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TRINDADE SANTA – PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO

A Trindade Santa - ícone de Andrej Rublev - 1425.

A Trindade Santa – ícone de Andrej Rublev – 1425.

No primeiro domingo depois do Pentecostes, a Liturgia nos faz contemplar nosso Deus, a Trindade Una e Santa, nos leva a mergulhar em sua beleza de amor. Há cristãos que acham o Deus Trindade um assunto muito complicado, que quase ninguém sabe explicar menos ainda, entender. Lembro aqui algo fundamental na fé: Deus não se explica, mas é narrado através daquilo que revela na Escritura e na criação, e Deus não se entende, mas se vive no mistério revelado por Jesus. É claro que se pode explicar e entender como analogia, pois a razão está a serviço da fé mas, que não se pode é transformá-lo em teorema, pois ele é amor. Trilhando a narração da história da Salvação chegaremos ao caminho de Jesus.

“Desde o nascimento da Igreja, é ele (o Espírito Santo) quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus” (Prefácio de Pentecostes). Nosso Deus não é somente o Deus do Antigo Testamento, não é o Alá dos muçulmanos, não é Brahman, não é Buda. Nosso Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, três Pessoas divinas pelo amor unidas num só Deus. E, após a Encarnação, nosso Deus é Pai, Filho divino e humano e Espírito Santo. Em Cristo, a humanidade participa da vida trinitária.

Por que podemos falar assim, quase com soberba, com tanta segurança? Porque Deus nos revelou através de seu Filho, que esteve entre nós. É um Mistério tão fascinante que se procura “humanizar”, tornar palatável à inteligência através também de uma teologia avessa à contemplação. Vale a frase do convertido romancista inglês G.K. Chesterton: “os tempos modernos estão infestados de ‘virtudes cristãs tornadas loucas’ para que possamos aceitar o mistério”. Nosso Deus é conhecido por comunhão de amor, por contemplação maravilhada e não por discussões ou pela inteligência. Dele sabemos o que nos revelou, assim como também nós somos conhecidos somente naquilo que revelamos.

Contemplemos nosso Deus, concretamente, agindo em nossas vidas pelo amor sem medida, fiel, misericordioso, excessivo na beleza de criação. É escândalo para judeus, muçulmanos, religiosos de todas as nações, intelectuais, ouvir que nosso Deus morreu na cruz por amor, que ele é frágil, sofre da mais bela das doenças: a doença do amor.

Nosso Deus é comunhão – Tri-Unidade

Nosso Deus é a Tri-Unidade, Deus uno e três vezes santo, comunhão de amor entre Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão não fechada em si, mas, que se abre a nós, chamados a acolher e a responder a tal amor. Como sempre, no Cristianismo, a meditação sobre Deus parte do homem Jesus Cristo, “o Filho unigênito que narrou Deus” (cf. Jo 1,18), que não traz uma “mensagem”, mas sua própria Pessoa divina e humana.

O Deus Trindade não é intimismo, solidão: é voltado para fora, comunica-se com o homem, seu amor é para o mundo, é “Deus para nós e por nós”. Rémi Brague, filósofo e historiador francês, afirma que “O dogma trinitário é o esforço obstinado de aprofundar a afirmação do apóstolo João de que “Deus é amor” (1Jo 4,8). “Deus é amor” é o nome de nosso Deus, pleno de compaixão e misericórdia, capaz de graça e de perdão, desce para alcançar o homem na escravidão e no pecado, como no caminho do Êxodo do Egito.

Deus ama a tal ponto o mundo, a humanidade, que lhe dá seu Filho para a salvação dele. Um filho único é toda a vida de um pai, é o que ele mais ama: o Deus que doa o Filho único, Jesus, é o todo-poderoso Deus movido por um amor louco. Há um excesso no amor divino e esse excesso é o Filho Jesus Cristo: que consumiu sua vida até à morte na liberdade e por amor de nós e, com o seu passar entre nós, fazendo o bem na potência do Espírito Santo (cf. At 10,38), narrou-nos que “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16).

“Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que quem nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. Com sua vida e com sua auto-doação, Jesus revelou o amor louco de Deus pelos homens. Renascido do alto, Paulo procura fazer da comunidade de Corinto uma morada do “Deus do amor e da paz” (2Cor 13,11). O homem é chamado à semelhança divina.

“Deste modo se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho ao mundo para que nós vivêssemos por meio dele. Assim é o amor de Deus: não fomos nós que amamos Deus, mas é ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados. Desse modo conhecemos que permanecemos em Deus e Deus em nós: pelo Espírito que ele nos deu como prêmio. E nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho como Salvador do mundo (cf. 1Jo 4, 9-14). E, pela potência de Deus, o Espírito Santo, podemos renascer de verdade, do alto.

Assim nos ama Deus

A ação do Deus Uno-Trindade é perdão, amor, comunhão e podemos experimentá-la em nossa vida de . O modo com que Deus nos ama é antes de tudo fidelidade ao homem infiel, incapaz de querer corresponder a esse amor: a fidelidade e o amor de Deus tornam-se sua responsabilidade pelos homens pecadores. Deus se preocupa conosco, sente-se responsável por cada um de nós. E é assim que seu amor, unilateral e incondicionado, não condena, mas salva.

E como Deus provou seu amor? Na cruz, assumindo a forma do escândalo, do excesso que quebra todos os parâmetros humanos de reciprocidade, correspondência e retribuição do amor. O dom superabundante demonstrado na cruz é o perdão de Deus, o amor que Deus já predispõe para aquele que peca ou pecará. Nossos pecados já foram contemplados pelo Filho na cruz: o perdão já foi ofertado, aceitá-lo é da nossa responsabilidade.

O Deus que ama é também o Deus que sofre se não aceitarmos seu amor, se rejeitarmos a graça que vem do Filho e da comunhão no Espírito. Sofre se encetamos uma viagem que o torna sempre mais distante do horizonte de nossa vida. O Deus Trindade é o Deus que não vive sem o homem. E o homem, pela fé situando-se em Cristo e deixando-se guiar pelo Espírito, passa a morar no ágape, no amor, e assim, conhece a comunhão com Deus, com o Deus que é amor. O ágape, amor em plenitude, gratuito, é o coração da vida trinitária.

O grande modelo para o anúncio da Beleza que salvará o mundo é a Trindade: harmonia e beleza sem limites, amor que une três Pessoas num Deus, a juventude do Filho, a feminilidade do Espírito, o encanto do Pai. A Trindade se revelou de modo pleno na beleza de Maria, venerada por todos os povos em sua beleza e encanto. Os místicos gostam de falar de Deus como “el Hermoso”,  o Formoso. Deus é formosura.

Nossa resposta ao nosso Deus: acolhendo tal amor somos capazes de exercitá-lo, amando-nos uns aos outros. O Filho nos redime, o Espírito cria a unidade, o Pai acolhe sem condições e passamos a profetizar. Deste modo o amor de Deus pode difundir-se e manifestar-se na história. E com o universo cantaremos o hino: “Onde o amor é verdadeiro, aí Deus está!”.

Pe. José Artulino Besen

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NOSSO DEUS – PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO

Deus Uno e Trino – Ícone da Armênia

Para alguns pregadores, a Festa da Santíssima Trindade é um drama homilético: “Hoje celebramos a Santíssima Trindade. É um assunto muito complicado, mas comecemos com a historinha de Santo Agostinho”. Pronto: Deus deixou de ser amor e foi transformado em teorema. Trilhemoso caminho de Jesus.

“Desde o nascimento da Igreja, é ele (o Espírito Santo) quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus” (Prefácio de Pentecostes). Nosso Deus não é o Deus do Antigo Testamento, não é o Alá dos muçulmanos, não é Brahman, não é Buda. Nosso Deus é o Pai, Filho e Espírito Santo. Três pessoas pelo amor unidas num único Deus. E, após a Encarnação, nosso Deus é Pai, Filho divino e humano e Espírito Santo. Em Cristo, a humanidade participa da vida trinitária.

