DOM HELDER CÂMARA – IRMÃO DOS POBRES, PAI DA IGREJA

Dom Hélder Câmara – o arcebispo dos pobres

No dia 27 de agosto de 1999 falecia Dom Hélder Câmara aos 90 anos de idade. Uma vida entregue totalmente a Deus, à Igreja e aos pobres. Verdadeira e íntegra testemunha da fé cristã e da justiça da Igreja no Brasil. Está sepultado na Sé de Olinda/Recife.

Em 27 de maio de 2014, o arcebispo Dom Fernando Sapurido, OSB, assinou Carta a ser encaminhada  à Congregação da Causa dos Santos, pedindo autorização para dar início ao processo de canonização do chamado Dom da Paz, como Dom Helder era conhecido. Tão logo chegue a resposta, a Arquidiocese constituirá a Comissão que ficará à frente do trabalho de análise de documentos que servirão de subsídios para fortalecer a indicação.

Lembrá-lo é gratidão, é reverência por quem deu a vida pelos pobres, pelos pecadores, pela humanidade.

Nascido em Fortaleza em sete de fevereiro de 1909, foi ordenado presbítero em 15 de agosto de 1931, bispo auxiliar do Rio de Janeiro em 20 de abril de 1952 e promovido a arcebispo de Olinda-Recife em 12 de março de 1964. É um dos grandes bispos que trabalharam na Igreja no Brasil empenhando cada dia da existência na aplicação das orientações do Concílio Vaticano II, no espírito de uma Igreja pobre para os pobres e com os pobres.

Homem de Igreja

Sonhando com união de todos os  bispos brasileiros numa grande assembléia pastoral e fraterna, surgiu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB-1952). Dom Hélder Câmara, foi seu primeiro secretário. Contava com o estímulo e o apoio de Giovanni Battista Montini, depois Papa Paulo VI (1963-1978), um entre os maiores papas da história da Igreja. O mesmo ideal foi lançado em nível continental, e surge o CELAM (Conferência Episcopal latino-americana-1955).

O arcebispo de Olinda-Recife (1964-1985) foi um dos bispos mais atuantes do Concílio do Vaticano II (1962-1965). Mas, estranhamente, nunca tomou a palavra durante as sessões. Era um santo conspirador. Sabia ele, bispo de um país pobre e distante que, influência mesmo, tinham os altos e fortes bispos europeus, inteligentes, famosos, cercados dos melhores teólogos do mundo. O que fazia, então, Dom Hélder? Gostava de transmitir seu ideário ao grande bispo de Brixeles-Malines, o Cardeal Leo Suenens. E na hora certa, Suenens falava para uma assembléia que o conhecia e respeitava. E Dom Hélder, o cearense baixinho, frágil, sorria feliz por ver os novos caminhos pastorais que a Igreja ia assumindo. Não tinha interesse de aparecer, pois lhe interessava mesmo era ver a Igreja sempre mais comprometida com seus filhos, com toda a humanidade.

Paulo VI nutria grande afeto pessoal por Dom Hélder, que o visitava como amigo. Ajoelhava-se pertinho do Papa, batia com as mãos em seus joelhos e dizia: “Coragem, Santo Padre, coragem!” Lembrava, nessas horas, Santa Catarina de Siena, jovem, analfabeta, que no século 14 tomava a mesma atitude com o Papa Gregório XI: “Coragem, paizinho meu, seja homem!” Queria que deixasse Avignon e fosse morar em Roma, o que conseguiu.

Pastor de uma Igreja pobre e materna

Logo após o Concílio, numa dessas conversas com Paulo VI sugeriu: “Santo Padre, abandone seu título de rei e vamos reconstruir a Igreja como nosso Mestre, sendo pobres. Deixe os palácios do Vaticano, vá morar numa casa na periferia de Roma. Pode até ter uma praça para saudar e abençoar as ovelhas. Depois, Santo Padre, convide a todos os bispos a largarem tudo o que indica poder, majestade: báculos, solidéus, mitras, faixas peitorais, batinas roxas. Vamos amontoar tudo na Praça de São Pedro e fazer uma grande fogueira, dizendo de peito aberto para o povo: “Vejam, não somos mais príncipes medievais. Não moramos mais em palácios. Todos somos pastores, somos pobres, somos irmãos”.

