia Curtu em 13 de maio de 2015 - 08:35

    Obrigada por esse texto!!

  2. #2 por Ivone Maria Koerich Coelho em 13 de maio de 2015 - 08:57

    Padre José, que bonito tudo o que escreveu. E o povo canta em jeitos diferentes pra mesma mãe: Louvando Maria, A treze de maio, Viva mãe de Deus e nossa. E todos em uma só vós com seus louvores e fé.

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