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A DORMIÇÃO E A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

 

A minh’alma glorifica o Senhor,
porque olhou para a humildade de sua serva (Lc 1,46-48).

Vinde de todos os confins do universo,
cantemos a bem-aventurada trasladação da Mãe de Deus!
Nas mãos do Filho ela depositou a sua alma sem pecado:
com a sua santa Dormição o mundo é vivificado;
e é com salmos, hinos e cânticos espirituais,
em companhia dos anjos e dos apóstolos,
que ele a celebra na alegria.

Oh, os teus mistérios, ó Pura!
Apareceste, ó Soberana, trono do Altíssimo
e nesse dia te transferiste da terra para o céu.
A tua glória brilha com o resplendor da graça.
Virgens, subi para o alto com a Mãe do Rei.
Ó cheia de graça, salve, o Senhor é contigo:
ele que doa ao mundo, por teu intermédio,
a grande misericórdia.

A comemoração da assunção de Maria ao céu deita raízes no século II e sua festa na Liturgia cristã é fixada no século VII, tanto na Igreja oriental como na ocidental. A festa foi fixada para o 15 de agosto e era precedida de um jejum de 15 dias, recebendo uma liturgia solene, devota e bela, como convinha à Mãe de Deus. Não se economizavam as palavras para o louvor daquela que deu carne ao Filho de Deus.

Tudo o que Deus, desde a eternidade, planejara para o ser humano, pôde realizá-lo em Maria.  Eva, a primeira mulher, optou pelo não à amizade divina e Maria, a nova mulher, disse sim. E nela foi plena a graça de Deus. Bendita entre as mulheres, não conheceu o pecado. Diante do Anjo, aceitou ser serva da vontade divina. E nela o Filho de Deus se fez carne para habitar entre nós.

Maria conservou íntegro o ser imagem e semelhança de Deus. Livre do pecado original foi também livre de suas consequências. Permaneceu virgem e, como virgem, concebeu e deu à luz um filho, o Messias. Nossa fé afirma que Maria, a Mãe do Messias-Cristo, é uma virgem, uma mulher na condição de quem “não conheceu homem”, não se uniu a homem algum: sua maternidade de Jesus procede da sua virgindade. Eis o paradoxo, o extraordinário, o miraculoso do nascimento de Jesus. Este paradoxo quer significar que somente Deus nos podia dar um homem como ele: Jesus não nasceu “do sangue e carne, nem da vontade do homem”, e isso é afirmado pelos evangelhos através da virgindade de Maria, tornada mãe pela potência do Espírito Santo.

São numerosos os lugares dedicados a Maria: santuários e igrejas dedicados a Maria no campo e na cidade, nos montes e nas ilhas menores e solitárias. Nesses locais, quantas orações, quantos cantos elevados a ela. A essa mulher, pintada ou esculpida, um número incalculável de pessoas olhou e olha como se olha a Mãe. Na sua desolação, em suas angústias e em seu pranto, pedem o impossível confiando que ela possa escutá-los, ter misericórdia, porque nela sentem a Mãe: “mostra-te Mãe”, invocam. Quantas vezes temos em nossas igrejas a imagem da “Pietà”, Maria que segura em seus braços o filho morto: diante dessa imagem, quantas mulheres choraram e choram o filho morto; quantos fiéis suplicam para serem acolhidos, ao final de sua vida, em seus braços maternos, braços de Maria mãe! Maria está inseparavelmente inserida no mistério do Verbo encarnado e, dirigindo-se à Mãe de Deus, sabemos estar nos dirigindo àquela que intercede junto a seu Filho.

O ano litúrgico do Oriente tem início com a festa de 8 de setembro, quando celebra o nascimento de Maria, e termina com a festa de 15 de agosto, festa da Dormição de Maria e sua Assunção ao céu.

A liturgia realça Maria como mãe do Verbo encarnado e poderosa intercessora. Há uma estreita relação entre Cristo e Maria, entre o dom feito por ela e a fonte de onde jorra o próprio Cristo: “Infunde paz em minha alma, ó Virgem, com a paz serena de teu Filho e Deus. Cura-me, ó Mãe de Deus, tu que és bondade e deste à luz o Bom”. “Tu que geraste o timoneiro, o Senhor, aplaca o tumulto das minhas paixões e as violentas ondas de minhas quedas”, rezamos no Ofício da Assunção.