Por que podemos falar assim, quase com soberba, com tanta segurança? Porque Deus nos revelou através de seu Filho que esteve entre nós. Mistério tão fascinante que se procura “humanizar”, tornar palatável à inteligência através também de uma teologia avessa à contemplação. Vale a frase de Chesterton: os tempos modernos estão infestados de “virtudes cristãs tornadas loucas”. Nosso Deus é conhecido por comunhão de amor, por contemplação maravilhada e não por discussões ou pela inteligência. Assim como Deus, também nós somos conhecidos somente se nos revelamos.

Contemplemos nosso Deus, concretamente, agindo em nossas vidas pelo amor sem medida, fiel, misericordioso, excessivo. É escândalo para judeus, muçulmanos, religiosos de todas as nações, intelectuais, ouvir que nosso Deus morreu na cruz por amor, que ele é frágil, sofre da mais bela das doenças: a doença do amor.

Nosso Deus é a Tri-Unidade, Deus uno e três vezes santo, comunhão de amor entre o Pai, Filho e Espírito Santo, comunhão não fechada em si, mas, que se abre a nós, chamados a acolher e a responder a tal amor. Como sempre, no Cristianismo, a meditação sobre Deus parte do homem Jesus Cristo, “o Filho unigênito que narrou Deus” (cf. Jo 1,18). Jesus não traz uma “mensagem”, mas sim sua própria pessoa divina e humana.

O Deus Trindade não é intimista, solidão: é voltado para fora, comunica-se ao homem, seu amor é para o mundo, é “Deus por nós”. O dogma trinitário é o esforço obstinado de aprofundar a afirmação do apóstolo João de que “Deus é amor” (1Jo 4,8 – Rémi Brague). “Deus é amor” é o nome de nosso Deus. O nome “Deus é amor” revela nosso Deus compassivo e misericordioso, capaz de graça e de perdão. Desce para alcançar o homem na escravidão e no pecado (Êxodo).

Deus ama a tal ponto o mundo, a humanidade, que lhe dá seu Filho para a salvação do mundo. Um filho único é toda a vida de um pai, é o que ele mais ama: o Deus que doa o Filho único, Jesus, é o Deus movido por um amor louco. Há um excesso no amar divino e esse excesso é o Filho Jesus Cristo. Jesus, o Filho, consumiu sua vida inteira até à morte na liberdade e por amor de nós e, com o seu passar entre nós fazendo o bem na potência do Espírito Santo (cf. At 10,38), narrou-nos que “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16). “Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho unigênito, para que quem nele crer não morra, mas tenha a vida eterna”. Com seu estilo de vida e com sua auto-doação, Jesus revelou o amor louco de Deus pelos homens. Renascido do alto, Paulo procura fazer da comunidade de Corinto uma morada do “Deus do amor e da paz” (2Cor 13,11). O homem é chamado à semelhança divina.

“Deste modo se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho ao mundo para que nós vivêssemos por meio dele. Assim é o amor de Deus: não fomos nós que amamos Deus, mas é ele que nos amou e enviou seu Filho como vítima de expiação por nossos pecados. Desse modo conhecemos que permanecemos em Deus e Deus em nós: pelo Espírito que ele nos deu como prêmio. E nós contemplamos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho como Salvador do mundo (cf. 1Jo 4, 9-14). E, pela potência de Deus, o Espírito Santo, podemos renascer de verdade, do alto.

Assim nos ama Deus

A ação do Deus Uno-Trindade é perdão, amor, comunhão e somente pode ser experimentado através da .

O modo com que Deus nos ama é antes de tudo fidelidade. Mas, é uma fidelidade ao homem infiel, incapaz de querer corresponder a esse amor: a fidelidade e o amor de Deus tornam-se sua responsabilidade pelos homens pecadores. Deus se preocupa conosco, sente-se responsável por cada um de nós. E é assim que seu amor, unilateral e incondicionado, não condena, mas salva.

