Posts Marcados Santidade

A DORMIÇÃO E A ASSUNÇÃO DE MARIA AO CÉU

 

A minh’alma glorifica o Senhor,
porque olhou para a humildade de sua serva (Lc 1,46-48).

Vinde de todos os confins do universo,
cantemos a bem-aventurada trasladação da Mãe de Deus!
Nas mãos do Filho ela depositou a sua alma sem pecado:
com a sua santa Dormição o mundo é vivificado;
e é com salmos, hinos e cânticos espirituais,
em companhia dos anjos e dos apóstolos,
que ele a celebra na alegria.

Oh, os teus mistérios, ó Pura!
Apareceste, ó Soberana, trono do Altíssimo
e nesse dia te transferiste da terra para o céu.
A tua glória brilha com o resplendor da graça.
Virgens, subi para o alto com a Mãe do Rei.
Ó cheia de graça, salve, o Senhor é contigo:
ele que doa ao mundo, por teu intermédio,
a grande misericórdia.

A comemoração da assunção de Maria ao céu deita raízes no século II e sua festa na Liturgia cristã é fixada no século VII, tanto na Igreja oriental como na ocidental. A festa foi fixada para o 15 de agosto e era precedida de um jejum de 15 dias, recebendo uma liturgia solene, devota e bela, como convinha à Mãe de Deus. Não se economizavam as palavras para o louvor daquela que deu carne ao Filho de Deus.

Tudo o que Deus, desde a eternidade, planejara para o ser humano, pôde realizá-lo em Maria.  Eva, a primeira mulher, optou pelo não à amizade divina e Maria, a nova mulher, disse sim. E nela foi plena a graça de Deus. Bendita entre as mulheres, não conheceu o pecado. Diante do Anjo, aceitou ser serva da vontade divina. E nela o Filho de Deus se fez carne para habitar entre nós.

Maria conservou íntegro o ser imagem e semelhança de Deus. Livre do pecado original foi também livre de suas consequências. Permaneceu virgem e, como virgem, concebeu e deu à luz um filho, o Messias. Nossa fé afirma que Maria, a Mãe do Messias-Cristo, é uma virgem, uma mulher na condição de quem “não conheceu homem”, não se uniu a homem algum: sua maternidade de Jesus procede da sua virgindade. Eis o paradoxo, o extraordinário, o miraculoso do nascimento de Jesus. Este paradoxo quer significar que somente Deus nos podia dar um homem como ele: Jesus não nasceu “do sangue e carne, nem da vontade do homem”, e isso é afirmado pelos evangelhos através da virgindade de Maria, tornada mãe pela potência do Espírito Santo.

São numerosos os lugares dedicados a Maria: santuários e igrejas dedicados a Maria no campo e na cidade, nos montes e nas ilhas menores e solitárias. Nesses locais, quantas orações, quantos cantos elevados a ela. A essa mulher, pintada ou esculpida, um número incalculável de pessoas olhou e olha como se olha a Mãe. Na sua desolação, em suas angústias e em seu pranto, pedem o impossível confiando que ela possa escutá-los, ter misericórdia, porque nela sentem a Mãe: “mostra-te Mãe”, invocam. Quantas vezes temos em nossas igrejas a imagem da “Pietà”, Maria que segura em seus braços o filho morto: diante dessa imagem, quantas mulheres choraram e choram o filho morto; quantos fiéis suplicam para serem acolhidos, ao final de sua vida, em seus braços maternos, braços de Maria mãe! Maria está inseparavelmente inserida no mistério do Verbo encarnado e, dirigindo-se à Mãe de Deus, sabemos estar nos dirigindo àquela que intercede junto a seu Filho.

O ano litúrgico do Oriente tem início com a festa de 8 de setembro, quando celebra o nascimento de Maria, e termina com a festa de 15 de agosto, festa da Dormição de Maria e sua Assunção ao céu.

A liturgia realça Maria como mãe do Verbo encarnado e poderosa intercessora. Há uma estreita relação entre Cristo e Maria, entre o dom feito por ela e a fonte de onde jorra o próprio Cristo: “Infunde paz em minha alma, ó Virgem, com a paz serena de teu Filho e Deus. Cura-me, ó Mãe de Deus, tu que és bondade e deste à luz o Bom”. “Tu que geraste o timoneiro, o Senhor, aplaca o tumulto das minhas paixões e as violentas ondas de minhas quedas”, rezamos no Ofício da Assunção.

Assunção de Maria ao céu

Virgem de Vladimir, século XII

Todo filho oferece o melhor possível à sua mãe. Jesus, o todo-poderoso, nada negaria à Mãe, Maria. Não permitiria que o corpo de Maria sofresse a corrupção, pois seu corpo santo e puro não poderia sofrer as consequências do pecado, de que foi livre por graça divina, pela sua imaculada conceição.