Assunção de Maria ao céu

Virgem de Vladimir, século XII

Todo filho oferece o melhor possível à sua mãe. Jesus, o todo-poderoso, nada negaria à Mãe, Maria. Não permitiria que o corpo de Maria sofresse a corrupção, pois seu corpo santo e puro não poderia sofrer as consequências do pecado, de que foi livre por graça divina, pela sua imaculada conceição.

O amor a Maria, os hinos em seu louvor são entoados em toda a história da Igreja: os Santos Padres, os teólogos, os monges, papas e bispos, nenhum poupou o agradecimento a Deus por nos ter dado tão santa Mãe. Orações, cantos e ladainhas testemunham essa devoção e afeto.

A piedade popular narra que todos os Apóstolos, espalhados pelo mundo, foram chamados e transportados pelos anjos até Jerusalém para se despedirem da Mãe. Ela terminou sua jornada na terra contemplada pelos amigos dela e de seu Filho. Foi sepultada no Getsêmani, mas, seu santo corpo não permaneceu no túmulo. O Filho a transportou para a glória celeste, onde reina com o Pai, e é a intercessora dos homens e mulheres, mãe vigilante de toda a história humana.

A Igreja manteve a fé na divina assunção de Maria ao céu e, coroando o caminho de devoção à Mãe do Senhor, no dia 1º de novembro de 1950 o Papa Pio XII, após consultar o episcopado e os teólogos, proclamou o dogma da Assunção com a Constituição apostólica Munificentissimus Deus. Após percorrer pela história da teologia e a fé mariana do povo cristão, definiu:

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

A assunção de Maria ao céu é um sinal das coisas últimas. Em Maria nos é dada uma antecipação da glorificação de todo o universo que acontecerá no final dos tempos, quando Deus será “tudo em todos”, “tudo em toda coisa”. A dormição-assunção antecipa a parusia, e prepara nosso destino comum. A gloriosa Mãe de Deus é nossa mãe, em seu regaço guarda todos os filhos. Cheios de amor e gratidão sabemos que por mais que falemos de Maria, nunca falaremos o suficiente, nunca falaremos demais. Ao invocarmos sua proteção sabemos que nossas preces se dirigem àquela que está junto do Filho: ela é a intercessora celeste, junto do Deus Trindade.


Pe. José Artulino Besen

 

Obs.: a Festa é fixada para o dia 15 de agosto. No Brasil, onde não há o feriado, é no domingo seguinte e, neste ano de 2018, no dia 19 de agosto.

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VOCAÇÃO, IMENSO AMOR PESSOAL POR JESUS

Jesus e seus discípulos

Jesus e seus discípulos

“Vem e segue-me”, foi o convite de Jesus. E eles deixaram tudo, foram atrás dele e nunca mais voltaram para casa. Foi a experiência de Pedro e André, João e Tiago, de todos os apóstolos, de Paulo, de milhões e milhões de homens e mulheres, jovens e crianças, nestes 20 séculos de cristianismo. Encontraram o Senhor e o seguiram pelo Caminho. Foi um encontro que gerou o fascínio e fez nascer o amor entre Jesus e seus discípulos. Foi a mesma experiência de Abraão, Moisés, Samuel, dos profetas, diante de Javé.

No mês de agosto, a reflexão pastoral acentua o tema das vocações ao casamento, ao sacerdócio, à vida religiosa e ao apostolado, todas, é claro, conseqüência da fé batismal. Muitas vezes se explica o como fazer e o que fazer na vida vocacionada. Situa-se a vocação no fazer e não no ser que gera a ação. O ponto de partida, para alguns, é a necessidade da Igreja, a superação da crise das vocações, da família, das congregações e institutos religiosos, a falta de agentes de pastoral qualificados. E corremos atrás das pessoas, oferecemos cursos de formação, materiais pedagógicos e o nosso agradecimento prévio pela aceitação do convite. Corre-se até o risco de passar a imagem da Igreja como centro de técnicas e conhecimentos e não como comunidade de vida e contemplação. O fruto de tal enfoque é o surgimento de vocações “profissionais” a serviço da estrutura eclesiástica ou religiosa, de agentes de pastoral apenas competentes. Vocações sujeitas à rotina, ao cansaço, ao desânimo, à necessidade de retribuição. É o preço pago pela mistura de evangelização com catequese. Ou, mais ainda, o preço histórico de nossa herança latina, que insiste mais na vontade, na lei, na instituição e na moral, e menos na oração, na contemplação, na mística. Com isso, a formação dos agentes de pastoral se coloca pouco na linha da experiência mística e mais na linha da razão e da eficácia racional.

