SÃO JOÃO VIANNEY, O VIGÁRIO DO BOM DEUS

1859 – quatro de agosto – 2009

São João Maria Vianney

São João Maria Vianney

Recordar São João Vianney é recordar a comovente simplicidade de um padre cujo único e glorioso título é “O Cura de Ars”, o vigário da pequena aldeia francês Ars-en-Dombes. Servindo-se de um paradoxo profundamente cristão, em uníssono com uma palavra de São Francisco, ele dizia aos seus paroquianos: “Nós devemos nutrir um grande amor por todos os homens, pelos bons e pelos maus. Quem tem o amor não pode dizer que alguém faça o mal, porque o amor perdoa tudo”. Esse foi seu segredo e é esse segredo que ele passa a quem é cristão: ser rigoroso com o pecado, nunca com o pecador.

Uma família fiel à Igreja e ao Papa

João Maria Vianney nasceu em Dardilly, França, em 8 de maio de 1786, filho do casal Mateus e de Maria Béluse, que deram aos filhos uma formação cristã sólida e pródiga em obras de caridade.

Em sua infância e juventude, João Vianney viu a Igreja francesa dividida entre padres e bispos constitucionais e padres e bispos refratários (os que se negaram ao juramento). A origem está na promulgação da Constituição Civil do Clero, votada pela Assembléia Constituinte em 1790. Por ela, padres e bispos passaram a estar ligados ao Estado, dele sendo funcionário e deixando de depender diretamente à Santa Sé. Decretos seguintes criam uma Igreja nacional, transformam-na em órgão estatal e suprimem a Igreja propriamente dita. Padres e bispos passam a ser eleitos democraticamente. As antigas dioceses são suprimidas e criaram-se novas, equivalendo ao território dos Departamentos. Desse modo, as 83 novas dioceses são ocupadas por eleição: é a Igreja Constitucional, sem vínculos com Roma. Muitos mártires, cujo sangue fará renascer das cinzas essa Igreja tão provada no furor revolucionário. Calcula-se que metade do clero jurou a Constituição.

O povo deparou-se com situação inusitada: em algumas paróquias, o pároco constitucional era aceito por parte da população. Em outras, foi rejeitado, e os fiéis ficaram sem atendimento religioso. Foi também possível, em alguns lugares, a convivência dos dois tipos de padres: o constitucional e o refratário. Em comunidades mais devotas, no interior, o padre refratário atendia secretamente o povo que permanecia fiel à Igreja.

O novo pároco de Dardilly tinha prestado juramento à Constituição Civil do Clero. Para os Vianney, segui-lo era rejeitar a autoridade do papa e ingressaram no círculo de um padre “refratário”. Aos 13 anos, João Maria não pôde fazer a primeira comunhão na igreja, porque estava fechada ao culto, mas em uma clareira onde o padre se havia escondido. No dia da Crisma acrescentou o Batista a seu nome: João Batista Maria Vianney.

Dois aspectos marcaram profundamente a vida de João Maria: a educação cristã da família e o testemunho corajoso do padre refratário. Pouco a pouco amadureceu nele a idéia de tornar-se padre. Escolha confirmada aos 20 anos de idade. Mas, não tinha um mínimo de instrução e por isso não foi aceito no Seminário de Lyon, após um breve experiência. Não passou pelos exames. Mas foi acolhido na casa paroquial de Écully, cujo pároco, Pe. Balley, pacientemente lhe deu a primeira instrução. Foi um homem santo que percebeu a interioridade do jovem: “É um jovem que reza. A graça de Deus fará o resto”. A mesma opinião teve o Vigário Geral.

Muito se espalha a respeito da “burrice” de João Vianney. Ele mesmo deu asas a essa idéia. Na verdade, João Vianney não tinha estudado. Como poderia estar preparado para o latim e a gramática? Contudo, quando as coisas lhe eram explicadas com vagar e paciência, aprendia bem. A vida posterior revelou-o um homem justo, coerente, sábio, bom administrador, e santo.

Ordenado presbítero em 13 de agosto de 1815, com 29 anos, foi nomeado coadjutor do Pe. Balley, com este competindo na vida de oração, penitência, abnegação e jejum. Foram dois anos preciosos para complementar sua formação cultural, e com a graça de ser jovem sacerdote junto a um velho e sábio sacerdote, morto em 1817. Nesses anos não tinha a faculdade de ouvir confissões, pois o julgavam incapaz de dirigir consciências.