O amor a Maria, os hinos em seu louvor são entoados em toda a história da Igreja: os Santos Padres, os teólogos, os monges, papas e bispos, nenhum poupou o agradecimento a Deus por nos ter dado tão santa Mãe. Orações, cantos e ladainhas testemunham essa devoção e afeto.

A piedade popular narra que todos os Apóstolos, espalhados pelo mundo, foram chamados e transportados pelos anjos até Jerusalém para se despedirem da Mãe. Ela terminou sua jornada na terra contemplada pelos amigos dela e de seu Filho. Foi sepultada no Getsêmani, mas, seu santo corpo não permaneceu no túmulo. O Filho a transportou para a glória celeste, onde reina com o Pai, e é a intercessora dos homens e mulheres, mãe vigilante de toda a história humana.

A Igreja manteve a fé na divina assunção de Maria ao céu e, coroando o caminho de devoção à Mãe do Senhor, no dia 1º de novembro de 1950 o Papa Pio XII, após consultar o episcopado e os teólogos, proclamou o dogma da Assunção com a Constituição apostólica Munificentissimus Deus. Após percorrer pela história da teologia e a fé mariana do povo cristão, definiu:

Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a paz do Espírito de verdade, para glória de Deus onipotente que à virgem Maria concedeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da sua augusta mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos bem-aventurados apóstolos s. Pedro e s. Paulo e com a nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

A assunção de Maria ao céu é um sinal das coisas últimas. Em Maria nos é dada uma antecipação da glorificação de todo o universo que acontecerá no final dos tempos, quando Deus será “tudo em todos”, “tudo em toda coisa”. A dormição-assunção antecipa a parusia, e prepara nosso destino comum. A gloriosa Mãe de Deus é nossa mãe, em seu regaço guarda todos os filhos. Cheios de amor e gratidão sabemos que por mais que falemos de Maria, nunca falaremos o suficiente, nunca falaremos demais. Ao invocarmos sua proteção sabemos que nossas preces se dirigem àquela que está junto do Filho: ela é a intercessora celeste, junto do Deus Trindade.


Pe. José Artulino Besen

 

Obs.: a Festa é fixada para o dia 15 de agosto. No Brasil, onde não há o feriado, é no domingo seguinte e, neste ano de 2018, no dia 19 de agosto.

Anúncios

, , , ,

Deixe um comentário

OS SANTOS, OS VERDADEIROS MISSIONÁRIOS

Quando São Francisco percebeu a grande alegria dos frades pelo martírio de alguns franciscanos no Marrocos, falou com severidade: “Vamos parar de nos alegrar com o martírio dos outros e vamos nós sentir a alegria de sermos mártires”. Isso vale para nosso relacionamento com os Santos: É muito belo admirar a grandeza e o heroísmo dos Santos, mas, importante mesmo, é nós sermos santos. Nossa primeira vocação cristã é a santidade: “Sede santos como Deus é santo”, ordena a Escritura. E com nossa santidade, podemos afirmar: Deus é admirável nos seus Santos. Cada Santo é uma obra de arte produzida no laboratório divino, cujo mestre é o Espírito Santo. A verdadeira missão dos Santos, devemos afirmar, é revelar ao mundo o rosto de Deus e a luz que dele irradiar.

Sem santidade não há missão cristã, somente propaganda religiosa. Pode haver humanismo, mas não missão, que consiste em viver à imagem e semelhança de Deus na caridade, na misericórdia, no perdão, na justiça.

Às vezes tem-se confundido a missão cristã, e a missão do cristão, com fraternidade, formação de comunidade, justiça social. Isso é fruto da vida cristã, mas não o objetivo primeiro que é ser imagem de Deus. É muito triste e desmerecedor quando se faz da Igreja uma ONG e, do apostolado, ação de ONG com funcionários pagos. Se assim fosse, não teria sido necessária a encarnação de Jesus, que nos oferece o dom da salvação: Cristo veio revelar quem é Deus e como Deus é, e que a humanidade plena se dá no ser como Deus.

Retornemos à missão dos Santos: suas obras são fruto do amor que Deus por eles nutre e que os impele ao amor fraterno. A alegria da doação da vida pelo Evangelho é obra do amor pessoal e incondicional por Deus: sentiram o amor de Deus e desse amor fizeram o sentido de sua vida.