Dom Hélder fez isso quando foi nomeado arcebispo de Olinda-Recife. Vestiu uma batina branca, com um cordão pendurou uma cruz no peito; deixou o Palácio dos Manguinhos e foi morar na sacristia da Igreja das Fronteiras. Ergueu uma parede para fazer um quartinho, onde tinha a cama e uma mesa para estudar e escrever. Nunca mais vestiu outro paramento que uma túnica branca e a estola, nem nas mais solenes procissões. Quando ia a recepções em Roma, bispos, arcebispos e cardeais brilhavam nas sedas e púrpuras. Entrava Dom Hélder, baixinho, pobre, vestido apenas com sua batina branca, e as câmaras se afastavam do brilho das vestes para focalizar o brilho carismático de um pastor.

Um pequeno e seleto grupo de bispos assumiu o mesmo compromisso após o Concílio, colocando-o em prática ao retornar a suas dioceses, decisão essa denominada “o Pacto das Catacumbas”.

E, podemos perguntar, o que fez o Papa? Que grande Papa foi Paulo VI! A tiara (coroa tríplice que indicava seu poder como bispo, rei e patriarca) foi doada para que, com o dinheiro da venda, se ajudasse os pobres. Para indignação dos romanos, aboliu os cumprimentos e a presença da nobreza romana dentro do Vaticano. (Na época os jornais italianos desenhavam caricaturas em que o Papa varria príncipes, princesas, marqueses, duques e condes pelas escadarias do Palácio apostólico). Aboliu os flabelli (imensos leques de plumas das cortes orientais que os príncipes abanavam junto ao trono pontifício) e as pompas que o Papado tinha imitado e importado das cortes medievais do Império do Oriente. E mais, deu os passos decisivos para abolir seu título de “Rei” do Estado do Vaticano, decisão tomada por João Paulo II, agora administrado por um simples Cardeal.

Papa Montini tinha muito carinho por Dom Hélder. No auge da ditadura militar, quando queriam prendê-lo, expulsá-lo do país para que calasse a boca, o Papa fazia saber pelos canais diplomáticos que não aceitava que mexessem com o arcebispo de Olinda-Recife, nem com Dom Paulo Evaristo Arns, nem com Dom Pedro Casaldáliga, nem com nenhum dos bispos-profetas brasileiros. Os militares se vingaram prendendo e torturando padres, religiosos e leigos…

Pastor da misericórdia

Certa vez, em pleno meio-dia, uma senhora pobre, não tendo onde se refugiar, colocou-se debaixo do altar-mor da histórica Basílica de Nossa Senhora da Penha do Recife e deu à luz seu filho. Povo e imprensa protestaram: “Pouca vergonha. É nisso que dá deixar a igreja aberta e ter um bispo comunista. Não se respeita nem a tradição!”. Dom Hélder, ao saber da notícia, ficou muito feliz. Reuniu os padres capuchinhos que administravam a igreja e falou: “Que beleza a igreja ser lugar onde nasce uma criança, lugar de vida. Deixem-na sempre aberta, para que mais mulheres pobres possam ter seus filhinhos dentro dela!”.

Noutra ocasião, a tradicional imprensa pernambucana noticiava a sem-vergonhice de uma prostituta: estava fazendo ponto quando na rua adjacente um pobre caiu, desmaiado, vertendo sangue por uma ferida. Condoída, a prostituta não pensou duas vezes: arrancou o pouco de pano que cobria seu corpo e fez uma atadura para estancar o sangue do infeliz. Evidente, ficou nua, um escândalo para os que estavam passando, catando prostitutas para programas: “Aonde chegamos com a imoralidade!”.

Lendo a notícia, o arcebispo teve assunto para vários sermões: “Vejam, meus irmãos, que beleza que é Nosso Senhor. Ele disse que as prostitutas nos precederão no Reino dos céus. Foi o que aconteceu com essa mulher: não tinha nada para dar, e deu do pouco que tinha, os paninhos que cobriam seu corpo, para salvar a vida do pobre, não tendo receio de afrontar a humilhação e os desaforos”.

