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«O Natal – a Treva Luminosa de Deus»

«Procurai o Senhor com simplicidade de coração,
porque ele se deixa encontrar por aqueles que não o tentam,
ele se revela a quem não recusa ter fé nele» (Sab 1,1-2).

Tentar o Senhor é exigir prova de sua existência, é duvidar da sinceridade de sua Palavra. Assim como nós abrimos nosso coração a quem em nós confia, Deus abre os tesouros de seu amor a quem se lhe entrega pela fé.

Os homens exigem provas, mas as provas ferem a verdade e o Senhor as recusa. Deus se encerra no seu amor sofredor (P. Evdokimov). Amor sofredor: bela expressão a indicar o quanto Deus Pai sofre por causa de nossas dúvidas de filhos torturando-se por provas científicas, como se Ele fosse um dado a ser destrinchado por fórmulas racionais!

Toda a Escritura nos fala de Deus e Deus abre inteiramente seu amor por nós através da Palavra: é a criação, é o Povo eleito, são os profetas, é seu Filho! Sim, seu Filho, Palavra do Pai, foi-nos entregue para restabelecer a comunhão divino-humana. Apesar de tanta prova de presença, continuamos a procurá-lo longe dele, sempre onde ele não se encontra: na vaidade-vacuidade das aparências.

Após o Pentecostes Deus Pai fala apenas através do sopro do Espírito, sofrendo um «louco amor» por respeito à liberdade da consciência humana. Ele gostaria de nos falar diretamente, mas estaria ultrapassando o limite de nossa liberdade.

O ateu diz: «Se Deus existe, o homem não é livre». Já pela Bíblia concluímos: «Se o homem existe, Deus não é mais livre». Deus pode tudo, menos obrigar o homem a amá-lo. O homem pode dizer «não» a Deus, mas Deus, não: Ele pode apenas dizer «sim» (2Cor 1,19), o sim da Aliança, ecoado eternamente por Cristo na Cruz. Sua palavra de amor não tem retorno, mas nossa palavra de negação é sem limites. E o Pai sofre, e com ele o Filho e o Espírito, o Deus Comunhão.

Mas não se cansa em seus jogos de amor. Permite que mergulhemos nas trevas, e se apressa em converter as trevas em luz. Pedimos provas de seu amor, e ele se recolhe, pois a ofensa é demais a quem tanto ama. Às vezes até se diverte com os sisudos doutores procurando ingressar nos espaços quase infinitos do cosmos, estabelecendo leis e calculando datas em bilhões de anos; ele se diverte desafiando-os a outro espaço quase infinito: mergulhar na vastidão incomensurável de um átomo. Podem cometer todas as experiências, para depois ouvirem no silêncio da eternidade o «Faça-se a Luz». E verão as trevas desmanchadas pela profunda luminosidade da fé-amor.

O homem é um homem miserável, mas há alguém mais miserável ainda: Deus, esse mendicante de amor, à porta de seu coração. Ele bate à porta e espera. Se o homem abrir ele entra e apaga toda dívida (cf. Apoc 3,10). Foi contemplando seu Filho que o Pai nos criou, e quanto arde em poder narrar-nos toda essa história de amor. Decidiu que não pode obrigar-nos a ouvi-lo e, como um miserável, bate à porta delicadamente, sofrendo fome para dar amor aos filhos.

Ingressamos no tempo do Natal: a Palavra de Deus se faz Menino, frágil criança a espera que o procuremos e o sustentemos ao colo. Então esse menino restabelecerá nossa comunhão com o Pai. Por serem simples, viverem encantados com suas ovelhas e as estrelas nas noites de Belém, os pastores ouviram anjos, foram revestidos de luminosidade, viram e adoraram o Menino.

As crianças gostam de brincar de se esconder para serem procuradas. Escondem-se deixando-se à mostra para que alguém as procure e grite de alegria por encontrá-las. E elas gritarão de prazer porque foram procuradas e encontradas.

Deus aprendeu com elas: faz-se criança, brincando para ver quem sente falta dele. Ele se esconde, para que nós o procuremos. No mistério do Natal é quase impossível não encontrá-lo: basta procurá-lo. Após o encontro, o Deus Menino migra para dentro de nossa alma e faz-nos emigrar para junto dele (cf. São João Damasceno, Sermão 90).

Pe. José Artulino Besen

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A Transfiguração do Senhor, nossa transfiguração

 

A Transfiguração

A Transfiguração

“Ó Cristo Deus, tu te transfiguraste sobre a montanha, mostrando aos discípulos tua glória, à medida que lhes era possível contemplá-la. Também sobre nós, pecadores, deixa brilhar tua luz eterna, pelas orações da Mãe de Deus. Ó Doador da luz, glória a ti!”

 

Os Evangelhos sinóticos (Mt 17, 1-13; Mc 9, 6-8; Lc 9, 28-36) relatam a revelação ocorrida no Monte Tabor: Pedro, Tiago e João contemplam Jesus, mais brilhante do que o sol, conversando com Moisés e Elias. E, como no dia do Batismo, a voz do Pai declara “Este é o meu Filho muito amado; escutai-o”.