Para mim, o viver é Cristo

Paulo sentia a sua vida como viver o Cristo, que o amou e por ele se entregou. Seu Evangelho foi anunciar a vida em Cristo, a vida da graça no Espírito. Lembro aqui o missionário jesuíta espanhol, São Pedro Claver (1580-1654): quando fez os votos religiosos acrescentou mais um: “ser escravo dos escravos” de Cartagena (Colômbia). E viveu anos e anos carregando os negros doentes, aguardando-os na boca do inferno que era o porto de Cartagena, quando chegavam fracos, purulentos, empestados, feridos. A todos oferecia o carinho de escravo dos escravos. Quando o papa Leão XIII o canonizou, disse: “Pedro Claver é o santo que mais me impressionou depois da vida de Cristo”. São Pedro Claver não agiu por filantropia, não foi assistente social: sentindo a presença de Deus dentro de si, expandiu essa presença nos mais sofredores, os negros escravizados. Viveu a missionariedade cristã: fazer com que as pessoas sentissem o amor de Deus do qual ele era pobre instrumento.

A santidade, necessidade do mundo

O Concílio Vaticano II (1962-1965), na Constituição sobre a Igreja, foi claro: todos somos chamados à santidade. Ser cristão é buscar ser santo.

Quando a catequese apresenta os Santos às crianças e aos jovens, desperta verdadeiras vocações cristãs. Quando passa a apresentar a vida cristã como um trabalho humano e a missão como humanismo, leva ao cansaço, pois as instituições do mundo o sabem fazer melhor e de modo mais agradável..

João Paulo II, em sua Carta sobre o Novo Milênio (2001) revelou a santidade como o novo que podemos oferecer ao mundo: somente os cristãos podem anunciar essa novidade que faz feliz o ser humano, e o torna mais humano porque fruto do amor do Deus Pai e Criador.

Na santidade sentimos a dignidade de cada pessoa e, por isso, sentimos alegria em apostar nossa vida para servi-la no amor. Os governos e entidades gastam fortunas para resolver problemas humanos como a fome, a violência, as doenças, e que são pouco frutíferos e não raro levam ao desperdício e à corrupção. Os Santos fazem isso de graça e com efeito duradouro.

Lermos e contemplarmos a vida dos Santos nos desperta para a missionariedade evangélica: anunciar a Graça que liberta, e de graça. É deixar tudo para ganhar tudo, é dar a vida para ganhar a vida.

Pe. José Artulino Besen

, , , ,

Deixe um comentário

BEM-AVENTURADA IRMÃ DULCE DOS POBRES

Bem-Aventura Irmã Dulce dos pobres – a Missionária da Misericórdia

Maria Rita Pontes – Irmã Dulce – nasceu em Salvador da Bahia em 26 de maio de 1914 e foi ao encontro de Deus em 13 de março de 1992 após 16 meses de sofrimento pacientemente suportado e ofertado. O Anjo Bom da Bahia que andava pelas ruas de Salvador recolhendo pobres e donativos é a Bem-aventurada Irmã Dulce. Ouvindo o povo que a amou e com ela aprendeu a misericórdia, a Igreja a proclamou Bem-aventurada em 22 de maio de 2011, em liturgia celebrada em Salvador. Seunome de Santa é Bem-aventurada Dulce dos Pobres, Bem-aventurada Irmã Dulce dos Pobres.

Em 1932, com 18 anos, Irmã Dulce entrou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em Sergipe. Dois anos depois, retornou à Bahia, onde dedicou toda a sua vida às obras de caridade.

Sentindo o chamado a trabalhar com os pobres e doentes, serviu como enfermeira no Sanatório Espanhol. Quis preparar-se melhor e fez curso de Prática de Farmácia, aprendendo a manipular receitas. Um ano depois prestou exame na Secretaria de Educação e Saúde do Estado e foi aprovada na dissertação sobre o tema “Cápsulas e Comprimidos”.

Nomeada para lecionar Geografia no Colégio Santa Bernardete, foi mestra querida mas, as Irmãs notavam que alguma coisa não ia bem com Irmã Dulce: seus olhos contemplavam a paisagem da cidade e se comentava “Irmã Dulce só pensa nos pobres”.

Recebeu licença para abrir um curso noturno para os operários. A Madre Provincial liberou-a das obrigações no Colégio e deixou-a abrir as portas do convento para ganhar as ruas e dar-se aos pobres. Agora dedicava-se a ensinar letras e religião aos operários e seus filhos perto das fábricas e, na tarde dos domingos, visitar os moradores de uma invasão nos mangues do Caminho de Areia. Seus olhos transfigurados pelo Amor contemplavam a miséria geral, a imundície, as crianças famintas e desnutridas atrás de cada janela. Levava remédios que conseguia nas farmácias, providenciava consultas, procurava postos de emprego. A invasão crescia, era agora a favela dos Alagados, depósito do lixo urbano onde os famintos competiam com os urubus por algum alimento. Irmã Dulce teve clara sua vocação: estar com os pobres.