Evidente que temos agentes de pastoral que passaram por uma verdadeira conversão, que nutrem um imenso amor pessoal por Jesus e seu povo, muitos deles despertados nos numerosos movimentos eclesiais. São discípulos.

Quem não foi tocado pelo amor de Jesus não tem a prática de comunicá-lo. Aquele que não sentiu o fascínio irresistível do Mestre é um pregador de projetos e preocupações humanas, sem calor, sem o impulso agregador do convertido.

Na Evangelii Nuntiandi, o Papa Paulo VI falava que o mundo precisa mais de testemunhas do que de discursos. Se o discurso comove, a testemunha arrasta. Testemunha é aquele que viu. Os apóstolos testemunharam a ressurreição porque viram o Ressuscitado.

O vocacionado será testemunha daquele que ressuscitou e faz a vida ressuscitar se ele próprio foi tocado pela pessoa do Mestre. Ele é um apaixonado pelos santos e pela santidade, ele está decidido a ser santo como Deus é santo. Busca a santidade que consiste no apropriar-se do transformante amor divino e irradiá-lo pela vida e pela palavra nas comunidades, igrejas, ambientes de trabalho, de estudo, santidade vivida no lar.

O fato de necessitarmos falar tanto em vocação já atesta uma carência da vivência cristã nos batizados. Então ganha todo o sentido a nova evangelização, o reavivamento da fé, o despertar da graça em quem a possui pelo batismo, mas disso não se dá conta. Precisamos de uma grande campanha vocacional: para a vocação cristã que gerará todas as vocações necessárias ao povo de Deus.

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«TENHO SEDE!» – A VOCAÇÃO CRISTÃ

Tenho sede! (Jo 18,28).

As grandes santos, que privaram da amizade divina, não viram na sede de Jesus Cristo sede física, mas outra sede, mais profunda e dolorosa: a sede de almas. Todo o mistério da encarnação está centrado na doação do Filho para aplacar a sede do Pai pelas almas. A multidão perdida no pecado, na desesperança, aumenta a sede do Senhor.

Os santos e os cristãos que entenderam sua vocação como intercessão pelos pecadores assumiram para si essa mesma sede: também eles gemem, em suas orações e em seu ministério, ardendo em sede de almas, na decisão insaciável de oferecer almas para saciar a sede de Cristo. Os algozes ofereceram vinagre ao Crucificado: os cristãos oferecem almas, a preocupação missionária, a oferta da oração.

Em junho de 1897 Santa Teresinha, após sofrer a experiência das “almas que não têm fé”, tomou a decisão de sentar-se à mesa dos “pobres pecadores”, para com eles comer “o pão da dor” e de não querer, de jeito nenhum, “levantar-se dessa mesa de amargura até que o Senhor os acolha a todos na sua misericórdia”. O amor e a compaixão por toda a humanidade, dos quais nasce o desejo de que todos se salvem, é um dom de Deus, uma graça. Não são sentimentos humanos, mas despertados e forjados no coração pelo Espírito Santo, afirma São Silvano do Monte Atos.

O Espírito suscita muitas vocações para a vida da Igreja, e todas elas têm como causa final a salvação do mundo, das pessoas, das almas. O fogo do Espírito Santo, envolvendo-nos em suas chamas, aumenta nos que o aceitam essa sede dolorosa dos que compartilham a sede de Jesus.

Constituímos um povo sacerdotal: e o que faz o sacerdote se não interceder pela salvação do mundo? É essa a missão é todos os que foram batizados e participam do sacerdócio de Cristo. São João Crisóstomo, comentando a parábola dos talentos (cf. Mt 25,24-25), afirma: “Aquele que enterrou o talento era irrepreensível, mas inútil. Nada há de mais insignificante, frio, do que um cristão que não salva os irmãos” (Hom. sobre os Atos 20,4). Quem cuida só de sua salvação, em livrar a própria pele é como o soldado que no campo de batalha pensa apenas em si: acaba provocando a morte dos outros e a sua.

