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O QUE CRÊEM E VIVEM OS CATÓLICOS

Pedro e Paulo, carisma e instituição – colunas da Igreja de Cristo em Roma

No diálogo ecumênico é fundamental que cada um conheça e viva a fé de sua Igreja ou comunidade religiosa. O diálogo não visa a supressão de artigos da fé, mas sim, cada um se enriquecer a partir do conhecimento do outro. Nasce uma espiritualidade de comunhão, de respeito pela seriedade do outro. “Nós cremos de um modo diverso, mas o que nos une é muito mais forte do que nossas diferenças”.

O diálogo enriquece quem dialoga; se empobrece é dominação, não diálogo.

Quando me perguntaram “o que é ser católico romano?”, resolvi expressar a resposta nesta síntese, ponto de partida para um aprofundamento do tema.

 1 – Origem e desenvolvimento histórico

A Igreja nasce do lado direito do Cristo, donde escorrem Sangue (Eucaristia) e Água (Batismo) – Centro Aletti.

A Igreja nasce do lado direito de Cristo crucificado, donde correm Sangue e Água, o Batismo e a Eucaristia. Gerada aos pés da cruz, se expande pela missão do Espírito Santo no dia de Pentecostes. É o Povo de Deus e o Corpo Místico de Cristo.

O Catolicismo romano, que identifica a Igreja católica apostólica romana, se entende em continuidade com a primitiva comunidade de Jerusalém, desenvolvida pela missão apostólica e tendo como centro a cidade de Roma, onde os apóstolos Pedro e Paulo receberam a palma do martírio e estão sepultados.

O Espírito Santo desperta a fé no Senhor ressuscitado e anima a missão cristã.

Com a “reviravolta constantiniana” de 313, quando o imperador romano Constantino concedeu liberdade aos cristãos e pouco a pouco fez do Cristianismo a religião oficial do Império, a Igreja adquiriu uma fisionomia própria, de caráter organizacional e visível à imagem do Império. Quando a sede do Império foi transferida de Roma para Bizâncio/Constantinopla, em 322, esta cidade assumiu o título de Nova Roma e a Igreja católica romana passou a acentuar duas fisionomias bem definidas: a ocidental católica romana e a oriental, católica ortodoxa. Os dois Patriarcados (Roma e Constantinopla) desenvolveram eclesiologias diferentes: a católica romana centralizada na pessoa do Bispo de Roma, o Papa, e a católica oriental, sinodal (o que se refere à Igreja diocesana nela se decide; a comunhão entre as Igrejas não permite a autoridade de uma sobre outra).

Com as invasões bárbaras dos séculos IV-V e a queda de Roma, o Bispo de Roma e os bispos espalhados pela antiga estrutura geográfica e política do Império ocidental tiveram de assumir o processo de reorganização civil e de proteção aos mais fracos, o que fez com que, além da missão religiosa, assumissem funções administrativas e retomassem a evangelização, pois os bárbaros eram em sua maioria pagãos, ou cristãos arianos. Neste trabalho missionário manifestou-se o perigo, depois real, do sincretismo: o cristianismo católico recebeu fortes influências das culturas germânicas e anglo-saxônicas.

Abandonada pelo Imperador, Roma ficou sob a responsabilidade de seu Bispo, o Papa, que passou a governar um território, os Estados Pontifícios, que terminaram em 1870.

A Santa Sé – além de Pastor da Igreja universal, o Papa é chefe do Estado do Vaticano, incrustado na cidade de Roma, com o território atual (de 49 hectares) definido em 1929 e reconhecido pela comunidade internacional. A origem dos Estados Pontifícios (anexados à Itália em 1870) está ligada às doações do rei franco Pepino o Breve e seus sucessores a partir do século VIII. O Vaticano é reconhecido e mantém relações diplomáticas com 180 países e é membro-observador da ONU. Mesmo com o título de Chefe de Estado, o Papa não exerce mais funções administrativas.

2 – Ênfases teológicas centrais

O conteúdo da Fé católica

1)  Crê como divinamente revelada e inspirada a Sagrada Escritura composta de 73 Livros do Antigo e Novo Testamentos, neles incluídos os Deuterocanônicos, isto é, os Livros do AT escritos em grego.