Bem-Aventura Irmã Dulce dos pobres – a Missionária da Misericórdia

A missionária da misericórdia

Em 1935, além da assistência aos pobres dos Alagados, visitava fábricas, oferecendo aos operários o Posto Médico instalado numa velha oficina. Em junho, com seu grande animador Frei Hildebrando, formou a União Operária de São Francisco, com posto médico, farmácia e cooperativa de consumo. Em 1937 nascia o Círculo Operário da Bahia. Dali em diante as obras foram surgindo, sempre a partir do olhar misericordioso dirigido aos pobres, aos operários, oferecendo atendimento médico, odontológico, cursos de primeiras letras, profissionais, corte e costura, culinária, oficinas, salas de recreação.

Mas, no decorrer de 1939 um fato reorientou sua vida: um pequeno jornaleiro veio a seu encontro pedindo um pouco de amparo, de amor. Irmã Dulce não podia ficar indiferente. Recolheu o menino e o abrigou num galinheiro vizinho ao Convento. Pronto: de um galinheiro nasce um hospital. Limpou o ambiente, procurou lençóis, camas, colchões. Irmã Dulce não esperava os doentes e aflitos: ia procurá-los nas ruas e tocas de Salvador. Em buraco feito quarto encontrou um homem esperando a morte. Recolheu-o.

O pequeno hospital crescia, também as necessidades. Pela manhã Irmã Dulce saía pelo comércio pedindo pão, leite, remédio, roupa e dinheiro. Alguns reclamavam: “Dar dinheiro para essa freira é como colocar água em balaio! Eta freira pidona!”.

Irmã Dulce necessitava também de um amigo no céu. Encontrou-o na pessoa de Santo Antônio. Que amizade surgiu entre os dois! Santo Antônio gostava também de brincar: numa noite fria e chuvosa, pobres pediam cobertores. Irmã Dulce pede socorro ao amigo. Pouco depois chega um Jeep carregado de cobertores. Mal acabam de descarregá-lo, desaparecem carro e motorista. Só podia ser Santo Antônio.

O Hospital dele recebeu o nome. As obras cresciam. Irmã Dulce batia em todas as portas. Movimentava empresários, banqueiros, políticos, o povo, mercados, feiras, em busca de auxílio. Suas Obras Sociais englobavam hospital, ambulatório, abrigo de idosos, centro de recuperação de dependentes químicos, casa para abrigar e profissionalizar jovens em Simões Filho. Médicos, enfermeiros, voluntários apareciam para ajudá-la. Seu Banco era a Divina Providência, o gerente Santo Antônio.

Em 1983, na alegria de seus 50 anos de vida religiosa realizou o grande sonho: inaugurar o novo Hospital Santo Antônio, com 800 leitos, conforto, o maior Hospital da Bahia, onde o doente nada paga: basta ser pobre. Um Hospital com conforto: Irmã Dulce dizia que o pobre deve receber o melhor, pois é o preferido de Deus e é bom não ofender a Nosso Senhor! E quem pagou construção e equipamentos? A Divina Providência.

Irmã Dulce, agora famosa e reconhecida, continuava pelas ruas, buscando pobres e socorro. Seu ser era inseparável do Pobre/Cristo e do Cristo/Pobre. A força dessa Irmã era sua fragilidade: somente 40% de um pulmão oxigenava seu corpo frágil e forte, sua magreza quase transparente. À noite, sentava-se uma ou duas horas, e esse era seu descanso. Tudo era urgente, pois o pobre é Jesus e deve receber a melhor atenção.

Aquela mulher de hábito branco e azul, cabeça coberta com véu azul andando pelas ruas, era a grande missionária vivendo e anunciando as Bem-aventuranças. Nela, Deus tornou-se visível ao povo baiano e brasileiro. Missionária da palavra transfigurada em vida.

Como é bom poder invocá-la, agora: Bem-aventurada Dulce dos Pobres, rogai por nós!

Pe. José Artulino Besen

, , , , , , , , , , , ,

3 Comentários

OS SANTOS, OBRAS-PRIMAS DO EVANGELHO

Sede perfeitos como vosso Pai do céu é perfeito” (Mt 5,48).

Antes da Idade moderna, os homens sonhavam ser nobres, sábios ou santos. Melhor ainda: ser nobre, sábio e santo ao mesmo tempo. O ideal da afirmação humana ia além dos limites do dia-a-dia. Os pobres, homens e mulheres, crianças e jovens, buscavam a perfeição aos olhos de Deus. Reis e rainhas, príncipes e princesas, não se contentavam em fazer parte da aristocracia terrena: queriam ser aristocratas aos olhos de Deus. O homem perfeito era o homem santo.