E como Deus provou seu amor? Na cruz, assumindo a forma do escândalo, do excesso que quebra todos os parâmetros humanos de reciprocidade, correspondência e retribuição do amor. O dom superabundante demonstrado na cruz é o perdão de Deus, o amor que Deus já predispõe para aquele que peca ou pecará. Nossos pecados já foram contemplados pelo Filho na cruz: o perdão já foi ofertado.

O Deus que ama é também o Deus que sofre se não aceitarmos seu amor, se rejeitarmos a graça que vem do Filho e da comunhão no Espírito. Sofre se encetamos uma viagem que o torna sempre mais distante do horizonte de nossa vida. O Deus Trindade é o Deus que não vive sem o homem. E o homem, pela fé situando-se em Cristo e deixando-se guiar pelo Espírito, passa a morar no ágape, no amor, e desse modo, conhece a comunhão com Deus, com o Deus que é amor. O ágape, amor em plenitude, gratuito, é o coração da vida trinitária.

Nossa resposta ao nosso Deus: acolhendo tal amor somos capazes de exercitá-lo, amando-nos uns aos outros. O Filho nos redime, o Espírito cria a unidade, o Pai acolhe sem condições e passamos a profetizar. Deste modo o amor de Deus pode difundir-se e manifestar-se na história. E com o universo cantaremos o hino: “Onde o amor é verdadeiro, aí Deus está!”.

Pe. José Artulino Besen

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O ESPÍRITO SANTO – PENTECOSTES SEM FIM

pentecostes2A Igreja Católica, e as Igrejas originadas das Reformas do século XVI, viveram a missão e a vida eclesial mais centradas na pessoa de Cristo, salientando os aspectos visíveis e a organização. Já a Ortodoxia, tendo encerrado o grande ciclo das proclamações do Deus criador (séculos II e III), da Trindade (século IV) e, sobretudo, dos séculos V ao VIII, as proclamações cristológicas e modalidades da encarnação (VII Concílio Ecumênico – a.787), iniciou um grande ciclo pneumatológico, a contemplação do Espírito Santo que nos transfigura e nos diviniza pelas energias divinas.

Após o Concílio do Vaticano II (1962-1965), sob o influxo do Oriente cristão e da Renovação Carismática Católica, pode-se dizer que foi “redescoberto” o Espírito Santo, sua pessoa, seus carismas, dons e frutos, sua ação na vida espiritual. Não mais como teologia dos dons, da teologia clássica, mas como experiência dos carismas, inspirada na teologia paulina e nos Atos. São valorizadas as expressões de sua presença e de sua ação no cristão e na comunidade cristã. Isso não só em nível de Movimento Carismático, mas também na realidade dos pobres, da transformação da Igreja e do mundo. Importante lembrar o forte reavivamento cristão realizado pelo pentecostalismo evangélico e católico nas periferias da América latina e, de modo especial, no Brasil.

Nas décadas de 60 e 70, com as grandes crises religiosas trazidas no bojo da secularização, emerge o Espírito em vários cenários da história. Esta redescoberta do Espírito adquiriu penetrante caráter ecumênico, nele coincidindo ortodoxos,  católicos, protestantes e reformados. Um acontecimento marcante foi a IV Assembléia do Conselho Ecumênico das Igrejas no ano de 1968, em Upsala, Suécia, cujo tema foi exatamente: “Eis que faço novas todas as coisas” (Apc 21,5). Ignatius IV Hazim, então Metropolita de Laodicéia na Síria e depois Patriarca ortodoxo de Antioquia, falecido em 2012, proferiu inspirada Alocução sobre o tema da Assembléia. Por um equívoco que se transmite de autor em autor, atribui-se o texto ao Patriarca de Constantinopla, Atenágoras I. (Creio que o equívoco se deve ao Missal Dominical publicado pela Paulus, que transcreve parte do texto no comentário ao Pentecostes).

Ignatius Hazim iniciou partindo do mistério pascal, acontecido de uma vez para sempre, mas que se torna presente hoje mediante o Espírito Santo. Ele é a presença de Deus conosco, “unido ao nosso Espírito” (Rm 8,16).