Um grande Pai da Igreja, Isaac o sírio (séc. VII), anima os que se preocupam ativamente com a salvação do próximo: “No dia em que te afligires pelo fato de alguém estar doente no corpo ou na alma, tenhas certeza de que naquele dia és um mártir, pois sofreste por Cristo e foste digno de confessá-lo” (Disc. I,58). O mártir é o que derrama o sangue pelo Cristo: podemos ser mártires derramando nosso suor/sangue pelos que são de Cristo, por toda a humanidade.

A crise vocacional, sempre se diz, é uma crise de generosidade, de misericórdia, de compaixão. É a ausência da preocupação pela “sede” de Cristo, julgando-se que a vida cristã comprometida se reduz a uns 10% de oração e outros 50% de “compromisso”. Por esse motivo, muitos ricos e países ricos entram em crise de fé: tornam-na inútil por terem reduzido o crer a não fazer o mal.

A Cruz de Cristo é o “sinal” dos cristãos: contemplando-a na profundidade da fé sentiremos o abismo de compaixão daquele que foi crucificado pelo mundo. E, casados ou solteiros, crianças ou jovens, leigos ou consagrados nos ofereceremos, como Santa Teresinha, para aplacar a sede de almas estampada nos lábios e na face do Senhor.

Nossa grande vocação é sentarmo-nos à mesa dos pecadores, como fez Jesus, e transformá-la em mesa de salvação: um cristão não consegue viver sem proclamar a misericórdia de Deus.

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A MISSÃO CRISTÃ E A PLANTAÇÃO DA IGREJA

“Enquanto os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas, para os eleitos, força de Deus e sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1, 22-24).

Ide por todo o mundo...

Ide por todo o mundo…

A história da missão cristã tem uma companheira inseparável: a cruz do Senhor. Se produziu mártires, o anúncio da fé cristã foi fecundo; se não os produziu, restou estéril. Quando Pedro quis afastar da cruz e da morte o Senhor, a reação foi imediata: “Vai para longe, Satanás! Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” (cf. Mt 16, 23). Um Messias milagreiro, poderoso, sonho da humanidade, seria estéril, pois reproduziria a tentação diabólica do prestígio e do poder. Não bastava ressuscitar Lázaro: era necessária atravessar o caminho do amor total, dando a vida pela vida do mundo.

A glória da Igreja são seus mártires: seu sangue derramado fecundou a terra onde ela foi plantada. A videira/Jesus somente deu fruto com o Pai/agricultor que escolheu adubar a terra esterilizada pelo pecado com o sangue de seu Filho. A plantação da Igreja segue o mesmo caminho: cada missionário é a videira que dá frutos aceitando que o Pai seja o agricultor, fertilizando a terra com seu sangue, que pode ser a humilhação, o cansaço, o fracasso, a fome, a doença, a perseguição, a morte. Tanto a terra como o semeador e a semente passam por um processo de morte e vida: a terra é limpa, cavada, revolvida; na sua semente o semeador semeia-se também; e a semente, se não morre, não germina.

Pavel Florenskij (1882-1937), grande teólogo e cientista russo, após anos de trabalhos forçados nos campos de concentração soviéticos, escreveu, às vésperas de ser fuzilado a mando de Stálin: “O destino de grandeza é o sofrimento, causado pelo mundo exterior e pelo sofrimento interior. Assim foi, assim é, e assim será”.

O cristão não ama a vida?

Mas, seria uma pergunta justa: teriam razão os pagãos quando acusavam os cristãos de misantropia, pessoas com raiva da vida e que procuram o sofrimento? Seria o Cristianismo a fé dos fracassados? Do mesmo modo que o santo homem Jó permanece a figura símbolo do Antigo Testamento, o Cristo crucificado é a realização e o símbolo da Nova Aliança. A única resposta possível é o silêncio dos que crêem, o silêncio feliz dos missionários e dos cristãos em terras de missão: “A cruz de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa glória: nele está nossa vida e ressurreição; foi ele que nos salvou e ressuscitou” (cf. Gl 6,14). É esse o segredo guardado como pedra preciosa pelos cristãos e anunciado aos povos: na cruz de Cristo está nossa vida e ressurreição. A cruz que fecunda a terra liberta da morte e faz viver a vida em plenitude.