O mundo moderno empobreceu o sonho humano: o grande ideal é ser rico. Ser rico, eis o máximo que nos apresentam! Os pais querem ser ricos para oferecerem riqueza aos filhos. Profissão boa não é a que realiza o jovem, mas a que lhe garanta conforto. Ser rico passa a ser um prazer em si, o homem rico se satisfaz enumerando suas riquezas. Infelizmente chegamos a essa pobreza: querer apenas ser ricos! E o máximo a que se aspira é ser uma “celebridade”, uma cabeça oca com muita badalação…

O cristianismo oferece a plena realização humana

Se, aos olhos do mundo, isso é suficiente e compensador, o cristão é chamado a sonhar mais alto: buscar a santidade. “Os santos são a aristocracia cristã“, disse o Papa Paulo VI.

Ser santo não é ser pessoa esquisita, alheia ao mundo e às suas obrigações. Ser santo é ser normal, e os santos foram as mais normais das pessoas. Evidentemente que foram diferentes, pois amavam mais o próximo do que a si mesmos, beijavam seres cheios de feridas, repartiam tudo o que possuíam, esqueciam-se de si para servir aos outros, tinham intensa intimidade com Deus, retribuíam com afeto as ofensas recebidas, eram pessoas tomadas pelo amor. Eram diferentes dos outros, porque eram mais humanos.

Os santos foram pessoas humanas porque não pecaram. Pecar não é humano, o pecado nos torna desumanos: ambiciosos, violentos, vingativos, egoístas, avarentos, orgulhosos, erotizados. Com essas “qualidades”, alguém pode ser humano?

Os santos não foram pessoas frustradas que se refugiaram na religião. Encontramos santos nos palácios reais e nas choupanas, entre ricos e pobres, doutores e analfabetos, crianças e jovens, adultos e velhos, na cidade e no campo, entre casados e solteiros. A santidade floresceu em todas as profissões. Cada profissão tem o seu santo padroeiro porque há santos em cada profissão.

Não se fica santo fazendo coisas raras, estranhas. A santificação consiste em fazer bem, com amor e por amor, aquilo que se precisa fazer a cada dia. Importa não “o que” se faz, mas o “como” se faz. Para Deus, o Papa governando a Igreja ou a mãe de família lavando louça, têm a mesma importância. A diferença está no amor colocado em suas ações.

Para sermos santos, não precisamos abandonar a rotina da vida. Precisamos é mudar o modo como a enfrentamos: por amor e não por interesse pessoal, buscando a glória de Deus e não a glória pessoal, colocando-nos ao serviço dos outros e não os outros a nosso serviço.

Os santos, heróis inesquecíveis

Os poderosos passam e sua memória fica registrada apenas nos livros de história. Os santos, porém, deixam marcas profundas na história e são inesquecíveis: tiveram uma vida de tal modo rica em qualidades, virtudes, bondade, doação que sua vida parece ainda estar acontecendo diante de nós. Francisco, Antônio, Clara, a Virgem Maria, José, Pedro, Sebastião, Teresinha viveram há tanto tempo, mas sua memória é viva, é atual porque sua obra e exemplo tocam o ser humano naquilo que tem de mais profundo: a necessidade de ser bom, de ser perfeito, de ser à imagem e semelhança de Deus.

Nós apreciamos os heróis, os jovens mais ainda. Pois o Cristianismo tem milhares, milhares, milhões de heróis, crianças, jovens, adultos, anciãos. Gente que deu a vida para continuar a professar a fé em Jesus Cristo, gente que entregou a vida no campo missionário, deixando pais, pátria, tudo, para ganhar outros para a felicidade de crer em Cristo. Gente que consagrou a vida em favor dos doentes, leprosos, aidéticos, proferindo uma palavra de carinho a tantos doentes antes de morrerem, talvez a única palavra amorosa que escutaram em sua vida. Há alegria maior?

O trabalho desses heróis tem um único preço: o preço do amor. Dinheiro nenhum pagaria o que fazem, mas o fazem gratuitamente, pois querem sentir a felicidade de amar sem nada receber em troca, além da felicidade daqueles que Deus colocou em seus caminhos.

Os santos, pessoas sempre mais atuais

É verdade que a cultura moderna é a do prazer, do consumo, da moda, do individualismo. Começa na festa e termina na ressaca. Mas é também verdade que muita gente escapa dessa pobreza e mergulha no discipulado de Jesus Cristo: amar, dar a vida, consagrar-se a um ideal, ser feliz fazendo feliz, buscando a transformação da própria existência numa grande aventura conduzida pelo Espírito Santo, o artista dos santos. Sua vida é sempre festa, festa de amor, de ver o outro feliz.