Do rigorismo jansenista ao Deus misericordioso

A vida extremamente rígida do Padre Balley e que passou ao seminarista e padre Vianney, revela traços do Jansenismo, doutrina formulada no século XVII-XVIII e que teve grande influência na França, em reação a uma moral laxista, facilitadora do relaxamento cristão. A doutrina jansenista ensina que o homem está corrompido pela concupiscência e, por isso, destinado a fazer o mal. Sem a graça divina nada resta ao homem do que pecar. O livre arbítrio fica sujeito à ação da graça, dada por Deus em Cristo, e que faz os homens por ele predestinados serem justificados pela fé e pelas obras. Diante de Deus o homem nada pode, por sua indignidade: ele é o juiz absoluto de nosso destino e assim, nossa atitude diante dele não é o amor, mas o temor. Conseqüência disso é a vida moral austera e rigorosa e que era alimentada em Vianney pelas leituras dos livros que herdara do Pe. Balley..

Essa influência nos faz compreender a vida de extrema penitência do Pe. João Vianney: nosso pecado é tão grande que nenhuma penitência é suficiente.

Mas, há no Cura d’Ars uma evolução na compreensão moral, fruto de seu encontro com a moral de Santo Afonso de Ligório e com os padres redentoristas. Santo Afonso fala do amor “louco” e apaixonado de Deus por nós, revelado em Jesus. Substitui, portanto a figura carrancuda de Deus por outra infinitamente amorosa. E propõe a moral como uma instância de misericórdia e salvação; um lugar de aprendizado do amor; e não um conjunto de mandamentos feitos para proibir, incriminar e condenar. Mas, Santo Afonso se defrontou também com as fraquezas humanas, os pecados e fracassos. Junto com o arrependimento e propósito de mudança, ele propôs algo bem ao alcance de todos: a oração confiante. Dizia, com simplicidade: “Quem reza se salva, quem não reza se condena”. E completou este quadro de confiança com a recomendação de se buscar na Mãe de Deus e nossa Mãe a acolhida carinhosa e intercessora. Ficam assim evidentes as características de misericórdia, bondade e salvação da moral alfonsiana.

Deve ser lembrado que o Pe. Vianney, mesmo no tempo do rigor da influência jansenista tinha a convicção do amor de Deus pelos pecadores, do valor da oração, especialmente da Eucaristia. Deus, para ele, é sempre “o Bom Deus”. Tinha claro que os homens não seriam capazes de grandes penitências, donde julgar que sua missão era fazer penitência em lugar dos homens.

Pe. João Vianney, cura d’Ars

Em 1818 foi nomeado cura (pároco em 1821) da pequena Ars-en-Dombes, com pouco mais de 250 moradores. Era, na verdade, capelão de uma capela de aldeia! Foram necessários 10 anos para que o povo aprendesse o caminho da igreja paroquial. O trabalho pastoral consistia em atacar os vícios abominados por todos os pregadores da época como frutos do secularismo: os bailes, os botecos, o trabalho nos dias santos. Combatia os que dançavam e os que assistiam aos bailes. Na igreja paroquial, no frontispício do altar de São João Batista, escreveu: “vítima de uma dança” (recordando Herodíades que, após uma dança, pedira a Herodes a cabeça do Precursor num prato). O fenômeno era grave sobretudo entre os homens em seguida à Revolução francesa.

Inicialmente visitou todos os paroquianos, e depois continuava a visitá-los, casa a casa, para conduzi-los à prática religiosa, sobretudo à participação freqüente aos Sacramentos.

Pe. Vianney seguida dois caminhos: o primeiro, condenar sem piedade os vícios do povoado; o segundo, cultivar sua vinha com carinho, reunindo pequenos grupos para viverem a vida cristã na oração e na liturgia. Com isso, lançando os fundamentos da vida cristã em suas ovelhas, conseguiu a conversão de grande parte delas. O fervor dos pequenos grupos espalhou-se como mancha de óleo.