O missionário anuncia o amor de Deus, e este é o princípio, o meio e o fim da cruz: todo e somente o amor de Deus Pai que crucifica, o amor do Filho que é crucificado e o amor do Espírito Santo que triunfa pelo poder da cruz (cf. Filarete de Moscou, 1873). Quando o missionário anuncia esse amor total de Deus, tem a consciência de estar encarnando parte desse amor, sente que está sendo digno de ajudar a salvar o mundo derramando também seu sangue. O sangue dos mártires é sangue solidário. Os sofredores do mundo que oferecem a dor pela salvação dos homens estão intimamente possuídos pela felicidade de serem também cordeiros mansos e humildes sacrificados no altar da redenção.

Contemplam verdadeiramente Jesus os pobres do mundo, restos dos mesmos pobres que o contemplaram na Galiléia e na Judéia. Em si, o sofrimento não tem sentido, pois é fruto do pecado do mundo: mas, na contemplação do Cristo crucificado ele se une à potência vivificadora da cruz e gera a libertação do mundo. A fertilidade da missão é conseqüência da fertilidade da cruz, plantada no mais profundo dos infernos e alcançando o mais alto dos céus como potência vivificadora do Ressuscitado, nas palavras fortes de O. Clément.

A Igreja não vende facilidades, mas proposta de fidelidade à Cruz

Uma tragédia pervade certos ambientes eclesiásticos: confundir o anúncio do Evangelho com o sucesso estatístico. Caiu-se na moda do mundo e limpa-se o Crucificado de todas as chagas, enxuga-se no chão da Igreja qualquer vestígio de sangue. Prega-se o sucesso, não o martírio: vendem-se facilidades ao preço da esterilização cristã. Afugenta-se o martírio para que não sejam amedrontados os fregueses desse grande mercado em que ser quer transformar o solo eclesial. Quer-se tirar da vida cristã a dor que é compaixão, doação total, transformação interior, combate da fé.

O Cristo crucificado, marcado por feridas, pó e pus, é belo: seu rosto tem a beleza infinita do mais generoso dos corações, é expressão total da bondade. É esse o Cristo do missionário, é essa a beleza do seu rosto, reflexo de sua compaixão. A Igreja não pode fazer da missão uma empresa com metas seguras de sucesso: estaria escondendo o rosto solitário de seu Senhor crucificado para dar vida ao mundo. Sua glória é a cruz de Nosso Senhor, pois nele está nossa vida e ressurreição.

O Cristianismo está começando

Por que tantos mártires na história da missão? Por que Deus não livra seus mensageiros da passagem pela dor? A resposta é dada por aqueles que sofreram a perseguição e se prepararam para o martírio: quem participa do sofrimento de Cristo participa, já agora, de sua glória e somente deste modo pode ser considerado digno da ressurreição.

O caminho da cruz é sofrimento e sacrifício, mas é igualmente sinal da salvação e manifestação da glória de Deus. Aqueles a quem Deus permitiu o martírio deu-lhes a dignidade de viver a mesma paixão de Cristo, a mesma agonia e o mesmo abandono na cruz.

O comunismo e o nazismo, grandes tragédias do século XX, não enfraqueceram os cristãos, sobre quem recaiu sua fúria: tanto nos gulags russos como nos campos de concentração nazistas ecoava continuamente o grito de júbilo: Aleluia! Cristo ressuscitou!

O que debilita a Igreja não é a perseguição e sim, sua transformação em sinal frouxo de uma graça comprada a baixo preço, em sucesso à moda do mundo. No caminho da fé a juventude não busca facilidade, abundante em outras paragens. Ela busca o desafio da cruz redentora.

Desde o início e até o final da história ecoou e ecoará a mesma palavra feliz do Pe. russo Alexander Men’, às vésperas de seu martírio em 1990: “O Cristianismo está começando!”. Começando a cada vez que gera um mártir.

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MADRE TERESA DE CALCUTÁ

Terceira filha de Drana Bernai e Nikollë Bojaxhiu, Gonxha (= Inês) nasceu em 1910. Com seus irmãozinhos Aga e Lazar teve uma infância muito feliz em Skopje, antiga cidade albanesa e hoje capital da Macedônia.