2)  Professa um só Deus em três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

3)  Professa que o Filho, Jesus Cristo, na plenitude dos tempos se encarnou na Virgem Maria e é Deus e Homem verdadeiro.

4)  Professa a Fé definida no Credo apostólico e no Niceno-constantinopolitano (proclamados em cada Liturgia dominical e festiva).

5)  Crê que a Tradição expressa a fidelidade ao conteúdo da Escritura através das decisões dogmáticas dos Concílios Ecumênicos (os sete primeiros, da Igreja Una) e Gerais do Ocidente.

6)  Aceita um Magistério (da Igreja local e da Igreja universal) como garantes da reta compreensão do texto revelado e que, nas decisões dogmáticas, possui a assistência que o Senhor prometeu à Igreja através do Espírito Santo.

7)  A Igreja católica romana crê como divinamente revelados Sete Sacramentos: o Batismo e a Eucaristia/Ceia/Missa criados diretamente pelo Senhor e constitutivos da Igreja e os outros cinco derivados de palavras ou gestos dele: Confirmação/Crisma, Penitência/Confissão, Ordem/Sacerdócio, Unção dos Enfermos e Matrimônio (A não se constatar nulidade, o Matrimônio é indissolúvel). A Celebração eucarística, constituída pela Liturgia da Palavra e Liturgia eucarística, é a Celebração do Mistério Pascal, isto é, da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa do Senhor, sob a presidência de um bispo ou presbítero.

 3 – Poder e Serviço na Igreja

Todo cristão participa do sacerdócio universal dado pelo Batismo: sacerdócio real (santificar o mundo), profético (anunciar o Evangelho) e ministerial (assumir serviços e carismas eclesiais).

Dentre os cristãos, alguns exercem o sacerdócio sacramental, hierárquico, recebido no sacramento da Ordem e constituído pelos três graus do diaconato, presbiterato e episcopado. O episcopado inclui a sucessão apostólica, pela qual o bispo é ordenado pela imposição das mãos de três outros bispos, como garantia da unidade na Igreja. A Igreja católica reconhece como bispos aqueles que foram ordenados por outro bispo com a imposição das mãos significando a comunicação da graça do Episcopado. Os presbíteros são diocesanos ou religiosos (de uma Ordem ou Congregação).

A Igreja particular (dioceses e arquidioceses) tem como pastor um bispo validamente ordenado e com mandato apostólico (jurisdição conferida pelo Papa). Para o atendimento pastoral, as dioceses se dividem em paróquias e comunidades, confiadas a um padre. Nelas se dá a vivência quotidiana da fé.

A Igreja universal se constitui pela unidade em torno do Papa, Bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro (assim o Catolicismo entende o mandado do Senhor em Mateus (16, 15-19: Tu és Pedro) em união com todos os bispos, o colégio episcopal. O Papa tem jurisdição direta e imediata sobre todas as Igrejas particulares e sobre todos e cada um dos fiéis e, no exercício de seu ministério, goza pessoalmente de infalibilidade (isto é, inerrância) quando define matéria de fé e de moral e declara explicitamente que pronuncia uma sentença infalível.

Quando ocorre o falecimento de um papa, reúne-se o Conclave – assembléia na qual o novo Papa é eleito por um Colégio atualmente fixado em 120 eleitores, constituído por Cardeais com idade abaixo de 80 anos. Na verdade, o Conclave elege um novo bispo de Roma que, como tal, é o Papa, sucessor de Pedro e Paulo.

Acontecimento decisivo na vida católica do século XX foi o Concílio do Vaticano II (1962-1965), que significou um novo Pentecostes para a Igreja. Convocado e inaugurado por João XXIII (1958-1963), o “Papa Bom”, continuado por Paulo VI (1963-1978), animou a vida eclesial impulsionando a renovação litúrgica, os estudos bíblico-teológicos e o uso da Escritura. O acento colocado na Eclesiologia do Povo de Deus foi ocasião para o rejuvenescimento da participação dos cristãos-leigos na Igreja, desclericalização da pastoral e da evangelização, novo lance missionário. Igreja como comunhão a participação. Outro fruto, de alcance ainda não mensurável, foi a abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso.