Em seguida, suas palavras buscam mostrar-nos o que é a vida e a Igreja sem e com o Espírito Santo, em palavras realmente inspiradas e que continuam servindo de alimento para a ação da Igreja, Carne de Cristo e não esqueleto de pastoral burocrática.

Sem o Espírito – com o Espírito

Seguindo o tema da Alocução de I. Hazim,, podemos comparar a vida da Igreja sem e com o Espírito Santo e, ao mesmo tempo, confrontar e analisar nossa vida e trabalho cristãos:

– Sem o Espírito Santo, Cristo é um exemplar mestre religioso do passado: com o Espírito Santo, é o Senhor Ressuscitado presente na vida da Igreja e do mundo. – Sem o Espírito Santo, o Evangelho é letra morta, edificante, inspiradora de comportamento: com o Espírito Santo, o Evangelho é Palavra de Deus, potência de vida. – Sem o Espírito Santo, a Igreja é uma simples organização, diríamos ONG, prestadora de serviços, entidade filantrópica: com o Espírito Santo, a Igreja é comunhão trinitária, corpo místico de Cristo, povo de Deus. – Sem o Espírito Santo, a autoridade é dominação, busca de poder, concorrência com os grandes da terra: com o Espírito Santo, a autoridade é serviço humilde, diaconia, a exemplo do Senhor que veio para servir, continuando o rito o Lava-pés.

– Sem o Espírito Santo, a missão cristã é propaganda, concorrência religiosa e estatística, busca de influência: com o Espírito Santo, a missão é Pentecostes, revelação do Senhor Morto e Ressuscitado, Salvador do mundo, Palavra de vida. – Sem o Espírito Santo, o culto, a liturgia é evocação histórica, cerimônia bem ou mal produzida onde a teatralidade torna o ministro centro das atenções: com o Espírito Santo, a Liturgia é memorial do Mistério pascal, celebração da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão do Senhor, antecipação da vinda final de Cristo, a Parusia.

– Sem o Espírito Santo, o agir cristão é uma moral de escravos, obrigação sob ameaça de castigos divinos: com o Espírito Santo, o agir cristão é libertador e transfigurado, recupera nossa semelhança com Deus, nos torna cristãos. – Sem o Espírito Santo, vivemos o tempo presente na insegurança frente o futuro: no Espírito Santo, o tempo é espera feliz do segundo Advento do Senhor, desperta os cristãos para que aguardem a vinda do Senhor quando julgará os vivos e os mortos e abrirá as portas de sua cidade a todo o seu povo.

O Espírito Santo é o Senhor que dá a vida”. É a vida eterna que Deus Pai condivide com todos aqueles que estão em comunhão com seu Filho (1Jo 1,1-4). Ele edifica a Igreja em todo lugar com a proclamação da Palavra e a celebração da Eucaristia. Mediante ele a Igreja e o mundo gritam com todo o seu ser: “Vem, Senhor Jesus!” (Apc  22,17-20).

Ontem, foi Pentecostes. Hoje, é Pentecostes. Vinde, Espírito Santo!

Pe. José Artulino Besen

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«O Espírito Santo, Fogo que purifica e aquece»

pentecostes3O evangelista João testemunha a autoridade de Jesus em seu momento na cruz: «e inclinando a cabeça entregou o espírito» (Jo 19,30b). Os Santos Pais da Igreja viram nessa palavra inspirada dois gestos de salvação: Jesus inclina a cabeça e contempla a humanidade que não poderia ficar órfã e sem vida; em seguida, entrega-lhe o Espírito Santo, que é dele. “o meu Espírito”. O pentecostes da cruz acontece na hora extrema do amor de Cristo: é de seus lábios sofridos, machucados, que o mundo recebe o Advogado, o Consolador, o Santificador, o Paráclito.

Naquele momento central da história da salvação, o Amor se revela em estado puro: o Pai entrega-nos o Filho crucificado, o Filho entrega-nos o Espírito Consolador, o Espírito mergulha no mundo e em cada um de nós como princípio de uma nova vida, agora pascal.