A Eucaristia, a catequese e a confissão formam o núcleo de todo seu trabalho e da vida cristã. Gosta de ter a igreja arrumada, paramentos e toalhas limpos e bem passados. Nada é bastante para agradar a Deus. Diferente de tantos padres de seu tempo, Pe. Vianney dá uma enorme importância à instrução dominical, à homilia. Numa linguagem moderna, diríamos que o Cura d’Ars iguala a Liturgia da Palavra à Liturgia Eucarística: “Nosso Senhor, que é a própria Verdade, não dá menos importância à sua palavra do que ao seu corpo. Não sei se é mais prejudicial ter distrações durante a Missa do que durante as instruções, eu não vejo diferença. Durante a Missa, deixamos perder os méritos da Morte e Paixão de Nosso Senhor, e durante as instruções deixamos perder sua palavra que é ele mesmo”.

Era muito claro seu objetivo: dedicar a vida inteiramente para salvar cada homem e cada mulher. Mesmo que suas palavras não fossem tão profundas e ricas de conteúdo, ele conseguia transmitir a fé com sua coerência, pois vivia materialmente o que pregava.

O povo aprendeu atraído por aquele padre pobre entre os pobres, capaz de tirar não só o manto, mas também toda a vestimenta, para dar aos pobres. Muitas vezes voltou para casa descalço.

Pouca saúde, muita disposição

Pe. João foi um homem marcado pelas doenças: agripnia, distúrbios pulmonares, pleuropulmonite na base do pulmão direito, nevralgias faciais, dor de dente, enterocolite, hérnias, reumatismos, etc. Tudo isso lhe dava forças para trabalhar, amar e expiar os pecados do mundo. Recompensava seu corpo com uma refeição diária com batatas cozidas dias antes, três horas de sono deitado numa cama sem colchão, mortificações corporais. Possuía uma receita para as dificuldades, calúnias, críticas, dores, humilhações: mergulhava na oração diante do Sacrário nos momentos de quase desespero em que se sentia condenado ao inferno. Via-se como um pecador sem solução, pois seu ministério era de responsabilidade além de seus limites: Deus lhe confiava tanta gente, e o que seria dele se algum fosse condenado ao inferno? Chegou a pedir a Deus que derramasse uma luz menos forte sobre sua alma, ante o medo de seus pensamentos de desespero: “Não tenho outro recurso contra essa tentação de desespero que me jogar aos pés do Tabernáculo como um cãozinho aos pés do seu dono”.

A consciência do amor de Deus por nós, e por ele, o faz sempre mais viver na confiança na misericórdia e libertar-se da tentação do desespero que o acompanhou quase até os últimos anos. Podemos dizer que os anos de 1853 a 1859 foram marcados por maior paz interior, sentindo a felicidade de amar a Deus. Mesmo assim, na consciência de sua nulidade, de seus lábios brotavam as mais belas palavras sobre o amor divino: “O amor vale mais do que o temor. Há os que amam o bom Deus, mas cheios de temor. Não é assim que se deve proceder. Deus é bom. Ele conhece nossas misérias: é preciso que nós o amemos, é preciso que nós queiramos fazer tudo para agradá-lo”. Ou essa bela oração composta pela fundadora da Sociedade das Filhas de Maria, Adelaide de Circey, que ele copiou: “Meu Deus, se minha língua não pode dizer a todo o momento que vos amo, quero que meu coração vô-lo repita tantas vezes quantas respiro. Meu Deus, dai-me a graça de sofrer amando-vos e de vos amar sofrendo. Eu vos amo, ó meu divino Salvador, porque fostes crucificado por mim. Dai-me a graça de morrer amando-vos e sentindo que eu vos amo”.

O Confessionário, sua sala de acolhimento

Seu grande ministério foi o das Confissões, geralmente 16 horas diárias, interrompidas às 11 horas para uma pequena catequese ao povo. Missas às 6h, aos domingos uma às seis e a Missa solene, que ele gostava de cantar, às 10 horas. Tinha o dom de ler as consciências, curava as almas, e também os corpos. Era misericordioso nas penitências dadas aos pecadores: uma breve oração, pois, dizia “Eu imponho apenas uma pequena penitência àqueles que confessam devidamente seus pecados; o resto eu faço em lugar deles”. Vivia uma visão bíblica e singela da misericórdia divina: “Deus é mais rápido em perdoar, do que uma mãe em arrancar seu filho do fogo”.

Expulsava os demônios, mas suportava o feio diabo que o atormentava de todos os modos durante as poucas horas que dedicava ao sono. Dava-lhe o nome de Grappin (Gancho, intraduzível). O demônio tinha prazer em perturbar seu breve repouso. Fazia tanta arruaça que os vizinhos, sem saber quem era, diziam que “nosso vigário é muito barulhento!”. Depois compreenderam o que acontecia. Quando o diabo pôs fogo em seu leito, comentou: “Não podendo queimar o passarinho, botou fogo na gaiola…”.