 4 – Meios de santificação

Os sete Sacramentos

Os Sacramentais: incluem as bênçãos especiais e outras celebrações.

Culto: a Deus uno e trino unicamente se presta o culto de adoração.

Culto ao Santíssimo Sacramento: a Igreja católica afirma que o Pão consagrado, Corpo do Senhor, assim permanece mesmo após a Celebração da Eucaristia, tanto para ser levado aos doentes e idosos como para ser adorado. A adoração ao Santíssimo está intimamente ligada ao Mistério do Altar, a Eucaristia.

Culto aos Santos: chamado de “veneração”, diferente da adoração: é um respeito oferecido aos homens e mulheres que de modo mais pleno se transfiguraram em Cristo. Os santos são apresentados ao povo cristão como modelos de vida cristã e como intercessores. Entre todos os Santos sobressai a figura da Virgem Maria, de quem a Igreja católica afirma a imaculada conceição (concepção sem pecado), a maternidade divina, a virgindade perpétua e a assunção ao céus em corpo e alma.

Como não mais se vive numa cultura onde a imagem se identifica com ídolo (como acontecia nos tempos bíblicos), a Igreja católica aceita que os fiéis contemplem os fatos e pessoas da história da salvação, os Santos e suas vidas, através de imagens, vitrais e ícones. Também são veneradas as relíquias dos Santos.

É característica forte do catolicismo romano a oração dos vivos pelos falecidos, fruto da fé na comunhão dos Santos: há uma união misteriosa entre os vivos e os mortos, entre os que já estão na glória, os que militam na terra e os que são purificados para a posse da vida eterna (aqui se inclui a doutrina do Purgatório, fundamentada em 2Macabeus 12, 43-46). No mesmo contexto entra a doutrina das Indulgências – aplicação aos mortos das boas obras dos vivos e que deram ocasião a abusos, superstições e corrupção religiosa, contribuindo como causa imediata da Reforma protestante do século XVI.

4 – Práticas sócio-eclesiais características.

Para a santificação de seus membros, além da Palavra e dos Sacramentos, que são essenciais e levam à vida transformada pelo Amor e pela oração, a Igreja católica faculta:

Vida religiosa consagrada contemplativa e ativa: a partir do século III surgiu a vida monacal (eremitas e cenobitas) e, mais tarde, as Ordens e Congregações religiosas. Os contemplativos (como monges e monjas beneditinos, cistercienses, trapistas, carmelitas, eremitas camaldulenses, servitas, clarissas) que se retiram para a experiência da vida cenobítica (vida em comum) onde fazem a experiência da oração e do trabalho comunitário. Seu ministério é o da intercessão pela Igreja e pelo mundo. As Ordens e Congregações de vida ativa, masculinas e femininas (jesuítas, salesianos, franciscanos, capuchinhos, …), destinam-se à vida comunitária e ao trabalho evangélico junto às paróquias, aos pobres, órfãos, idosos, doentes, presidiários, missões e escolas.

Movimentos de espiritualidade leiga – Apostolado da Oração, Legião de Maria, Opus Dei, Focolarinos, Movimento Familiar Cristão, Ordem Franciscana Secular, Equipes de Nossa Senhora, Neocatecumenato, Schönstadt…, são característicos do Catolicismo romano e se orientam para a santificação conjugal, familiar, comunitária, pessoal. No século XX surgiu a Renovação Carismática católica, ou Renovação no Espírito, que tem atraído verdadeiras multidões: caracteriza-se pelo cultivo dos dons e frutos do Espírito Santo, assumindo uma veste forte de alegria, espontaneidade, celebrações vibrantes, impulso evangelizador.

Peregrinações – constitutivas de todas as religiões, as peregrinações significam o deslocamento penitencial e devocional a locais marcados pela história bíblica (a Terra Santa) ou pela presença de santos ou manifestações extraordinárias da graça divina (Roma, Cantuária, Compostela, Guadalupe, Lourdes, Fátima, Aparecida, estes últimos locais de devoção mariana). Não são isentas do aspecto lúdico, turístico e até comercial.