Nosso tempo gerou muitos santos: podemos citar Irmã Dulce da Bahia, Madre Teresa de Calcutá, Dom Hélder Câmara, Roger Schütz, Edith Stein, Santa Paulina e assim por diante. O Cristianismo terá sempre a marca da generosidade, por isso não conseguirá existir sem os santos.

Por último: só nos realizaremos plenamente atingindo a perfeição. Alguém pode se achar normal se não decidir ser perfeito? Alguém pode ser feliz e realizado sem um ideal pelo qual dar a vida? A santidade é o ponto final da perfeição humana, é quando a criatura se assemelha a seu Criador.

Pe. José Artulino Besen

, , , ,

Deixe um comentário

CRIATIVIDADE DOS SANTOS, MONOTONIA DO PECADO

Jesus é erguido por nós – Via-sacra de Jasna Gora

O velho confessor, de ouvidos cansados de escutar pecados do tempo da rigidez moral, que na época recente tivera a paciência de escutar pecados dos que se diziam sem pecado, considerando-se apenas vítimas de condicionamentos psicológicos, que ultimamente reabrira os ouvidos ao retorno dos antigos pecados, lamentava-se com um amigo: “Estou cansado! Não há pecados novos! Tanta coisa mudou, e os pecados continuam os mesmos!”. O amigo, vivido de experiência semelhante, o confortou: “É assim mesmo, irmão. O diabo é o mesmo, não mudou de receita, de sorte que nos pecados não há criatividade. Criatividade só se encontra nos santos, somente a santidade é criativa!”.

Foi pensando nessa queixa, e na resposta, que lembrei do pecado e da graça original: aos primeiros Pais e a cada um de nós, diariamente a proposta é a mesma: “Se não comeres do fruto da árvore do bem e do mal, não morrerás”, fala o Senhor. “Se comeres o fruto da árvore do bem e do mal, não morrerás!”, fala a velha Serpente.

Dependendo de nossa atitude, ou morreremos ou não morreremos. Aceitando o limite imposto pelo Criador diante de nossa imensa liberdade, viveremos. Aceitando a sedução do tentador de optarmos pela não aceitação de um limite e pela escolha da escravidão, morreremos. Na morte, a monotonia e na vida, a criatividade. No pecado a imposição do egoísmo, na obediência, a abertura ao outro no amor.

O mal não é uma conseqüência necessária, mas um ato livre do homem, conclui Dostoievski meditando sobre o resultado infinito de uma divisão infinita provocada pela desobediência.

Voltemos aos ouvidos cansados do velho confessor: tudo o que ele pode escutar é o fruto da divisão infinita operada pela ruptura entre o ser humano e Deus. Ele escutará os frutos monótonos de quem vive para si, no amor de si mesmo: o espírito voltado contra a vontade de Deus, o coração agindo exclusivamente no próprio interesse, o corpo a serviço do domínio e do prazer. Na obediência dá-se o contrário: o espírito é naturalmente voltado para Deus como Pai, o coração naturalmente voltado para o outro como irmão, todos os órgãos do corpo voltados para o serviço a Deus e ao outro, numa síntese amorosa e criativa.

O pecado será um monótono não, repetido a tudo e a todos e um sim infinito a si mesmo. A obediência a Deus será um sim criativo à vida, aos outros, à natureza, a Deus, na única competição que se permite, fazer o bem.

E voltamos à resposta do sábio confessor: “Criatividade só se encontra nos santos, somente a santidade é criativa”. O motor da santidade é o amor divino enxertado no amor humano por Jesus, Deus/Homem. Sem muita complicação Santo Tomás define o amor como o querer o bem do outro: “amar é querer o bem do outro”. Simples assim, sem condicionantes. Essa decisão nos coloca numa busca criativa de meios para repartir o pão, visitar o enfermo, consolar o triste, abrigar o peregrino da vida, promover a vida em comunidade, oferecer o braço amigo ao idoso, ao cego, ao deficiente, proteger a criação, multiplicar os dons recebidos, não se conformar diante de quem escolheu a morte das drogas, a fidelidade sem divisões no amor prometido, o corpo como comunicação do bem, do afeto, quebrar as correntes do ódio e da injustiça, mover-se pela compaixão, ouvir mais do que ser ouvido, perdoar sem a troca de ser perdoado, sentir-se servidor de cada criatura, numa palavra, fazer o que Deus faz e que nos é narrado por Jesus. E sempre com bom humor, pois santo triste é triste santo, o que não existe.

