A IRMÃ ÁGUA, HUMILDE, PRECIOSA E CASTA

Irmã Água – pintura de Giustina de Toni

O Cântico do Irmão Sol mostra o desejo alimentado por Francisco, até o fim da vida, de ver o mundo inteiro num estado de exaltação e louvor a Deus. É a mais bela oração depois dos Salmos, e o início da poesia italiana. O que me chama a atenção de modo especial é a estrofe onde se encontra o louvor a Deus pela Irmã Água. Quanto lirismo, respeito e afeto pela Água! 

Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

A irmã Água é útil, humilde, preciosa, casta. Derramada pela face da terra na forma de lagos, rios, cachoeiras, mares, oceanos é sempre encantadora. As crianças, atletas, turistas, transportadoras, esquiadores, dela se aproveitam para trabalho ou distração. Faz a festa das crianças quando se transforma em picolé, sorvete. Sua força faz girar turbinas que giram dínamos e produzem a energia elétrica. Ela aceita participar das inumeráveis bebidas, dos medicamentos, perfumes. A irmã Água é mesmo muito fraterna e útil.

A irmã Água é humilde: ela recebe tudo e todos, tanto os sedentos que a sorvem sofregamente, como os lixos que lhe alteram o cheiro e a cor. Irmã humilde e caridosa, percorre feridas de corpos machucados, lava o pus das feridas, refresca os doentes, revitaliza os cansados. Derramada por tudo, lava todas as coisas, mas não é lavada, reza um hino mozárabe do século VI. Na Celebração eucarística, algumas gotas simbolizam a humanidade e mergulham no vinho, símbolo da divindade.

Percorre nosso organismo e aceita ser urina, expelindo todas as impurezas do corpo. Carrega as imundícies nela depositadas para dentro da terra, transformando-as em adubo e ela retorna purificada, humilde. É agradecida quando irmão Fogo a aquece para os banhos, ou as panelas onde contribui para cozer alimentos.

Como é preciosa, a irmã Água! A vida tem início dentro da placenta materna que se converte num precioso vaso de água que permite ao feto crescer bela criança. Participa do leite que os bebês sugam no seio materno. É a maior parte de nossa constituição física. Joga-se a semente na terra, e a água primeiramente a abre, depois a faz germinar, torna possível o crescimento, o fruto final. Silenciosamente ela mantém as florestas, jardins, chafarizes. Sem ela não há vida. Tanto alimenta animais como pessoas, protege o solo contra a desertificação.

Deus a quis presente no Dilúvio, protegeu o Povo eleito da perseguição do Faraó, dessedentou na caminhada do Povo eleito, e no rio Jordão, confirmando a conversão dos pecadores, foi sinal para João Batista. Ela foi santificada quando Jesus nela desceu para o Batismo e, através dela, o Espírito nos fez filhos de Deus.

A irmã Água é casta. É um belíssimo e delicado título, somente podendo ser captado pela pureza angelical de Francisco de Assis. Percorre o corpo nu de jovens e mulheres e vai embora silenciosamente. Discretamente banha faces, seios e permanece a mesma. Trata com igual carinho o corpo vigoroso da donzela e o corpo esmaecido do ancião. Todo o encanto do corpo humano, ocultado pelas vestes, mistério para as mãos que acariciam, a água conhece, purifica, refresca no calor, revitaliza no cansaço. Com respeito, em silêncio. A Água é preciosa e casta. É tão preciosa e casta que faz a festa de inocentes bebês e crianças. Os adultos podem chorar uma enchente, as crianças, porém, nela enxergam motivo de festa, ocasião para brincar.

Por tudo isso, louvado sejas, meu Senhor, pela irmã Água, que é mui útil e humilde, e preciosa e casta. 

Pe. José Artulino Besen

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  1. #1 por Ebrael Shaddai em 23 de julho de 2012 - 09:42

    A Água. doravante, é o sangue comum das criaturas! É o que lhes há de mais íntimo e comunitário e aviva. Não é à toa que o Senhor chama de “água viva” à Compreensão das coisas divinas!
    Paz de Cristo!

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