Devoções – fazem parte da vida religiosa pessoal. Podem ser a consagração dos meses de maio e outubro à Virgem Maria, a visita a igrejas significativas para sua vida, o culto a determinado santo ou a suas relíquias, a recitação do Rosário (durante o qual se meditam os mistérios da encarnação, paixão e glória do Senhor) e muitos outros modos. Podem ser ambíguas: levar a uma vida iluminada pela Palavra ou se deter em aspectos visíveis, emotivos e até supersticiosos.

 5 – Cisões e correntes

Já nos tempos do Novo Testamento surgiram divisões na comunidade cristã. Isso é compreensível, pois ainda não estava definida a doutrina e o mundo greco-romano era rico em correntes de pensamento. Grande ameaça à unidade foi o Gnosticismo, que identificava a fé com o conhecimento. No século V, surgiu a Igreja nestoriana (que nega a Maria o título de Mãe de Deus) e a monofisita, que não aceitou a definição do Concílio de Calcedônia (451) que definiu em Cristo uma pessoa divina e duas naturezas, divina e humana. Hoje se tem claro que essas divisões foram fruto mais da dificuldade lingüística de distinguir entre pessoa e natureza, do que problemas dogmáticos.

Duas grandes rupturas, porém, marcaram a história do cristianismo e da Igreja católica romana em particular: o Cisma grego de 1054 (entre a Igreja católica romana e a católica ortodoxa oriental) e as Reformas a partir de 1517, a que seguiu-se a organização das Igrejas evangélica, anglicana e reformada (calvinista). A Igreja católica romana inclui as Igrejas do ocidente romano, latino e as Igrejas católicas orientais que permaneceram unidas ou retornaram à comunhão com Roma, as “uniatas”.

Pelo Censo da Igreja católica romana de 2011, há um bilhão e 200 milhões de fiéis católicos.

 6 – Convicção e respeito

Às vezes se faz a pergunta: quem é católico se salva? Quem é protestante se salva? Essa pergunta nós não podemos responder, pois a salvação é dom, graça de Deus. Nós, católicos, podemos dizer: “Eu posso responder apenas isso: se vivo a minha fé na comunidade, com a consciência iluminada pelo Espírito, se vivo o Mandamento do Amor, se creio que Jesus é meu Senhor e Salvador, Deus Pai me dará a salvação”.

Pe. José Artulino Besen

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OS SANTOS, OBRAS-PRIMAS DO EVANGELHO

Sede perfeitos como vosso Pai do céu é perfeito” (Mt 5,48).

Antes da Idade moderna, os homens sonhavam ser nobres, sábios ou santos. Melhor ainda: ser nobre, sábio e santo ao mesmo tempo. O ideal da afirmação humana ia além dos limites do dia-a-dia. Os pobres, homens e mulheres, crianças e jovens, buscavam a perfeição aos olhos de Deus. Reis e rainhas, príncipes e princesas, não se contentavam em fazer parte da aristocracia terrena: queriam ser aristocratas aos olhos de Deus. O homem perfeito era o homem santo.

O mundo moderno empobreceu o sonho humano: o grande ideal é ser rico. Ser rico, eis o máximo que nos apresentam! Os pais querem ser ricos para oferecerem riqueza aos filhos. Profissão boa não é a que realiza o jovem, mas a que lhe garanta conforto. Ser rico passa a ser um prazer em si, o homem rico se satisfaz enumerando suas riquezas. Infelizmente chegamos a essa pobreza: querer apenas ser ricos! E o máximo a que se aspira é ser uma “celebridade”, uma cabeça oca com muita badalação…

O cristianismo oferece a plena realização humana

Se, aos olhos do mundo, isso é suficiente e compensador, o cristão é chamado a sonhar mais alto: buscar a santidade. “Os santos são a aristocracia cristã“, disse o Papa Paulo VI.