No século VI a festa da Transfiguração, 6 de agosto, difundiu-se por todo o Oriente e em 1457 o papa Calixto III introduziu-a no Ocidente, em agradecimento pela vitória conseguida contra os turcos. Quando Pedro pediu ao Senhor para construir tendas e residirem no monte, estava equivocado: a Transfiguração não é uma emoção para ser degustada, mas um caminho que passa pela paixão e morte; também se equivocou Calixto III, pois não foi um triunfo terreno. A Transfiguração foi um lampejo, um resplendor do reino que é Jesus: é a Luz da Páscoa, do Pentecostes, da Parusia. É o Senhor da Luz.

Naquela hora, conversando com Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, Jesus ilumina todo o Antigo Testamento, revela o novo Êxodo (sua Paixão e Morte) e é revelado como a Luz das Nações. Pedro, Tiago e João são as testemunhas da Nova Aliança: contemplam o Cristo transfigurado e o contemplarão ressuscitado.

O Cristo do Tabor é o mesmo Jesus que peregrinava pela Palestina, o Deus feito homem, o Homem-Deus. Todos os olhos conseguiam somente contemplar o homem, mas, na Transfiguração, o Espírito transfigurou os olhos dos discípulos e eles contemplaram o Homem-Deus. Tendo seus olhos lavados pela graça, foram tomados pela energia divina.

A antiga e a nova Aliança

Conversando com Moisés e Elias, Jesus insere a antiga Aliança na nova: ele é o Mediador e a realização dos dois Testamentos. O Pai de Jesus é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e é o Pai do Colégio apostólico.

Freqüentemente a história nos coloca frente a contradições: o mesmo dia 6 de agosto, quando a Igreja da Nova Aliança celebra a Transfiguração é, para o povo da Antiga Aliança o dia 9 do mês de Av, quando faz memória da destruição do Templo em 586aC e em 70pC. Nossas igrejas estão iluminadas para celebrar a Luz do Tabor e as Sinagogas, ao contrário, ficam em semi-escuridão, com apenas uma vela acesa para a leitura das Lamentações. Nós nos alegramos pela Luz que nos invade, que nos transfigura, e o povo judeu chora a ausência de seu Templo e chora também todas as perseguições que sofreram por causa do ódio humano e cristão. Enquanto Cristo conversa com Moisés e Elias, nós cristãos blasfemamos contra o povo judeu, chegando à Shoah, ao Holocausto desse povo sob o nazismo.

O Cristo transfigurado é filho de Abraão segundo a carne e nós, pela Transfiguração, somos filhos de Abraão segundo o Espírito. Toda oposição e ódio negam a verdade que emana da pessoa que é a Luz dos Povos, o Senhor.

A Luz da vida e a luz da morte

A quase 100 quilômetros de Hiroshima uma jovem mãe, chegando em casa disse: “Eu vi uma grande luz!”. Parecia a voz de Isaías anunciando que o povo que andava nas trevas “viu uma grande Luz!” (cf Is ). Mas, naquele 6 de agosto de 1945 a mãe japonesa não poderia imaginar que a luz contemplada com admiração tinha acabado de matar, escalpelar, calcinar dezenas de milhares de concidadão, aquela luz – que era bela – estava derretendo uma cidade. Tinha explodido a primeira bomba atômica: a inteligência humana terminara de libertar a luz que Deus escondera na matéria para transformá-la em luz de morte, em morte. O dia da Transfiguração do Senhor, anúncio da vida nova, coincidiu com o dia da transfiguração do mal, prenúncio de tantas outras mortes.

O Cristo tabórico é o Jesus que anuncia a próxima paixão e morte por amor da humanidade, convite a cada um de nós para também nos transfigurarmos em seres iluminados pela compaixão, conduzidos pela energia divina.

Hoje, em tantas cidades, as pessoas vêem explosões de luz: mas são bombas mortíferas que primeiro clareiam o ambiente, depois estrondam para chamar a atenção e, em seguida, puxam o pano de um palco para revelar dor, morte, ruína.

Há, contudo, muito mais luzes em nossas cidades e povoados: homens, mulheres, crianças e jovens difundindo a luz da caridade, da fraternidade, aceitando morrer para que o outro não morra.

A cada dia, milhões de pessoas retornam a seus lares luminosas, transfiguradas: receberam a eucaristia, o Corpo transfigurado do Senhor. Por onde passam, brilha uma nova luz, gerada pela energia da comunhão. E, unidos, continuamos a oração:

“Ó Cristo, tu me atraíste e transformaste com o teu divino amor; queima, pois, os meus pecados na chama do fogo imaterial e enche-me de tuas delícias, para que, exultante de alegria, possa glorificar, ó Deus de bondade, as tuas duas vindas” (São João Damasceno).

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