O Confessionário foi sua Sala de Acolhida: ali aproximou de Deus muitas almas que se tinham afastado da vida cristã, possibilitou a outros dar grandes passos na fé. Foi muito importante seu dom de discernimento e de penetração dos corações.

Conselheiro e diretor de consciências

São João Maria Vianney - sua cozinha, em Ars

Sua cozinha, em Ars

Grandes Fundadores [1] de novas Ordens religiosas nascentes confrontaram suas intuições com o humilde pastor. Significativa a visita do Pe. Henri Dominique Lacordaire, restaurador da Ordem dos Dominicanos, em 1845. Era Lacordaire o mais ilustre orador sacro francês. Escuta com prazer a humilde homilia do Pe. Vianney e depois comenta: “Ele me fez compreender o Espírito Santo”. Chegou a Ars como peregrino. No final da visita ele se ajoelhou e pediu que Pe. Vianney o abençoasse. Em seguida, Pe. Vianney se ajoelha e pede que Pe. Lacordaire o abençoe. Uma belíssima cena que nos faz recordar, na longínqua Idade Média, o encontro de São Francisco o pobre com São Domingos o doutor. Com bom humor depois comentou Pe. Vianney: “Os extremos se tocam: a extrema ciência com a extrema ignorância”.

Ajudou o Pe. Collin, fundador da Sociedade de Maria em Lyon. Em 1841 recebeu o Pe. Muard, fundador dos Padres de Santo Edme, em Pontigny. Anos depois, Pe. Muard retorna e lhe confidencia o desejo de reunir alguns discípulos sob a regra de São Bento. Pe. Vianney o encoraja e lhe diz que nada temesse, pois a inspiração era obra de Deus. E Pe. Muard se retira para Pierre-qui-vire e ali organiza importante abadia beneditina, origem de outros mosteiros. Em 1857 é a vez do Pe., Júlio Chevalier, fundador dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus de Issoudun que se retira reanimado, tornando sua Congregação importante instituto missionário.

Uma lista dos homens ilustres que necessitam das palavras do humilde Cura de Ars: o Cardeal de Bonald, arcebispo de Lyon, Dom Dupanloup, bispo de Orléans, uma das grandes figuras da França, Dom Allou, bispo de Meaux, que passa oito dias em Ars, escondido, não querendo perder nenhuma catequese do Pe. Vianney, o Pe. Chevrier, fundador do Prado em Lyon, beatificado em 1986.

Recebia os padres ou bispos com o maior respeito e lhes dedica todo o tempo que consegue. Manifestava diante do povo sua fé na grandeza do sacerdócio e sua estima pelos padres: “Depois de Deus, o padre é tudo. Vocês não podem se lembrar de um só benefício de Deus. Sem encontrar, ao lado dessa recordação, a imagem do padre”. Jamais recusa atendê-los em confissão. Dizia ao povo: “Se eu encontrar um anjo e um padre, primeiro cumprimento o padre, e depois o anjo, pois nenhum anjo pode celebrar a missa”.

Em seu trabalho de discernimento em 1850 recebeu o vidente de La Salette, Maximino e depois concluiu: “Ele não viu Nossa Senhora”. Isso lhe trouxe muito aborrecimento e a repreensão dos bispos da região, que acreditavam piamente nos fatos acontecidos em La Salette. Pe. João Maria rezava para estar enganado, pois, afirmou, “se os bispos acreditam, por que eu não?”.

Suportou calúnias e difamações de alguns paroquianos e depois, com as multidões vindo ao seu encontro, dos sacerdotes das paróquias vizinhas. Era o mais baixo sentimento da inveja clerical. O Cura até gostava disso, pois achava que o bispo, sabendo quem ele era e dando ouvido às más línguas, o deixaria ir para um mosteiro.

Os dois padres coadjutores

Em 1843, após grave doença, recebeu um coadjutor na pessoa do Pe. Antônio Raymond. Ele liberou-o de muitos trabalhos, mas também trouxe-lhe aborrecimentos. Era de um caráter forte, invasivo e não livre da inveja. Pe. João tinha pena do povo que não era bem tratado. Mas, seu relacionamento foi muito bom e Pe. Raymond nutria particular afeto pelo pároco que sempre o defendia, pois não era muito estimado pelo povo devido a seus modos grosseiros.