Do pai Nikollë recebeu um forte sentido de justiça e de caridade. Muitas vezes Gonxha ouviu-o dizer: “Filha minha, nunca aceites levar à boca um pedaço de pão, se não estás disposta a reparti-lo com os outros”. Morreu jovem, e Mamãe Drana continuou a educação dos filhos, dando-lhes o exemplo de uma vida cristã e de caridade heróica. Diariamente sua mesa tinha algum faminto. Sabendo de um necessitado, ia logo ajudá-lo, alguns até recolhendo-os em casa. A família vivia para a igreja. Gonxha era congregada mariana e participava do coral. A vida dos pais explica a vida de Gonxha. Muito nela influiu o exemplo de um pároco, entusiasta missionário. E veio o chamado de Deus para a missão entre os pobres.

Em 1928 parte para a distante Irlanda, na Casa geral das Irmãs de Nossa Senhora de Loreto, que tinham obras na Índia. Lá foi introduzida no espírito da congregação e iniciou uma nova viagem, esta sem retorno. Na Epifania de 1929 chegou a Bengala, a Calcutá. Após o noviciado emitiu os votos, escolhendo Teresa como nome religioso. É agora Madre Teresa e, depois, Madre Teresa de Calcutá. Torna-se professora no St. Mary´s College, muito amada e competente. Com facilidade aprendeu o inglês, o bengali e o híndi, línguas locais.

A vocação dentro da vocação

Mas, algo de extraordinário a aguardava. No dia 10 de setembro de 1946, no trem em que viajava para Darjeeling, a voz do Senhor a convocou para uma vocação dentro da vocação: deveria deixar o convento e ir às ruas, trabalhar entre os pobres mais pobres. Em fevereiro de 1948, com as devidas licenças, Madre Teresa deixou o convento e iniciou sua missão entre os pobres mais pobres. Pouco a pouco outras jovens se juntam a ela e nasce a Congregação das Missionárias da Caridade.

Nestas poucas linhas, através de escritos de Madre Teresa, queremos oferecer ao leitor um lampejo da experiência religiosa de Madre Teresa, de sua longa “noite escura” iniciada em 1948: Deus se escondeu dela, de modo que somente podia ser contemplado e sentido no rosto dos pobres.

“Meu sorriso é um grande manto que cobre uma multidão de dores”, escreveu ao diretor espiritual. Escrevia a Dom Périer, em março de 1953, ao assumir a direção da Congregação: “Por favor, reze especialmente por mim, para que eu não arruíne o trabalho de Jesus e Nosso Senhor se revele, porque há em mim uma terrível escuridão, como se tudo fosse morto desde que eu iniciei a obra. Peça a Nossa Senhora que me dê coragem”. Suas forças vinham de uma certeza: o trabalho pela Congregação das Missionárias da Caridade “não é feito por mim, mas por Jesus: estou mais certa disso do que de minha real existência”.

Em março de 1956, escrevia ao arcebispo Périer: “Às vezes a agonia da desolação é tão grande e, ao mesmo tempo, é tão profundo o desejo do Ausente, que a única oração que ainda consigo fazer é: “Sagrado Coração de Jesus, eu confio em ti. Saciarei a tua sede de almas”.

Em janeiro de 1958: “O desejo vivo de Deus é terrivelmente doloroso e, contudo, a escuridão se torna sempre maior. Que contradição há em minha alma! É tão grande a dor interior, que nada sinto por toda a publicidade e o falar do povo”.

Por apenas um mês seu sofrimento teve alívio: foi em outubro de 1958. Madre Teresa, sufocada pelo sofrimento espiritual, pediu a Jesus um sinal de sua presença. Na carta de 17 de outubro narrou a Dom Périer que “então desapareceu aquela longa escuridão, aquele sentimento de perda, de solidão, daquela estranha e prolongada dor. Hoje a minha alma está cheia de amor, de alegria indizível, de uma ininterrupta união de amor”.

Mas, Jesus foi breve. Já em novembro escrevia que “Nosso Senhor pensou que era melhor para eu permanecer no túnel, e assim ele novamente se foi. Sou-lhe grata por aquele mês de amor que me concedeu”.