Ser santo não é ser pessoa esquisita, alheia ao mundo e às suas obrigações. Ser santo é ser normal, e os santos foram as mais normais das pessoas. Evidentemente que foram diferentes, pois amavam mais o próximo do que a si mesmos, beijavam seres cheios de feridas, repartiam tudo o que possuíam, esqueciam-se de si para servir aos outros, tinham intensa intimidade com Deus, retribuíam com afeto as ofensas recebidas, eram pessoas tomadas pelo amor. Eram diferentes dos outros, porque eram mais humanos.

Os santos foram pessoas humanas porque não pecaram. Pecar não é humano, o pecado nos torna desumanos: ambiciosos, violentos, vingativos, egoístas, avarentos, orgulhosos, erotizados. Com essas “qualidades”, alguém pode ser humano?

Os santos não foram pessoas frustradas que se refugiaram na religião. Encontramos santos nos palácios reais e nas choupanas, entre ricos e pobres, doutores e analfabetos, crianças e jovens, adultos e velhos, na cidade e no campo, entre casados e solteiros. A santidade floresceu em todas as profissões. Cada profissão tem o seu santo padroeiro porque há santos em cada profissão.

Não se fica santo fazendo coisas raras, estranhas. A santificação consiste em fazer bem, com amor e por amor, aquilo que se precisa fazer a cada dia. Importa não “o que” se faz, mas o “como” se faz. Para Deus, o Papa governando a Igreja ou a mãe de família lavando louça, têm a mesma importância. A diferença está no amor colocado em suas ações.

Para sermos santos, não precisamos abandonar a rotina da vida. Precisamos é mudar o modo como a enfrentamos: por amor e não por interesse pessoal, buscando a glória de Deus e não a glória pessoal, colocando-nos ao serviço dos outros e não os outros a nosso serviço.

Os santos, heróis inesquecíveis

Os poderosos passam e sua memória fica registrada apenas nos livros de história. Os santos, porém, deixam marcas profundas na história e são inesquecíveis: tiveram uma vida de tal modo rica em qualidades, virtudes, bondade, doação que sua vida parece ainda estar acontecendo diante de nós. Francisco, Antônio, Clara, a Virgem Maria, José, Pedro, Sebastião, Teresinha viveram há tanto tempo, mas sua memória é viva, é atual porque sua obra e exemplo tocam o ser humano naquilo que tem de mais profundo: a necessidade de ser bom, de ser perfeito, de ser à imagem e semelhança de Deus.

Nós apreciamos os heróis, os jovens mais ainda. Pois o Cristianismo tem milhares, milhares, milhões de heróis, crianças, jovens, adultos, anciãos. Gente que deu a vida para continuar a professar a fé em Jesus Cristo, gente que entregou a vida no campo missionário, deixando pais, pátria, tudo, para ganhar outros para a felicidade de crer em Cristo. Gente que consagrou a vida em favor dos doentes, leprosos, aidéticos, proferindo uma palavra de carinho a tantos doentes antes de morrerem, talvez a única palavra amorosa que escutaram em sua vida. Há alegria maior?

O trabalho desses heróis tem um único preço: o preço do amor. Dinheiro nenhum pagaria o que fazem, mas o fazem gratuitamente, pois querem sentir a felicidade de amar sem nada receber em troca, além da felicidade daqueles que Deus colocou em seus caminhos.

Os santos, pessoas sempre mais atuais

É verdade que a cultura moderna é a do prazer, do consumo, da moda, do individualismo. Começa na festa e termina na ressaca. Mas é também verdade que muita gente escapa dessa pobreza e mergulha no discipulado de Jesus Cristo: amar, dar a vida, consagrar-se a um ideal, ser feliz fazendo feliz, buscando a transformação da própria existência numa grande aventura conduzida pelo Espírito Santo, o artista dos santos. Sua vida é sempre festa, festa de amor, de ver o outro feliz.

Nosso tempo gerou muitos santos: podemos citar Irmã Dulce da Bahia, Madre Teresa de Calcutá, Dom Hélder Câmara, Roger Schütz, Edith Stein, Santa Paulina e assim por diante. O Cristianismo terá sempre a marca da generosidade, por isso não conseguirá existir sem os santos.