Os santos, única novidade na história humana, foram exímios na criatividade: da intimidade com Deus jorrava deles uma ilimitada intimidade com o ser humano e tornaram-se artistas do bem. São dotados de riqueza inesgotável em sua criatividade, pois nada se reservam e assim, o que sobra é sempre mais do que o repartido.

Sua generosidade e criatividade foram tão profundas que se ofereceram como vítimas associadas à Cruz de Cristo pela salvação do mundo: alguns viveram por anos a dolorosa noite escura da fé (Madre Teresa), outros receberam os estigmas dolorosos acompanhados de intenso sofrimento (Padre Pio), outros ainda semanalmente participaram dos sofrimentos de Cristo (Martha Robin), outros se ofereceram para fazer penitência em lugar dos pecadores (o Cura d’Ars). Não aceitaram deixar Jesus sofrendo sozinho, nem aceitaram que algum filho de Deus fosse condenado por sua omissão: livremente foram fazer companhia a Jesus no Calvário. Quanta vida a serviço da graça!

O pecado é um relato monótono da obra satânica, porque é filho da escravidão. O Cristianismo é a narração contínua da criatividade dos santos, pois é filho da liberdade.

, , , ,

Deixe um comentário

SANTIDADE E INTIMIDADE

Comunhão de Vida (pintura a óleo de Margherita Pavesi-Bose)

Comunhão de Vida (pintura a óleo de Margherita Pavesi-Bose)

A vida cristã é caminho de santidade, pedagogia de santidade, é busca feliz de Deus  (Lev 11, 44). Santo é quem está consagrado a Deus.  Santificar é tornar íntegro, inviolável, o contrário de mundanizar, isto é, ser possuído pelo espírito do mundo, do espetáculo, perder a intimidade.

O santificado revela somente a Deus sua intimidade pessoal; o mundanizado, por sua vez, tudo revela em busca de apoio, complacência, dinheiro, sucesso.

A Igreja antiga tinha muito pudor com as coisas santas. São nossos conhecidos os Sermões mistagógicos (Sermões sobre os Mistérios), pronunciados após a administração de um Sacramento. Quem não era batizado permanecia na igreja até o final da Liturgia da Palavra, pois a Liturgia eucarística estava reservada aos batizados, aos que tinham sido iniciados nos Mistérios. Ao catecúmeno (o que se preparava para o Batismo) quase tudo era ensinado, menos a revelação final do mistério batismal: essa era feita na catequese mistagógica pós-batismal.

A publicidade faz perder a santidade do sagrado, expondo tudo ao público. Madre Teresa não conseguia explicar a Inspiração que a fizera consagrar-se aos pobres mais pobres. Respondia: “Eu disse a Jesus que levasse tudo, para que eu não tivesse que explicar. Quando tornamos algo público, ele perde a santidade”.

Alguns não conseguem adorar o Santíssimo sem ter aberta a porta do sacrário. Mas, é exatamente a porta fechada que leva à adoração daquele que ama escondido, que aceita ser adorado em sua intimidade. Quanta Beleza num sacrário fechado, mas totalmente aberto aos amantes que o contemplam.

A cultura da publicidade a qualquer preço destrói a intimidade e com isso torna as pessoas manipuláveis. Há algo mais constrangedor que afixar cartazes e faixas com a face do Senhor sofredor convidando para a Procissão dos Passos? A Paixão de Cristo deixa de ser ato redentor para ser fato cultural. Os que o amam no Caminho da dor querem contemplá-lo em silêncio, quase em segredo. Com recato, um dá a notícia ao outro e se reúnem na Procissão dos que sofrem vendo o Amor que não é amado.

E a blasfêmia de anunciar a Procissão de Corpus Christi como “espetáculo” da tradição religiosa? O Senhor da Humildade, reduzido a um pedaço de Pão, quer ser contemplado por amigos que o adoram em sua pobreza e não olhado por curiosos.

Vivemos um período de teologia fraca, a la carte, o que representa um enorme perigo para a integridade da mensagem cristã. Em busca de fiéis fala-se muito em Santo poderoso, cada um com sua especialidade, vendem-se Medalhas milagrosas de São Bento, Novenas fortes e poderosas, traficante não se expõe sem um forte escapulário. Onde fica o Senhor?

A superficialidade teológica se traduz em superficialidade mistagógica: ministro acha que seus paramentos dourados são evangelizadores, as equipes enfeitam a Missa. Mas, o Senhor crucificado não está nu? Quer-se tudo exposto em veste popular e assim perde a santidade.