Madre Teresa atraía as pessoas a Deus

O tormento continuou até sua morte, de modo a purificá-la sempre mais no seu amor por Deus e pelos irmãos. Passou a perceber melhor o significado dessa dolorosa experiência e a colocá-la em relação com sua vocação. Em novembro de 1958, disse a Dom Picachy que nunca soubera “que o amor pudesse fazer sofrer tanto, tanto pela ausência como pelo desejo”. No início de 1960, confidenciou ao Pe. Neuner: “Pela primeira vez, nestes onze anos, comecei a amar a escuridão. Porque agora creio que ela é uma parte, uma pequeníssima parte, da escuridão e da dor vivida por Jesus na terra”.

Ficava perturbada diante da reação das pessoas que lhe estavam próximas. Em setembro de 1962, escreveu a Dom Picachy: “As pessoas dizem que se sentem jogadas rumo a Deus vendo minha sólida fé. Isso não significa enganar o povo? Mas, a cada vez que eu queria dizer a verdade – que eu não tinha fé – as palavras não saíam, minha boca permanecia fechada e continuava a sorrir a Deus e a todos”.

O olhar e o sorriso de Madre Teresa: viveu buscando a Deus e sempre encontrando os pobres. Mas, em 5 de setembro de 1997, encontrou-se com seu Amado, para sempre. Seus lábios pronunciavam as últimas palavras: “Jesus, eu te quero bem; Jesus, confio em ti”.

Sua vida e santidade foram aprovadas pela Igreja. Tanto assim que, em 19 de outubro de 2003, apenas seis anos após a morte, foi beatificada pelo papa João Paulo II, seu grande amigo.

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O CRISTIANISMO – PEDAGOGIA DE SANTIDADE

"Ide por todo o mundo..."

“Ide por todo o mundo…”

No decorrer da história, a Igreja serviu-se de diferentes métodos para evangelizar, desde o convite para a aceitação da fé até as conversões forçadas (saxões, negros, índios, asiáticos…). Em situação de força, tendeu a ser intransigente, em situação de fraqueza, tendeu a ser humilde, atitude normal a toda instituição. A história, conduzida pelo Espírito, sempre a faz retornar à mansidão do Senhor.

Nos primeiros séculos, foram dois os métodos principais de realizar a missão: o anúncio explícito dos evangelizadores e a evangelização por “contágio”: formavam-se pequenas comunidades que atraíam discípulos pelo estilo de vida que levavam. O “contágio” dava-se pela admiração, pelo desejo de encetar o mesmo caminho. Não havia a preocupação em cristianizar multidões e sim, o desejo de formar comunidades de testemunho, de discipulado.

Quando João Paulo II lançou o programa da nova evangelização, chamou a atenção para uma modalidade original de missão: a evangelização dos cristãos satisfeitos com uma difusa religiosidade e quase esquecidos da fé cristã. Como a fé não se transmite por hereditariedade nem por nacionalidade, passa-se a incluir no rol de cristãos todos os que foram batizados, mesmo que não tenham muita clareza sobre o significado de ser cristão, o que supõe sempre uma opção pessoal. O Papa pediu a evangelização das novas e velhas cristandades, já amorfas e sem muita capacidade de contagiar  o mundo.

Assim fomos chamados à generosidade da missão ad gentes e à necessidade da missão ao interno das comunidades cristãs.

Talvez ainda se viva e se planeje uma pastoral totalizadora, na duvidosa convicção – generalizada no Brasil – de que quem não é protestante é católico, mesmo sendo agnóstico, indiferente, espírita. É a estatística triunfalista que traz o prazer de nos considerarmos o maior país católico do mundo. Deste modo, a grande energia missionária de nossos agentes de pastoral é aspergida sobre tudo e sobre todos, com escassos resultados de amadurecimento pessoal cristão, pois dá-se por suposta a fé cristã nos batizados. Na década de 60, Karl Rahner colocava a pergunta: se sou responsável por um jardim que está ressequido e tenho apenas um copo de água, posso tomar duas atitudes: derramá-lo sobre todas as flores sedentas, que acabarão morrendo, ou sobre uma flor apenas, que conseguirá readquirir vida e dará sementes. O grande teólogo alemão aconselhava a segunda alternativa como modelo de evangelização. Há o sofrimento de não poder atingir a multidão, mas há a alegria de ver surgirem novas e robustas pequenas comunidades, que oferecerão a possibilidade do “contágio”.