Fragilizado como é próprio do amor, o Deus Trindade é paixão total pelo mundo. São João Clímaco (+650) exulta: «Bem-aventurado aquele que tem por Deus uma paixão tão forte como a do amante pela amada», pois esse é o amor divino, um amor esponsal. Feliz quem sabe corresponder a esse amor.

No início da história, Deus soprou o espírito de vida e do barro fez homem e mulher. Na nova criação, Cristo sopra o Espírito e o fogo do amor enche e incendeia o universo. «Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!» (Lc 12,49). Esse fogo é o Espírito Santo, que queima os espinhos dos pecados e dá resplendor à alma, ensina São Cirilo de Jerusalém.

O Espírito Santo é fogo que aquece nosso coração frio pelo egoísmo, gelado pelos relacionamentos possessivos, enrijecido de tanto palpitar para si e esquecer de sentir quem lhe está à frente como irmão, amigo, projeto. Purificados, descobrimos que dentro de cada um de nós existe um país espiritual onde tudo e todos resplandecem de beleza e alegria por terem sido escolhidos e acolhidos. Extasia-nos uma nova beleza, não distante, mas interior, cem vezes mais luminosa que o resplendor do sol (cf. Isaac o Sírio, Hom. Spirit. 43). Esse pai espiritual, nação nova, paraíso recriado, é o Espírito Santo em nós.

O Espírito nos recorda que somos filhos e irmãos

A partir do Pentecostes, que é contínuo se sempre invocado, deixamos de ser escravos e nos tornamos filhos e herdeiros, pois o Espírito Santo o atesta: recebemos um espírito de filhos por meio do qual ele grita conosco: «Abba, Pai!» (Rom 8, 15-16). Com esse grito constantemente aprofunda em nós a verdade de filhos, reavivando nossa identidade de filiação divina. O Espírito não cessa de gemer dentro de nós para recordar-nos a filiação divina, pois, diz o Apóstolo, «a prova de que somos filhos é que Deus mandou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que grita: Abba, Pai!» (cf Gal 4, 4-7).

Filhos no Filho, por ele somos libertados do individualismo, fazendo-nos responsáveis uns pelos outros no Cristo (cf 1Cor 12,26), libertados dos preconceitos raciais, religiosos, sociais e sexistas: somos um só corpo (cf 1Cor 12,13). Ele faz-nos tomar consciência de que existimos na medida em que somos responsáveis pelo outro. Viver para si não é existir na verdade.

O Fogo que recria a história não queima, mas ilumina, não consome, mas brilha, encontrou os corações dos discípulos como receptáculos puros e distribuiu entre eles os seus dons e carismas (cf. Ofício de Pentecostes).

Queimando a monotonia da uniformidade, o Espírito Santo nos mostra a beleza do jardim florido da diversidade: um só corpo em muitos membros. Deixamos de ser um ramo ressequido no deserto e nos extasiamos em ser uma flor no jardim do Espírito. O país espiritual que jorra de nossa interioridade é a casa do Pai.

E recordamos: «Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!» (Lc 12,49). O Espírito Santo é fogo que purifica cada um de nós, mas também é fogo que aquece a Igreja, o jardim de Deus.

A Igreja necessita de estruturas, mas tão leves que não firam a delicadeza do Espírito Santo. E proclama uma palavra tão sólida que não se abala com o desmonte de estruturas inutilizadas pela irrupção incontrolável do Espírito que renova a face da terra: “enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da terra”.

Pe. José Artlino Besen

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A CRUZ, IMAGEM DA TRINDADE E DA IGREJA

Exaltação da Santa Cruz

Exaltação da Santa Cruz

Através do “Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos salvarás!” entoamos um hino eslavo que expressa ricamente o mistério da Cruz. A primeira estrofe não deixa dúvidas sobre a vocação da Igreja: “À sombra de teus braços, a Igreja viverá. Por ti, no eterno abraço, o Pai nos acolherá!”. A Cruz é o abraço amoroso da Trindade. Sem a Cruz, e sem cristãos assumindo a cruz, não há vida na Igreja: apenas a ilusão diabólica de que estar livre da cruz é sinal de amor privilegiado de Deus.