Num dia, a anestesia da publicidade religiosa a qualquer preço e a instrumentalização do sagrado despertará. O que teremos? Multidões aflitas em busca de milagres, multidões que não conhecem a Palavra de Deus, mas acreditam em poderes mágicos, multidões que confundem fé com prazer, com o “agradável”, multidões que fogem do Cristo crucificado trocando-o por produtos religiosos que geram prosperidade. Uma pena, depois de todo o esforço do Vaticano II colocando como fonte da santidade a Palavra e o Sacramento. E corremos o perigo de retornar a buscá-la no devocional.

Profunda a palavra de um teólogo que anunciava uma Igreja confessante, corajosa, mártir: “Que outro é o preço que hoje pagamos… se não uma necessária conseqüência da graça alcançada a baixo preço? Por baixo preço se proclamava o anúncio, se administravam os sacramentos, se batizava, se dava a crisma, se absolvia o povo inteiro, sem que fossem postas perguntas ou condições” (D. Bonhoeffer: Discipulado). Para ele, o preço foi o martírio no campo de concentração. A santidade tem alto preço: a própria vida.

, , , , ,

3 Comentários

COLEGIALIDADE – ECUMENISMO – ESPIRITUALIDADE

Jesus caminha com seus discípulos

Jesus caminha com seus discípulos

Entre 21 e 24 de maio pp., 155 cardeais estiveram reunidos com o papa João Paulo II e com sinceridade e simplicidade puderam conversar francamente sobre a vida da Igreja e os desafios postos pelo mundo à sua missão. Foram três as palavras fundamentais: colegialidade, ecumenismo, espiritualidade.

Após as grandes celebrações jubilares, a superexposição na mídia, o triunfo das massas, retorna a preocupação pelo essencial da vida cristã, do Evangelho: a pobreza, a mansidão, a oração, o anúncio. Uma minoria ainda está possuída pela saudade do passado triunfal, pelo medo do diferente, pela obsessão de afirmar a Igreja como tutora universal de uma verdade que não comunica nem se comunica.

O estar diante do Evangelho nos ensina que a primeira vocação de quem recebeu a graça do batismo não está no nível do fazer, do compromisso, mas do ser. O fazer e o compromisso são conseqüências do ser cristão, do ser batizado.

A água batismal nos mergulha dentro do mistério trinitário e dela saímos como habitação divina. A água que dá a vida nova é a água que nos marca indelevelmente para uma vocação específica e única: a nossa divinização, revelarmos a raça divina à qual pertencemos (2Pd 1,4: … a fim de tornar-nos participantes da natureza divina.

At 17,28: “…nele vivemos, nos movemos e somos. … Somos de sua estirpe). A vocação única do cristão: a santidade.

Foi uma grande conquista do Concílio Vaticano II (1962-1965) recuperar para a Igreja este princípio da Igreja antiga: o chamado à santidade não nasce da vocação religiosa, monástica, matrimonial, mas do batismo. Este sacramento é o gerador da vocação cristã: sede santos como Deus é santo (cfr.       ).A partir de equívocos e imagens equivocadas de santos, muitos pensam que as santidade equivale a perder o gosto pela vida, renunciar ao prazer de viver, de usufruir sadiamente dos bens que Deus colocou a nosso serviço. Confunde-se santidade com penitência e até com esquisitice. Nessa visão, querer ser santo é quase uma aberração, é destino de gente que não consegue ter prazer na vida.

Nada mais errado e blasfemo: o santo é alguém atraído pelo ideal de perfeição e arrastado pela decisão de renovar em si a imagem de Deus através do amor. Sua primeira decisão é intrinsecamente humana: recuperar a liberdade interior para poder amar incondicionalmente. Buscar a verdade, a única que pode libertar do cativeiro do egoísmo.

A conseqüência final é uma obra prima da sabedoria divina: quanto mais o homem busca ser como Deus, recuperar sua raça divina, mais se torna humano, pois ser humano de verdade é ser como Deus, viver à sua imagem e semelhança, entrando em comunhão com o Criador, mergulhando nos abismos insondáveis do amor divino. Não pode existir causa maior de felicidade do que esta: viver em comunhão, viver em relação com o Senhor e seus filhos numa imensa liberdade libertadora, pregustando a humanidade divina e a divindade humana, fruto da encarnação do Filho.

Dessa vocação batismal nascem todas as outras, destinadas à edificação do Corpo de Cristo e à formação do povo de Deus: a vida religiosa, sacerdotal, matrimonial, o ministério catequético. São vocações que terão eficácia e sentido cristão se forem geradas dentro da vocação à santidade cristã. Caso contrário, serão apenas mais um ofício dentro da Igreja, destinado a terminar no cansaço e no esgotamento “profissional”, inimigo primevo de qualquer vocação na vida de fé.

, , ,

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: