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O HOJE CRISTÃO TRANSCENDE O TEMPO

Luta Espiritual – Jacó e o Anjo

Com a vida compassada pelo relógio e o calendário, damos especial peso ao significado dos dias e tempos. Muitos se iludiram com as eventuais surpresas e desgraças previstas na virada do primeiro para o segundo milênio, e nada aconteceu até porque a divisão do tempo era desconhecida da grande maioria. E assim, estamos avançando pelo terceiro milênio!

Os seguidores da Nova Era anunciavam o ano 2000 como o ingresso na era de Aquário, era de paz e fraternidade, em contraposição à era de Peixes, do Cristianismo, marcada por divisões, guerras e desastres. As religiões seriam substituídas pela paz universal. Para decepção deles e nossa também, a cada dia continuamos a machucar a história com guerras, terror, mortes. A guerra, a fome, a injustiça insistem em jogar suas cartas.

Nós, cristãos, continuaremos a viver o anúncio dos anjos: “Hoje nasceu um Salvador, o Cristo Senhor”. Um hoje que transcende o tempo e participa da eternidade de Deus. Não somos movidos pelas previsões, mas conduzidos pela esperança. Sempre é “hoje” quando se está em Deus e não confiamos a nenhum astro o desenrolar da história.

Na vida da Igreja, o segundo milênio teve início com a ruptura entre a Igreja latina e a bizantina, uma ferida dolorosa, pois privou estas duas pujantes formas de catolicismo da mútua fecundação das suas riquezas espirituais e teológicas. A metade do segundo milênio viu nascer mais uma ferida no corpo eclesial, a reforma protestante, que dividiu o Ocidente católico.

No compromisso de sarar as feridas, a cada ano permanecem palpitantes duas agendas religiosas: o ecumenismo e o diálogo inter-religioso. Recuperar a túnica inconsútil da Igreja (ecumenismo) e saber dialogar proveitosamente com as grandes religiões (diálogo inter-religioso), também elas semeadas pelo Espírito. Nas pegadas de seu Senhor, a Igreja sempre mais renunciará a se apresentar como potência religiosa, para ser humilde e dedicada servidora do mundo. A Igreja descobre com maior profundidade o alcance da Palavra de Deus revelada em Jesus Cristo e vê nele – somente nele – a possibilidade de um mundo de paz, conduzido por irmãos e servidores, sem a ânsia do poder que corrói a fraternidade.

Além do desafio da salvação humana, intrínseco à fé cristã, a Igreja é chamada a um outro compromisso: o da salvação da criação, conseqüência de sua fé no Deus Criador. Após séculos de devastações, agressões ao meio-ambiente, de consumismo e desperdício acelerados nas últimas décadas, o mundo vê suas reservas se esgotarem. Consumimos mais do que o mundo consegue repor. É preciso correr atrás do prejuízo para que o ser humano seja salvo e tenha onde morar e viver.

O ser humano – protetor da criação

Por um engano com raízes filosóficas e religiosas, por ter hiperbolizado a compreensão de sua natureza, o ser humano confundiu seu serviço à criação com o domínio da criação. O Criador nos entregou sua obra para que a guardássemos como a um jardim, e não para ser destruída. Deu no que deu, pois vamos com sede ao pote e os recursos naturais não são inesgotáveis.

É impressionante como agora estamos vendo os frutos de nossa blasfêmia contra o senhorio do Criador: nascentes, rios e lagos poluídos, matas devastadas, espécies em extinção e os lixões – cloacas do desperdício humano – desafiando a administração pública. A natureza é generosa e oferece a cada um de nós uma oportunidade de salvá-la, e para os cristãos isso é compromisso. A teologia não pode estar separada da ecologia. A natureza é a primeira tenda de Deus entre nós.

Uma nova ciência desafia a compreensão cristã da vida humana: a biotecnologia, a manipulação genética de embriões com fins terapêuticos. A ciência não pode manipular a vida humana, sagrada: “Sobre a terra, o homem é a única criatura que Deus quis para si mesmo”, ensinou a o Concílio do Vaticano II, ecoando o profeta Isaías: “Este povo, eu o criei para mim e ele cantará meus louvores” (Is 43, 21). E João Paulo II: “A gênese do homem não corresponde apenas à lei da biologia, mas diretamente ao querer criador de Deus, Deus o ‘quer’ em cada concepção”. É o bom combate necessário defender a dignidade humana do embrião a partir da concepção.

Uma grande agenda para nós, cristãos, que não faltaremos para retribuir a generosidade e confiança do Deus da vida, mais uma vez, ano por ano, enquanto durar a história.

Pe. José Artulino Besen

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QUEM NÃO TEM TEMPO, TEM UM TEMPINHO

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Maria servindo nas Bodas de Caná – mosaico do Centro Aletti.

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer” (Ecl 3,1‑2).

Impressionante o modo como muitas pessoas gastam seu tempo: realmente o gastam, pois trabalham muito para quase nada produzir. Ou, pior ainda, pensam que trabalham, mas se ocupam para terem a impressão de que são úteis. Fazem mil coisas ao mesmo tempo, custando a terminar alguma coisa. Utilizam dois “truques”: trabalhar ligeiro para mostrar que são muito ocupadas, ou trabalhar devagar, para ocupar o tempo. Nos dois casos, estão sempre cansadas. E se sentem mais cansadas ainda ao ver que as coisas não andam, não rendem. Tudo está sempre por fazer.

Acusam os outros de não as ajudarem, de não fazerem nada, de perderem tempo. Passam a imagem de que só elas trabalham, que todas as ocupações estão sob sua responsabilidade, que os outros não as valorizam.

Normalmente isso acontece com quem vive de muita ação e pouco pensamento, de muito barulho e pouco silêncio. Uma paradinha para reflexão, para planejamento, produziria urna vida mais saudável e um trabalho mais compensador. Um pouco de humildade também faria muito bem: perceberiam que os outros também trabalham, mas de modo diferente, mais compensador. A diferença é que uma é escrava do trabalho, e a outra, dona do trabalho.

Essas pessoas sofrem, porque vão se isolando: não têm mais tempo para escutar, para sentir a vida das pessoas que as rodeiam. Como não valorizam os outros, acabam não sendo reconhecidas. No fundo, seu muito trabalhar esconde uma busca de compensação, de valorização. É a solidão disfarçada no ativismo.

Também há o caso das pessoas que pensam que trabalham, mas são ociosas, preguiçosas, egoístas. Sempre arrumam a desculpa de grandes ocupações para não precisarem ajudar a ninguém. Diz a sabedoria popular que “se queremos um favor, procuremos alguém muito ocupado, que sempre terá um tempinho”. Quem realmente é muito ocupado, sabe da importância de ajudar os outros. Tem prazer em ajudar.

Percebemos isso nos trabalhos comunitários: a mãe mais ocupada, com mais trabalhos domésticos, estará sempre disponível para a comunidade. Sabe compartilhar o tempo e o trabalho. Por isso mesmo, dificilmente demonstrará cansaço, pois faz tudo com generosidade. E generosidade não cansa. O que cansa é trabalhar para se exibir, para mostrar serviço. Os ocupados ajudam silenciosamente; os falsamente ocupados ajudam com alarde, fazendo propaganda de si mesmos.

E não esquecer: conversar, rezar, ler, se divertir, ouvir, visitar, também é ocupar o tempo. E muito bem, pois abastece o coração, tempera as energias, nos traz o sentimento de não estarmos sós. Há um tempo para cada coisa. Não achar que somos insubstituíveis, pois num dia morreremos, a o mundo continuará!

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