Para que nos convençamos da necessidade de uma nova evangelização precisamos incluir em nosso compromisso a verdade de que o cristianismo é um caminho, uma pedagogia de santidade, de divinização da pessoa batizada, gerando um estilo de vida fundamentado na imitação de Cristo, no discipulado. Ser cristão não é assumir determinada ética, caindo-se no moralismo cristão. Ser cristão é aceitar a pessoa de Cristo e pela graça poder dizer com Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”. Somente assim cada um de nós, os cristãos, degustará o sabor da novidade cristã, sentirá o fascínio pelo Senhor, viverá em comunidades-sinal, pelo testemunho cumprindo o mandato missionário.

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COLEGIALIDADE – ECUMENISMO – ESPIRITUALIDADE

Jesus caminha com seus discípulos

Jesus caminha com seus discípulos

Entre 21 e 24 de maio pp., 155 cardeais estiveram reunidos com o papa João Paulo II e com sinceridade e simplicidade puderam conversar francamente sobre a vida da Igreja e os desafios postos pelo mundo à sua missão. Foram três as palavras fundamentais: colegialidade, ecumenismo, espiritualidade.

Após as grandes celebrações jubilares, a superexposição na mídia, o triunfo das massas, retorna a preocupação pelo essencial da vida cristã, do Evangelho: a pobreza, a mansidão, a oração, o anúncio. Uma minoria ainda está possuída pela saudade do passado triunfal, pelo medo do diferente, pela obsessão de afirmar a Igreja como tutora universal de uma verdade que não comunica nem se comunica.

O estar diante do Evangelho nos ensina que a primeira vocação de quem recebeu a graça do batismo não está no nível do fazer, do compromisso, mas do ser. O fazer e o compromisso são conseqüências do ser cristão, do ser batizado.

A água batismal nos mergulha dentro do mistério trinitário e dela saímos como habitação divina. A água que dá a vida nova é a água que nos marca indelevelmente para uma vocação específica e única: a nossa divinização, revelarmos a raça divina à qual pertencemos (2Pd 1,4: … a fim de tornar-nos participantes da natureza divina.

At 17,28: “…nele vivemos, nos movemos e somos. … Somos de sua estirpe). A vocação única do cristão: a santidade.

Foi uma grande conquista do Concílio Vaticano II (1962-1965) recuperar para a Igreja este princípio da Igreja antiga: o chamado à santidade não nasce da vocação religiosa, monástica, matrimonial, mas do batismo. Este sacramento é o gerador da vocação cristã: sede santos como Deus é santo (cfr.       ).A partir de equívocos e imagens equivocadas de santos, muitos pensam que as santidade equivale a perder o gosto pela vida, renunciar ao prazer de viver, de usufruir sadiamente dos bens que Deus colocou a nosso serviço. Confunde-se santidade com penitência e até com esquisitice. Nessa visão, querer ser santo é quase uma aberração, é destino de gente que não consegue ter prazer na vida.

Nada mais errado e blasfemo: o santo é alguém atraído pelo ideal de perfeição e arrastado pela decisão de renovar em si a imagem de Deus através do amor. Sua primeira decisão é intrinsecamente humana: recuperar a liberdade interior para poder amar incondicionalmente. Buscar a verdade, a única que pode libertar do cativeiro do egoísmo.

A conseqüência final é uma obra prima da sabedoria divina: quanto mais o homem busca ser como Deus, recuperar sua raça divina, mais se torna humano, pois ser humano de verdade é ser como Deus, viver à sua imagem e semelhança, entrando em comunhão com o Criador, mergulhando nos abismos insondáveis do amor divino. Não pode existir causa maior de felicidade do que esta: viver em comunhão, viver em relação com o Senhor e seus filhos numa imensa liberdade libertadora, pregustando a humanidade divina e a divindade humana, fruto da encarnação do Filho.

Dessa vocação batismal nascem todas as outras, destinadas à edificação do Corpo de Cristo e à formação do povo de Deus: a vida religiosa, sacerdotal, matrimonial, o ministério catequético. São vocações que terão eficácia e sentido cristão se forem geradas dentro da vocação à santidade cristã. Caso contrário, serão apenas mais um ofício dentro da Igreja, destinado a terminar no cansaço e no esgotamento “profissional”, inimigo primevo de qualquer vocação na vida de fé.

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