A tentação de Cristo no deserto (cf. Lc 4, 1-13) foi a tentação da fuga da cruz e da apresentação do sucesso como caminho messiânico, tentação de tudo resolver através do milagre, do espetáculo: “Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: ‘Ordenou aos seus anjos a teu respeito que te guardassem. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra’ (Sl 90,11ss). Jesus disse: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’ (Dt 6,16)”.

Na Sexta-feira santa, sofrendo as mais atrozes dores e o abandono do Pai, o diabo volta à carga pela boca da multidão: “Que o Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos” (Mc 15, 32). Queriam espetáculo! Jesus poderia ter descido da cruz e tudo estaria resolvido. Pelos quatro cantos do mundo se falaria do homem que prometeu morrer, sofreu dramaticamente, tudo em preparação para o grande teatro: descer da cruz poderoso, nos braços do povo sedento por milagres.

A Cruz, imagem da Trindade

Mas, o Senhor não poderia negar a própria identidade: ele é amor, e tudo o que é e faz brota do amor. A crucifixão não é a derrota, e sim, o sinal inequívoco de um amor total na doação: “Quando tiverdes levantado o Filho do homem, então conhecereis que EU SOU (=Deus) e que nada faço de mim mesmo, mas falo do modo como o Pai me ensinou” (Jo 8,29).

A Escola do Pai foi a da doação: alguém pode imaginar que um pai, separando-se do filho para doá-lo em resgate de uma multidão ingrata, sinta prazer? A primeira Cruz foi a do Pai, quando permitiu que seu Filho se despojasse da condição divina para ser igual a nós (cf. Fil 2,6-8). Quando Jesus se retirava para orar, consolava o Pai por sua ausência, e o Pai o consolava em seu abandono filial. Deus Pai esvaziou-se da paternidade e o Filho, da filiação. A Cruz é a imagem da Trindade: nela sofreram o Pai, o Filho e o Espírito Santo, pois o amor sem medida fez as três Pessoas se esvaziarem da comunhão divina.

O amor não é uma festa inocente. Dar o passo para declarar, na verdade, “eu te amo”, supõe enfrentar o sofrimento de se auto-anular: “Presentemente, a minh’alma está perturbada. Mas que direi?… Pai, salva-me desta hora… Mas é exatamente para isso que vim a essa hora. Pai, glorifica o teu nome!” (Jo 12, 27-28). A cada momento de sua vida pública Jesus era tentado a ser infiel ao Pai, caindo na ilusão do aplauso dos curados e alimentados. Ao mesmo tempo em que pedia ao Pai ser libertado daquela “hora”, sabia que aquela era a “Hora” da glorificação: o amor teria a última palavra, por toda a eternidade seria impossível amar com mais intensidade do que no Calvário, sinal da grandeza divina capaz de assumir a pequenez total.

A Cruz, imagem da Igreja

Fiódor Dostoiévski, na célebre passagem de Os Irmãos Karamázov (livro V), colocou essas palavras na boca do Grande Inquisidor: “Tu não desceste da cruz porque, mais uma vez, não quiseste alimentar o homem com o milagre, e desejavas ardentemente uma fé livre, e não uma fé dependente de milagres. Ardias por um amor livre, e não a bajulação servil do escravo diante do senhor”.

Cristo quer seus discípulos nutridos de uma fé livre, que se possa expressar num amor livre. A busca do milagre impede a liberdade da fé e a liberdade do amor. A fé e o amor incluem o esvaziamento de si para poder abandonar-se no outro. Assim, o Pai esvaziou-se do Filho para abandoná-lo em nossas mãos.

A Cruz permite ao homem a experiência do amor na liberdade, sem a necessidade de milagres. Somente quem participa do sofrimento de Cristo pode participar de sua glória e, deste modo, ser digno da ressurreição. Quando afirmamos que a Igreja é o Corpo de Cristo a contemplamos crucificada, renovando a fidelidade ao Pai e fazendo germinar a Vida nova: a cruz é sinal de sofrimento e de sacrifício, mas também sinal da salvação e da manifestação da glória de Deus. Uma Igreja que despreza a fidelidade da Cruz, e se empolga com a facilidade da estrada do espetáculo, nega a existência de Deus, pois, negando a fecundidade do sofrimento, ridiculariza o Deus Trindade cuja imagem é a Cruz. Ridiculariza os sofredores do pecado do mundo, pois considera-os vítimas do próprio pecado, quando a verdade cristã é outra: todo inocente que morre na sua inocência, carrega os pecados do mundo, e nisso é semelhante a Cristo e unido a ele. Afirmava São Serafim de Sarov: “Onde não há aflição não existe salvação”, pois não é possível a conversão, podemos acrescentar.

Celebrando a Exaltação da Santa Cruz, em 14 de setembro, cantemos o hino bizantino: “Senhor, tu nos deste a cruz como arma contra o demônio; ele se atemoriza e treme, não tendo coragem de contemplar esta potência que faz ressurgir os mortos e vence a morte; por isso nós veneramos a tua sepultura e a tua ressurreição”.

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A TRINDADE, BELEZA QUE SALVARÁ O MUNDO

“Belo é Deus, Verbo junto de Deus; é belo no céu, belo na terra; belo no seio, belo nos braços dos pais; belo nos milagres, belo nos suplícios; belo no convidar à vida e belo no não preocupar-se com a morte; belo no abandonar a vida e belo no retomá-la; belo na cruz, belo no sepulcro, belo no céu. Ouvi o cântico com inteligência, e a fraqueza da carne não distraia os vossos olhos do esplendor de sua beleza…” (Agostinho, Enarrat. in Psal., 4,3).

Ícone da Trindade - Andrei Rublev

Ícone da Trindade – Andrei Rublev

Iniciando o mês de outubro com a encantadora Teresinha do Menino Jesus e com Francisco de Assis, cantor da criação, vem-nos à mente o amor que o ser humano moderno devota à beleza, à estética, à arte, à organização. O belo penetra todas as esferas da vida humana. No fundo, a beleza é um reflexo, em nós, da nostalgia da beleza divina colocada em nós no momento criador. O pecado não é belo, e pode estragar toda a beleza que Deus colocou em sua obra, sinfonia de movimentos, cores e formas. A beleza do Evangelho tem o poder de transfigurar o mundo, torná-lo inteiro um monte Tabor. A luz tabórica revelará progressivamente a beleza de cada espaço e de cada ser e nos colocará na infinitude da luz de Deus, beleza sem fim. A beleza humano-divina resplandece nas pessoas e nas obras dos santos e santas. A fé vivida verdadeiramente dá à pessoa uma equilíbrio psíquico, afetivo, corporal, moral. A fé traz harmonia e gera o amor, edificador da beleza das famílias, das igrejas e comunidades.

Francisco de Assis, como nenhum outro, teve a intuição da beleza da criação. Atraído por essa beleza, passou a cantar todas as coisas como irmãos-irmãs. O mundo por ele era visto e sentido como um imenso templo no qual continuamente se celebra a grande liturgia do louvor à Trindade. Quem ama o Belo, sente como tudo canta e respira as belezas do Senhor.

O mês de outubro, mês missionário por excelência, pode nos impulsionar ao trabalho pela criação, pela salvaguarda do mundo. O cristão ama a Deus e suas obras, o cristão é eco-teológico. Anuncia o Cristo crucificado  e o apresenta ressuscitado. Mostra o túmulo repleto de trevas e o faz explodir em luz, em vida.

Tudo o que se refere à vida e à obra divina interessa à missão.

O grande modelo para o anúncio da Beleza que salvará o mundo é a Trindade: harmonia e beleza sem limites, amor que une três Pessoas num Deus, a juventude do Filho, a feminilidade do Espírito, o encanto do Pai. A Trindade se revelou de modo pleno na beleza de Maria, venerada por todos os povos em sua beleza e encanto. Os místicos gostam de falar de Deus como “el Hermoso”,  o Formoso. Deus é formosura.

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