Em 1853 recebe um novo coadjutor: o Pe. José Toccanier. Corpulento, 50 anos  de idade, sempre sorridente e jovial, cria rapidamente na paróquia um clima diferente do criado pelo assustador Pe. Raymond. O povo logo reconhecem sua caridade para com todos, seu devotamento ao Pe. Vianney.

Pe. Toccanier organiza o atendimento paroquial e chama missionários – uns 10 – para apoiá-lo no acolhimento aos peregrinos.

Em 1857, com a mudança de bispo, Pe. Vianney julga que é chegado o momento de se retirar para um mosteiro. Comenta com ar de satisfação: “Sua Excia, vai chegar; eu lhe pedirei que me permita retirar-me para chorar minha pobre vida”. Mas o bispo Langalerie lhe diz que sua presença em Ars é a vontade de Deus e que, para onde quer que ele vá, a multidão o seguirá infalivelmente”. Obedece, mas depois, em sua humildade escreve uma carta ao bispo: “Excelência, estou ficando cada vez mais velho e doente. Sofro de tonturas no confessionário, que duram dois ou três minutos. Penso que V. Excia. julgará bom que eu passe algum tempo na casa de meus pais. Em vista de minha enfermidade e de minha idade, quero dizer adeus a Ars para sempre. Assina: Vianney, pobre e infeliz padre”.

Em vão. A vontade de Deus era que trabalhasse na salvação dos peregrinos e penitentes de Ars, a pequena aldeia agora famosa em toda a França.

Salvar as almas, salvar os corpos

Pe. João Maria ouvia uma média anual de 80 mil confissões. As multidões que de toda a França e de outras nações européias acorriam a Ars escandalizavam a intelectualidade francesa, ciosa de seu racionalismo e de seu desprezo pela Igreja católica. Chegaram a dizer que o humilde “Pe. João Vianney perturbou o século XIX”.

Era tal a multidão que acorria a Ars que o Governo francês, anti-cristão, teve de se conformar e construir uma ferrovia ligando Lyon a Ars. Como era imensa a fila de penitentes, as agências de viagem de Lyon, aproveitando o filão que se apresentava para terem lucro, vendiam a passagem de ida com possibilidade de volta em oito dias, tempo esse esperado por muitos para serem atendidos.

O bispo nomeou-o “Cônego Honorário”: Vianney vendeu a murça (parte superior do traje dos cônegos e monsenhores) por 50 francos, para uma obra de caridade. Rejeitou as distinções, pois dizia ser muito ridículo apresentar-se diante de Deus com essas bugigangas e dele ouvir: “Já foi recompensado!”. Com veemência rejeitou a condecoração de Cavaleiro da Ordem Imperial da Legião de Honra oferecida pelo governo francês.

Para atender as jovens carentes instituiu a Casa da Providência e, em seguida, outra, para os jovens, depois confiadas às Irmãs e Irmãos Filhos de São José. Em alguns períodos eram 60 as internas e Vianney realizou verdadeiros milagres de multiplicação dos pães para alimentá-las. Tinha consciência da importância da instrução, ele que dela fora privado. Criou instituições para os famintos, pobres e sofredores. Construiu nova igreja paroquial. Estimulou as missões paroquiais e diocesanas. Ars tornou-se centro de irradiação missionária.

Achava-se tão indigno de ser vigário que por duas vezes tentou fugir de Ars (1843 e 1853), pois desejava ingressar num mosteiro: o povo conseguiu alcançá-lo e trazer de volta…

Sua vida de pároco foi no dia a dia de um ministério perseverante e na constante fidelidade ao seu “bom Deus”.

As graças místicas e os incômodos do diabo: era Vianney paranormal?

São João Maria Vianney

São João Maria Vianney

Profundamente místico, quem o conheceu profundamente atestou que jamais procurou graças místicas. Não era influenciável, imaginativo e possuía um juízo muito sólido. Tudo isso apareceu com evidência nos depoimentos colhidos, para o processo de beatificação e canonização e se referem a acontecimentos ocorridos sem interrupção entre 1824 e 1855. São testemunhas oculares que falam sob juramento, e coincidindo entre si.

Ele lia as almas como se fossem um livro aberto e anunciava acontecimentos que não poderia conhecer naturalmente [2]. Conhecia antecipadamente aquilo que perturbava a consciência das pessoas, corrigia penitentes que “enfeitavam” pecados. Alguns espíritas quiseram nele ver faculdades mediúnicas, mas isso é totalmente fora de propósito: suas faculdades extraordinárias são condicionadas pela fé cristã e pela vida sacramental. Ele não prediz o futuro, mas manifesta o projeto de Deus a respeito de determinada pessoa. A única finalidade é a busca de Deus.

Ele não busca o maravilhoso, o causar impressão, foge de quem o procura em busca de fatos miraculosos. Prova de sua humildade e discernimento foram as duas vezes que quis fugir de Ars e ingressar num convento. O bom senso sempre o guia.

Não teve uma sólida formação doutrinal, mas para ele a teologia mística é uma carta viva, pois tudo, o visível e o invisível, estão nas mãos de Deus. Sua vontade pessoal não conta, mas somente a vontade de Deus de que a Igreja, para ele, é a única depositária.

Os prodígios que cercam sua pessoa, as curas realizadas, a leitura das consciências são considerados carismas e sinais de sua santidade. Ninguém o acusou de charlatanismo.

Estudiosos nele identificam semelhança fenomenológica entre graças místicas (orientadas para a união com Deus) e faculdades parapsicológicas. Foram enumerados 187 casos e comunicação telepática (leitura do pensamento) mas que sempre têm um objeto exclusivo: a conversão dos pecadores e a fé em Cristo. Não era impressionável, como diante do vidente de La Salette, Maximino, cujas visões eram aprovadas por diversos bispos e arrastavam multidões: ele não acreditou no vidente. Estava livre do desejo da fama, comprovando sua humildade e desapego diante dos “grandes” que o procuravam.

O mesmo se pode dizer das 38 curas milagrosas obtidas pelo Santo durante sua vida: não são pura eliminação de patologias, mas devem ser entendidas como um sinal espiritual enviado por Deus através da oração.

Por fim, entre os fatos extraordinários vividos pelo Santo de Ars, aparece a figura do diabo. Como tantos outros Santos, Pe. Vianney sofreu as visitas noturnas do demônio, que ele apelidou de “Grappin”. Há uma proximidade quase material entre os dois. Na história não existe registro igual de invasão diabólica tão longa, tão variada e tão irrefutável: foram 25 anos.

São rumores: o diabo anuncia sua chegada batendo contra a porta. São rumores em forma de barulho de animais (lobo, urso, cão), rumores de artesãos (serrote, martelo), rumores humanos (suspiros, choro sufocado, gemidos, gritos, uivos). Diversas vezes Pe. Vianney o escutou gritando debaixo da cama: “Vianney! Vianney! Papa batatas… te peguei”.

São deslocamentos de objetos: a pia de água benta arrancada da parede e quebrada, crucifixos outros objetos de presbitério deslocados. Alguns estudiosos viram ali a telecinese, o que não condiz com a realidade: acontecem à noite, sem a interferência do Santo e são objetos sacros, parte de seu mundo espiritual. São fenômenos físicos: incêndio da cama do Santo, constatado materialmente, línguas de fogo que aparecem na parede, sensação de ser violentado, sensação de frio intenso. Fenômenos de aporte, como a lama que se deposita sobre um quadro da Anunciação.

São João Vianney nunca deu importância a esses carismas excepcionais, considerava-se um penitente cuja oração e penitência agradavam unicamente a Deus e não um taumaturgo, um curandeiro. Sua santidade não tem origem nesses fatos miraculosos, mas na confiança que depositava em Deus. Sua espiritualidade era a rigorosa imitação de Jesus de Nazaré. Lembremos o que dizia às pessoas que o procuravam: “Eis a minha receita: eu lhes dou um a pequena penitência e o resto eu faço em seu lugar”.

Essa mística da substituição é um dos traços característicos de sua vida interior.

O encontro com o bom Deus

Calculam-se mais de 100 mil peregrinos em Ars no último ano da vida do Pe. João Vianney, 1859. Historiadores calculam que um milhão de pessoas adentraram seu confessionário. Era idoso, nos seus 73 anos. Idade, penitências, excesso de trabalho, má alimentação o deixaram muito enfraquecido para atender às multidões. Em 18 de julho de 1859, prostrado no leito, sentiu chegado o final de sua peregrinação terrestre. Pediu que trouxessem o vigário de Jassans para ministrar-lhe os últimos sacramentos. Mesmo assim, chamou diversos penitentes para que se ajoelhassem junto ao leito e terminassem a confissão. Espalhando-se a notícia, acorreram multidões e 20 padres acompanharam o Pe. Beau, seu confessor, quando esse trouxe os últimos sacramentos. Pe. Vianney teve força para responder às orações e em seguida chora. “Está cansado?”, perguntam-lhe. “Oh, não! Choro de pensar quanto Nosso Senhor é bom de vir nos visitar em nossos últimos momentos”. De seu leito, o Cura d’Ars abençoa os que passam diante de sua casa, para rezar por ele. Benze buquês repletos de terços, imagens, medalhas e pequenos crucifixos.

No dia 3 de agosto chegou o bispo de Belley [3], apressado, querendo pela última vez contemplar o seu padre. Com muito esforço, Pe. Vianney beija-lhe carinhosamente  o crucifixo. É seu último beijo na cruz de Nosso Senhor.

Pe. João Batista Maria Vianney faleceu às duas da madrugada do dia 4 de agosto de 1859. A procissão diante de seu corpo não cessava. No dia seis, suas exéquias contam com a presença de 300 padres e seis mil pessoas.

O mestre-escola de Ars talvez tenha dado a melhor descrição da vida e da pessoa do Santo: “A mais difícil, extraordinária e espantosa obra feita pelo Cura d’Ars foi sua própria vida”. Sua vida de pároco foi no dia a dia de um ministério perseverante e na constante fidelidade ao seu “bom Deus”.

Beatificado em 1905 e canonizado em 1925 foi proclamado “Patrono dos Sacerdotes”.

Ars continua a ser um centro de peregrinações, recebendo c erca de 450 mil pessoas ao ano. O acolhimento pastoral é feito pelas Beneditinas do Sagrado Coração de Montmartre.

ANO SACERDOTAL

Bento XVI anunciou um Ano Sacerdotal lembrando os 150 anos da morte de São João Batista Maria Vianney; um ano de oração pelos sacerdotes, por sua valorização da parte do povo, para cada sacerdote valorizar seu ministério ordenado. Iniciando em 19 de junho de 2009, festa do Sagrado Coração de Jesus, se prolonga até quatro de agosto de 2010.

Quando do centenário da morte do Cura d’Ars, João XXIII, o Papa bom, publicou a Carta encíclica Sacerdotii Nostri Primordia, os primórdios de nosso sacerdócio, reavivando a mensagem de Vianney para cada sacerdote.

Em breves tópicos, assim João XXIII delineia a mensagem perene do Santo dos párocos e vigários:

  1. sua “voluntária aflição do seu corpo“, que “o levou a abster-se quase completamente de alimento e de sono, e a fazer as mais duras formas de penitência, e a renunciar a si mesmo com grande força de alma”. Vianney empenhou-se nessas mortificações como penitência em favor dos pecadores a quem ele atendia: “Eu imponho apenas uma pequena penitência àqueles que confessam devidamente seus pecados; o resto eu faço em lugar deles”;
  2. sua vida de pobreza, “uma vida que era completamente desapegada dos variáveis e perecíveis bens deste mundo.” A encíclica ressalta que Vianney dizia: “Meu segredo é fácil…dar tudo, sem reter coisa alguma para mim mesmo. Há muita gente guardando seu dinheiro escondido enquanto tantos outros estão morrendo de fome”;
  3. sua vida de castidade: Vianney dizia: “Uma alma adornada com a virtude da castidade não pode deixar de amar os outros, pois ela  descobriu a própria fonte do amor – Deus”;
  4. sua vida  de obediência: Ele vivia de tal modo que “se queimava a si mesmo como um pedaço de palha consumido por carvões em brasa”;
  5. sua administração do sacramento da Penitência: Vianney levava-o tão a sério que dizia: “Tantos crimes contra Deus são cometidos, que às vezes somos inclinados a pedir a Deus que acabe com este mundo!… Você deve vir à aldeia  de Ars se  quer realmente saber como é infinita a multidão dos pecados que se cometem. Ah, não sabemos o que fazer! Pensamos que não há nada mais a fazer senão chorar e clamar a Deus”;
  6. o valor incalculável da Missa: “É, pois, uma obrigação para o padre reproduzir na sua alma o que se passa no altar e, visto que Jesus se imola, assim também o seu ministro deve imolar-se com ele; já que Jesus expia os pecados dos homens, o padre alcançará a sua própria purificação e a dos outros, seguindo a via árdua da ascese cristã. Era essa a experiência adquirida pelo Cura d’Ars, que assim se exprimia: ‘A causa do relaxamento do padre é não prestar atenção à missa’. E o santo ,que tinha o hábito de oferecer-se em sacrifício pelos pecadores, derramava abundantes lágrimas ‘ao pensar na infelicidade dos padres que não correspondem à santidade da sua vocação’”;
  7. os inocentes imolados pelos pecadores: “Se não houvesse almas muito inocentes para agradar a Deus e satisfazer por nossos ofensas, quantos terríveis castigos deveríamos ter de sofrer!”;
  8. a misericórdia divina: “Deus é mais rápido em perdoar, do que uma mãe em arrancar seu filho do fogo.”

A encíclica também exalta, em Vianney, a vida de oração, a santidade, as habilidades pastorais, o exercício do ofício de ensinar etc.

Olhando o Pontificado de João XXIII (1958-1963) pode-se perceber como os dois santos eram almas gêmeas na bondade, na pobreza e na simplicidade de vida. Ambos fizeram da imitação de Cristo a razão de suas vidas. No mais alto de sua fama, de sua importância na vida da Igreja, nunca deixaram de ser aquilo que era a sua vocação: ser padre, apenas padre.

BIBLIOGRAFIA

  • BOUCHARD, FRANÇOISE. Le Saint Curé d’Ars: viscéralement prêtre (préface de Mgr Jean-Pierre Ricard ; postface du père Jean-Philippe Nault). Paris: éditions Salvator, 2005. 318 p., 21 cm.
  • JOULIN, MARC, OP. A vida do Cura d’Ars. A audácia de amar a Deus!. São Paulo: Edições Loyola, 1989. Tradução de Luiz Darós.
  • LEONARDI, C., RICCIARI, A., ZARRI, G. Il grande libro dei Santi. Cisinello Balsamo : Edizioni San Paolo, 1998. Vol. 2
  • MONNIN, ABBÉ ALFRED. Le Curé d’Ars. 1922: Editions Tequi. Do grupo dos missionários de Ars, Pe Monnin ali chegou com apenas 24 anos. Procurou anotar os fatos da vida de João Vianney e publicou sua primeira biografia. Um pouco refletindo sua admiração pelo Santo, é consistente nas informações.
  • SBALCHIERO, PATRICK: Dizionario dei Miracoli. Bologna: Edizione Dehoniane Bologna, 2008, Vol. 2.
  • TROCHU, FRANCIS. O Santo Cura d’Ars. Petrópolis: Editora Vozes Ltda., 1960, 2ª. Edição. Obra clássica, fundamentada nos anais dos processos de beatificação e canonização, teve a primeira publicação em português no ano de 1939, em Porto Alegre, com tradução de dois seminaristas maiores de São Leopoldo. Leitura anual nos seminários, forjou muitas vocações no espírito de São João Maria Vianney.

Obs.: artigo publicado em ENCONTROS TEOLÓGICOS, Instituto Teológico de Santa Catarina, Florianópolis, ano 24, n. 2, 2009.


[1] Cf. JOULIN, MARC, OP: A vida do Cura d’Ars. São Paulo: Edições Loyola, 1989. Tradução de Luís Darós, p. 140-144.

[2] Para o estudo dos abundantes fenômenos extraodinários de sua vida, seguimos o recente e precioso: SBALCHIERO, PATRICK: Dizionario dei Miracoli. Bologna: Edizione Dehoniane Bologna, 2008, Vol 2.

[3] Em 1823 a diocese de Belley foi restabelecida e Ars passou a pertencer-lhe, separando-se de Lyon..

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  1. #1 por vanilde em 7 de junho de 2010 - 22:45

    Gostaria se saber como faço para adquirir toda essa linda história de vida em livro. Vi um na internet, mas não tão completo como esse. Como posso conseguir esta biografia que está nesse site? Obrigada.

  2. #2 por Maria Onélia Rodrigues Soares em 5 de agosto de 2010 - 22:19

    Que São João Maria de Vianey, abençõe todos os padres….
    Obrigada Padre Santo.

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