Estava Dom Hélder distribuindo a Comunhão quando um homem embriagado aproximou-se para comungar. Movido pela compaixão, Dom Hélder deu-lhe o Corpo do Senhor. Ao final da Missa, uma devota aproximou-se e o questionou: “O senhor não percebeu que o homem estava bêbado? Como então lhe deu a Comunhão?” O bom arcebispo logo respondeu: “Minha senhora, eu vi que o irmão estava bêbado. Mas dei-lhe a Comunhão porque não sei o motivo pelo qual bebeu!”. Assim agem os cristãos conduzidos pelo seguimento da misericórdia do Senhor.

Purificado na noite escura

Dom Hélder, em Janeiro2007

Dom Hélder Câmara, com sua irmã, nos últimos meses de vida.

Em 1968 um golpe militar no golpe de 64 estabeleceu a ditadura no Brasil. Anos de escuridão política, econômica, humana, intelectual. O regime, aliado à poderosa e maquiavélica Rede Globo, estabeleceu a censura nos jornais, revistas, rádios. Quis estabelecê-la na Igreja, prendendo, torturando e assassinando líderes cristãos.

Dom Hélder, já em Recife, pagou o seu quinhão. Pe. Henrique, seu secretário, foi seqüestrado, torturado e assassinado, espalhando-se suspeitas horrorosas sobre a morte dele, para indiretamente atingir seu objetivo: Dom Hélder..

Como não podiam calar nem prender Dom Hélder, proibiu-se de ouvi-lo. Até meados dos anos 80 seu nome não podia mais ser publicado ou pronunciado. As novas gerações brasileiras não conhecem Dom Hélder.

Devido a suas viagens para o exterior, apelidaram-no de “arcebispo voador”, pastor irresponsável que não cuida do rebanho. Era mentira: eram algumas semanas por ano, quando ele peregrinava pelo mundo denunciando o armamentismo, o aumento da dívida externa, participava do Movimento internacional com os pobres “Mãos Estendidas” e lançava o grande projeto de um Ano 2000 sem fome.

Um cronista carioca escreveu que o problema desse bispo comunista era mulher: arrumando-se uma esposa para ele, sossegaria…

Mesmo na Igreja não lhe foi poupado o sofrimento, a incompreensão, a dúvida sutil sobre suas intenções. Seu Seminário e Instituto Teológico, formadores de uma geração de padres comprometida com os pobres, foi fechado compulsoriamente. A Missa dos Quilombos, tentativa de uma liturgia negra, foi vetada. Chegando à idade de 75 anos, quando os bispos pedem dispensa do ministério, foi-lhe comunicado por telefone o nome do novo arcebispo de Olinda-Recife. Com o coração ferido, Dom Hélder pôs-se a chorar. Não por causa do nome, mas porque nem sabia quem era o escolhido. Não se reverenciou a obra e a pessoa de alguém que teve alguns erros e opções talvez equivocadas, mas deu o testemunho de um sim contínuo e alegre à Igreja e ao povo de Deus. O novo arcebispo pareceu não ter outra preocupação do que destruir a memória, as pessoas  e as obras de Dom Hélder Câmara.

No silêncio que santifica

Dom Hélder Câmara

Dom Hélder Câmara

Continuando a habitar em sua sacristia, Dom Hélder recolheu-se no silêncio: nunca uma palavra, uma crítica, uma declaração. Aliás, ele jamais se defendia de qualquer acusação. Os santos têm a capacidade de purificar o mundo pela dor, pelo silêncio, pela oração. Como sempre fez como arcebispo, continuou a se levantar de madrugada, abrir a janela, e orar por sua amada Olinda-Recife.

Suas vigílias deram-lhe forças espirituais e morais ao longo de sua vida.

Nos fim de sua vida, três jovens diáconos vão pedir-lhe a bênção antes da ordenação presbiteral. Dom Hélder era padre há 65 anos! Ergueu-se, abriu os braços e falou para os três como se estivesse falando para uma multidão: “Meus filhos: para mim, ser padre é algo tão grandioso que tudo o mais se torna pequeno”. Depois, segurando a cruz peitoral com as mãos, com mais calor ainda: “É verdade que a vida de padre é pesada, mas a vida é uma graça imensa!”

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