Por último: só nos realizaremos plenamente atingindo a perfeição. Alguém pode se achar normal se não decidir ser perfeito? Alguém pode ser feliz e realizado sem um ideal pelo qual dar a vida? A santidade é o ponto final da perfeição humana, é quando a criatura se assemelha a seu Criador.

Pe. José Artulino Besen

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Madre Paulina, Santidade em Terra Brasileira

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Santa Paulina

«Bem aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus… Bem aventurados os mansos… os que têm fome e sede de justiça… os misericordiosos… os puros de coração… os pacíficos… os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus» (Mt 5,1 10).

«O Brasil precisa de santos, de muitos santos!» Essas incisivas palavras foram pronunciadas pelo Papa João Paulo II, em Florianópolis, no dia 18 de outubro de 1991. Horas antes tinha proclamado Bem-aventurada a Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, fundadora da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. O Papa estava afirmando que são os santos os verdadeiros transformadores da sociedade, porque a renovam de dentro para fora. De tal modo sua presença é sal e luz, que o ambiente circundante se impregna de um novo espírito, o da santidade. «Essa santidade se prova no dia a dia, no trabalho em favor dos irmãos, como fruto da união com Deus», continuou o Papa.

Amábile Visentainer, nascida em Vígolo Vattaro, Itália, em 1865, é prova desse amor, desabrochado na pobre comunidade de Nova Trento SC, aonde chegou aos 10 anos de idade, com os pais e mais quatro irmãos. Pobres italianos, em busca de terra e de pão no Brasil.

Com 15 anos de idade, deixa a família, para cuidar de uma cancerosa. Estava acompanhada da amiga Virgínia Nicolodi. Em Amábile, esse amor pelos sofredores iria tomar corpo numa Congregação religiosa: a das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Outras companheiras sentem se atraídas pelo mesmo ideal. A fé cristã irradiava se, a partir delas, em três direções: o cuidado pela igreja, a catequese e a dedicação aos órfãos, doentes e idosos.

Em 1903, Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus, seu nome religioso, transferiu se para São Paulo. Queria se consagrar ao atendimento dos filhos dos ex escravos e dos escravos velhos e abandonados. A obra crescia, e tem início o período de provações em sua vida. Por ordem do Arcebispo de São Paulo, foi deposta da direção de sua obra, e mandada para Bragança Paulista, onde trabalhou com os velhos e doentes. A superiora se torna súdita, por obediência e amor.

O mundo era o horizonte de seu olhar: queria ir a qualquer parte do mundo, para difundir a glória de Deus e trabalhar pelo bem do próximo. Sua vida era oração, serviço humilde e cruz. A humilhação não a derrotou. Dizia: «O meu desejo é trabalhar, obedecer e morrer abandonada por todas as criaturas deste mundo, somente lembrada do meu caro Jesus que tanto amo».

Diabética, em 1938 amputou a mão, depois o braço direito e depois, foi perdendo a vista até ficar cega. Em 9 de julho de 1942, dizendo suas últimas palavras, «Seja feita a vontade de Deus», entrava para a eternidade. Uma santa nascia para a vida eterna, após testemunhar, com sua vida, de que é capaz o amor a Deus que se prolonga no amor sem limites aos irmãos mais abandonados. Uma multidão de outras jovens seguia o mesmo ideal de ser sal e luz para o mundo.

Foi canonizada em Roma, na Praça de São Pedro, pelo Papa João Paulo II, em 2001.

— Santa Paulina, rogai por nós!

Sua festa é celebrada em nove de julho.

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SÃO TOMÉ, PARÁBOLA DA MODERNIDADE

Jesus se mostra a Tomé

Jesus se mostra a Tomé

O nosso, é um mundo de crenças e de emoções, mesmo lá onde se busca lealmente a presença do Senhor. Quando o crente bate no peito para dizer “o Senhor me tocou e eu mudei de vida”, quando o carismático diz que “senti o Espírito Santo e agora estou super feliz”, podem ainda estar aprisionados no mundo das emoções que leva ao mundo das crenças e não ainda da fé.

As religiões, com suas rádios e redes televisivas, se equilibram delicadamente num fio de lâmina que pode conduzir ao desejo da busca de Deus ou criar crentes satisfeitos por terem adquirido um “produto” consolador. Podem levar muita gente não a buscar o Deus da vida, mas uma vida resolvida a toque de tambores miraculosos.

No dia 3 de julho a liturgia [latina] celebra São Tomé (Jo 20, 24-29). Sua memória faz ecoar em nossos ouvidos o tempo pascal, lembrar o apóstolo apelidado de “pai da dúvida” e que, tendo colocado o dedo na chaga de Cristo, exclamou: “Meu Senhor, e meu Deus!”.

Sem o Espírito da Verdade, necessitamos de crenças

O Tomé sem a efusão do Espírito Santo pode muito bem ser colocado num altar que oferecesse à civilização pós-moderna seu ícone. É um homem moderno, um exemplo de modernidade.

Ele foi escolhido a dedo pelo Senhor, convidado a ser amigo íntimo, privou de uma convivência de quase três anos. Ele ouviu Jesus dizer que “ressuscitaria ao terceiro dia”, sem que isso encontrasse ressonância em seu mundo interior. A palavra – mesmo de um amigo íntimo, e que amigo! – só teria valor depois de realizada. Nada de profecias, tudo de acontecimentos.

Tomé vira cegos recuperarem a vista, coxos andarem, mortos ressuscitarem. Emoção sobre emoção. O Senhor, porém, ficava sempre devendo mais uma, pois “pediam mais um sinal”. As emoções são insaciáveis, porque são passageiras e pedem outra, para continuarem a sedar a realidade da existência.

Com a morte do Senhor, terminara o ciclo das emoções. O que lhe importava o testemunho dos apóstolos, das mulheres, dos discípulos de Emaús, que tinham visto o Senhor? Tomé não aceita crer através da palavra dos outros, ele não aceita o testemunho de uma comunidade. Ele quer milagre e revelação particulares, pouco lhe importando as experiências dos amigos.

Rejeita crer olhando a face de seus amigos, a face resplandecente das mulheres, o rosto transformado pelo reflexo luminoso do Homem ressuscitado. Tomé gosta de emoções, mas a felicidade alheia não o toca. Nega-se a ver o estupor, o entusiasmo dos amigos, nega-se a contemplar o rosto dos outros.

Ter fé é crer no testemunho do outro

Os Onze estão reunidos, ainda transtornados pela visão do Senhor. “Nós vimos o Senhor!” Para Tomé, ouvir é admitir que outros saibam mais do que ele: “Só creio se puder ver, tocar as chagas, colocar o dedo na chaga do lado direito!” Ouvir por ouvir, todos ouvem. É preciso tocar para sentir.

Quando Tomé fala em tocar as feridas, colocar o dedo na chaga, revela falta de pudor, desejo de profanar a dor alheia, crer somente entrando intimidade adentro, por mais dores que isso recorde, por mais sofridas que tenha sido. Tomé quer ver e tocar, decifrar o mistério do outro. A figura de Tomé parece-nos uma amostragem antecipada de nossa época, que tem prazer de assistir pela TV a dor enfeitada, rir da miséria moral, desvendar a intimidade, rasgar cirurgias cicatrizadas. Quer tocar a chagas do Senhor: tocar as chagas do próximo.

Oito dias depois, chega o Senhor. Cheio de paciência, pede a Tomé não que o olhe, não o contemple em sua beleza ressuscitada, mas que o toque, sinta suas chagas. Tomé ainda não tinha fé, necessitava, sim, de crenças: ouvir, ver e tocar, para sentir e depois dizer: “Meu Senhor, meu Deus!”.

Feliz aquele que crê!

Tomé não era feliz, pois Cristo afirma em seguida “Feliz quem crer sem ter visto!”. Aqui podemos lembrar a velha Isabel falando a Maria: “Feliz és tu, Maria, porque acreditaste!”.

No Pentecostes, Tomé foi agraciado pelo dom da fé e saiu pelo mundo, como os outros, anunciando o Ressuscitado e convidando à fé na presença viva do Ausente-Presente. Apóstolo das Índias, não prometia a ninguém a possibilidade de tocar o Senhor. Oferecia algo mais precioso: ter fé, crer. E deu a vida pelo Senhor.

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